quarta-feira, 24 de março de 2010

Mulheres na idade média: Europa e Brasil



Regina Abrahão *
Durante o primeiro milênio a convivência de várias culturas permitiu que as mulheres tivessem acesso a muitos ofícios e gozassem de relativa liberdade. O fortalecimento da doutrina católica, porém, com regras de conduta inflexíveis, constrói o paralelo entre a mulher, o pecado original, e o exercício da sexualidade como fonte do pecado.
O envio de muitos homens para as cruzadas fez com que as mulheres passassem a gerenciar as comunidades, exercendo todo tipo de tarefas necessárias á manutenção das condições de vida.

Durante a baixa idade média as mulheres possuíam direito à propriedade por herança, e podiam assumir a chefia de família em caso de viuvez. Em 1404 a escritora francesa Cristine de Pizan (1364/1430) lança o livro A Cidade das Mulheres, onde defende uma educação igual para ambos os sexos. Cristine é considerada uma das primeiras feministas, por sua luta em defesa da educação das mulheres. Há registros de mulheres que estudaram nas universidades da época.

Brasil - Quando, em 1500, os portugueses invadem o continente recém descoberto e para cá enviam os degredados, criminosos e aventureiros, pouquíssimas mulheres havia entre eles. Os homens que para cá vieram foram responsáveis por estupros, raptos e inúmeras violências contra índias, o que resultou na imensa miscigenação do povo brasileiro. O território só começou a ser efetivamente colonizado em meados do século 16, e a sociedade que havia se instalado aqui era nada semelhante à metrópole. O número de casamentos formais não chegava a 20% e acontecia preferencialmente entre classes abastadas, de forma a garantir o patrimônio das famílias. Não havia obrigatoriedade de indissolubilidade dos casamentos, e com isto estabelecia-se uma maternidade informal, quase matrilinear, uma vez que o cuidado com os improdutivos voltava a ser coletiva: mães, avós, tias, vizinhas, todas compartilhavam do cuidado e da educação de todas as crianças. Inclusive de outros filhos dos eventuais novos maridos destas mulheres, sem grande diferenciação das outras crianças.

A chegada dos mandatários portugueses e do clero, com a finalidade de instalar a dominação portuguesa e moralizar a colônia trouxe com ela toda a carga de preconceitos da Europa medieval, ainda reinante no Portugal da época. A primeira providência foi a remodelação do papel da mulher e a instituição do casamento, instituindo altas taxas para os concubinatos, enquanto os preços dos casamentos eram simbólicos. As uniões pré-maritais eram sabidas, embora não admitidas; num momento em que o povoamento da colônia era fundamental, a fecundidade era condição para o matrimônio. Só que inteiramente atribuída à mulher, uma vez que a própria medicina avalizava a idéia. Por isto o sexo antes da união matrimonial, efetivada quando resultante em gravidez. Caso a fecundação não ocorresse, dependendo do nível sócio-econômico da noiva, o casamento poderia ocorrer, mas sem a obrigatoriedade de sexo, ficando neste caso o homem tacitamente liberado para o sexo com outras mulheres.

Tanto quanto no período medieval europeu, a mulher no Brasil colonial, ser submetida à opressão masculina volta-se para o domínio que lhe é reservado: torna-se parteira, curadora, cuidadora. Confinada ao lar, passa a desenvolver a observação cuidadosa da natureza, desenvolvendo conhecimentos específicos sobre plantas, ervas, doenças; Enfim, tudo o que requeria observação e persistência. Desta forma, acumulando conhecimentos fundamentais para a sobrevivência, A partir daí, institucionaliza-se as duas figuras femininas simbólicas: a mulher-mãe, virtuosa, casta (que se entrega para cumprir seu papel, mas sem usufruir do prazer pecaminoso), e da prostituta, a mulher, sexuada, alegre, sempre disposta e disponível. Dois papéis, duas figuras: nada mais conveniente ao macho-homem, que pode assim desfrutar de duas ou mais fêmeas sem comprometer-se emocional, social ou financeiramente com mais de uma delas. Afinal, cabe à provedora familiar a manutenção do equilíbrio doméstico, enquanto à outra o dever é o da satisfação. Deste período vem o célebre conselho: "à mulher, cabe procurar ser sempre a última; ao homem, o direito de ser sempre o primeiro".



* Funcionária pública, dirigente municipal do PCdoB de Porto Alegre, estudante de ciências sociais da UFRGS. Dirigente da Semapi - RS

2 comentários:

Maria,viajante do Universo de passagem pelo planeta Terra disse...

"A discriminação contra a mulher e o negro no Brasil é socialmente construída para beneficiar quem controla o poder econômico e político. E o poder é macho e é branco".(Heleith Saffioti)

Ligue 180 -Central de Atendimento à Mulher

La Pasionaria disse...

Belo texto!
Pior que ser mulher em uma sociedade como a nossa, é ser mulher negra.
E tem gente que vocifera contra as políticas de ação afirmativa.