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sábado, 28 de dezembro de 2013

Vi protestos contra médicos cubanos mas nenhum contra o médico acusado de violentar sexualmente 44 mulheres

Vi protestos contra médicos cubanos mas nenhum contra o médico acusado de violentar sexualmente 44 mulheres

Jalecos brancos brasileiros são seletivos nos protestos! São hipócritas!

Médico é acusado de violentar sexualmente 44 mulheres

O inquérito de 290 páginas foi enviado ao Ministério Público e contém depoimentos de 48 pessoas.

CalilaNotícias

Foto: Divulgação/Polícia Civil
Foto: Divulgação/Polícia Civil
A Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam) concluiu na última terça-feira (17) as investigações sobre as acusações feitas contra o médico Wesley Ferraz de Carvalho, de 56 anos, suspeito de violentar sexualmente 44 pacientes durante consultas em Porto Seguro, Eunápolis e Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia.

O inquérito de 290 páginas foi enviado ao Ministério Público e contém depoimentos de 48 pessoas.

Preso há 22 dias no Conjunto Penal de Eunápolis, o clínico geral é indiciado por violação sexual mediante fraude e estupro de vulnerável, além de estelionato.

De acordo com informações divulgadas pela assessoria de imprensa da Polícia Civil, Wesley costumava apalpar, sem luvas e jaleco, as regiões genitais das vítimas durante os exames. 

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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

O mito do brasileiro acolhedor e festeiro —só um mito?: Bem-vindo à xenofobia

O mito do brasileiro acolhedor e festeiro —só um mito?: Bem-vindo à xenofobia

Bem-vindo à xenofobia

Marcelo Coelho

O sumiço de livros vai acontecendo cada vez mais aqui em casa. Dei pela falta, outro dia, de um guiazinho de viagens muito bonito, com a capa de pano azul-clara, cheio de ilustrações coloridas, quase aquarelas, no estilo da década de 1950.

Era uma espécie de guia de boas maneiras, a ser usado por turistas em todas as partes do mundo.  Chamava-se “Savoir Faire International” e tinha mais do que regras de boa educação.

Lembrava o viajante que sem aspirar o “h”, por exemplo, sua comunicação nos países de língua inglesa piora bastante. E explicava (estamos em 1950) que não adianta reclamar dos lençóis nos hotéis da Alemanha.


Ainda em 1986, entendi do que se tratava. Os alemães tinham uma espécie de colcha, muito mole e recheada de paina, que não servia exatamente de edredom; havia uma espécie de fenda, pela qual o dorminhoco deveria inserir-se inteiramente.

“Resigne-se ao desconforto das camas alemãs”, dizia o livrinho. Lembro-me de pouca coisa mais. Mas não esqueço que, folheando os capítulos, cada qual dedicado a um país, topei com frases simpáticas a respeito do Brasil.

“Não se preocupe demais em fazer as coisas certas”, ensinava o guia. “A simples condição de estrangeiro o fará ser visto com bons olhos.”

Nos outros Estados eu não tenho certeza absoluta, mas como paulistano sempre senti que podia assinar embaixo. Havia muito poucos turistas estrangeiros por aqui. Ainda hoje, se vejo algum, minha vontade é fazer festa. Quero ajudar, quero mostrar coisas, quero mostrar que sei a língua deles, quero me enturmar.

Acompanhei pouco a polêmica em torno da chegada dos médicos cubanos. Do ponto de vista cultural, “antropológico”, social, o que quisermos, acho de todo modo que aconteceu um fato inédito na história do país —vai ver que só nos tempos coloniais ou de Dom João 6º produziu-se coisa parecida.

Cubanos desembarcam no aeroporto e são hostilizados por médicos brasileiros. Nunca, pelo que me lembro, eu tinha visto manifestações de xenofobia tão explícitas, tão grosseiras, em nosso território.

O mito do brasileiro acolhedor e festeiro —só um mito? Até jogadores de futebol argentinos foram recebidos com carinho pelas torcidas de times brasileiros. Tevez, o simpaticíssimo e modesto artilheiro do Corinthians, será que reclama de hostilidade?

Com toda a implicância que muitos brasileiros têm contra argentinos, não creio que estes sejam maltratados aqui. Certo, o turista não vem para tirar emprego de ninguém.

O racismo que se verifica em tantos países europeus tem razões mais antigas do que o desemprego. A direita explora, naturalmente, a ideia de que os imigrantes tiram postos de trabalho dos brancos.


Mas, se os brancos não querem aqueles postos de trabalho mais rudes e com salários baixos, não importa. O racista vê nisso mais um motivo para desprezar os africanos, os turcos, os brasileiros que os aceitam.

Mesmo que um ou outro médico brasileiro perca seu posto numa cidadezinha perdida no sertão, há, pelo que sei, falta de médicos, e não de empregos. Tanto que o médico da cidadezinha tem outros.

Além de médicos, o fato é que eles são negros. E além de negros são cubanos. Não fizeram o tal exame de revalidação do diploma que possuem? Mas estão abrindo clínica especializada em neurocirurgia ao lado do Sírio-Libanês? Vão concorrer com os especialistas em plástica facial?
A televisão mostrou a entrevista de um representante de não sei que entidade médica brasileira, afirmando que os tais cubanos mal saberiam realizar um exame de ecocardiograma.

O caso é sério. Imagine se eles danificam, sem querer, todos os aparelhos de ressonância magnética de Primeiro Mundo que os esperam no sertão piauiense…

Que emprego, então, está em jogo? Ou o temor é de que sejam militantes socialistas a mando de Castro? Se forem, quem sabe se convertem à liberdade brasileira…

Talvez nosso sistema de vida, nessas áreas miseráveis, não convença tanto assim. Estarão os cubanos pondo o dedo numa ferida —o da consciência da classe média alta brasileira?

Curiosamente, os que protestam contra os cubanos assumem uma retórica sindical: lutam pelos salários dos outros. É um piquete, então? Pode ser. Nessas vastidões sem médico nenhum, a greve nos serviços de saúde dura bem uns quatro séculos.

Sozinhos não resolvem? É preciso mais que alguns médicos? Sim. Espero que, de lá onde vão clinicar, façam um protesto melhor do que o que andamos vendo por aqui.

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domingo, 1 de setembro de 2013

"A arte de aliviar o sofrimento humano jamais poderá ser subjugada pelos interesses corporativos e pela busca de poder"

"A arte de aliviar o sofrimento humano jamais poderá ser subjugada pelos interesses corporativos e pela busca de poder"

Uma ira epidêmica 

Vaia corporativista ao dr. Juan Duvergel Delgado expôs intolerâncias que envolvem o Mais Médicos
Luís Fernando Tófoli
Perplexo. Médico cubano respondeu à hostilidade : 'Seremos escravos da saúde' - Jarbas Oliveira/Estadão
Jarbas Oliveira/Estadão
Perplexo. Médico cubano respondeu à hostilidade : 'Seremos escravos da saúde'
Juan Merquiades Duvergel Delgado formou-se médico há quase duas décadas, e há 12 anos participa de missões de atenção primária. Congruente com o trabalho que prestou no Haiti, país com o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) das Américas, vai trabalhar em um Estado com um IDH que está entre os piores do Brasil: o Maranhão. 

Na terça-feira, na saída da recepção aos médicos estrangeiros que estão realizando formação complementar em Fortaleza, o dr. Juan e seus colegas cubanos foram vaiados em um protesto do Sindicato dos Médicos do Ceará. Além de me encher de uma grande vergonha e da necessidade de pedir desculpas aos doutores estrangeiros em nome de todos os médicos brasileiros que não concordam com o lamentável ocorrido, a cena da qual eles foram vítimas me suscitou algumas reflexões.

Entre elas está uma sensação de incômodo com o distanciamento que o Ministério da Saúde tem mantido de tradicionais atores sociais nas tomadas de decisão – algo que vem se repetindo em vários campos, da política de drogas ao enfrentamento da aids, e parece ser um mal do qual padece a administração federal como um todo. 

Também vejo com reservas o drible que o Mais Médicos dá no Revalida, um programa de revalidação de diplomas de medicina que está em processo de reformulação, com foco na definição de parâmetros mínimos de qualidade para que um estrangeiro seja médico no país – sem exigir nem de mais, nem de menos. 

Também é importante compreender a constatação óbvia – escotomizada tanto por entidades médicas quanto pelo governo – de que mais saúde não se faz somente com mais médicos, mas também com mais profissionais de todas as especialidades e com o protagonismo dos movimentos sociais. 

Além disso, o recurso da tecnologia – que não deve substituir o cuidado humano, mas é realmente necessário – precisa de financiamento adequado. Cabe perguntar, portanto, se é correto o montante financeiro federal destinado à saúde suplementar por meio de renúncia fiscal no imposto de renda e do pagamento de planos de saúde por empresas públicas. Essas são cifras que, se encaminhadas ao Ministério da Saúde diretamente, aumentariam consideravelmente seu orçamento.

O Brasil encontra-se em uma encruzilhada sanitária, e precisa decidir qual modelo deseja seguir. Exemplificando o dilema com as duas maiores rendas per capita das Américas, precisamos saber quanto queremos ser como o Canadá, que tem um sistema nacional de saúde que cuida praticamente de todos os cidadãos, tendo a porta de entrada obrigatória na atenção primária e excelentes índices sanitários; e quanto queremos ser como os Estados Unidos, que detêm o recorde mundial de gastos em saúde, um sistema de saúde público nanico e índices que estão entre os piores entre os países de alta renda. A resposta jaz, em grande medida, nos objetos de desejo de grupos sociais que brotam de um contexto no qual o crescimento do consumo é extremamente valorizado pelo poder público.

É com tristeza que eu, um professor de medicina, testemunho o alastramento de uma ira epidêmica que impede as corporações médicas de perceberem que suas manifestações alargam cada vez mais o hiato existente entre como os médicos brasileiros se veem e como a sociedade os tem visto. Supostas denúncias e funestas consequências são lançadas e esse é um momento em que é difícil distinguir o fato do factoide. Assim, é preciso agora ter a serenidade para avaliar cuidadosa e rigorosamente o programa, tanto em suas potenciais virtudes quanto em seus possíveis riscos. Esse é um dos papéis de uma imprensa responsável e de uma universidade atenta.

Diz-se que o cenário em que os cubanos vão atuar é catastrófico, sem recurso médico decente. Claro que, apesar de evidentes melhoras nas últimas décadas nos rincões do Brasil, o SUS ainda é extremamente carente de insumos e equipamentos. É, no entanto, improvável que esse cenário seja pior que o do Haiti após o terremoto de 2010. 

Também se coloca em dúvida a capacidade de comunicação dos cubanos, esquecendo do preconceito jocoso com que muitos médicos brasileiros se referem a migrantes de regiões remotas pelos vocábulos dialetais que usam. Com escuta atenta e empatia, as barreiras entre o espanhol caribenho e os diversos falares do Brasil poderão certamente ser ultrapassadas.

Tenho a sincera esperança de que os recém-chegados possam agir como os médicos formados em Cuba que conheci durante os 11 anos em que trabalhei no interior do Nordeste, e assim reensinar a muitos doutores brasileiros o que eles um dia já souberam: que a principal ferramenta do esculápio é seu tirocínio e seus sentidos; que não se pode pedir exames complexos sem exercer a capacidade de ouvir o paciente; que os principais valores que devem nortear os frequentes desafios da prática da medicina deverão ser os humanos e sociais; e que a arte de aliviar o sofrimento humano jamais poderá ser subjugada pelos interesses corporativos e pela busca de poder.



*Luís Fernando Tófoli é psiquiatra e professor de psicologia médica e psiquiatria da Unicamp

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