Desde que o mundo é mundo,
o domínio de uns poucos sobre muitos – ou, se quiserem, das elites sobre o povo
-, ou se dá na base da repressão , com violência explícita que sufoca o corpo e
a alma dos cidadãos – ou se constrói com dissimulações que pretendem contagiar,
com o subliminar, os corações e as mentes.
Esse
segundo papel é desempenhado pelas grandes mídias de todos os países e, entre
nós, tem seu maior representante nas empresas “globais”, que aqui trago como
exemplo não porque não goste delas – o que, confesso, é verdade – mas porque
ainda ocupam posição hegemônica junto ao “povão”, o que é bem claro no caso da
TV aberta. E é óbvio que não estou falando de sustentação governamental, mas de
um poder de classe, que transcende governos, porque encarna uma ideologia que a
história mostra que jamais esteve a serviço do nosso povo.
Se
tivermos paciência de, ao menos um dia, assumirmos o sacrifício de nos
colocarmos como expectadores da “Vênus platinada”, perceberemos claramente que
ela – porque vem perdendo seu público das classes “A” e “B” para a internet –
assumiu a postura de pegar carona na ascensão da chamada “nova classe média”
que, ironicamente, lhe foi oferecida pelo projeto social dos últimos governos,
que os globais detestam... Até aí nada demais. Faz parte de um mundo onde
lucro, mercado, oportunidade (ou oportunismo, como queiram) são palavras
recorrentes. Essa é apenas mais uma corporação a querer a sua fatia desse bolo
que envolve o poder e o que dele decorre.
O
problema é que, a partir da constatação desse “nicho de mercado”, a impressão é
de que se tenta reproduzir uma ideologia de componente preconceituoso a
respeito do novo “público-alvo”, que parece ser visto como um conjunto de
pessoas suscetíveis apenas de dar e receber o rasteiro, o vulgar, a baixaria.
Pessoas a quem somente interessaria o superficial, o trivial, presas fáceis de
modas e modismos, vírus que o quartel-general midiático sabe muito bem
inocular. Misturando-se “caldeirões” e “faustões” em uma “zorra total” em que
não falta lugar para “instrutivos e fascinantes” temas para “Encontros/ Na
Moral”, como a histeria pela “mulher-melão”, a discussão sobre troca de casais
e coisas do gênero, parece haver aí uma intencionalidade, cujo carro-chefe está
nas novelas pretensamente ambientadas nos redutos “populares”, entre elas a
“Avenida Brasil” , que hoje mobiliza o público noveleiro do país. E, no caso,
importa pouco saber que milhões de brasileiros “se divertem” com a trama. Há
uma grande discussão, não resolvida, sobre se a mídia “faz o que o povo quer”
ou “faz o povo querer”...
Nunca
houve uma enxurrada tão grande de novelas com personagens “do povo”: empregadas
domésticas, balconistas, serventes, bombeiros, jogadores de futebol etc. Isso
seria digno de aplausos se não colocasse o “povão” como ator e receptor de um
permanente espetáculo circense, encobrindo-se suas justas revoltas e a procura
de seus legítimos interesses. Porque esses personagens são mostrados ora como
caricaturas risíveis, ora como individualidades predestinadas à fortuna pelos
deuses da loteria ou da fama repentina que o sistema propiciaria, mas quase
nunca como seres sufocados pelos verdadeiros embates diários que caracterizam
uma sociedade desigual e perversa como a nossa.
Na
ambiência de um falso lixão “glamourizado” ou no reduto do subúrbio carioca, a
uma vilã irreal de incomensurável grau de mesquinhez e falsidade corresponde
uma “mocinha” cuja vingança beira o sadismo, com dois heróis permanentemente
enganados, cuja fraqueza não enxerga o óbvio. Um homem rico que desfruta e é
desfrutável por três esposas condescendentes , um outro que tipifica o rufião
cujo único valor é o dinheiro, uma jovem que encarna o chamado “objeto sexual”,
empaticamente apresentada como alguém que goza de “liberdade”, homens e
mulheres que trocam de amores como de roupa, jovens que não estudam (jogam
bola) , crianças que são “salvas” em um lixão, todos esses personagens – e
outros que é cansativo enumerar - compõem uma dramaturgia duvidosa , um enredo
de soluções fáceis, que desenrola (ou enrola) a história , sempre com o auxílio
de alguém que, nos momentos complicados, escuta através das paredes ou atrás
das portas...
Nas
últimas semanas, a Globo vem colocando seu foco em dois assuntos: um óbvio – o
julgamento do STF – e outro, mais sutil, que é a “preocupação” com os rumos da
Educação no país, promovendo levantamentos e buscando mostrar mais derrotas que
vitórias. Na minha opinião, isso é parte da estratégia dos neoliberais contra o
ex-ministro da Educação, candidato em São Paulo. Mas, admitindo-se que é sério
o interesse global, não custa contribuir, lembrando que a Educação tem várias
faces e não se faz só dentro das escolas: ela é mais ampla, passando,
inclusive, pela família e pelos órgãos midiáticos, com suas responsabilidades
sociais. A grade programática das emissoras abertas no Brasil – todas
concessões do poder público - seguramente não ajuda em nada no processo de
educação do povo. É, pelo contrário, instrumento que estimula a perpetuação do
embrutecimento geral.
Ah !
Ia esquecendo de mencionar – e seria falha imperdoável – o “eu quero tchu, eu
quero tcha” e o kuduro “oi oi oi” , pérolas do nosso cancioneiro, que vêm
embalando as noites dos brasileiros.
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