Nem todo mundo quer transar
Por Rachel Rabbit White
Sexo. Está em toda parte – outdoors, revistas e enredos de filmes. Mesmo assim, tem muita gente que prefere pensar em outra coisa que não a própria genitália. Na maior parte do tempo, inclusive! Então por que não se fala do quanto não queremos fazer sexo? Admita: às vezes – talvez até com bastante frequência – você não está a fim.
Num artigo para a revista The Atlantic, a jornalista Rachel Hills se debruça sobre o tema da assexualidade. Estima-se que 1% da população seja assexual, ou seja, não têm interesse em fazer sexo, e sentem pouca ou nenhuma atração sexual. A assexualidade, além de ser uma orientação sexual, tornou-se também um movimento. O artigo trata de David Jay, que não inventou a assexualidade, mas que de certa forma acabou se tornando o líder do movimento.
A jornalista escreve:
“Jay lançou em 2001 a Rede de Visibilidade e Educação sobre a Assexualidade (Asexual Visibility and Education Network, AVEN, em inglês), uma comunidade online dedicada a aumentar a conscientização acerca da assexualidade e apoiar pessoas que se identifiquem como assexuais. Ele tinha 18 anos e estava no primeiro ano da faculdade quando criou a organização. ‘Eu tinha passado os quatro últimos anos lutando para perceber que eu era normal, e não queria que outras pessoas assexuais tivessem de perceber a mesma coisa’, ele diz. ‘O site logo se tornou um lugar de união e libertação, primeiro para alguns, e depois para dezenas de milhares de pessoas que se sentiam alienadas do conteúdo sexual que permeia a nossa cultura’”.
Acho ainda mais interessantes os “graysexuals” [pessoas que não se definem como assexuais ou sexuais, encaixando-se num “zona cinzenta”, ou “gray”, em inglês], sobre os quais se fala bem menos. Eles são como borboletas, voando ora para o lado dos assexuais, ora para o das pessoas sexuais. Eles são tipo os bissexuais do movimento assexual.
Entrevistei alguns “graysexuals” no ano passado, para uma matéria para o site The Frisky. Falamos sobre como a cultura feminista e sexualizada não representou uma melhora na vida sexual. Pessoas sexuais não necessariamente gostam e aprovam o uso do sexo na mídia. Uma vez que a sexualidade é baseada em ideias como “sexo é bom e natural”, ficar vendo imagens sexuais pode levar à glamourização de algo que, vamos e venhamos, não é assim tão glamouroso.
“Dizem que temos de ser senhores de nosso desejo; eu digo que temos de ser senhores de nossa falta de desejo”, disse Belinda, que se identifica como “graysexual”. Elizabeth, outra “graysexual”, concorda: “A ideia de que sexo é natural e bonito, e de que todo mundo deveria querer transar, é limitada. Sexo nem sempre é bonito – às vezes é – mas também pode ser horrível”.
Se juntarmos esses aforismos sobre o sexo com uma cultura de massa que glorifica o ato sexual (mas não educa a respeito), isso resulta numa histeria em torno do assunto: há pressão para que sejamos sexuais – ou abertos a fazer sexo – o tempo todo, e isso limita tanto quanto não saber se expressar sexualmente ou querer reabilitar uma palavra como “vadia”.
Com David Jay indo a vários talk shows e até sendo tema de um documentário, intitulado “(A)sexual”, parece que o discurso sobre o assunto está começando a mudar. Já vemos alguns educadores se distanciando de uma educação “pró-sexo” e indo em direção a algo mais abrangente.
A jornalista Rachel Hills parece estar notando isso também, mas faz questão de ser realista:
“Numa entrevista para o The Guardian, Jay sugeriu que o movimento assexual pode estar passando por uma ‘terceira fase’: da conscientização e mobilização para a expansão do que geralmente concebemos como desejo sexual ou vida sexual ‘normais’. No entanto, a enxurrada de comentários pejorativos e céticos que surge sempre que esse assunto aparece na mídia deixa claro que ainda não se alcançou um debate de alto nível”. Hills acusa pessoas como o jornalista Dan Savage de estimular o preconceito à assexualidade – ele aparece no documentário “(A)sexual” como um tipo de advogado do diabo. Nele, Savage declara que, quando uma pessoa não quer fazer sexo, é porque deve estar reprimindo alguma coisa.
Jay ressalta com frequência em suas entrevistas que as pessoas acham a assexualidade estranha porque tratam intimidade e sexo como sinônimos. Ele diz que “na nossa cultura, sexo e intimidade vêm sempre juntos. Quando eu digo ‘não tenho desejo de fazer sexo’, eles acham que é o mesmo que dizer ‘não tenho desejo por intimidade’, o que soa muito estranho. O desejo de se conectar a alguém é uma parte muito importante do que nos faz humanos, e é difícil imaginar alguém que não queira isso. Mas o sexo em si é só uma atividade física, e é fácil pensar que existam pessoas que não gostam tanto disso se tirarmos todo o simbolismo da equação”.
Um debate abrangente do que é sexo serve para entendermos o que ele é de fato (não só pênis na vagina, mas parte do corpo + parte do corpo = prazer). No entanto, se nós também ampliarmos nossa compreensão do que é intimidade – não a definindo apenas como sinônimo de sexo, mas também outras coisas – talvez se desenhe um novo cenário, em que percebamos que não precisamos necessariamente transar quando queremos intimidade. Pode ser que nesse cenário sejam permitidas mais áreas cinzentas em relação a como compreendemos o desejo sexual.
Tradução: Patricia Fincatti
Foto: Jezebel/Dmitry Melnikov/Shutterstock
Foto: Jezebel/Dmitry Melnikov/Shutterstock
No Jezebel
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