terça-feira, 22 de maio de 2012

Cachoeira vai usar o silêncio como chefão mafioso

Cachoeira vai usar o silêncio como chefão mafioso


Wálter Fanganiello Maierovitch

Bernardo Provenzano, capo dei capi da Cosa Nostra siciliana
Cachoeira apostava todas as suas ficham no acolhimento do seu pedido de adiamento de comparecimento, para depor como investigado, à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI).
A propósito, a defesa de Cachoeira  invocou, na segunda tentativa de adiamento,  a Súmula vinculante do Supremo Tribunal Federal (STF), consagrada no verbete: “Súmula 14.É direito do defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa”.
Como o pedido liminar de Cachoeira não foi acolhido pelo ministro Celso de Mellodeu, o investigado, contraventor e chefão de potente organização criminosa, — diante da  zebra—, vai utilizar o “plano B”. Este, baseado no velho princípio do direito romano “nemo tenetur se detegere”, ou seja, ninguém está obrigado a se auto-acusar: compete à acusação o ônus da prova dos ilicitos imputados. Assim, Cachoeira já avisou, pelo boca do seu advogado Márcio Thomaz Bastos, que permanecerá em silêncio.
Cachoeira, como sabem todos os torcedores do Flamengo e do Corinthians, comanda uma organização criminosa que se infiltrou no Estado nacional e obteve indevidas vantagens econômicas-financeiras. Além de cooptar o senador Demóstenes Torres e deputados, o capo Cachoeira estabeleceu parcerias com a Construtora Delta, detentora da maior fátia de empreitagem de obras e serviços públicos. São suspeitos de participação nos “esquemas delinquenciais” de Cachoeira, os governadores de Goiás, Distrito Federal e Rio de Janeiro.
Cachoeira, ao anunciar que permanecerá em silêncio e dada a sua condição de chefão de organização criminosa potente e poderosa, veste definitivamente panos mafiosos.
Como todo chefão mafioso, Cachoeira, no interrogatório, vai calar sobre os ilícitos. Mas, vai justificar a razão do silêncio (não ter tido tempo para conhecer os documentos e nem para manter interlocução com os advogados).
Na verdade, Cachoeira apenas vai dizer o que lhe interessa e passará mensagens aos seus cúmplices. Trocando em miúdos, será um silêncio interesseiro, não absoluto.
Não vai perder a oportunidade, frise-se, para transmitir recados, como sempre fizeram os grandes chefões da Cosa Nostra, tanto a norte-americana, quanto a siciliana. 
Bernardo Provenzano, — capo dei capi da Cosa Nostra depois da prisão de Totó Riina—, foi interrogado, logo depois da prisão ocorrida em 11 de abril de 2006, pelo procurador nacional Antimáfia, Pietro Grasso. 
Provenzano, logo depois da primeira pergunta (“o senhor quer colaborar com a Justiça?”), olhou firme para Grasso e disse: “o senhor (tem significado pejorativo no jargão mafioso) continue a fazer o seu papel de  esbirro e eu farei o meu de mafioso”. Depois disso, mergulho num profundo silêncio, que dura desde 11 de abril de 2006, data da prisão. A propósito, Provenzano, sem nunca ter tirado o pé da Sicilia e nem deixado de participar da organização mafiosa, permaneceu foragido por 43 anos.
Pano rápido. Cachoeira vai tentar tirar algum proveito da sua aparição na CPMI que, até agora, não apurou nada  que não estivesse nos inquéritos Vegas (engavetado pelo procurador Gurgel durante anos e apesar de o Código de Processo Penal estabelecer a ele o prazo de 15 dias para manifestção) e Monte Carlo. 

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