por Kalu
Era uma vez uma linda mulherzinha que morava na cidade. O diminutivo caia-lhe super bem. Ela foi uma menininha, uma noivinha, uma mulherzinha e agora era uma mãezinha. Ela ganhara de sua avó, uma antiga parteira, uma capa vermelha. Ela nunca gostara daquele modelito. Preferia os saltos e as saias curtas. Por alguma estranha razão ela, desde que se descobrira grávida, sentiu uma imensa vontade de usar aquela capa vermelha.
Um dia ela pegou seus cesto de dúvidas e decidiu percorrer um longo caminho para encontrar sua avó, que morava na floresta, para, pela primeira vez, perguntar sobre seu ofício de parteira e os segredos da mulher selvagem, tão necessários para parir.
Ela era amiga de uma sábia chamada Ishtar, que trabalhava para dar apoio às gestantes. Ela disse a Chapeuzinho Vermelho:
- Cuidado com seus caminhos. Um lobo cesarista mora na floresta e estará a espreita para devorar seus sonhos. Vá pelo caminho mais longo. Não se deixe entrar na floresta do medo e dos títulos de doutores. Cuidado com as aparências.
Chapeuzinho Vermelho, no entanto, ingênua como ela era, acreditava que apenas sua vontade de chegar até sua avó seria suficiente. O mesmo valeria para parir. Ignorando o conselho de Ishtar, ela pegou sua cesta de dúvidas e entrou pela floresta escura cantando:
- Pela estrada afora, eu vou bem sozinha, levar minhas dúvidas para a vovozinha. Ela mora longe e o caminho é deserto e o lobo cesarista mora aqui por perto. Mas, em nove meses, ao sol poente, junto a minha cria dormirei contente.
Dentro da floresta escura ela sentiu medo. O caminho demoraria nove meses para ser percorrido. Um dia ela sentiu medo de que seu bebê não estivesse bem. Um cordeiro, todo vestido de branco, cheios de títulos, apareceu. Chapeuzinho Vermelho se sentiu segura por estar bem acompanhada. Ele disse:
- Vamos fazer um ultrassom, exame para diabete gestacional, toxoplasmose, anemia. Tudo uma questão de segurança.
- Será que isso tudo é necessário? perguntou Chapeuzinho.
- Pegue sua cesta de dúvidas e engula você mesma. Não tenho tempo para perder.
- Será que isso tudo é necessário? perguntou Chapeuzinho.
- Pegue sua cesta de dúvidas e engula você mesma. Não tenho tempo para perder.
Chapeuzinho Vermelho fez todos os exames, começou a tomar ferro, vitamina e sentir um medo de perder aquele ser que vivia dentro dela. Por isso passou a visitar o cordeiro mensalmente. Fazia exame de toque, ultrassom e engolia sua cesta de dúvidas goela abaixo. Era indigesto gestar. Ela tinha náuseas constantes e vez ou outra vomitava suas dúvidas.
Os meses foram passando e Chapeuzinho voltou a sentir saudades de sua vovozinha. Ela decidiu encontrá-la novamente.
O cordeiro, prevendo o que aconteceria depois deste encontro, começou a ficar com medo. Ele contava com aquele dinheirinho para encher seu bucho. Havia usado muitos artifícios com Chapeuzinho. Já tinha dado o prazo para a cesárea de 39 semanas, falado da bacia estreita, da placenta envelhecida, do bebê grande demais, do cordão enrolado. Embora Chapeuzinho Vermelho estivesse mês a mês mais convencida de ter sua autonomia e feminilidade devorada para trazer a vida da criança para o planeta, a figura desta avó parteira representava um grande empecilho.
O cordeiro teve uma brilhante idéia. Descobriu onde a vovozinha morava, trancou-a no armário e ficou a esperar chapeuzinho.
Chapeuzinho, com sua cesta repleta de dúvidas, bateu na porta:
Chapeuzinho, com sua cesta repleta de dúvidas, bateu na porta:
- Vovó? É a Chaupeuzinho.
- Pode entrar, minha netinha. Disse o cordeiro imitando a voz da vovó.
- Pode entrar, minha netinha. Disse o cordeiro imitando a voz da vovó.
A falsa avó estava na cama, toda coberta. Chapeuzinho estranhou pois ela sempre fora muito ativa e saudável.
- Vovó trouxe uma cesta de dúvidas para você. Essa primeira é: existe bacia estreita?
- Existe sim, minha netinha. Eu vejo com meus olhos grandes e diplomados.
- Que olhos grandes você tem, Vovó! Exclamou Chapeuzinho.
- Vovó, realmente bebês grandes são perigosos para nascer?
- São sim, minha netinha. Eu sinto cheiro da desproporção céfalo pélvica.
- Que nariz grande você tem, Vovó!
- Querida Vovó, existe o risco do cordão enrolado?
- Existe sim, minha netinha. Eu sinto com essas mãos aqui.
- Que mãos grandes e peludas você tem, Vovó……
- São para te operar…..
- Vovó trouxe uma cesta de dúvidas para você. Essa primeira é: existe bacia estreita?
- Existe sim, minha netinha. Eu vejo com meus olhos grandes e diplomados.
- Que olhos grandes você tem, Vovó! Exclamou Chapeuzinho.
- Vovó, realmente bebês grandes são perigosos para nascer?
- São sim, minha netinha. Eu sinto cheiro da desproporção céfalo pélvica.
- Que nariz grande você tem, Vovó!
- Querida Vovó, existe o risco do cordão enrolado?
- Existe sim, minha netinha. Eu sinto com essas mãos aqui.
- Que mãos grandes e peludas você tem, Vovó……
- São para te operar…..
E o cordeiro saltou da cama da Vovó. Chapeuzinho ficou apavorada. Ele parecia ser tão polido e amigo ao dizer que iriam tentar o parto normal se tudo estivesse bem. O cordeiro tirou sua roupa e revelou sua verdadeira identidade: O Lobo Cesarista.
Chapeuzinho Vermelho escutou um barulho no armário e viu sua avó. Ela conseguiu escapar, em pleno trabalho de parto. Junto com a avó percorreram todo o caminho (obs)tétrico até voltarem para a casa. Vestida apenas de sua capa vermelha, Chapeuzinho, contração pós contração, foi perdendo os diminutivos. Pensou em desistir diante da dor. Mas encontrou os olhos amorosos de sua avó, que durante todo o caminho saboreou cada dúvida de Chapéu transformando-as em certeza.
Chapéu Vermelho sentiu sua bebê coroar. Sua avó apenas esperou com as mãos aparando seu períneo. Ela veio vindo seguindo a canção que Chapéu Cantava:
- Eu não tenho medo do lobo cesarista. Devorei minhas dúvidas como artista. Tirei o salto, questionei os exames, aprendi com Ishtar a ouvir minha própria melodia.
- Eu não tenho medo do lobo cesarista. Devorei minhas dúvidas como artista. Tirei o salto, questionei os exames, aprendi com Ishtar a ouvir minha própria melodia.
E assim, numa madrugada fria, nascia a filha de Chapéu. Pela força de suas certezas e o amparo de sua avó. Com sua capa vermelha de mulher selvagem e sem os diminutivos, maternou lindamente.
E o lobo? Vocês me perguntariam. Sentado na beira do rio, com o ventre cheio de dinheiro, seduzido por seu ego e vaidade, caiu nas águas da ignorância e nunca mais se ouviu falar dele nas terras das empoderadas.
No Mamíferas
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