quarta-feira, 18 de abril de 2012

Inspiração de ativistas, chargista brasileiro ganha crítica de governo do Bahrein e pede à F1 respeito




Inspiração de ativistas, chargista brasileiro ganha crítica de governo do Bahrein e pede à F1 respeito




VICTOR MARTINS [@vitonez]
de São Paulo
São quase 11.400 km de distância até Manama, mas Carlos Latuff consegue ser peça relevante nos protestos que se seguem há mais de um ano no Bahrein, evidenciados agora por conta do GP que vai, ou deve, acontecer neste fim de semana. Cartunista da imprensa sindical do Rio de Janeiro, Latuff, 43, engajou-se aos ativistas árabes desde os primeiros movimentos da Primavera que tenta derrubar ditaduras e monarquias naquela região do mundo. Seus desenhos chegaram ao conhecimento dos governos pela internet, a ponto de a coroa barenita, por exemplo, criticá-lo via Twitter. “Certamente sou persona non grata em todos estes países”, declarou nesta terça-feira (17) ao Grande Prêmio.
Certamente. Porque alguns destes grafites que são vistos nas paredes de Manama e região e outros desenhos que pedem o boicote urgente à F1 são de sua autoria — foram, inclusive, foto de capa do Grande Prêmio nos últimos dias. Latuff tem um blog em que expõe seus traços. Num deles, traz o desdém de Bernie Ecclestone à grita dos sunitas rebeldes com um maço de dólares enrolado e grudado ao ouvido. “Que protestos no Bahrein? Não posso escutar nada”, diz a charge. Em outro, monta o grid da corrida com carros de polícia. Fora da F1, os manifestantes também se aproveitaram das artes referentes a Abdulhadi Al-Khawaja, ativista há mais de dois meses em greve de fome, preso pela polícia local.

O desenho de Latuff virou grafite no Bahrein (Foto: AP)
A ligação com o mundo árabe se iniciou há 13 anos. “Em 1999, uma ONG de Ramallah me convidou para conhecer a Palestina. Eu fiquei 15 dias lá, e desde então expresso nos meus desenhos a realidade do Oriente Médio”, contou Latuff, esquerdista. Serviu de inspiração no Rio de Janeiro para egípcios, tunisianos, sírios, líbios e iemenitas, sempre através da grande rede. “Os manifestantes do Egito viam minhas charges, usavam, espalhavam pelo Twitter, e daí começou uma reação em cadeia que se expandiu para os demais países”, explicou. “Nos anos 80, isso seria diferente porque só chegaria ao conhecimento do mundo se fosse através de uma ‘Time’ ou de uma ‘Newsweek’, porque ninguém da grande imprensa, muito menos dos jornais do Golfo ou do Oriente Médio daria”, completou Carlos, debruçando-se nas graças do microblog. “Eu tenho mais de 86 mil seguidores, e todo dia aumenta muito. O sucesso se dá porque tem algo a mais das visões dos jornais.”
A posição de Latuff o colocaria facilmente como ativista propriamente dito. “Com certeza eu estaria nas ruas neste momento, mas minha chance de conseguir entrar no Bahrein é zero”. No último dia 15, a Autoridade de Relações Internacionais do país dos Al-Khalifa criticou o trabalho de Carlos pelo Twitter.
“Nós no IAA (Information Affairs Authority, no original) tomamos conhecimento de seus desenhos. Apesar de apoiarmos a liberdade de expressão, seus desenhos extrapolaram os limites da expressão com acusações sem base e retratos desequilibrados dos acontecimentos no Bahrein. Suas charges incluem erros jornalísticos e factuais sérios, e nós pedimos que você reflita a integridade jornalística em suas artes”.
“Nunca que eu conseguiria entrar no Bahrein”, admitiu. “Eu seria taxado de espião, como membro de uma conspiração. E minhas charges têm significado porque são instrumento de luta destes ativistas, transcendem uma questão meramente editorial”, completou Latuff, cujos desenhos foram tema de reportagens do ‘The Guardian’ e da BBC, ambos ingleses. “Aqui no Brasil, ninguém se preocupou com meu trabalho”, queixou-se.
Pouco afeito ao mundo da F1, natural que as críticas também sobrassem ao comandante da categoria e a entidade que rege o esporte. “A F1 em si não tem culpa do que está acontecendo. Mas a FIA e Bernie Ecclestone poderiam ter sensibilidade com a situação. Só que isso é como pedir para que o macaco não coma banana”, comparou. “Bernie está cagando e andando para o que está acontecendo por ser um playboy que está preocupado com o dinheiro. Ele não entende que a F1 no Bahrein tem uma questão política e que o rei Hamad quer usá-la para passar uma imagem de normalidade e de controle, que não existem. E não sou eu quem está dizendo isso, é o relatório da Anistia Internacional.”
Mas Latuff salientou que a categoria até tem um papel relevante na história. “A F1 até cumpre uma agenda importante porque todo mundo agora sabe o que está acontecendo”, disse. “Todos estão vendo o quanto este regime do rei Hamad é filho da puta, um regime que não tem respeito pelos direitos humanos”, e Carlos mencionou a destruição da Praça da Pérola para que os manifestantes não mais se reunissem lá. Para o desenhista, a F1 vai acabar acontecendo naquelas terras porque “o rei vai colocar até o último policial” para proteger. “Ele vai usar todos os homens do exército e da marinha para garantir a corrida e reprimir os ativistas”, falou. “Porque é coisa de cachorro grande. Para alguém como Bernie, que se encontra com chefes de estados, e o rei, tudo se resolve na base do dinheiro.”



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