Homofobia. 'Horror', resume autônomo atacado no interiorTatiana Fávaro / CAMPINAS - O Estado de S.Paulo
O senhor se lembra do que houve no momento em que foi atacado com seu filho?
Meu filho veio de São Bernardo do Campo na quinta-feira para a gente ir para a festa. Eram mais ou menos 11 horas da noite quando fomos ver o show da dupla Jorge e Mateus na Eapic (Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de São João da Boa Vista). Eu com a minha namorada, meu filho de 18 anos com a dele, uma menina. Quando acabou o show, por volta de 3 horas da manhã, elas foram até o banheiro e eu fiquei com o meu filho. Eu dei um abraço nele. Aí um grupo de seis ou sete caras chegou perto da gente e perguntou se a gente era gay. Respondi que não, que ele era meu filho, que a gente era pai e filho. Mas os meninos começaram a tirar sarro, zoar e dizer: "Vocês estão mentindo, vocês são gays sim, pode dar um beijo aí que a lei libera". Aí começou um empurra-empurra. A gente não queria confusão, sabe, então tentou sair de perto. Aí deu uns cinco minutos e senti uma pancada por trás, que pegou no meu queixo.
Meu filho veio de São Bernardo do Campo na quinta-feira para a gente ir para a festa. Eram mais ou menos 11 horas da noite quando fomos ver o show da dupla Jorge e Mateus na Eapic (Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de São João da Boa Vista). Eu com a minha namorada, meu filho de 18 anos com a dele, uma menina. Quando acabou o show, por volta de 3 horas da manhã, elas foram até o banheiro e eu fiquei com o meu filho. Eu dei um abraço nele. Aí um grupo de seis ou sete caras chegou perto da gente e perguntou se a gente era gay. Respondi que não, que ele era meu filho, que a gente era pai e filho. Mas os meninos começaram a tirar sarro, zoar e dizer: "Vocês estão mentindo, vocês são gays sim, pode dar um beijo aí que a lei libera". Aí começou um empurra-empurra. A gente não queria confusão, sabe, então tentou sair de perto. Aí deu uns cinco minutos e senti uma pancada por trás, que pegou no meu queixo.
Foi nessa hora que, segundo quem estava no local, você perdeu a consciência e, quando voltou, estava ensanguentado e sem um pedaço da orelha. Como foi quando percebeu isso?
Estava uma confusão. Eu e meu filho fomos agredidos. Eu nem me dei conta de que estava sem o pedaço da orelha quando recobrei os sentidos. Estava meio abobado, sabe? Só ouvia uma gritaria em volta de mim falando da orelha, da orelha. Sei que uma pessoa pegou o pedaço da minha orelha e colocou em um copo com gelo, para tentar salvar. Eu nem sabia o que estava acontecendo, nem queria saber de orelha, queria saber se meu filho estava bem, porque ele também foi agredido. Como a gente não tinha sido socorrido ainda, eu saí andando, meio sangrando, e encontrei um amigo meu que me levou até o pronto-socorro de São João da Boa Vista. O médico limpou, me deu uma injeção para a dor e me encaminhou para um cirurgião plástico. Na sexta, já de dia, fui ao cirurgião em São João e ele me encaminhou para o HC (Hospital das Clínicas), em São Paulo. Eu levei o pedaço da orelha, mas não deu para implantar. Volto lá amanhã (hoje) cedinho para ver o que vai ser feito. Cirurgia plástica eu já ouvi dos médicos que custa entre R$ 25 mil e R$ 35 mil e eu não tenho condições de fazer isso particular. Vamos ver o que me falam. Enquanto isso, estou com o ferimento costurado, e nos antibióticos e anti-inflamatórios. Tive muita dor, os médicos falaram que devem ter cortado com algum objeto, porque o corte foi bem reto.
Estava uma confusão. Eu e meu filho fomos agredidos. Eu nem me dei conta de que estava sem o pedaço da orelha quando recobrei os sentidos. Estava meio abobado, sabe? Só ouvia uma gritaria em volta de mim falando da orelha, da orelha. Sei que uma pessoa pegou o pedaço da minha orelha e colocou em um copo com gelo, para tentar salvar. Eu nem sabia o que estava acontecendo, nem queria saber de orelha, queria saber se meu filho estava bem, porque ele também foi agredido. Como a gente não tinha sido socorrido ainda, eu saí andando, meio sangrando, e encontrei um amigo meu que me levou até o pronto-socorro de São João da Boa Vista. O médico limpou, me deu uma injeção para a dor e me encaminhou para um cirurgião plástico. Na sexta, já de dia, fui ao cirurgião em São João e ele me encaminhou para o HC (Hospital das Clínicas), em São Paulo. Eu levei o pedaço da orelha, mas não deu para implantar. Volto lá amanhã (hoje) cedinho para ver o que vai ser feito. Cirurgia plástica eu já ouvi dos médicos que custa entre R$ 25 mil e R$ 35 mil e eu não tenho condições de fazer isso particular. Vamos ver o que me falam. Enquanto isso, estou com o ferimento costurado, e nos antibióticos e anti-inflamatórios. Tive muita dor, os médicos falaram que devem ter cortado com algum objeto, porque o corte foi bem reto.
Além da dor, quais as outras sensações o senhor teve ao saber que tinha tido um pedaço da orelha cortado por acharem que o senhor era homossexual?
Eu estou assustado, meu filho e minha família também. Ele (o filho) mora com a mãe em São Bernardo do Campo e não quer nem falar com ninguém sobre isso. A gente não estava fazendo nada de mais. Ele viajou quase 300 quilômetros para vir para uma festa. A gente não sai de casa nunca na vida com essa maldade no coração, então não consegue nem imaginar o que leva essa gente a fazer isso.
Eu estou assustado, meu filho e minha família também. Ele (o filho) mora com a mãe em São Bernardo do Campo e não quer nem falar com ninguém sobre isso. A gente não estava fazendo nada de mais. Ele viajou quase 300 quilômetros para vir para uma festa. A gente não sai de casa nunca na vida com essa maldade no coração, então não consegue nem imaginar o que leva essa gente a fazer isso.
Os agressores tinham bebido?
Nem acho que eles estavam alcoolizados, nada. Eles não devem gostar de homossexual, só isso, e fazem uma coisa dessas. Fico pensando: eu tinha abraçado meu filho para fazer carinho nele, matar saudade, fazia dois meses que a gente não se via. Mas agora nem saudade do filho a gente pode matar mais? Não em público, só em casa pelo jeito. E outra: eu não sou gay, meu filho não é gay, mas a gente não tem nada contra. E aí se a gente fosse? E quem é? Meu Deus, cada um faz o que acha melhor! Se a pessoa não tiver o direito de viver como ela acha que deve, o que a gente faz?
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4 comentários:
A sociedade, através do governo e do Congresso Nacional, deve um pedido de desculpas a esse homem e seu filho. O Estado deve reparar essa violência, o Estado deve pagar a cirurgia plástica reparadora. E devemos processar esse congresso nacional reacionário, contaminadíssimo pela religião e corrompidíssimo pelos deputados fanáticos religiosos. Essa dívida é de todos nós.
Luciana, desculpe-me, mas quem deve pagar a cirurgia são os CRIMINOSOS e os organizadores do evento e os parlamentares que se opõem à aprovação da Lei Antidiscriminação.
Quanto ao pedido de desculpas, ele é devido A TODOS TRAVESTIS, TRANSEXUAIS, GAYS, LÉSBICAS deste país que ao longo de décadas e mais décadas (O GGB noticia casos desde os anos 1960) tem sido DIZIMADOS! É como diz o antropólogo Luiz Mott, um "homocausto" - um interesse deliberado de eliminar parte específica da população humana.
Concordo Rita,os criminosos é que arquem com as despesas financeiras e bóra denunciar esses políticos teocráticos que só fazem apologia a homofobia.
Se os criminosos tem culpa, o que dizer dos parlamentares que há 5 anos impedem so gays de terem o direito à segurança?
Enquanto a homofobia não for criminalizada, um abraço vai continuar sendo crime.
É a primeira vez na vida que eu vejo a homofobia se voltar contra os proprios heteros (nos EUA, no mesmo dia, um homem foi impedido de doar sangue porque parecia afeminado, mesmo sendo hetero!). Vai chegar um dia que o congresso vai ter que decidir entre proteger os agressores, ou proteger os agredidos
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