por Paula Libence no Correio Nagô
Semana passada, numa conversa informal com duas conhecidas sobre higiene pessoal sudorese e coisas do tipo, ouvi uma delas dizer algo estarrecedor. Nós estávamos falando sobre o fato de Salvador ser uma cidade extremamente quente e nós suarmos muito. E isso para quem passa o dia inteiro na rua é péssimo, ou melhor, é fétido. Principalmente nós, mulheres, que sofremos com esse maldito higienismo que determina que temos de ser e estar sempre lindas e perfumadas, exalando essências das mais refinadas possíveis – mesmo após ter passado o dia inteiro na rua em uma cidade quente como Salvador.
Foi então que uma das pessoas com quem estava conversando, alienada com coisas de cheiro, essência, aromas, disse que seu namorado só está com ela porque ela é limpinha(!). E ainda que ela transpire o dia todo, sempre estará perfumada (acredita ela, pois eu acho que nem os desodorantes antitranspirantes com proteção por 24 horas garantem isso realmente. A não ser nos seus rótulos). Já a outra conhecida afirmou ter um problema sério de transpiração. Disse já ter feito tratamento e tudo mais, inclusive porque suas axilas são escurecidas (coisa que ela disse não suportar). Ela ainda disse que esse problema de excesso de transpiração foi “herdado” da família de seu pai, que é “mais escura” que a família da mãe (palavras dela), cujos membros possuem cheiro muito forte quando suam e ficam com “odor de negro”. Ãhn, para tudo! Odor de negro? Como é isso? Por acaso tem odor de negro? Foi o que a perguntei. Ela disse com veemência: “tem, Paula. Tem odor de negro, que é aquele cheiro forte quando fica suado, que é diferente do odor de branco que é característico de branco. Sabe?”.
(Perceberam o racismo linguístico? Quando é “odor de negro”, é “cheiro forte”; quando é “odor de branco”, é “cheiro característico”. E eu é que vejo racismo em tudo).
Agora, imaginem a minha cara diante dessa explanação fantástica. Não me contive, como sempre, até porque tem certas coisas que são impossíveis de controlar. Eu diria até que nem faço questão de controlá-las, porque me afrontam em demasia. Meu senso antirracista sempre fala mais alto, aliás, ele esbraveja, na verdade. Virei pra ela toda sensata (se é que se consegue manter a sensatez numa hora dessas) e disse: como é? Tem cheiro de preto e cheiro de branco? Cuidado com suas palavras, minha cara, pois se alguém do Movimento Negro ouve isso, te processa com toda pompa.
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Frantz Fanon foi bem feliz ao nos alertar sobre os aspectos racistas embutidos na nossa linguagem, num capítulo do livro Pele Negra, Máscaras Brancas. E isso só me remete às situações cotidianas de pessoas que vivem a proliferar atitudes racistas em algo que veem como meras brincadeiras, ou constatações do que nos parece óbvio na estrutura racista em que vivemos.
E para isso preciso elencá-las, para que visualizem com mais clareza tudo que acabei de expor, e me retifiquem, caso esteja errada.
- negro correndo é ladrão. Branco correndo é atleta;
- negro subindo montanha está voltando pra casa. Branco subindo montanha está fazendo alpinismo;
- negro vestido de branco é macumbeiro. Branco vestido de branco é médico;
- negro andando de bicicleta no calçadão é aviãozinho. Branco andando de bicicleta no calçadão é ciclista.
- negro só vira gente quando está usando o banheiro, alguém bate na porta e ele grita: “tem gente”.
- você é mais enrolado que cabelo de africano.
- preto quando não caga na entrada, caga na saída.
- preto andando de carro é porque foi preso e tá no camburão. Branco andando de carro é classe média.
- preto de pulseira está algemado. Branco de pulseira é empresário.
- preto indo pra escola é quando ela está em construção. Branco indo pra escola é pra garantir o futuro.
- preto só sobe na vida quando a casa dele explode e ele vai junto. Branco quando sobe na vida é ascensão social.
- preto de asa é morcego. Branco de asa é anjo.
Acho que basta, porque não quero aqui corroborar com as piadas ditas aos negros, muito menos reforçá-las, ou até mesmo fomentar sua publicidade ou antipublicidade. Quero apenas mostrar que situações como essa são tão corriqueiras que nos parecem normais. Isso mesmo. Normais. Mas Paula, isso vai de encontro a tudo que expôs aqui, vai de encontro ao que fala, defende, vive e acredita.
Calma, não estou aqui para diagnosticar culpados para as nossas ações mal ditas e mal postas sobre essa condição de “bem estar social” diante da sociedade racializada em que fomos criadas (retomo a ideia do maldito mito da democracia racial). Não é isso. Só quero tentar mostrar, se isso for possível, o quanto temos a mentalidade formatada pela normalidade racial e de quanto estamos imbuídos do determinismo que fomentam ações tidas como racistas, como se estivéssemos sempre tentando achar um culpado pra isso. Somos tão contaminados por essa lógica que nem nos damos conta do que mencionamos.
Eu sei que isso parece assustador para alguns, mas infelizmente é um fato constatado. Não se trata aqui de um novo conceito que acabei de criar. Nada disso. Só sugiro que tomemos mais cuidados com o que dizemos, porque diante do cenário de colonização e escravidão que passamos, diante dos resquícios escravistas que ficaram, e ainda tendem a se perpetuar, temos de nos questionar a todo o momento o porquê daquela expressão existir. Em que contexto ela se aplica, de que modo isso foi criado e por que é tão fomentado, e quais estruturas visam manter.
É pensando assim que as ratifico. Não quis expor as duas conhecidas à situação de constrangimento e tachá-las de racistas, até porque o racismo não é um problema individual. Não é isso. Só sustento a ideia de que estamos tão condicionados a achar que o negro é sempre o feio, o ruim, o lixo da sociedade, que proliferamos teorias criadas para manter o status quo de um grupo social que não tem o menor interesse em perder seus privilégios e crê piamente que suas idiossincrasias de branquitude devem ser mantidas em contraposição ao que tomamos como “coisas de preto”.
Isso nada mais é do que a defesa explícita da manutenção de benefícios que visam preservar privilégios e sustentar a supremacia da branquitude, enquanto os sujeitos desfigurados e desprestigiados socialmente permaneçam onde estão por mais longos e sutis séculos escravocratas – nas sarjetas da sociedade, como disse Sueli Carneiro.
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4 comentários:
Existe odor de negro sim. Não que seja melhor ou pior, ou que todos tenham o mesmo cheiro, mas que existe, isso é fato. Há vários tipos de humanos, e cada grupo étnico e racial tem suas peculiaridades. Reconhecer isso é algo importante no combate ao racismo, pois nos permite ir além de debates superficiais como "cabelo bom" vs. "cabelo ruim" e focar mais naquilo que realmente trará bem-estar e dignidade para todos.
O que calsa mau cheiro nas pessoas é a má higiene pessoal, ponto! E a maior prova que eu tenho disso é o fato de grande parte do europeus (que são brancos em maioria) federem, a "obseção" por banhos diarios que nós brasileiros temos não existe por lá. São as bacterias que se espalham na pele atravez do suor e secreções que nos fazem feder, não a pigmentação da nossa pele; acreditar que negro fede por ser negro é estupides! A maioria dos negros (a) que conheci e tive contato pelo contrario, cheiravam muito bem! Apenas um que era meu colega de classe no ensino fundamental que fedia muito por não gostar de banho, entende? No final das contas todas as etnias cheiram mau se não haver boa higiene.
Paz! (:
Pra mim "cheiro forte" e "cheiro característico" são praticamente a mesma coisa, o branco tem um cheiro forte e característico sim e o negro também, e são odores diferentes sim. Lamento te informar, mas todo mundo sabe que existe "cheiro de negro".
Você está equivocada querida, os negros precisam de um cuidado maior em relação a pele, pois apresentam mais facilidade em exalarem odores. Pesquise antes de sair postando... E o racismo só vai parar, quando os proprios negros pararem de ser racistas!
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