sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Diogro Mainardi, nosso Schreck gato e brasileiro.


Diogro Mainardi, nosso Schreck gato e brasileiro.

Marcelo Carneiro da Cunha


Estimados leitores, um bom dia. Como zagueiro consciente dos meus deveres de cidadão, não faço outra coisa que não ficar de olho nos candidatos a prefeito Brasil à fora, prometendo os mundos sem ter os fundos.
E estava lá firme no meu posto de observador de promessa incumprível ou assustadora – como a do Russomano, que tomou fogo paulista e agora quer uma igreja em cada esquina -, e dou de cara com o nosso estimado e consagrado Roda Viva.
 
O Roda Viva é provavelmente a única demonstração da existência de uma televisão pública no Brasil, e ser entrevistado pelo programa costuma servir como lista de quem é quem no país. E quem era quem nessa última segunda-feira, bem pimpão?
O nosso estimado ogro Diogro Mainardi, o terror das revistas semanais e ícone de alguma coisa que eu sinceramente não sei direito qual venha a ser.
 
O Brasil é um lugar engraçado, onde elegemos gente pra fazer o que não é fazível, e elegemos outra gente pra ocupar o espaço de aterrorizador oficial da nação. Diogro está nessa categoria, mas, me pergunto enquanto o ouço deslizar diante de entrevistadores que claramente não querem hostilizar o nosso Schreck gatinho: por quê?
 
Tivemos um Carlos Lacerda, protetor da moral da nação, e que deu no que deu. Tivemos um Paulo Francis que sentou diante de uma metralhadora giratória e acabou condenado pela Justiça americana a pagar milhões para os diretores da Petrobrás. Agora temos um time, com Reinaldo Azevedo, Diogro, e mais alguns menos nítidos se alternando no papel. O que ganhamos com isso?
Polemistas podem ser muito necessários. Sacudir o senso comum, questionar o inquestionável, ir contra a maré é sim importante, porque o espírito de manada nos joga no precipício, qual lemingues, se não houver ninguém dando contra de tempos em tempos.
 
Agora, nosso caro Diogro? Qual a contribuição do nosso beldado para com a lucidez nacional? Eu me pergunto, aqui, coçando o dedão chutador de pênalti e não consigo chegar a nada.
 
Somos frágeis, acho. Somos fáceis de enganar se o cara vier dizendo que fala javanês. Temos pânico de javanês. E nessa compramos gênios do teatro mundial, como o Gerald Thomas, gênios da política, como o Olavo de Carvalho, do catolicismo aplicado, como Reinaldo Azevedo e os colocamos nos pedestais disponíveis, entre eles, o pedestal giratório do Roda Viva.
 
Eu estava na Flip no ano passado quando o grande Miguel Nicolelis resolveu derrubar do seu capitel coríntio um desses candidatos a gênio aterrorizador, Luiz Felipe Pondé. Nicolelis pode e fez. A gente não pode?
 
O que faz afinal o Diogro? O que o torna assustador e desejável? Ele diz que Lula é desprezível, por exemplo. Ele diz que todos os políticos o são, o que deve incluir os que criaram a Constituição de 1988 e redesenharam o Brasil contemporâneo, para melhor.
O que nos traz esse niilismo de araque?
 
Uma vez ouvi um sábio dizer que existe toda uma categoria de pessoas que adora o mediano, e adora saber que o que sentem é a verdade. Existe algo que faz com que um espécime não particularmente brilhante da espécie humana se sinta especial e superior, e sabem o que é? É uma certa capacidade de sentir indignação. Ele se sente superior por se indignar.
Ogros como Diogro dão a ele o que ele precisa, que são alvos. Eles mostram contra o que ele pode se indignar, que é, basicamente, tudo isso que está aí. Mais precisamente, tudo.
 
Indignação, estimados leitores, é algo mais inútil do que berrar contra árbitro após o pênalti marcado. Indignação serve para alguma coisa se ela se transformar em uma força motriz e capaz de levar a mudanças. Indignados que ficam atrás do gol comendo amendoim e berrando contra tudo, são, literalmente, inúteis, mesmo que sonoros.
Oferecer a essa classe argumentos pró-indignação é o que sustenta os ogros.
 
Eu não conheço pessoalmente o nosso Diogro, e se convidado a, passaria, assim como evitaria ter que conhecer pessoalmente o nosso estimado presidente da CBF.
Sei de uma coisa a respeito dele, no entanto, que me basta. Há uns anos, ele utilizou o seu amplificador de indignação para chamar um sujeito decente de ladrão. Eu conheço o sujeito decente, e sei do quanto era injusto o latido do nosso bravo Diogro, que terminou condenado como caluniador.
Caluniadores com um espaço importante na imprensa são um perigo, porque as consequências dos seus atos são difícil ou impossívelmente reparáveis.
 
Ogros, estimados leitores, pela própria natureza, ficam mais à vontade em terrenos alagados e mal-cheirosos, e não em uma cadeira giratória que equivale ao trono que essa nação estranha tem para oferecer. 
Fica a dica.

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