quinta-feira, 6 de março de 2014

No paredão

No paredão

O Estado de São Paulo | Aliás | Trise reality
Silvia Viana
Big Brother Brasil está quebrando sucessivos recordes negativos de audiência, em sua 14ª edição. Ninguém mais se importa com os reality shows? Será que estamos mais atentos à “realidade”, em tempos de manifestações e politização nas redes sociais? Assim espero, mas é cedo para dizer. O reality show é um formato televisivo que vai muito além do BBB. Há canais voltados exclusivamente para o gênero, tais como oFoxLife; mas há outros, supostamente educativos ou “científicos”, nos quais o gênero é quase hegemônico, como o Discovery Home and Health. O BBB é exemplar de um tipo de reality show (de confinamento), mas não podemos esquecer que existem programas voltados para a transformação (taiscomo 10 Anos Mais Jovem), realities de consultoria (como o Super Nanny) e ainda os de concorrência profissional. Nesse subgênero, o programa The Voice Brasil,comandado pelo mesmo diretor do BBB, teve grande audiência no final do ano passado, mesmo depois da reviravolta de junho.
Um ponto importante a se refletir a respeito do fracasso mercadológico ora em pauta diz respeito ao elemento que atrai nosso olhar para o programa. Segundo o senso comum (e, sejamos justos, segundo a grande maioria dos trabalhos acadêmicos voltados ao assunto), o sucesso do BBB se deve a alguma espécie de perversão, seja ela o exibicionismo ou o voyeurismo. Nesse quesito, não se pode reclamar da atual edição, recheada de nus frontais e imagensde sexo sob edredons – li queuma dessas cenas chegou a dispensar o nightshot. Se a isca está na perversão, por que o malogro ibopeano?
Porque não é a obscenidade que sustenta esse tipo de programa, mas outro elemento que, pelo contrário, está posto em nossa cena social. Reality shows fazem sucesso porque reproduzem o mundo do trabalho tal como organizado no capitalismo flexível: da ausência de regulamentação (que, nos programas, se traduz na maleabilidade das regras) à batalha concorrencial, que coloca trabalhador contra trabalhador – deixando, evidentemente, o verdadeiro sujeito das desgraças(empresas,do lado de cáda tela,e emissoras de TV, no caso da competição televisionada) fora do campo de luta.
Também a seleção não seria um elemento estrutural desse formato televisivo caso já não fosse, do mesmo modo, a espinha dorsal da organização produtiva em seu estágio atual. Contudo, o BBB 14 não deixou de impor seus “desafios” humilhantes, bem como o tão esperado “paredão”; pelo contrário, se não me engano, esta edição promoveu um festival de demissões em massa logo em suas primeiras semanas – afinal, como é próprio da lógica de uma seleção negativa,não se trata de escolher o melhor, nem mesmo o pior, e sim de cumprir a taxa de eliminações preestabelecida; nesse caso, até que sobre apenas um.
Dito isso, nos deparamos com a questão de ouro: será que as pessoas se cansaram, a partir dos eventos desencadeados em junho, não do BBB e dos demais realities, mas daquilo que lhes confere forma – ou seja, da vida submetida à acumulação capitalista flexível?
Aí, sim, a resposta categórica seria um equívoco, não porque ainda não temos índices de audiência ou pesquisas de opinião suficientes, mas porque o campo Político foi, após 20 anos de consenso extorquido, desatado. A maiúscula para a “Política” não é um erro de digitação, pois essa é precisamente o espaço aberto para o que não está posto na realidade, mas que pode vir a ser. Como tal, essa dimensão esteve, ao longo das últimas décadas, encerrada pela chantagem gestionária que não cansa de afirmar: “Isso é ruim, mas é o menos pior”. Com todas as expectativas sociais subsumidas à mera alocação de recursos, perdemos de vista o horizonte do possível, em troca de uma política de planilhas e gabinete. Que agora podemos voltar a falar em Política, não tenho dúvidas – e prova disso é quão ridícula se tornou a afirmação, antes repetida como um mantra, segundo a qual "quem tentar politizar ato na Copa ‘vai quebrar a cara’, diz ministro de Dilma”.
Apenas sob o moto-contínuo da politiquinha é aceitável que se dissocie, com a maior naturalidade, “ato” de “Política”... Sendo assim, não há nada resolvido. Até porque a fúria securitária, que chama a Política de vândala e urge pelo retorno da violência habitual – que vai dos suplícios exibidos em reality shows e vivenciados no mundo do trabalho ao massacre mudo e diário de tantos Amarildos – está cuspindo fogo. Resta-nos a questão: o retorno da Luta (maiúscula, pois essa também foi substituída pela esquálida luta pela sobrevivência) trouxe à baila a produção de brutalidade em que se converteu o capitalismo e à qual se assiste nos diversos realities?
A queda da audiência do BBB seria um sintoma disso? Talvez seja otimismo demais, até porque, o caminho que leva dos 20 centavos – bem como das remoções humanas devidas a jogos de futebol ou, para ser mais precisa, ao business as usual – à crítica do sistema que nos obriga a engoli-los, e sermos ainda gratos, é longo e cheio de armadilhas. Para além do apetite securitário, das apropriações de discursos e práticas, do ranger de dentes de um reacionarismo cada vez mais delirante e furioso, do risco de voltarmos a tomar parte na elaboração de planilhas e muitos etcs. a mais, temos que enfrentar o próprio permanecer ritualístico do mundo que nos foi legado. Ritualismo da produção incessante e despropositada, que reality shows nada mais fazem que repor.
Diante do peso desse culto diário e sem transcendência, torna-se bastante razoável a conclusão segundo a qual o desinteresse pelo BBB14 seja fenômeno próprio do mundo herdado: mercadorias são descartáveis (nesse caso, menos descartáveis que os participantes que a compõem, pois são eliminados semanalmente). O mais provável é que estejamos apenas jogando fora outra tranqueira que compramos sabe-se lá por quê. Contudo, o simples fato de essa pergunta ter sido formulada (será que estamos mais interessados em política?) já guarda a possibilidade de resposta outra – e não sou eu quem a dará.

.

0 comentários: