quinta-feira, 29 de março de 2012

'Sempre me pergunto o que leva leitores que se julgam espertos a serem tão bobos? Alguém diz "lua crescente" e eles desandam a falar de "Lula presidente"'

'Sempre me pergunto o que leva leitores que se julgam espertos a serem tão bobos? Alguém diz "lua crescente" e eles desandam a falar de "Lula presidente"'


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Sírio Possenti  no TerraMagazine


A coluna da semana passada foi elogiada "ilegalmente" por leitores que acharam que "defendi a língua" e a boa redação etc. Acho que não viram o final, quando disse com todas as letras que caçar erros (que foi o que fiz) é pobre e chato.
Normalmente, e sem discutir as posições políticas dos leitores e suas leituras estranhas (há leitores normais, claro, e não é deles que falo hoje), que nem mesmo Freud conseguiria explicar com sua teoria da associação livre, eu teria tentado mostrar que a escrita dos leitores pode ser defendida facilmente.
Por exemplo, a falta de acentuação gráfica provavelmente se deve ao tipo de teclado em que o texto foi digitado, e não representa nenhum problema de leitura (o que até mostra que poderiam cair todos em alguma reforma, pois não fariam falta). E escrever "pra" é absolutamente normal; era uma conversa informal. "Critiquei" uma vírgula entre sujeito e verbo, mas há boas razões para vírgulas nessa posição. Até sugeri à leitora que lesse sobre tópico e comentário, coisa que ajudaria muito.
Venho dizendo que deveriam preocupar-se com outras coisas, que são muito mais interessantes e sofisticadas (eles se preocupam muito com questões que sugerem pobreza mental). Se lerem mais sobre as línguas humanas, se lerem um pouco de história da nossa, se puderem comparar duas línguas, pelo menos, ou olhar com inteligência para a fala popular, descobrirão fatos muito interessantes. E se lerem algum texto dos séculos XVI ou XVII em português, especialmente documentos administrativos, que não foram editados, verão que muitas daquelas construções foram posteriormente substituídas pelas "erradas", que hoje são consideradas corretas. Um olhar histórico relativiza o fanatismo pela gramática, que é, aliás, um fanatismo de fachada, porque seus defensores em geral não a seguem (é como se fossem contra a bebida e bebessem).
Aliás, se lerem uma gramática inteira, ficarão frustrados. Verão que as regras que aprenderam que devem ser seguidas não são as das gramáticas, mas decorrem da sua compilação em pequenos manuais, que não passam de quebra-galhos circunstanciais ou profissionais.
Consultar bons dicionários produz o mesmo resultado. Por exemplo, registram a regência indireta de "namorar" (namorar com), que é condenada naqueles manuais fajutos, registram a forma popular menos (popular, não errada, porque sempre precede palavras femininas) e a forma presidenta (o que fazem também as boas gramáticas). O leitor pode descobrir, chateado, que a forma é antiga e não foi inventada pela Dilma ou pela Marta.
(Aqui, faço uma previsão: muita gente não consegue ver o nome "Dilma" sem logo falar de política; mas estou discutindo língua, não política. Por que prevejo que isso vai ocorrer? É que na coluna passada, assumindo uma persona fantasiosa, critiquei os erros de Lula - disse que um leitor cometeu mais erros que Lula, o que implica dizer que Lula errava. Mas os leitores não se conformaram; fundamentados em sua fabulosa cultura linguística, começaram a navegar também por questões políticas, movidos sabe Deus por quais razões. Aliás, eles se mostravam também "cultíssimos" em questões políticas. Os erros factuais eram grosseiros. Uma leitora atribuiu a eleição do Lula à bolsa família, sem levar em conta que a primeira eleição foi anterior ao programa e que a segunda não poderia ser decidida pelos beneficiados pelo auxílio, porque estes não somam dez milhões de votos e Lula recebeu mais de 40 milhões. Além de "não saber escrever", ela não sabe contar até oito... Discorde dele, ou de mim, critique, mas não diga essas grossas besteiras.
Só faltou falarem do Corinthians ou do Zagalo. Sempre me pergunto o que leva leitores que se julgam espertos a serem tão bobos quando leem ou discutem um tema (cartas de leitores em jornais e os comentários na "internet" são um show de horrores, com poucas exceções). Não percebem qual é o assunto de que trata o texto? Alguém diz "lua crescente" e eles desandam a falar de "Lula presidente".

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