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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

“Rede Globo tem medo da internet”

“Rede Globo tem medo da internet”

Blogueiros sofrem implacável perseguição judicial do diretor de jornalismo da maior emissora do país

Pedro Rafael - Brasil de Fato


   
Um dos espaços mais fortes de contraponto à hegemonia dos grandes meios de comunicação são os blogs de jornalistas e ativistas espalhados pela internet. A velocidade da rede e a capacidade de disseminação de informações têm provocado reações que revelam o verdadeiro compromisso dos empresários da mídia com a liberdade de expressão.
Na mais recente investida contra blogueiros, na semana passada, o diretor de jornalismo da TV Globo, Ali Kamel, venceu em segunda instância o processo que move contra Rodrigo Vianna, repórter da TV Record e dono do blog Escrevinhador, que chega a ter mais de 30 mil acessos diretos por dia. O blogueiro, que foi repórter da Globo e saiu justamente por discordar da cobertura parcial da emissora nas eleições presidenciais de 2006 – em favorecimento à candidatura do PSDB – pode ser obrigado a pagar uma salgada indenização apenas porque exerceu o “sagrado” direito constitucional da livre opinião. O problema é que foi contra a Globo.
Vianna publicou em seu blog que o jornalismo da emissora comandada por Kamel era algo “pornográfico”, em alusão a uma infeliz coincidência: um ator pornô dos anos 1980 também usava o mesmo nome do manda chuva do jornalismo da Globo. Ao se apropriar da informação como metáfora, para produzir uma crítica, o jornalista atingiu o alvo.
“O que me interessava era a homonímia entre o ator pornô e o diretor da Globo, e não dizer que um era o outro, como afirma meu acusador. Tratou-se do exercício da liberdade de opinião, ou seja, usar uma metáfora para criticar o jornalismo pornográfico que a Globo pratica. Aí não pode, porque metáfora só quem pode fazer é o Arnaldo Jabor, que escreveu um livro chamado Pornopolítica. Eu recorri ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e perdi. O que eu vou fazer agora é recorrer aos tribunais em Brasília e seguir protestando, mostrando a hipocrisia dos caras que falam em liberdade de expressão, mas só para eles. É como os liberais do século XIX, que reivindicavam o liberalismo para serem donos de escravos porque abolir a escravidão, na visão de alguns desses liberais, atentava contra a propriedade privada, que eram os próprios escravos”, desfere o escrevinhador.
Rodrigo Vianna não é o único. Outros blogueiros bastante conhecidos como Luiz Carlos Azenha – também ex-repórter da TV Globo, Luiz Nassif, Cloaca News e Paulo Henrique Amorim colecionam no currículo ações criminais impetradas pelo diretor da vênus platinada. “Então, não pode fazer política, não pode brincar, criticar através do humor. Nem os militares fizeram isso com o Pasquim. É incrível como um sujeito como o Ali Kamel, que controla os noticiários da principal emissora de TV do país, que acaba influenciando outros veículos das Organizações Globo, quer processar um blogueiro como eu. É porque eles estão dando muita importância para a blogosfera”, desabafa Vianna.
“A mídia não aceita ser questionada. E as brincadeiras que a Globo faz com a Dilma no Zorra Total, por exemplo? Eles são ótimos para defender a liberdade deles, dos monopólios. Quando a brincadeira é com eles, não gostam e revelam um DNA fascista muito forte. Outro caso diz respeito ao jornal Folha de S. Paulo. Quando a turma fez uma crítica, como foi o blog Falha de S. Paulo, o jornal reagiu com ação judicial para tirar o site do ar”, aponta o jornalista Altamiro Borges, do Blog do Miro e presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé. Miro é um dos organizadores do Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas, que já teve três edições.

Desvendando o jogo
Já faz um tempo que a liberdade de expressão na internet tem incomodado os maiores conglomerados de mídia do país. Em 2006, durante as eleições presidenciais, o acirramento da disputa produziu um dos episódios mais constrangedores do jornalismo contemporâneo. Às vésperas do primeiro turno, com todas as indicações que o então presidente Lula confirmaria a vitória sem a necessidade de novas eleições, nasce um escândalo que daria sobrevida para a candidatura do PSDB, na figura de Geraldo Alckmin. Operação da Polícia Federal, duas semanas antes, tinha desbaratado a tentativa de duas pessoas ligadas ao PT em comprar, com R$ 1,7 milhão, um suposto dossiê contra José Serra e outros tucanos graúdos.
A denúncia não teve o efeito prático desejado. Faltava a bala de prata para sensibilizar o eleitorado. Foi aí que surgiu Edmílson Pereira Bruno, o delegado da PF que havia comandado a operação contra os “aloprados” – alcunha que teria sido dita por Lula ao se referir às figuras que tentaram adquirir o dossiê e acabaram prejudicando o próprio presidente. Bruno convidou quatro jornalistas para uma conversa reservada e repassou os CDs com as fotos do montante do dinheiro que havia sido flagrado nas mãos dos compradores do tal dossiê. A conversa foi inteiramente gravada e nela se pôde ouvir os apelos excitantes do delegado para que as imagens fossem parar na edição do Jornal Nacional (JN) do mesmo dia, 29 de setembro. Dito e feito. Os jornais do dia seguinte estamparam a manchete com as fotos e o JN dedicou quase toda sua edição para mostrar as imagens da montanha de dinheiro. O uso político das fotos ficou ainda mais evidenciado pelo fato das matérias, todas elas, omitirem a conversa com o delegado, em que ele claramente condiciona a divulgação dos fotos para atingir a candidatura petista. Os próprios jornais difundiram a informação mentirosa de que as fotos teriam sido roubadas, quando, na verdade, tinham sido repassadas a eles pelo mesmo delegado.
No caso do JN, o uso político pôde ser constatado porque, na mesma noite em que se exibiram as fotos sem a contextualização de como foram obtidas, ocorreu a tragédia com o avião da Gol, em que morreram 154 passageiros no impressionante choque aéreo com o jato executivo Legacy, comandado por dois pilotos norte-americanos. Nada sobre o acidente foi informado, mesmo com a notícia repercutindo no mundo inteiro ainda durante a edição ao vivo do jornal.
Toda a ação orquestrada pela mídia nesse fatídico dia 29 de setembro de 2006 foi depois denunciada em reportagem da revista Carta Capital, assinada pelo jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. Ocorre que a matéria, por sua vez, foi incrivelmente espalhada através de sites e correntes de emails pela internet e gerou uma onda de indignação que ecoou na redação da TV Globo. “Foi naquele momento das eleições que eu percebi o papel da internet”, relata Rodrigo Vianna, à época repórter da Globo em São Paulo. “Primeiro, porque as informações que foram colocadas por um colega de TV Globo na época, o Luiz Carlos Azenha, serviram de base para uma matéria da revista Carta Capital”. Azenha havia transcrito para o seu blog, o Viomundo, a íntegra da conversa com o delegado da Polícia Federal que vazou fotos da apreensão do dinheiro no escândalo dos aloprados.
“Os jornalistas que participaram da conversa com o delegado fizeram de conta que o encontro nunca existiu. A matéria da Carta teve uma repercussão muito grande na internet, nos blogs, tanto que a Globo teve que responder. O Ali Kamel admitiu que teriam que responder. Nem tanto por causa da revista, mas principalmente pela repercussão na rede. Foi aí que eu percebi que a Globo tem medo da força internet”, calcula. Foi em decorrência desse episódio que Rodrigo Vianna se desligou da emissora. Meses mais tarde, o próprio Luiz Carlos Azenha também desembarcaria do grupo de comandados de Kamel. Atualmente, ambos são repórteres da TV Record e mantêm, de forma autônoma, alguns dos blogs mais prestigiados da internet quando o assunto é política, jornalismo e temas da conjuntura, batendo a casa dos milhões de acesso/mês.

Mídia que incomoda
De lá para cá, o debate público, especialmente nos períodos eleitorais, tem ficado um pouco menos desigual. “Quando há a centralidade do modelo eleitoral, como tem sido no Brasil, a luta de classes se exacerba e as contradições ficam mais visíveis, aí a mídia alternativa cumpre um papel mais relevante e incomoda”, avalia Miro Borges, do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé. Três episódios recentes estão entre os mais emblemáticos: a história da bolinha de papel é o campeão de preferência na internet. “Não fosse a mídia alternativa, a bolinha de papel teria virado um míssil na cabeça do Serra”, brinca Miro, em referência a bolinha de papel que atingiu a cabeça do tucano durante uma atividade de campanha no Rio de Janeiro. Ele alegou que tinha sido atingido por um objeto pesado e duro e criou toda uma cena, comprada pela maioria dos meios de comunicação, inclusive e novamente, o Jornal Nacional. A história virou piada.
Outro episódio foi a guinada conservadora da campanha de José Serra durante o segundo turno das eleições. Começou-se a espalhar um boato de que Dilma Rousseff seria defensora do aborto. Uma das porta-vozes do discurso obscurantista foi a própria esposa do candidato, Mônica Serra. “Até que uma aluna dela, através do facebook, escreveu uma mensagem dizendo estranhar a postura da Mônica Serra porque ela já tinha confessado ter feito aborto para as alunas, durante uma aula de dança. Aí eles tiveram que calar a boca e encerrar esse assunto imediatamente porque ficava evidente que era pura hipocrisia eleitoreira”, conta Miro.
Não à toa, também nessa época, José Serra cunhou a expressão blogueiros sujos, ao discursar para militares de pijama durante uma reunião na sede do Clube Militar, no Rio. Uma historia menos conhecida foi o clipe que a Globo preparou, em 2010, para comemorar o seu aniversário de 45 anos. “Por pura coincidência, justamente nos seus 45 anos de fundação, a Globo usou o mesmo refrão da campanha do Serra, o tal do ‘Queremos Mais’, utilizando, claro, atores globais e nas mesmas cores da campanha tucano. O clipe terminava com um número 45 gigante na tela”, ironiza Miro Borges. No dia seguinte, a blogosfera não deu sossego e a Globo, após uma consulta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que confirmou se tratar de propaganda irregular, acabou tendo que tirar o clipe do ar em menos de 48 horas.

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domingo, 1 de julho de 2012

Uma sociedade pedófila?

Uma sociedade pedófila?




Pesquisadora defende que as crianças são erotizadas cada vez mais cedo e que estaríamos potencializando grupos de pedófilos


Primeiro, dê um clique aqui e olhe as imagens.


Elas estão presentes no dia-a-dia e nem nos damos conta, mas agrupadas assim parece fazer mais sentido. Estaríamos potencializando uma erotização cada vez mais precoce das crianças? Mais que isso: estaríamos desenvolvendo um olhar pedófilo, em tempos de novas formas de experimentação do desejo?
Bom, é isso que eu pergunto a Jane Felipe, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), logo depois de sua apresentação em um seminário.
“No Brasil há um borramento de fronteiras entre idade adulta, juventude e infância. As crianças não querem mais ser identificadas como crianças, a infância é muito curta. E se você ver a produção de roupas, calçados, maquiagem, jogos, revistas, danças, músicas, percebe que todo o consumo é voltado para a criança como um pequeno adulto”, me diz a pesquisadora.
Realmente as imagens agora fazem mais sentido. Ela prossegue.
“No momento em que você vive a espetacularização do corpo e da sexualidade, também vê um apelo muito grande para que as pessoas sejam criativas nesse sentido. O apelo é: seja criativo, transe de diversas maneiras. Então dentro desse espectro, porque não usar também as criancinhas?”
Ano a ano tem aumentado as denúncias dos abusos. Dados da Secretaria de Direitos Humanos mostram o número casos de exploração sexual de crianças e adolescentes denunciados pelo Disque 100 cresceu no Brasil no último ano. Entre janeiro e março de 2011 foram registradas 4.200 denúncias, 35% mais que no mesmo período do ano passado, quando foram contabilizadas 3.125. Mas, claro, são dados subnotificados.
E a internet com isso?
Segundo relatório da Unicef, a internet é usada como meio para expandir o acesso de pedófilos.
“Com a democratização dos meios de comunicação, o acesso à informação e a redes sociais, muitos pedófilos utilizam sites infantis para acessar as crianças, e não há uma legislação muito especifica sobre isso”, diz.
Para sua pesquisa, Jane analisou o Orkut e mapeou 229 comunidades, como “Eu tenho 12 anos” e “Eu nasci em 1995”, contabilizando mais de 220 mil pessoas. Também analisou comunidades assumidamente pedófilas, como “Lolitomania”, que ultrapassava 3.500 membros.
“A pedofilia e o abuso sexual sempre existiram. A internet vem para potencializar esses grupos que podem se tornar muito mais organizados pela internet. Por outro lado, oconceito de pedofilização é produtivo para pensar que hoje, de certa forma, estamos produzindo pedófilos ou pessoas curiosas, atentas a esse corpo infantil também”.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Escândalo: A Veja quer censurar a internet


Escândalo: A Veja quer censurar a internet

A revista Veja tem medo do jogo da velha. O jogo da velha, no caso, são as hashtags, antecedidas pelo sinal #, para destacar vozes numa multidão de internautas – bobagens em alguns casos, mobilizações, em outros.
Para quem diz defender com a própria vida a liberdade de expressão, é preocupante. Nas 16 páginas desperdiçadas na edição do fim-de-semana em que tenta se defender, a semanal da editora Abril deixou claro: para ela, a liberdade de expressão não é um valor absoluto. Tem dono – ela e o reduzido grupo de meios de comunicação que se auto-qualificam de “imprensa livre”. Livre de quem? No caso da Veja, certamente eles não tratavam do bicheiro Carlos Cachoeira, espécie de sócio na elaboração de pautas da publicação.
Getúlio Vargas valia-se da expressão “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. A revista, em sua peça de realismo fantástico disfarçada de “reportagem”, a reformula: “aos amigos tudo (inclusive o direito de caluniar, manipular e distorcer), aos inimigos a censura. Ou não é isso, ao desferir um golpe contra as manifestações livres na rede e sugerir uma “governança” na internet, que os editores do semanário propõem? Eles tem urticária só de ouvir falar em um debate sobre a regulação dos meios de comunicação. Mas pimenta nos olhos dos outros…
Na própria peça de defesa, Veja distorce. Não foi a revista que derrubou Fernando Collor de Melo. É uma mistificação que só a ignorância permite perpetuar. A famosa entrevista do irmão do ex-presidente não teria resultado em nada. O que derrubou Collor foi o depoimento do motorista Eriberto França, personagem descoberto pela rival IstoÉ, na ocasião dirigida por Mino Carta.
Em termos de desonestidade intelectual, Veja se superou. Ao misturar aranhas, robôs e comunistas, a semanal de Roberto Civita produziu um conto de terror B. Nem se vivo fosse o falecido cineasta norte-americano Ed Wood, famoso por suas produções mambembes, toparia filmar um roteiro parecido. Além de tudo, a argumentação cheira a mofo, tem o tom dos anos da Guerra Fria. Quem tem medo de comunistas a esta altura? Nem na China.
PS: a lanterna na capa do semanário mostra outra coisa: calou fundo na editora o apelido Skuromatic, a lâmpada que provoca a escuridão ao meio-dia, dado a Roberto Civita por jornalistas da antiga redação de Veja.

Na Carta Capital

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Ofensas em grupo de discussões na internet causam danos morais

Ofensas em grupo de discussões na internet causam danos morais


Mensagem jocosas e desrespeitosas pela internet, mesmo em um grupo particular de discussões, podem causar dano moral ao alvo das conversas. Com esse entendimento, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal condenou um ofensor que postou mensagens desrespeitosas a um juiz. A indenização foi fixada em R$ 20 mil. A decisão foi unânime.
A desembargadora Carmelita Brasil, da 2ª Turma Cível do TJ-DF, anota a publicidade que os comentários tiveram, “tanto que chegou ao conhecimento do autor”. Para ela, houve “ato lesivo à honra subjetiva e objetiva do recorrente". Ela registra também que, ao disseminar tais comentários, "ainda que em tom de blague como sustenta, [o ofensor] atingiu de forma inequívoca a honra da parte que teve seu nome e reputação como objeto de tais debates".
Em primeira instância, o pedido foi julgado improcedente. O juiz entendeu que, apesar de repudiável, os comentários não foram dirigidos especificamente ao ofendido e, "sendo genérica, tal manifestação não atinge a dignidade do autor - bem jurídico individual". O autor, porém, recorreu da sentença. Citou trechos contidos nas mensagens eletrônicas, nas quais seu nome é citado expressamente, como alvo de ofensas e ameaças.
A desembargadora pondera que, embora seja um dos pilares da democracia liberal, o direito à livre expressão deve ser relativizado, “ao entrar em conflito com outros direitos fundamentais, mormente aqueles de caráter personalíssimo”.
Clique aqui para consultar o processo.

No Conjur

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Somos essa ruindade coletiva que a internet insinua?


"Somos essa ruindade coletiva que a internet insinua?"

O espelho e a feiúra

Marcelo Carneiro da Cunha no TerraMagazine


Pois que estimados leitores, inventaram as tais redes sociais e pimba, aflorou o que temos de mais anti-social. Tanto que enviei um mail ao criador do Facebook sugerindo a ele mudar o nome do negócio pra "anti-social network". O pior do comportamento desumano está nas redes, caros leitores, e nós junto.
E vivi de novo, porque recordar é viver, um momento na minha tenra infância, no alvorecer do século 12. Sentado no barbeiro, que felizmente já na época apenas cortava cabelo, não removia dentes, eu me olhava no espelho e até então tudo ia bem: éramos eu e minha imagem ali diante do espelho. Olhos, testa, bochecha, queixo, boca, coisas com que eu já estava acostumado e nem mais chorava ao olhar.
E o espelho era dobrável, e numa mudança de ângulo eu, pela primeira vez, me vi de perfil. Lembro do choque, estimadíssimos leitoríssimos. Aquilo ali não era eu. Aliás, eu não fazia idéia de quem fosse, mas sabia que não era eu, porque eu não era daquele jeito. Não era como me imaginava, não era como eu queria ser. Aquele espelho tinha, certamente, se virado um pouco demais e mostrava alguém lá fora, um ser estranho e com um perfil mais assemelhado com o de algum ser interplanetário. Não eu, nunca eu. Eu era bonitinho e gostava de mim. Eu não tinha aquela orelha de captar ondas do Big Bang original. Eu não tinha aquele rosto de duende em filmes ruins de Hollywood. Aquilo não era, não poderia ser, não era. Mas era, não é mesmo, caros leitores. Era.Assim fomos nós nas últimas semanas, e assim nos vimos, graças ao novo e amplo espelho também conhecido como internet.
Nos vimos fazendo aquelas coisas com o Kadafi e não foi nada, nada bonito. Nos vimos como piratas da Somália sequestrando e matando uma francesa deficiente física. Nos vimos no metrô de SP, com nosso cabelo raspado e nos comportando como se comportam os skinheads, barbaramente. Vimos aquelas pessoas da China passando ao lado do corpo atropelado de uma menininha, sem fazer nada para ajudar. Vimos, lemos, os milhares de tuítes dos odiadores do Lula e da espécie humana, desejando todo o tipo de maldade a um homem que jamais fez mal a quem quer que fosse, e acabava de se descobrir como portador de um tumor na laringe.
O que isso mostrou da gente, caros leitores? Onde estamos, de verdade?
Somos pessoas sensacionais, eu vejo isso no dia a dia das ruas paulistanas, que teriam tudo para produzir monstrinhos e produzem gente legal, divertida, gentil, com exceção dos meus vizinhos aqui de bairro, com seu gosto por SUVs e babás de branco.
Somos gente legal e cuidadosa, na maior parte do tempo, que opta por esquecer que existe uma faixa de segurança e pedestres, de tempos em tempos. Somos pessoas agradáveis, menos os que escolhem conversar e comer pipoca justamente no meio do filme que estamos tentando ver.
Quem somos, de verdade? Somos essa ruindade coletiva que a internet insinua, ou ela serve de lente para a gente ver melhor o que existe de pior entre a gente? Os maus aparecem mais do que os bons? A amostra na internet é contaminada e somos melhores aqui fora do que parecemos nela?E, uma pausa: por que essa gente detesta tanto o Lula? Porque o Lula, e não eu, que sim, sou um péssimo ser humano e não uso o SUS, deixo para quem precisa mais do que eu?
Lula defendeu a corrupção? Quem votou nos corruptos que infestam o Congresso e infernizam quem tenta governar? Lula governou para si mesmo? Então quem explica a admiração que o Brasil provoca no mundo inteiro (uma admiração exagerada, mas melhor do que o modo com que nos viam até agora) e que ninguém precisa me contar, porque eu viajo e vejo por mim mesmo? Um sujeito com aquela história de vida, que ocupou dignamente o cargo de presidente do meu país, assim como Itamar o fez, como FHC o fez, e assim como a Dilma o faz, merece o meu desprezo e ira? Por que?
Não será que existe gente de sobra que infelizmente detesta a si mesma e, portanto, ao mundo? O cara que passa aqui em frente com o pancadão a mil, o faz por apreciar música ou por detestar a humanidade? O cara que encontra na internet a janela através da qual grita a sua indignação, o faz por amor ao mundo, ou ódio a si mesmo?
A feiúra não odeia o que não é feio exatamente por isso?
Acho que é sim, o caso. Existem pessoas feias, e existem algumas muito feias. Umas fizeram aquilo com o Kadafi ou com a menininha chinesa. Outras fizeram o que fizeram ao menino João Vítor. Elas existem, sim.
Mas elas não nos definem, mesmo que nos ensurdeçam, por vezes. Elas existem, como os nazistas existiram, os anti-tudo existem, e melhor que os vejamos como são, quando são, onde estão, em sua infinita feiúra. Melhor assim. Conhecer é temer, mas também é saber. Eles estão aí, e sabemos. Mas a sociedade é muito maior e melhor do que isso e a internet está cheia de beleza, mesmo que a feiúra tente jogar lama em tudo. Isso não quer dizer que ela seja maior ou mais forte, mas é apenas ela fazendo o que sabe, como sabe.
É preciso resistir, preservando a nossa humanidade acima de tudo. É preciso segurar o espelho em que a feiúra se vê em toda a sua fraqueza, e é preciso saber aguentar firme, porque logo uma parte dela faz pufff, e se vai. E é assim, pouco a pouco e do jeito que dá, que o mundo melhora.