quinta-feira, 12 de julho de 2012

Diário Oficial de SP recomenda que paulistanos não usem bicicletas no dia a dia

Na contramão do MUNDO: Diário Oficial de SP recomenda que paulistanos não usem bicicletas no dia a dia


No Twitter @biosbug


O Diário Oficial do Estado de São Paulo, veículo jornalístico editado pela imprensa oficial do governo paulista,noticiou ontem, dia 11, que o aumento do número de pessoas pedalando nas ruas de São Paulo fez aumentar o número de acidentes envolvendo ciclistas e, por tabela, elevou também os gastos públicos com saúde. Utilizando como fonte principal o chefe do grupo de trauma ortopédico do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, Jorge dos Santos Silva, a autora da reportagem finaliza o texto com um depoimento questionável do médico. Da fala completa separei esta frase: “Para não colocar a vida de quem pedala em risco, recomendo não usar a bike no trânsito de São Paulo”. Em um box correlato à matéria, a jornalista oferece dicas de segurança ao ciclista tendo como fonte a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego). O título do box é o que segue: “Não seja a próxima vítima”.
Se esta fosse “apenas” uma reportagem ruim, mal apurada, sensacionalista e tendenciosa, já mereceria uma crítica. Mas esta reportagem não é apenas ruim: ela é um panfleto anti-bicicleta feito com dinheiro público. E esse fato, mais que uma crítica, merece uma reflexão.
Premissa equivocada, dado equivocado
Pra começar – e sem me alongar muito – já está provado que quanto mais ciclistas nas ruas, mais seguro é pedalar e menor o número de acidentes. Portanto, é equivocada a afirmação do médico de que o número de acidentes com ciclistas cresceu por conta do aumento do número de pessoas pedalando na cidade. Curioso é que a reportagem não faz qualquer menção sobre a alta velocidade média nas vias de São Paulo, sobre a falta de fiscalização e punição contra motoristas imprudentes e sobre a omissão dos governos estadual e municipal na criação de infra-estrutura suficiente para bicicleta. Se um especialista em mobilidade urbana tivesse sido entrevistado, certamente falaria sobre esses temas, todos intrinsecamente ligados à ocorrência de acidentes envolvendo ciclistas.
E por falar em especialista – e com todo o respeito a Jorge dos Santos Silva: por que um médico especialista em ortopedia foi escolhido para opinar sobre mobilidade urbana?
Seja qual for o motivo, a jornalista, ao que parece, procurou escolher bem as aspas de sua fonte de modo a dar estofo à equivocada premissa da reportagem: ciclista não deve pedalar na rua. Os dados e aspas foram costurados de tal forma e com tal apelo ao medo que o leitor, ao chegar ao final do texto, não tem outra saída a não ser concluir que bicicleta mata – ou pelo menos interna o ciclista num hospital. O panfleto, além de inconsistente e sensacionalista, induz o leitor a erros crassos de entendimento da realidade.
Mais tarde, o governo publicou uma nota para se defender das críticas que recebeu por conta da matéria. Tentou se proteger atrás das aspas do entrevistado (era tudo opinião dele, não do governo) e se disse “absolutamente favorável à ampliação do uso de bicicletas na capital e em todo o Estado, não só para lazer como também para trabalho”. Com tanto esmero para conduzir a reportagem a um beco sem saída para quem pedala nas ruas, fica difícil acreditar no “absolutamente favorável”.
Desrespeitoso (des)governo
Todo esse equívoco foi produzido, impresso e divulgado com dinheiro público. Com o seu e o meu dinheiro. E esse é, sem dúvida, o aspecto mais grave da publicação daquela matéria. Não acho razoável que usem meu dinheiro pra demonizar a bike utilizada como meio de transporte. E não digo isso (só) porque este é um blog sobre bicicleta e mobilidade urbana ou porque pedalo sempre na rua. Não é uma questão de ser ciclista ou não, de ser pró-bike, pró-carro ou pró-transporte público.  É uma questão de bem-estar público. Desestimular o uso da bicicleta como meio de transporte num lugar estrangulado por carros como São Paulo, usando, para isso, informações equivocadas e o recurso do medo, é desrespeitoso e covarde para com o cidadão e a cidade.
Gostem os gestores públicos ou não, a bicicleta é, sim, um meio de transporte que, sozinho ou unido a outros modais, pode ajudar a desafogar o trânsito e oferecer mais qualidade de vida e economia às pessoas. Gostem ou não, os gestores são obrigados a conviver com o fato de que a bicicleta tem o direito de circular nas ruas garantido pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB), e qualquer oposição a esse direito – seja ela direta ou embutida numa reportagem-panfleto – será sempre uma oposição à lei.
Remar contra a corrente do uso da bicicleta como meio de transporte – e ainda usar dinheiro público pra bancar a compra dos remos – é dar um tiro no pé (especialmente em época de eleição). Essa reportagem do Diário Oficial do Estado de São Paulo deixa claro quais as disposições do governo quanto à inclusão da bicicleta em planos de mobilidade urbana. A bike, ao que parece, deve ser usada apenas com fins recreativos, relegada aos parques e ciclofaixas de lazer dominicais. Exagero? Não. Uma reportagem como essa não nasce do nada, sem propósito nem lastro. Está impressa numa publicação oficial do governo do Estado, alinhada aos seus princípios e autenticada com seu brasão. Por trás dessa reportagem há todo um corpo pensante oficial que a engendrou e pariu – ou mandou parirem. Resta saber quais ideias – ou interesses – movem esse corpo pensante.

Época-SP

1 comentários:

spartacus disse...

A bicicleta em si não é o grande mal. Da mesma forma que uma arma de fogo por si só não causa mal algum. O grande problema é o trânsito carregado das grandes cidades como São Paulo e também a educação dos motoristas.Há muitos anos eu uso bicicleta para ir ao trabalho. Já fiz o trajeto Cidade Tiradentes até a Móoca, várias vezes, para ir ao trabalho. Desisti. consegui enxergar o perigo a tempo, pois quase fui atropelado, várias vezes. Vendi a bike e atualmente uso as bikes do Metrô. Porém, as ciclovias existentes não são suficientes para que pessoas possam deixar o carro em casa. Outro problema é a falta de segurança e iluminação nas ciclovias, principalmente a que vai de Itaquera até o Tatuapé. Eu acho que, pedalar no meio dos carros achando que os motoristas vão respeitar as leis existentes, é melhor comprar um caixão e encomendar as velas.