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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Avenida Brasil: um caminho duvidoso

Avenida Brasil: um caminho duvidoso



Desde que o mundo é mundo, o domínio de uns poucos sobre muitos – ou, se quiserem, das elites sobre o povo -, ou se dá na base da repressão , com violência explícita que sufoca o corpo e a alma dos cidadãos – ou se constrói com dissimulações que pretendem contagiar, com o subliminar, os corações e as mentes.
Esse segundo papel é desempenhado pelas grandes mídias de todos os países e, entre nós, tem seu maior representante nas empresas “globais”, que aqui trago como exemplo não porque não goste delas – o que, confesso, é verdade – mas porque ainda ocupam posição hegemônica junto ao “povão”, o que é bem claro no caso da TV aberta. E é óbvio que não estou falando de sustentação governamental, mas de um poder de classe, que transcende governos, porque encarna uma ideologia que a história mostra que jamais esteve a serviço do nosso povo.
Se tivermos paciência de, ao menos um dia, assumirmos o sacrifício de nos colocarmos como expectadores da “Vênus platinada”, perceberemos claramente que ela – porque vem perdendo seu público das classes “A” e “B” para a internet – assumiu a postura de pegar carona na ascensão da chamada “nova classe média” que, ironicamente, lhe foi oferecida pelo projeto social dos últimos governos, que os globais detestam... Até aí nada demais. Faz parte de um mundo onde lucro, mercado, oportunidade (ou oportunismo, como queiram) são palavras recorrentes. Essa é apenas mais uma corporação a querer a sua fatia desse bolo que envolve o poder e o que dele decorre.
O problema é que, a partir da constatação desse “nicho de mercado”, a impressão é de que se tenta reproduzir uma ideologia de componente preconceituoso a respeito do novo “público-alvo”, que parece ser visto como um conjunto de pessoas suscetíveis apenas de dar e receber o rasteiro, o vulgar, a baixaria. Pessoas a quem somente interessaria o superficial, o trivial, presas fáceis de modas e modismos, vírus que o quartel-general midiático sabe muito bem inocular. Misturando-se “caldeirões” e “faustões” em uma “zorra total” em que não falta lugar para “instrutivos e fascinantes” temas para “Encontros/ Na Moral”, como a histeria pela “mulher-melão”, a discussão sobre troca de casais e coisas do gênero, parece haver aí uma intencionalidade, cujo carro-chefe está nas novelas pretensamente ambientadas nos redutos “populares”, entre elas a “Avenida Brasil” , que hoje mobiliza o público noveleiro do país. E, no caso, importa pouco saber que milhões de brasileiros “se divertem” com a trama. Há uma grande discussão, não resolvida, sobre se a mídia “faz o que o povo quer” ou “faz o povo querer”...
Nunca houve uma enxurrada tão grande de novelas com personagens “do povo”: empregadas domésticas, balconistas, serventes, bombeiros, jogadores de futebol etc. Isso seria digno de aplausos se não colocasse o “povão” como ator e receptor de um permanente espetáculo circense, encobrindo-se suas justas revoltas e a procura de seus legítimos interesses. Porque esses personagens são mostrados ora como caricaturas risíveis, ora como individualidades predestinadas à fortuna pelos deuses da loteria ou da fama repentina que o sistema propiciaria, mas quase nunca como seres sufocados pelos verdadeiros embates diários que caracterizam uma sociedade desigual e perversa como a nossa.
Na ambiência de um falso lixão “glamourizado” ou no reduto do subúrbio carioca, a uma vilã irreal de incomensurável grau de mesquinhez e falsidade corresponde uma “mocinha” cuja vingança beira o sadismo, com dois heróis permanentemente enganados, cuja fraqueza não enxerga o óbvio. Um homem rico que desfruta e é desfrutável por três esposas condescendentes , um outro que tipifica o rufião cujo único valor é o dinheiro, uma jovem que encarna o chamado “objeto sexual”, empaticamente apresentada como alguém que goza de “liberdade”, homens e mulheres que trocam de amores como de roupa, jovens que não estudam (jogam bola) , crianças que são “salvas” em um lixão, todos esses personagens – e outros que é cansativo enumerar - compõem uma dramaturgia duvidosa , um enredo de soluções fáceis, que desenrola (ou enrola) a história , sempre com o auxílio de alguém que, nos momentos complicados, escuta através das paredes ou atrás das portas...
Nas últimas semanas, a Globo vem colocando seu foco em dois assuntos: um óbvio – o julgamento do STF – e outro, mais sutil, que é a “preocupação” com os rumos da Educação no país, promovendo levantamentos e buscando mostrar mais derrotas que vitórias. Na minha opinião, isso é parte da estratégia dos neoliberais contra o ex-ministro da Educação, candidato em São Paulo. Mas, admitindo-se que é sério o interesse global, não custa contribuir, lembrando que a Educação tem várias faces e não se faz só dentro das escolas: ela é mais ampla, passando, inclusive, pela família e pelos órgãos midiáticos, com suas responsabilidades sociais. A grade programática das emissoras abertas no Brasil – todas concessões do poder público - seguramente não ajuda em nada no processo de educação do povo. É, pelo contrário, instrumento que estimula a perpetuação do embrutecimento geral.
Ah ! Ia esquecendo de mencionar – e seria falha imperdoável – o “eu quero tchu, eu quero tcha” e o kuduro “oi oi oi” , pérolas do nosso cancioneiro, que vêm embalando as noites dos brasileiros.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Avenida Brasil: Apaixonados pelo ódio



Avenida Brasil: Apaixonados pelo ódio

Recém-chegada de Paris, a psicanalista Betty Milan parou para ver a novela. E flagrou exatamente a alternância de poder entre Carminha e Nina, quando a audiência de Avenida Brasil bateu todos os recordes em São Paulo, com 45 pontos de média no Ibope. Com olhar de estrangeira, ficou impressionada. Registrou ali o que entende de mais negativo na sociedade do País: a paixão pelo ódio. "É um traço de nossa cultura, provavelmente de origem mediterrânea", diz, "mas me pergunto se era o caso de colocar em cena algo que avalize a perversão." Em ritmo de ensaio para sua peça A Vida É um Teatro, que reestreia em agosto, a também escritora explicou essa ira toda do povo brasileiro e por que não considera novela um exemplo de arte.

A entrevista é de Mônica Manir e foi publicada no jornal O Estado de S.Paulo, 29-07-2012.

Eis a entrevista.

O que essa novela espelha da sociedade brasileira?

A começar, o gosto pela violência, que a novela explora para emplacar. Depois o gosto pela vingança, próprio do machismo, cuja ética é tão contrária à mulher quanto ao homem, mas que pode estar tão implícito na conduta feminina quanto na masculina. Nina é tão machista quanto Carminha, as duas se espelham o tempo todo. As duas, por sinal, são mulheres originárias do lixão, onde a sobrevida implica força e, portanto, é o padrão masculino que prevalece. Como eu digo em E o que É o Amor?, o machismo é uma ética infeliz e assassina. Sua história é a que se lê em Tragédia Brasileira, de Manuel BandeiraMisael, funcionário público, conhece Maria Elvira, tira-a da prostituição, instala e trata. Ela arranja namorado. Ele, para evitar escândalo, muda de bairro, muda 17 vezes, até um dia matá-la a tiros. Misael indubitavelmente fez de tudo para escapar ao imperativo machista, mas não teve como. 

O nome 'Avenida Brasil' remete a uma avenida que corta 27 bairros do Rio e tem intersecções com várias rodovias. Sua temática aludiria ao País urbano? 

Apesar da palavra "avenida", acho que a novela não diz respeito ao urbano ou ao rural. Veríamos essa mesma cena no campo. Apego-me mais à palavra Brasil e ao que há de mais negativo na cultura brasileira, que é a paixão pelo ódio.

O brasileiro gosta de odiar?

É um traço da nossa cultura, provavelmente de origem mediterrânea. São três as paixões humanas: a do amor, a do ódio e a da ignorância, que é a paixão do não saber, de negar a realidade. A paixão do ódio, o machismo cultiva. Como exemplo temos as peças de Nelson Rodrigues e os romances de Graciliano Ramos. Pense no que diz Jonasem Álbum de Família: possuir e logo matar a mulher que se ama. Ou pense em Paulo Honório, em São Bernardo, que considera que matar Madalena é ação justa. Ele então não a supõe infiel? 

O cotidiano dos emergentes é o grande eixo da novela, que tem atraído de A a Z. As classes já misturaram seus gostos?

Não acho que o cotidiano dos emergentes seja elemento forte de identificação.  A identificação resulta do gozo sádico do espectador, gozo que a imprensa e a televisão  exploram desde sempre - lamentavelmente, porque esse gozo sustenta o gosto pela vingança. Mãe Lucinda pode dizer que a vingança só leva à vingança, procurando fazer Nina mudar de ideia, mas é com esta que o espectador mais se identifica. Porque, de um modo ou de outro, todos somos injustiçados e o gozo sádico nos tenta.      

Por que a vingança lhe parece tema central? Por que não a traição ou a chantagem? 

Colocar em cena uma mulher vingativa não deixa de ser uma novidade. A vingança aqui no país sempre foi para os homens. Doca Street, Lindomar Castilho... As mulheres, que são  ultrajadas de diferentes maneiras, consciente ou inconscientemente, se sentem recompensadas. Pouco antes da novela ouvi no Jornal Nacional que o aborto consentido continua a ser crime e cabe ao  médico decidir se a mulher tem ou não o direito de abortar. Como se o médico fosse arcar com a responsabilidade de ser mãe! Chega a ser revoltante.

Os homens da trama parecem facilmente manipuláveis, como se vê nas obras literárias mencionadas em Avenida Brasil, entre elas Madame Bovary e O Primo Basílio. Como entender esse predomínio do feminino?

Acho que não se pode comparar  Carminha com Madame Bovary, que é um Quixote francês. Carminha é uma manipuladora altamente realista.  A Bovary, como o Quixote, é vítima do seu imaginário. Paga muito caro pelo adultério e acaba se suicidando.  Por outro lado, Carminha e Nina são dois machões. A Bovary é muito  feminina. O tema dela é o amor, que não é o tema das mulheres de Avenida Brasil

O horário eleitoral começa daqui a um mês, com figuras reais que mais parecem personagens de folhetim. Nesse sentido, dá para estabelecer um paralelo entre o gênero 'propaganda eleitoral' e o gênero 'novela'? 

Não sei. O que eu sei é que a novela brasileira se limita a retratar a sociedade em que vivemos. 

E o horário eleitoral não? Você está tomando o horário eleitoral como se fosse ficção? A senhora acompanha o horário eleitoral brasileiro?

Graças a Deus, não. Mas os políticos, de fato, parecem personagens de novela.

Jorge Amado, cuja Gabriela está na telinha, já disse que o samba é denominador comum da nossa cultura. E a novela?

A novela também, mas novela não é arte. Tem um caráter absolutamente documental. Não chega a se constituir uma grande metáfora da sociedade brasileira. 

A senhora mencionou que o que há de mais negativo na cultura brasileira é a paixão pelo ódio. O que haveria de mais positivo?

O fato de privilegiarmos a cultura do brincar, uma cultura da sátira, senão da zombaria. Ela zomba do que é sério, cultua o riso e se realiza através do gracejo. O impossível para ela não existe porque, dispondo de várias máscaras, ela o contorna. Assim sendo, não é de briga, é pacífica, não faz guerra nem mesmo contra a guerra, brinca, e essa é sua maneira de resistir a tudo o que a contraria. Sua coragem é a do humor, a de quem dribla a tristeza e só aposta na alegria. Inadvertidamente sacrílega, essa cultura não reverencia senão irreverentemente as outras culturas que ela, brincando, dessacraliza.

O Brasil é uma grande avenida de ficções? 


Não. A grande avenida de ficções é o carnaval, que não é uma ficção, é uma realidade por meio da qual o Brasil se reinventa todo ano, propiciando ao mundo inteiro a alegria de que este precisa.







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