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domingo, 1 de setembro de 2013

Verdade, verdadeira: Se ouvir “Eu não sou preconceituoso, mas…”, corra para longe

Verdade, verdadeira: Se ouvir “Eu não sou preconceituoso, mas…”, corra para longe

Leonardo Sakamoto

Eu não sou preconceituoso, mas…
Esta frase é deliciosa. Não é um aviso de “olha, não encare isso como preconceito”, mas um alerta. Do tipo “segura, que lá vem um preconceito”. A ressalva, completamente inútil, serve, pelo contrário, para reforçar que a pessoa em questão é exatamente aquilo pelo qual não gostaria de ser tomada.
Cultivamos nosso medo e ódio, mas, às vezes, pega mal expressá-los em público assim, tão abertamente. Porque pode ser visto como crime ou delito. Ou serem criticados – mesmo que os críticos compartilhem da mesma visão de mundo que você. E, além do mais, como todos sabemos, o Brasil é o país da alegre miscigenação, em que todos são considerados iguais em direitos. Os que discordam disso devem se mudar ou levar um corretivo para deixarem de serem bestas. É isso: ame-o ou deixe-o.
É engraçado como o preconceituoso não se vê como tal. Quem solta um “Eu não sou preconceituoso, mas…” separa essa palavra de seu significado e pensa o preconceito como algo abstrato, etéreo. Uma ideia que não teria nada a ver com tratar pessoas de forma diferente ou fazer um julgamento prévio de seu caráter devido à sua classe social, orientação sexual, cor de pele, etnia, nacionalidade, identidade de gênero, pela presença de alguma deficiência e por aí vai.
E cabe tanta abobrinha em um “Eu não sou preconceituoso, mas…” que ele se tornou o novo “Amar é…”, presente naqueles livrinhos simpáticos da minha infância.
Duvida?
Eu não sou preconceituoso, mas bandido bom é bandido morto.
Eu não sou preconceituoso, mas baiano é foda. Quando não faz na entrada faz na saída.
Eu não sou preconceituoso, mas mulher no volante é um perigo.
Eu não sou preconceituoso, mas tenho medo desses escurinhos mal encarados que pedem dinheiro no semáforo.
Eu não sou preconceituoso, mas cigano é tudo vagabundo.
Eu não sou preconceituoso, mas os gays podiam não se beijar em público. Assim, eles atraem a violência para eles.
Eu não sou preconceituoso, mas acho o ó ter um terreiro de macumba na nossa rua.
Eu não sou preconceituoso, mas é aquela coisa: não estudou, vira lixeiro.
Eu não sou preconceituoso, mas não gostaria de ver minha filha casada com um negro. Não por ele, é claro, mas eles sofreriam muito preconceito.
Eu não sou preconceituoso, mas esses sem-teto são todos vagabundos.
Eu não sou preconceituoso, mas chega de terra para índio, né? Se eles ainda produzissem para o país, mas nem isso acontece.
Eu não sou preconceituoso, mas esses mendigos deviam ir para a periferia onde não incomodariam ninguém.
Eu não sou preconceituoso, mas sabe como é esse pessoal de esquerda. É tudo petralha.
Eu não sou preconceituoso, mas sabe como é pessoal da direito. É tudo tucanalha.
Eu não sou preconceituoso, mas São Paulo é São Paulo, né amiga? Não é Fortaleza.
Eu não sou preconceituoso, mas esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária.
Eu não sou preconceituoso, mas adoro esse shopping. Só tem gente bonita por aqui.
Eu não sou preconceituoso, mas sobe o vidro, amor. Você não tá nos Jardins.
Eu não sou preconceituoso, mas vocês não acham que essas médicas cubanas têm cara de empregada doméstica?
Mas, cuidado, seja sutil. Preconceito é para ser dito, repetido e aplicado, mas com naturalidade. Diluído no dia a dia, aparece como uma forma de manter a ordem das coisas e de lembrar quem manda. E quem obedece.

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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cubanos chegam e já diagnosticam a doença do Brasil

Cubanos chegam e já diagnosticam a doença do Brasil

Saul Leblon - Carta Maior


Eles desembarcaram há apenas quatro dias.

Ainda nem começaram a trabalhar. Mas alguma coisa de essencial já foi diagnosticada entre nós, apenas com a sua presença.

Uma foto estampada na Folha de S. Paulo desta 3ª feira sintetiza a radiografia que essa visita adicionou ao diagnóstico da doença brasileira.

Um médico negro avança altivo pelo corredor polonês que espreme a sua passagem na chegada a Fortaleza, 2ª feira.

O funil do constrangimento é formado por jovens de jaleco da mesma cor alva da pele.

Uivam, vaiam, ofendem o recém-chegado.

Recitam um texto inoculado diuturnamente em sua mente pelas cantanhêdes, os gasparis e assemelhados.

Centuriões de um conservadorismo rasteiro, mas incessante.

É força de justiça creditar a esse pelotão a paternidade da linhagem, capaz de cometer o que a foto cristalizou para a memória destes tempos.

“Escravo!” “Escravo!” “Escravo!”.

Ecoa a falange cevada no pastejo da semi-informação, do preconceito e das tardes em shopping center.

Foi programada para cumprir esse papel, entre outros, de consequências até mais letais para a democracia e a civilização entre nós. 

Um desembarque que em outros países seria motivo de festas, homenagens e bandas de música.

Aqui é emoldurado pelo espetáculo deprimente de uma classe média desprovida de discernimento sobre o país em que vive, o mundo que a cerca e as urgências da sociedade que lhe custeou o estudo.

Para que agora sabotasse a assistência cubana aos seus segmentos mais vulneráveis, aos quais ela se recusa a atender. 

Os alvos da fúria deixaram família, rotinas e camaradagem para morar e socorrer habitantes de localidades das quais nunca ouviram falar.

Mas que a maioria dos brasileiros também sequer desconfia que existam.

Com o agravante de que ali talvez jamais pousem seus pés. Coisa que os cubanos farão. Por três anos. 

E que graças a eles, agora saberemos que existem.

Se o governo for safo – espera-se que seja – fará do Mais Médico uma ponte de conexão de nós com nós mesmos. 

O futuro da democracia agradecerá.

Os pilares dessa ponte, de qualquer forma, são os que transitam agora altivos diante da recepção que indigna o Brasil aos olhos do mundo.

Perfis médicos ainda improváveis entre nós, apesar do Prouni e das cotas satanizadas pela mesma cepa mental adestrada em compor corredores e funis.

Nem sempre físicos, como agora.

Mas permanentemente intolerantes, na defesa da exclusão e do privilégio. 

Formados em uma ilha do Caribe desguarnecida de recursos, por uma escola de medicina que contorna a tecnologia cara, apurando a excelência do exame clínico – aquele em que o médico demora uma hora ou mais com o paciente, rastreando o seu metabolismo – eles passarão a cuidar da gente brasileira pobre e anônima. (Leia a excelente entrevista de Najla Passos com a doutora Ceramides Carbonell sobre a formação de um médico em Cuba).

Campos Alegres de Lourdes, Mansidão, Carinhanha, beira do São Francisco, Cocos, Sítio do Quinto, Souto Soares... Quem conhece esse Brasil? 

É para lá que eles vão. E para mais 3.500 outras localidades.

Um Brasil esquecido, em muitos casos, mantido na soleira da porta, do lado de fora do mercado e da cidadania.

Que sempre esteve aí. Mas que agora, pasmem, terá um sujeito interessado em ouvir o que sua agente tem a dizer, esforçando-se por entender pronúncias que até nós, os locais, muitas vezes teríamos dificuldade de discernir.

O ‘doutor de Cuba’ de fala estrangeira e jeito parecido com a gente vai examinar, apalpar dores, curar vermes, prescrever cuidados, encaminhar cirurgias, ouvir e confortar.

Com remédios, atenção e esperança.

Houve um tempo em que essas expedições a um Brasil distante do mar eram feitas por brasileiros, e de classe média.

Protagonistas de um relato épico, de nacionalismo não raro ingênuo. Mas que aproximava e treinava o olhar do país sobre ele mesmo.

Coisa que a hiper-conexão disponível agora poderia fazer até melhor.

Não fosse a determinação superior de afastar e dissimular, o que muitas vezes se alcança destacando o pitoresco.

Em detrimento do principal: as questões do nosso tempo, do nosso desenvolvimento, as escolhas que elas nos cobram. E os interesses que as bloqueiam.

Tivemos a Coluna Prestes, nos anos 20. 

Os irmãos Villas Boas, apoiados por malucos como Darcy Ribeiro e entusiastas como Antonio Calado, fizeram isso nos anos 40/50 e início dos 60, quando foi criado o Parque Nacional do Xingu.

Trouxeram a boca do sertão para mais perto do olhar litorâneo e urbano.

Desbastavam distancias a facão. 

Na raça, traziam horizontes, aproximavam rios, tribos, desafios e, de alguma forma, semeavam um espírito de pertencimento a algo maior que a linha do mar e a calçada de Copacabana. 

A utopia geográfica, se por um lado borrava os conflitos de classe, ao mesmo tempo colidia com o país real que os esperava em cada socavão, de trincas sociais, fundiárias, étnicas e econômicas avessas à neblina da glamorização.

Paschoal Carlos Magno, a UNE e o CPC, o Centro Popular de Cultura, fariam o mesmo nos anos 60, antes do golpe militar.

As famosas ‘Caravanas do CPC’ rasgaram o mapa do sertão, a exemplo do que fizeram as Caravanas da Cidadania, de Lula, nos anos 80.

Desceriam o São Francisco nas gaiolas lendárias para garimpar e irradiar a cultura popular em lugares onde agora, possivelmente, um doutor cubano irá se instalar.

Caso de Carinhanha, um dos mais belos entardeceres do São Francisco.

Onde foi que a seta do tempo se quebrou? 

Por que já não seduz a grande aventura de nossa própria construção terceirizada, por décadas, aos mercados autoregulados?

Uma leitora de Carta Maior, Odette Carvalho de Lima Seabra, resume em comentário enviado ao site o núcleo duro do problema. 

“ A geração dos nossos jovens doutores”, escreve, “ jamais compreenderá de que se trata. Foram criados nos shopping centers. A escola secundária limitadíssima no seu alcance humanístico os fez também vítimas sem que o saibam que são. Uma revolução que durou vinte anos e cujo sentido era o de esvaziar de sentido a vida de todos nós deixou no seu rescaldo, esse bando de jovens, como são os nossos doutores, muito alienados. É tempo de aprender com os cubanos”,
 conclui Odette.

Colocado nos seus devidos termos, o impasse readquire a clareza histórica de que se ressente a busca de soluções.

Entre indignado e estupefato, o conservadorismo nega aos visitantes cubanos outra referência de exercício da medicina que não a dos valores argentários.

Ética médica, solidariedade, internacionalismo e humanismo formam uma constelação incompreensível a quem divide o mundo entre consumidores e escravos. 

À esquerda, no entanto, cabe também evitar simplificações.

Se quiser enxergar a real abrangência das tarefas em curso, é preciso admitir que não estamos diante de uma batalha entre anjos e demônios.

Os médicos do Caribe não nascem bonzinhos. Tampouco endemoninhados, os dos trópicos.

Eles são formados assim. Por instituições.

A escola, por certo, mas a mídia, sem dúvida, que a completa pelo resto da vida.

É vital que o governo, lideranças sociais e os intelectuais compreendam o fundamental em jogo.

Se quisermos colher frutos duradouros com o ‘Mais Médicos’, o passo seguinte do programa terá que ser a reforma universitária brasileira.

Que reaproxime universidade e a juventude das grandes tarefas coletivas do nosso tempo. 

As diferenças entre a formação do cubano hostilizado na chegada a Fortaleza, e aqueles que o ofendiam não são apenas de ordem técnica. 

Mas, sobretudo, de discernimento diante do mundo.

A ponto de um não achar estranho sair de seu país para ajudar um outro. 

Nem considerar despropositado que parte de seu ganho se transforme em fundo público de reinvestimento.

O oposto das convicções dos que o agraciavam com o corolário de sua própria servidão.

Esse talvez seja o aspecto mais chocante da visita que acaba de chegar.

E, sobretudo, o mais instrutivo.

Ela escancara a doença social que corrói o nosso metabolismo. E adverte para as limitações que irradia. 

Na sociedade que estamos construindo.

Na mentalidade que vai se sedimentando. No risco que ela incide sobre o todo.

Para que o ‘Mais Médicos’ um dia possa ser dispensável, o Brasil precisa se tornar ele próprio um grande ‘Mais Solidariedade’.

Como faz Cuba desde 1959, com todos os seus erros, acertos e percalços.

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As médicas que têm cara de brasileiras


As médicas que têm cara de brasileiras

Fernando Molica

No Ceará, médicos cometeram o acinte e a descortesia de vaiar colegas cubanos

O DIA
Rio - Ao cometer a estupidez de dizer que médicas cubanas têm “cara de empregada doméstica”, a jornalista potiguar Micheline Borges fez, sem querer, um grande favor. Escancarou o preconceito de tantos e ressaltou o processo de exclusão de negros do sistema de ensino. Aqui, nos acostumamos com médicos brancos e operários pretos; qualquer perspectiva de mudança — cotas em universidades, por exemplo — assusta muita gente. Também nos acostumamos com filas nos hospitais, com falta de médicos e com médicos que fraudam plantões, como mostraram O DIA e o SBT Brasil.

Nos últimos dias, entidades médicas se envolveram como nunca na discussão relacionada à falta de médicos em áreas mais pobres. Estão indignadas não com o problema, mas com a solução encontrada pelo governo federal, que, depois de não conseguir médicos brasileiros em número suficiente, tratou de importar profissionais. Os conselhos de medicina rodaram o jaleco diante da concorrência, parecem os caras que largam a mulher mas não admitem vê-la com outro homem.
No Ceará, médicos cometeram o acinte e a descortesia de vaiar colegas cubanos; quero ver se profissionais aqui do Rio vão fazer o mesmo com plantonistas do hospital estadual de Araruama, aqueles que, na reportagem do SBT, batiam ponto e iam embora.

As entidades alegam que o programa Mais Médicos dribla a lei ao não submeter os estrangeiros à prova que verifica a capacitação de quem se forma no exterior. O argumento é razoável, mas, como eventual paciente, reivindico que exame parecido seja aplicado aos que se diplomam no Brasil. Em 2012, o Conselho de Medicina de São Paulo reprovou 60% dos médicos — brasileiros — que queriam exercer a profissão no estado.

Nessa briga, falta ouvir os maiores interessados, os milhões de cidadãos que vivem sem qualquer tipo de assistência médica. Vale perguntar se eles querem um médico cubano — ou argentino, ou espanhol — ou preferem ficar sem assistência. Eles, os sem-médicos, são contribuintes que, com seus impostos, ajudam a manter as faculdades públicas de Medicina. São os patrões, têm que ser ouvidos e respeitados.

Por último: Micheline, cubanos não têm cara de empregados domésticos, se parecem com a maioria dos brasileiros, daí a sua comparação e o seu susto. Você, ao menosprezá-los, acabou, veja só, elogiando o sistema educacional do país deles.

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sexta-feira, 19 de abril de 2013

Gordofobia: nunca chame uma criança de gorda

Gordofobia: nunca chame uma criança de gorda

Mamíferas

Gordofobia: nunca chame uma criança de gorda

Semana passada foi uma semana sufocante. Difícil mesmo. Então no meio da semana eu surtei, saí do trabalho mais cedo, peguei o guri na escola e fui curti-lo, sem preocupar com hora de dormir, hora de jantar, hora de postar. Fomos parar em uma pracinha que, durante a semana, estava quase vazia.
Exceto por outro menino, da mesma idade do Benjamin, e uma moça que o acompanhava. Em Maceió, é difícil ver babás uniformizadas, principalmente no bairro onde moro, portanto eu não teria como saber qual a relação dela com o menino. Por minutos eu a observei empurrar desinteressadamente o balanço dele – cujos pés já alcançavam o chão – até Benjamin decidir se aproximar e fazer um novo amigo.
Balançaram juntos, foram na gangorra e seguiram para o trepa-trepa, brinquedo favorito do meu filho. Logo, ficou bem claro que era a primeira vez do outro menino nesse brinquedo, e a babá – dado confirmado por ela – não parecia muito à vontade com essa nova descoberta. Ela ficava atrás do menino, segurando-o, e quando ele subiu mais alto do que ela alcançava, deu-se o diálogo:
Ela: Tá bom até aí!
Benjamin: Vem amiguinho! Vem até em cima!
Ela: Não vai não, você vai cair.
Ele: Mas o amiguinho está lá em cima!
Ela: É, mas ele é magro e você é gordo.
Por uma fração de segundo, o mundo parou. Pelo menos pareceu parar, porque eu, que estava sentada a uma distância segura, de repente estava ao lado deles sem nem perceber, bufando de raiva.
Benjamin (olhando pra mim): Ele é gordo, é?
*PAUSA PARA O CAFÉ*
Eu nunca fui uma criança gorda. O completo oposto, na verdade, minha mãe costumava referir-se a mim como raquítica. Como vocês podem imaginar, isso também não fez maravilhas pela minha auto-estima. Eu tomava beabá, beebé, beibíotônico fountora TO-DOS OS DIAS. E continuava raquítica.
Aos 15 anos eu já tinha a enorme altura que tenho hoje (1,60), e pesava exíguos 47kg. Aos 15 anos, eu precisei fazer uma cirurgia para remover a vesícula. Eu tive cálculo biliar aos 15 anos. E o que isso tem a ver com a história?
O fato é que ser magra não significa ser saudável. Um dos principais argumentos gordofóbicos é o de que “você precisa emagrecer porque ser gordo não faz bem pra saúde”. Bem, adivinhe só. Eu sou gorda hoje, e nunca fui tão saudável. Poderia ser mais, mas com certeza já fui bem, bem menos.
Claro, sabemos que há um surto de obesidade entre as crianças do Brasil, causado pela industrialização da alimentação, intimamente ligado à publicidade voltada para crianças. Não dá pra fechar os olhos quanto a isso. Mas já diria o documentário, o problema é Muito Além do Peso.
Isso não significa que você não deva se preocupar com a saúde da criança. Conheço um menino que teve episódios de hipertensão aos três anos de idade. Hoje, aos nove, ele está com colesterol alto. Sua alimentação é altamente industrializada e seu estilo de vida extremamente sedentário. Ele está perfeitamente dentro da média de peso para a sua idade, sempre esteve.
Ele bebe mais refrigerante do que eu. Ele bebe mais refrigerante que sua mãe. Desde um ano de idade, esse é um hábito diário na vida dele. E não é o único.
Para mudar os hábitos alimentares de uma criança, é preciso mudar os de toda a família. Eu fico extremamente possessa quando vejo pessoas colocando crianças de dieta e esfregando isso na cara delas.
No ano passado, uma socialite estadunidense publicou um artigo na revista Vogue sobre como colocou sua filha de sete anos em uma dieta estilo Vigilantes do Peso. Dentre as absurdas declarações, o artigo dizia “Houveram momentos esquisitos em festas, quando Bea queria comer, digamos, tanto bolo quanto bolachas, e eu entrava em uma discussão acalorada sobre os porquês de ela não poder.”
Filha, deixa eu te perguntar uma coisa: se na sua casa todos vocês comem de forma saudável, se o exercício faz parte da vida de vocês de forma natural e divertida, qual é o problema da criança comer bolo bolacha na festa?  Apontar isso como errado, destacar esse comportamento, é muito mais prejudicial do que simplesmente deixar rolar.
Dizer “você não pode fazer isso porque você é gordo” é o mesmo que dizer “você não pode fazer isso porque você é branco” ou “você não pode fazer isso porque você é menina”. A gordofobia é um tipo de preconceito tão nocivo quanto silencioso.
Apontar a gordura de uma criança como defeito é acabar com sua auto-estima, criar a ansiedade que leva à comida como válvula de escape, e perpetuar comportamentos auto-destrutivos.
Então se você se preocupa com o peso de uma criança, não a chame de gorda. Crianças são pessoas, e pessoas vêm em todas as cores e tamanhos. Crianças são sensíveis o suficiente para perceber as diferenças entre elas, mas elas não são capazes de fazer juízo de valor quanto a essas diferenças.
À noite, após o episódio do trepa-trepa, eu estava tomando banho com meu filho e perguntei: “Filho, a mamãe é gorda ou magra?” Ele, apertando minha barriga, respondeu, duvidoso: “Magra, ué.”
Ué, não sou. E ele sabe disso, porque já me ouviu falando que era gorda em inúmeras ocasiões. Mas depois de associar a gordura com a incapacidade de subir no trepa-trepa, Benjamin se recusava a aceitar que sua mãe é gorda. Afinal, ela consegue subir no trepa-trepa. Ser gordo é ruim. Sua mãe é tudibom.
*DESPAUSA*
De volta à pracinha: o menino não se mostrou muito afetado por ter sido chamado de gordo. Obviamente não era a primeira vez, e eu gostaria muito de dizer que fiz com que fosse a última. Mas duvido muito.
Benjamin: Ele é gordo, é?
Eu: Ele é mais gordo que você, filho. E o que tem isso? – eu disse, olhando para a moça.
Ela: Ele não vai conseguir subir.
Eu: Solte a roupa dele que você vai ver que ele consegue.
E ele conseguiu. E seus olhos brilharam. E eu vibrei, elogiei. Ao menos naqueles segundos de vitória, ele não se sentiu diminuído por ser gordo. A moça, visivelmente incomodada com a capacidade do menino, uma vez que ele pediria para ir no trepa-trepa todas as vezes que fosse na pracinha, resolveu que era hora de ir pra casa.
- Tchau, amiguinho. E não se esqueça de que você pode fazer qualquer coisa que quiser!
Você só não pode ser gordofóbico. Ainda mais com crianças. Não na minha frente.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Nojo eterno de preconceituoso: “Tudo bem o deficiente querer ir para a balada. Mas vir aqui fora e atrapalhar, aí já é demais.”


Nojo eterno de preconceituoso: “Tudo bem o deficiente querer ir para a balada. Mas vir aqui fora e atrapalhar, aí já é demais.”

Deficiente é o sujeito que se acha “normal” e exala preconceito 

Blog do Sakamoto


“Tudo bem o deficiente querer ir para a balada. Mas vir aqui fora e atrapalhar, aí já é demais.”
Por trás da pessoa com deficiência que utiliza uma cadeira de rodas em São Paulo se esconde uma espécie de super humano. Pois, apesar da cidade ser extremamente hostil a ele ou ela, com calçadas irregulares, ausência de rampas e banheiros especiais, transporte (escasso) que se diz adaptado mas não é, escadas onde deveriam haver elevadores, como se parecesse um toque de recolher a todos os que possuem dificuldades de locomoção, eles seguem suas vidas. Isso sem contar o principal problema: o preconceito daqueles que acham que fazem um favor por tolerá-los.
A frase acima foi dita em alto e bom som e ouvida no fumódromo da Clash, balada paulistana, na noite desta terça-feira. Um cadeirante teve dificuldade para ir a esse ambiente da casa por conta da lotação, gerando a reação do homem branco bípede em questão. A jornalista que me relatou o fato ficou horrorizada. Mas foi a única.
“Afinal de contas, muitos de nós, cidadãos de bem, já se cansaram de serem molestados pela presença incômoda desse pessoal. Por que eles vêm perturbar meu senso estético? Por que eles têm que vir e me lembrar que este corpo que usamos é frágil e está sujeito a não funcionar como gostaríamos? Por que a cidade tem que gastar meus impostos para que esses aleijados saiam de casa e venham me perturbar com suas rodas sujas? Até as piadas do meu humorista preferido estão proibidas porque gozam da cara desse pessoal. O politicamente correto me enoja. Cadê a minha liberdade de poder tripudiar essa gente? Eu, que sou perfeito.”
“Japa, você está exagerando. A frase foi dita por um panaca. Esse preconceito todo está nos seus olhos apenas. São Paulo é uma cidade que respeita as diferenças.” Como diria Maria da Graça Meneghel: Aham, Cláudia, senta lá.
Deficiente é o frasista preconceituoso. Ele deve achar que garantir direitos iguais é todo mundo poder ter o mesmo espaço no fumódromo e não que todo mundo tenha acesso ao local. Deve achar que o cadeirante queria ter algum privilégio quando, em verdade, ele queria apenas poder fumar seu cigarro. Queria até sentir raiva do sujeito, seria mais fácil. Mas inútil. O que tem que ser feito é, com paciência, explicar que é feio falar e pensar esse tipo de coisa. E que o amiguinho sobre rodas tem direito a viver as mesmas coisas que ele. Assim, talvez, com muito amor e carinho, um dia, o menino possa crescer e aprender o que é viver em sociedade.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Para os machistas, racistas, homofóbicos de plantão: Pequeno Almanaque do Reacionário de Sofá

Para os machistas, racistas, homofóbicos de plantão: Pequeno Almanaque do Reacionário de Sofá




As redes sociais proporcionam meios rápidos e eficientes para toda e qualquer pessoa expor, rapidamente, de forma descompromissada e atingindo um público cada vez mais amplo, suas opiniões. Isso não é algo negativo, pelo contrário, é uma das coisas que mais me fascina no mundo virtual. Os comentários e opiniões resultantes dessa liberdade retratam, porém, uma realidade das mais preocupantes e que, para além do ambiente virtual, dizem muito sobre a nossa sociedade.
Se não há como discordar do fato de que ninguém é obrigado a conhecer razoavelmente um assunto qualquer, acho especialmente alarmante o número de pessoas que, sem se debruçarem um segundo sequer sobre temas polêmicos e delicadíssimos, expressam suas opiniões pré-moldadas com a desenvoltura de quem sabe realmente do que está falando. Pois bem: opiniões pré-moldadas existem em todos os espectros ideológicos e, para além do campo político propriamente dito, atingem inclusive campos do conhecimento técnico, como o direito, a medicina e a economia. Vou abordar, porém, durante esta coluna, apenas uma classe de comentários: os dos reacionários de sofá.
Os reacionários de sofá são aqueles que, preguiçosamente, no conforto de suas residências, absorvem passivamente as opiniões vociferadas pela grande mídia contra toda e qualquer posição política que possa implicar uma mudança positiva para um grupo com o qual ele não se identifica. Outras vezes, eles não precisam nem mesmo recorrer à mídia para terem uma opinião qualquer sobre um assunto com o qual ele não tem o mínimo de contato: basta recorrer aos preconceitos que lhe foram incutidos na infância.
São quase sempre individualistas, pois não conseguem cogitar a defesa de um interesse qualquer que não seja o seu próprio. Também gostam de pautar os seus discursos por alarmismos apocalípticos, derivando conseqüências genéricas gravíssimas de medidas que muitas vezes têm um escopo bastante restrito. Ressentem-se ferozmente de terem nascido no Brasil e odeiam os brasileiros, a quem, do sofá de suas casas ou da cadeira de suas escrivaninhas, taxam de passivos, indolentes, comodistas e estúpidos.
Pois bem: essa é uma pequena coletânea de conceitos caros a esse tipo de usuário das redes sociais que pretende ser uma modesta contribuição para estudos posteriores dessas mentalidades tão peculiares. Separei alguns verbetes sobre os quais nossos reacionários adoram opinar. Estou aberto a contribuições.
Atenção: as opiniões abaixo não retratam a opinião deste colunista. Na verdade, são o seu oposto.
Cotas Raciais – 1-Vão instaurar o racismo no Brasil. 2-Racismo contra brancos. 3- Tem que melhorar a educação pública. 4- Trabalhei para pagar o cursinho dos meus filhos e querem dar as vagas deles para quem não pagou. 5-São inúteis, pois o Brasil não é racista. 7- Sou contra, pois minha bisavó era negra e nasci branco. 8- E a igualdade, coméquifica? 9- Governo premiando a vagabundagem. 10- Meu vizinho é negro e é mais rico do que eu. 11. Meu cunhado é negro e trabalhou honestamente pra pagar o cursinho dos filhos.
Racismo – 1- Não existe no Brasil. 2- O racismo dos negros contra os brancos é maior do que o dos brancos contra negros. 3- Se eu andar com uma camisa escrita 100% branco eu vou preso. 4-Tenho vários amigos negros, mas [preencher com conclusão preconceituosa a sua escolha]. 5- Deveria ter o dia do Orgulho Branco. 6- Todo mundo protesta contra o racismo, mas ninguém protesta contra a corrupção.
Homossexualidade - (pronunciar “homossexualismo”)- 1 Doença que precisa de tratamento. 2- Falta de vergonha na cara. 3- Homossexuais querem ter mais direitos do que eu. 4- Abominação aos olhos de Deus. 5- Imoralidade. 6- Falta de “couro” na infância. 7- Homossexuais querem converter as crianças ao homossexualismo. 8 – Homossexuais são pedófilos. 9 – Eles querem ser respeitados, mas não se dão o respeito. 10-É por isso que o Brasil não vai pra frente.
Movimento gay- 1- Prega a promiscuidade. 2- Daqui a pouco vai ser proibido ser hetero. 3-  Quer acabar com a religião. 4- Quer acabar com a família. 5- Daqui a pouco não vou poder dizer aos meus filhos que é errado ser gay. 6- Sinônimo de ditadura gay. 7- Quer converter as crianças ao homossexualismo (sic). 8- Por que eles não lutam contra a corrupção? Lamentável! 10- É por isso que o Brasil não vai pra frente.
Feminismo - 1- Chamar de feminazis. 2- Preconceito contra homens. 3- E a igualdade, coméquifica? 4- Quer desestabilizar a família. 5- Falta de sexo. 6-Falta de louça pra lavar.7- Feministas são feias. 8-Feministas são lésbicas. 9- Não sou feminista, sou feminina. 10- Por que elas não lutam contra a corrupção? Lamentável.
Marcha das Vadias - 1-Dizem que são vadias e depois não querem ser estupradas. Absurdo! 2- Comeria todas elas. 3 – Só tem gorda mostrando os peitos. 4- Não se dão o respeito. 5- Não respeitam nossas crianças. 6- Querem arrumar um macho. 7- Falta de louça pra lavar. 8- Atrapalha o trânsito. 9- Deviam protestar contra a corrupção. 10- É por isso que o Brasil não vai pra frente.
Marcha da Maconha- 1-Querem drogar as nossas crianças. 2- Afronta à moral. 3-Bando de vagabundos. 4-Daqui a pouco vão vender crack na porta da igreja. 5- Polícia neles. 6-Atrapalha o trânsito. 7- Está tudo invertido. 8- Saudades da ditadura. 9- Falta de lote pra capinar. 10- Deviam protestar contra a corrupção.
Ditadura Militar – 1- Naquele tempo não existia corrupção. 2- Naquele tempo não existia maconha. 3-Naquele tempo não existia homossexualismo. 4- Naquele tempo não existia violência. 5- Naquele tempo as escolas eram de primeiro mundo. 6- É uma coisa boa, pois brasileiro não sabe votar. 7- Salvou o Brasil da ditadura comunista. 8- Poucas pessoas foram mortas e torturadas e quem foi morto ou torturado mereceu. 9- Saudades daquela época! 10- Todo mundo critica a ditadura no Brasil, mas ninguém critica Cuba. Lamentável!
Direitos Humanos – 1- Chamar de “direito dos manos” e se achar genial. 2- Direito dos vagabundos. 3- Direitos Humanos para humanos direitos. 4- Ninguém defende os direitos humanos das vítimas. 5- Defensor dos direitos humanos devia ter sua filha estuprada. 6- Está tudo invertido. 7- A culpa da violência é desse pessoal que defende os direitos humanos. 8- Um cidadão de bem não pode nem espancar e torturar um vagabundo que tentou roubar seu tablet. 9-Na época da ditadura não existia isso e era tudo muito melhor. 10- Ficam defendendo bandido, mas deviam lutar contra a corrupção. Acorda Brasil!
Povo Brasileiro- 1- Não gosta de trabalhar. 2- Não sabe votar. 3- Tem o governo que merece. 4- É ladrão. 5- Não tem cultura. 6- Só pensa em futebol, carnaval e cerveja. 6- É o povo brasileiro que estraga o Brasil. 7- Só sabe reclamar. 8- Mudei para Miami por causa do povinho que vive no Brasil. 9- Não tem moral. 10- Não luta contra a corrupção! Acorda Brasil!
Corrupção- 1- Culpa do brasileiro que não sabe votar. 2- Pena de morte para políticos corruptos. 3- Culpa do PT. 4- Não existia na época da ditadura. 5- Todos os brasileiros são corruptos (menos eu). 6- Não existe nos Estados Unidos. 7- Não existe na Europa. 8- Está tudo invertido. 9- Ninguém luta contra a corrupção. 10- Como todo mundo é corrupto e não sabe votar, ninguém tem o direito de reclamar da corrupção, pois o Brasil tem o governo que merece.E por ora encerro esse pequeno almanaque. Se essas são as suas opiniões, parabéns: você é um perfeito reacionário de sofá que, surfando no mais rasteiro senso comum, não contribui em nada para o avanço da discussão desses temas. Se não, você talvez pudesse pensar em adotar esses conceitos para você. É certeza de aplausos nos ambientes virtuais e vai te poupar muitas infindáveis discussões via facebook com outros reacionários de sofá que constituem, com certeza, o tipo mais teimosamente imune à argumentação da internet.
Se vocês se recusam a adotar os conceitos acima colocados, deixo para vocês uma dica: porque vocês não lutam contra a corrupção? ACORDA BRASIL!!!!
(brincadeira)
** Pedro Munhoz (@pedromunhoz5) advogado e historiador. Escreve no Bhaz às quartas-feiras.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Preconceito: Faustão terá que indenizar mulher por tê-la chamado de Gisele Bucho



Preconceito: Faustão terá que indenizar mulher por tê-la chamado de Gisele Bucho

Um trocadilho visto por uma consultora de moda como ofensivo obrigará Fausto Silva e a TV Globo a pagar a ela indenização de R$ 40 mil. A decisão foi divulgada na tarde desta segunda-feira (4) pela 7ª Câmara de Direito Privado do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), após a emissora perder seu recurso, o que ao menos reduziu o montante total inicialmente pedido pela autora da ação.
A consultora Ana Lucia Zambon abriu o processo após ter tido sua imagem exibida sem autorização no Domingão do Faustão, ocasião em que o apresentador fez graça ao compará-la com Gisele Bündchen e chamá-la de "Gisele Bucho". A autora alegou ter se sentido humilhada com o comentário, motivo pelo qual entrou com a ação indenizatória.

Jornal do Brasil
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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Preconceito no 'Brasil urgente' - A discriminação autorizada pelo Estado

Preconceito no 'Brasil urgente' - A discriminação autorizada pelo Estado


Jornal do Brasil

Desde a última segunda-feira (21/05), usuários de redes sociais de TV atacaram ferozmente a repórter Mirella Cunha, responsável pela deplorável entrevista de um acusado de estupro. O motivo da revolta é justo. Em pouco mais de três minutos, a jornalista do Brasil Urgente traz o jovem negro às lágrimas ao acusá-lo inúmeras vezes de estupro e caçoar da sua ignorância a respeito do exame de corpo de delito.
Apesar de ter sido republicada por vários comentaristas na internet, a revolta nasceu no blog de Renato Rovai, editor da revista Fórum. Desde que o jornalista apontou os erros grosseiros da atuação de Mirella, tanto a repórter quanto a Rede Bandeirantes foram alvo de críticas. A emissora, inclusive, se comprometeu a tomar “medidas disciplinares necessárias” com os profissionais envolvidos.
O problema é que um detalhe fundamental tem escapado aos críticos: o desleixo do poder público. Todo aquele show de preconceito e ignorância protagonizado por Mirella Cunha aconteceu dentro de uma delegacia. Dentro de uma repartição pública erguida com o meu e com o seu dinheiro. Um local criado para proteger o meu e o seu direito, não para servir de palco para um bizarro espetáculo de uma corporação privada.
O caso de “Paulo”, o jovem acusado de estupro, foi o mais emblemático. No entanto, vale lembrar que o Brasil Urgente oferece abordagens deste gênero diariamente em todo o país. Uma rápida busca no YouTube revela uma série de réus que se tornaram atrações de circo graças às entrevistas da Rede Bandeirantes. Algumas mostram sérios indícios de problemas neurológicos, o que não impediu a emissora de divulgá-los amplamente. Muito pelo contrário. Fomentado pela popularidade dos freak shows, estes profissionais procuram justamente isso: humilhação pública, humor rasteiro, desrespeito aos cidadãos, atrações escatológicas oriundas de tragédias pessoais.
E tudo isso, relembrando, dentro de uma repartição pública. Esse detalhe, que ainda não foi alvo de críticas, é o que dá mais requintes de crueldade à entrevista de Mirella Cunha: tudo foi chancelado pelo poder público. Em última instância, esse preconceito cruel foi incorporado e referendado pelo próprio Estado. Tudo foi assistido de perto por agentes públicos, que nada fizeram para proteger a integridade de um réu que estava sob a tutela do Estado.
Dificilmente, alguma providência concreta será tomada quanto à atuação do programa na abordagem de acusados em delegacias. Sob o falso pretexto de que a atividade policial é de interesse público e a imprensa não pode deixar de acompanhá-la, é bem provável que Paulos e Mirellas se encontrem mais algumas vezes pelo país.
Mas fica a pergunta: onde estava o Brasil Urgente quando Thor de Oliveira Fuhrken Batista prestou depoimento? Nada contra o primogênito de Eike Batista, cujo caso merece atenção e ainda está longe de chegar ao fim. A diferença é que Thor ainda vai ser julgado. Já “Paulo”, pelo que tudo indica, foi condenado desde que veio ao mundo.

*Jorge Lourenço, jornalista, é quem assina a coluna Informe JB.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Demóstenes, o STF e a legalidade das cotas raciais

Demóstenes, o STF e a legalidade das cotas raciais 


No Blog do Sakamoto



O Supremo Tribunal Federal deve julgar, nesta quarta (25), se as cotas raciais para reserva de vagas em universidades públicas são constitucionais. Uma das ações contrárias foi movida pelo DEM em 2009, pedindo sua suspensão na Universidade de Brasília. Segundo o partido político, esse tipo de reserva de vaga fere a dignidade e afeta o próprio combate à discriminação e ao preconceito.
Toda a vez que trato da questão da desigualdade social e do preconceito que os negros e negras sofrem no Brasil (herança cotidianamente reafirmada de um 13 de maio de 1888 que significou mais uma mudança na metodologia de exploração da força de trabalho do que uma abolição de fato, pois não garantiu as bases para a autonomia real dos ex-escravos e seus descendentes) sou linchado. Até porque, como todos sabemos, o brasileiro não é racista (suspiro…)
Bem, resumindo o que estou querendo dizer com um discurso de descontente com as cotas que ouvi tempos atrás: “Vê se me entende que eu vou explicar uma vez só. A política de cotas é perigosa e ruim para os próprios negros, pois passarão a se sentir discriminados na sociedade – fato que não ocorre hoje. Além disso, com as cotas, estará ameaçado o princípio de que todos são iguais perante a lei, o que temos conseguido cumprir, apesar das adversidades”.
E relembrar é viver.
Durante audiência no Supremo Tribunal Federal para discutir o sistema de cotas em universidades públicas em março de 2010, o senador Demóstenes Torres (então pertencente ao DEM-GO) usou da palavra para destilar todo o seu profundo conhecimento sobre a história do Brasil. Quem ouviu seu discurso saiu com a impressão de que aprendeu várias coisas novas. Que os africanos eram os principais responsáveis pelo tráfico transatlântico de escravos. Que escravas negras não foram violentadas pelos patrões brancos, afinal de contas “isso se deu de forma muito mais consensual” o que “levou o Brasil a ter hoje essa magnífica configuração social” de hoje. Que no dia seguinte à sua libertação, os escravos “eram cidadãos como outro qualquer, com todos os direitos políticos e o mesmo grau de elegibilidade” – mesmo sem nenhuma política de inserção aplicada. Com tudo isso, o nobre senador deu a entender que os negros foram os reais culpados pela escravidão no Brasil. E, a partir disso, compreende-se que são os culpados por sua situação econômica hoje e qualquer forma de discriminação contra eles.
A posição do senador é compreensível, se considerarmos que o discurso feito não foi um ataque à reserva de vagas para negros e afrodescendentes e sim uma defesa da elite política e econômica que controlou a escravidão no país e que, com algumas mudanças e adaptações, desembocou em setores do seu próprio partido.
Em meados do século 19, com o fim do tráfico transatlântico de escravos, a propriedade legal sob seres humanos estava com os dias contados. Em questão de anos, centenas de milhares de pessoas estariam livres para ocupar terras virgens – que o país tinha de sobra – e produzir para si próprios em um sistema possivelmente de campesinato. Quem trabalharia para as fazendas? Como garantir mão-de-obra após a abolição?
Vislumbrando que, mantida a estrutura fundiária do país, o final da escravidão poderia representar um colapso dos grandes produtores rurais, o governo brasileiro criou meios para garantir que poucos mantivessem acesso aos meios de produção. A Lei de Terras foi aprovada poucas semanas após a extinção do tráfico de escravos, em 1850, e criou mecanismos para a regularização fundiária. As terras devolutas passaram para as mãos do Estado, que passaria a vendê-las e não doá-las como era feito até então.
O custo da terra começou a existir, mas não era significativo para os então fazendeiros, que dispunham de recursos para a ampliação de seus domínios. Porém, era o suficiente para deixar ex-escravos e pobres de fora do processo legal. Ou seja, mantinha a força de trabalho à disposição do serviço de quem tinha dinheiro e poder.
Para além dos efeitos da Lei Áurea, que esta prestes a completar 124 anos em maio, trabalhadores brasileiros ainda são subdivididos em classes. Ou castas. O homem branco ganha mais do que o homem negro pela mesma função, seja pelas diferenças de oportunidades que os dois tiveram acesso, seja por puro preconceito. Se compararmos então com as mulheres negras, a sensação de vergonha de ser brasileiro aflora de vez. Mudaram-se os rótulos, ficaram as garrafas.
O Brasil não foi capaz de garantir que os libertos fossem tratados com o respeito que seres humanos e cidadãos mereciam, no campo ou na cidade. Herança maldita disseminada na sociedade. E alimentada por discursos como o de Demóstenes Torres. Ou pela falta de políticas afirmativas.
Antes de tratar todos com igualdade, como pedem desesperadoramente alguns, é preciso tratar os desiguais de forma desigual através de ações afirmativas. Só assim, poderemos sonhar – um dia – em que negros e brancos, homens e mulheres, não se sintam como se tivessem vindo com a roupa errada para a festa.

domingo, 22 de abril de 2012

Uma porrada nas fuças do preconceito: viva Tiririca!


Uma porrada nas fuças do preconceito: viva Tiririca!


No O Ornitorrinco



O Serviço de Alto Falantes Ornitorrinco (SAFO) cumprimenta os presentes nesta grandiosa quermesse em louvor de Nossa Senhora do Preconceito e, em face das reiteradas manifestações que tentam transformar Tiririca numa espécie de símbolo de tudo aquilo que não presta na política brasileira, informa que rápida pesquisa no site da Câmara Federal desmonta de vez a falsa imagem que muita gente cultiva deste brasileiro digno. Duvidam?
Pois eis um resumo do trabalho parlamentar de Tiririca, autêntico artista popular e, para mim além de qualquer dúvida, um deputado que honra cada voto que recebeu.
Recebam nas fuças, portanto, esta porrada merecida contra o preconceito.
1. Em 27/03/2012: Sugere ao Poder Executivo, que o Ministério da Cultura (MinC), por intermédio do Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM), viabilize a criação da Seção do Circo no Museu da Diversidade Cultural do "Programa Esplanada dos Museus".

2.Em 27/3/2012: Sugere ao Poder Executivo equiparar o trailer e o motor home à residência popular, no âmbito do Programa Minha Casa, Minha Vida (PMCMV).

3. Em 27/3/2012: Projeto de Lei que concede isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre veículos de utilização nas atividades circenses, na forma que estabelece.

4. Em 27/3/2012: Projeto de Lei que altera a Lei nº 6.533, de 24 de maio de 1978, que "Dispõe sobre a regulamentação das profissões de Artistas e de Técnico em Espetáculos de Diversões, e dá outras providências". Explicação: Garante aos filhos de artistas de circo, na faixa etária de 4 a 17 anos, cuja atividade seja itinerante, vaga nas escolas pública ou particulares.
5.Em 27/3/2012: Projeto de Lei que institui o Diploma Amigo do Circo.
6.Em 29/6/2011: Projeto de Lei que institui o Cultura Viva - Programa Nacional de Cultura, Educação e Cidadania, estabelece normas para seu funcionamento, e dá outras providências.
7. Em 7/6/2011: Sugere ao Ministro da Educação, a apuração pelos instrumentos estatísticos do MEC, de dados referentes às crianças de circo e respectivos educadores, além da garantia de distribuição de material didático a esta clientela.
8. Em 6/7/2011: Projeto de Lei (com outros deputados) que institui a Política Nacional Griô, para proteção e fomento à transmissão dos saberes e fazeres de tradição oral.
9. Em 7/6/2011: Projeto de Lei que altera a Lei nº 10.753, de 30 de outubro de 2003, que institui a Política Nacional do Livro, para dispor sobre a criação do Vale-Livro.
10.Em 7/6/2011: Projeto de Lei que autoriza a União a instituir o Programa Bolsa-Alfabetização para analfabetos com idade superior a 18 anos, matriculados na rede oficial de ensino, pelo período de seis meses.
11. Em 7/6/2011: Projeto de Lei que altera o art. 23 da Lei nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, que dispõe sobre a organização da assistência social, e dá outras providências, para prever a criação de programas de amparo às pessoas e famílias que exercem atividades circenses e de diversões itinerantes.
12. Em 21/9/2011: Requer a realização de Audiência Pública para debater a concessão de alvarás para a instalação de circos nas cidades brasileiras.
13. Em 9/8/2011: Solicita informações ao Senhor Ministro de Estado da Educação acerca dos programas suplementares de atendimento aos educandos, previstos no art. 208, VII, da Constituição Federal.
14.Em 9/8/2011: Solicita ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão informações sobre dados estatísticos relacionados à atividade circense.
15. Em 12/7/2011: Solicita informações à Sra. Ministra da Cultura acerca da não inclusão de atividades circenses na programação do Festival Europalia, edição de 2011.
16. Em 7/6/2011: Solicita ao Ministro da Educação informações acerca de aspectos envolvendo a educação e as artes e atividades circenses.
17. Em 7/6/2011: Solicita informações à Sra. Ana de Hollanda - Ministra da Cultura - acerca dos programas, ações de amparo e incentivo à atividade circense desenvolvidos pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) e pelo Ministério da Cultura.