segunda-feira, 23 de abril de 2012

Como eu passei de vaca-sem-coração a manteiga derretida

Como eu passei de vaca-sem-coração a manteiga derretida

Como eu passei de vaca-sem-coração a manteiga derretida

Por Tracie Egan Morrissey


Virar pai ou mãe é uma experiência que muda a vida da gente — todos os pais e mães por aí dizem isso. Do jeito que falam, eu tinha a impressão de que, assim que você tem um filho, passa a fazer parte da Divina Ordem dos Pais, uma sociedade não tão secreta assim em que se ganha sabedoria e conhecimento a respeito de coisas importantes da vida que você não conseguiria nem sequer começar a entender quando não tem filhos, tipo o amor. Mas não é assim. Nem de longe. Na verdade, você fica mais confuso do que antes, em grande parte porque está sempre muito cansado. Ainda assim, há algumas mudanças significativas que eu notei em mim mesma, como por exemplo a minha incapacidade de assistir ao jornal na TV sem chorar. E não, a culpa não é dos hormônios. É porque todas as matérias são incrivelmente tristes e um monte de coisa ruim acontece com as pessoas. E eu não acho mais que sejam só pessoas — eles são os filhos e filhas de alguém!

Agora eu consigo ver que, antes de ter filhos, eu era uma pessoa bem insensível e apática. Aquelas histórias horrorosas que normalmente ganham espaço na mídia eram como se fossem papel de parede para mim, algo de que eu tinha consciência mas que, se não afetassem a mim, minha família ou meus amigos diretamente, era fácil ignorar. Ao ouvir falar de alguma coisa trágica, tipo um sequestro ou uma morte acidental, eu dizia de um jeito monotônico “nossa, que coisa triste”. É mais ou menos a mesma coisa que digitar “rsrsrsrs” quando não se está rindo.
Hoje em dia, quando ouço essas mesmas histórias, como aquelas sobre crianças que morrem por terem sido esquecidas pelos pais dentro do carro, parece que alguém enfiou a mão pela minha vagina para arrancar a minha garganta. Eu até reajo fisicamente, colocando minhas mãos nas minhas bochechas e puxando a pele para baixo até que doa, enquanto grito “naãããããããão!”.
Ainda por cima, eu vou atrás dessas histórias, o que em si não é uma novidade. Eu sempre fui fascinada por coisas macabras, e gostava de ler sobre serial killers e massacres antes de ir dormir — aí eu ficava superassustada e tinha medo até de passar pelo meu guarda-roupa aberto para ir ao banheiro no meio da noite. Só que agora meus interesses são outros, e giram em torno de assuntos como gravidez e crianças. Eu procurei no Google “a mãe mais jovem a dar à luz”, achando que encontraria o tipo de coisa que aparece no Guinness Book, mas ao invés disso achei os verbetes de Wikipedia mais hediondos e deprimentes que eu já vi, listando todas as mães mais jovens da História. A mais nova tinha cindo anos! CINCO ANOS! E tem muitas outras, todas garotinhas, que provavelmente ficaram grávidas por terem sido estupradas por vizinhos ou membros de sua própria família. É horrível! Elas deveriam estar por aí brincando de boneca ou correndo num parquinho. Ao ler essas histórias, eu chorei pela perda da inocência e sensação de segurança delas.
Desculpe se estou te deixando pra baixo — talvez seja assim que as pessoas normais reajam a coisas horrorosas e eu não sei disso porque costumava ser uma vaca desalmada. Pra mim, tudo isso é uma parte de um instinto recém-adquirido e muito proeminente de proteção aos indefesos, que se estende para além dos seres humanos. Minha mãe me contou uma história num dia desses que ainda me deixa indignada: ela levou os cachorros para passear e, quando voltou para casa, notou que um deles, o Jax, estava ganindo num canto. Como ele nunca se comportava assim, ela foi ver o que havia de errado, e percebeu que ele tinha alguma coisa na boca. Ela mandou que ele soltasse, e pegou na mão. Era um filhote de coelho. Era ele que estava chorando, e Jax o tinha matado.
Minha mãe falou “era molhado e nojento! Graças a Deus que eu peguei com um saco plástico. Aí seu pai começou a gritar que era para eu jogar na privada e dar descarga, mas ia estragar o encanamento!” Para ela, era só um caso sobre um cachorro que trouxe um bicho pra dentro de casa e sobre o meu pai, que fica falando coisas que só atrapalham. Pra mim, era um caso sobre um coelhinho que foi sequestrado, torturado e morto, e tem uma mãe por aí que não sabe o que aconteceu com o bebê dela! Só de pensar meu estômago fica embrulhado.
Apesar de tudo isso, essa minha nova sensibilidade é seletiva, e coisas que deixam todo mundo sem apetite não me afetam. Eu consigo sentar no sofá de casa e comer uma tigela de cereal enquanto assisto meu marido fazer uma lavagem intestinal na minha filha — e não é que eu fico tentando não ver. Eu até participo, fazendo comentários sobre a consistência, a forma e o volume do que está saindo, enquanto estou comendo. Mas quando ouço diálogos em seriados de TV envolvendo um bebê que morreu, como por exemplo na estreia da segunda temporada de Game of Thrones, eu fecho meus olhos e cubro minhas orelhas, porque não consigo ouvir os gritos de uma mãe ao ter seu bebê arrancado de seus braços, mesmo que seja tudo de mentirinha.
Minha mãe é mais durona do que eu — ela foi enfermeira num pronto-socorro por 25 anos –, mas eu ainda me lembro de uma coisa que ela disse há 10 anos enquanto folheava uma revista People que tinha na capa Laci Peterson, uma vítima de assassinato que desapareceu enquanto estava grávida de 7 meses: “Nem imagino o sofrimento da mãe dessa moça”. Naquela época eu pensei: “Ah, deve ser uma coisa de mãe”. Agora eu sei que é, e consigo me identificar com ela. É uma coisa perder um parente, amigo, irmão, marido ou animal de estimação. Eu ficaria muito triste, mas acho que conseguiria me recuperar e tocar a vida. A perda de um filho, por outro lado, é impensável para mim. Ter me tornado mãe forjou em mim uma nova conexão emocional com outras mães –incluindo com minha própria mãe — porque é a primeira vez na minha vida que eu tenho uma compreensão visceral do que é o pesadelo de outra pessoa.
Pensar no quão inconsolável eu ficaria se alguma coisa acontecesse a minha filha faz com que eu entenda por que minha mãe agia como uma vaca comigo sempre que eu passava a noite fora de casa ou viajava com o namorado que tinha no colegial e não telefonava. Ela provavelmente estava agoniada de tanta preocupação. A vaca era eu! Eu nem acredito que fiz essas coisas com ela. Ela me ama tanto! Ai, que horror, estou chorando enquanto digito isso.
Eu não sei se essa minha empatia recém-descoberta fez de mim uma pessoa melhor, mas tenho certeza de que fez de mim uma filha melhor.

Tradução: Patricia Fincatti

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