segunda-feira, 10 de junho de 2013

Protesto "saiaço": Os meninos de saia

Protesto "saiaço": Os meninos de saia



Os meninos de saia

Por Luciano Martins Costa - Observatório da Imprensa

Os jornais do fim de semana apresentam um mosaico de assuntos gerais: a comprovação de que o governo americano invade a privacidade de seus cidadãos como defesa contra o terrorismo, pesquisas sobre a popularidade de governantes, casos de nepotismo na política, queda da inflação e conflitos entre indígenas e fazendeiros são alguns dos destaques. No meio do debate sobre a questão da segurança pública em São Paulo, ainda há espaço para o registro de um recuo na taxa de inflação e o rescaldo das manifestações que resultaram em depredação e confrontos com a polícia na capital paulista.
Como curiosidade, registre-se o esforço da revista Época em se tornar cada vez menos relevante depois de haver conquistado uma fatia importante do público que andava descontente com Veja, ainda a líder do mercado. Nesta semana, o tema principal da revista da Editora Globo é o papel da crença religiosa no combate à depressão. A reportagem tem como base conhecidos estudos sobre o efeito psicológico da fé, e sua principal atração é um depoimento do padre pop star Marcelo Rossi. Pode ser um caminho para o sucesso. Afinal, o tema da autoajuda tem produzido grandes safras de best-sellers e não exige complicadas racionalizações.
As edições de segunda-feira (10/6) seguem no mesmo ritmo, com mais explicações de pesquisas de opinião sobre governantes, a comemoração de uma vitória da seleção brasileira sobre a França e um registro interessante sobre uma das causas da violência em São Paulo: as delegacias da capital paulista só prendem três de cada centena de autores de crimes graves. Dos 55,3 mil crimes violentos cometidos em São Paulo nos quatro primeiros meses deste ano, incluídos os casos de homicídio, estupro e roubos, só foram identificados e presos 1,7 mil delinquentes como resultado de investigação policial.
Mas uma página que chama atenção nos jornais é a seção de Educação publicada pelo Estado de S.Paulona segunda-feira (10). A reportagem principal trata de uma polêmica produzida no tradicional Colégio Bandeirantes, porque dois alunos resolveram comparecer à aula vestindo saia. Logo abaixo, outra reportagem, em espaço muito menor, fala sobre a evasão de alunos do ensino médio nas escolas públicas.
Escolas sem sentido
Na longa reportagem sobre a punição imposta pela diretoria do colégio particular paulistano aos dois alunos que quebraram a regra do vestuário, com direito a opinião de médico e sexólogo, anuncia-se para a segunda-feira uma manifestação mais ampla, com muitos estudantes e até ex-alunos do Bandeirantes vestindo roupas não convencionais.
Tudo começou como uma brincadeira, quando uma estudante propôs a um colega trocarem de papel na festa junina. Ao se apresentar à aula com uma saia sobre a calça e um lenço na cabeça, o aluno foi ofendido por um professor. Com a repercussão do caso, outro aluno resolveu aparecer no dia seguinte vestindo saia, e foi suspenso.
No rodapé da mesma página, o Estado apresenta uma pesquisa inédita da Fundação Víctor Civita na qual se constata que 1,7 milhão de jovens entre 15 e 17 anos estão abandonando os estudos porque não veem sentido em frequentar a escola. O trabalho se refere, é claro, às escolas públicas e a jovens oriundos de áreas pobres. Segundo a pesquisa, os estudantes dizem que as disciplinas não fazem sentido, os professores faltam muito e o projeto pedagógico ignora a tecnologia digital.
Interessante observar que mais de 80% dos jovens pobres declaram utilizar a internet para estudar, mas menos de 50% das escolas oferecem acesso à rede.
Os professores, que usam apenas apostilas e quadro negro, são considerados ruins porque não conseguem compartilhar o interesse dos estudantes pelo conhecimento disponível na web. A reportagem cita o caso de uma professora que queria passar um desenho para a classe mas não sabia como. Os alunos sugeriram que ela usasse o Facebook, mas ela não sabia o que era.
Um texto no rodapé é pouco para apresentar a complexa questão da educação em tempos de ruptura tecnológica, e alguns diriam que, entre as duas pautas, a situação da escola pública seria muito mais importante que o desejo de estudantes ricos de usar saia durante a aula. Mas jornais são feitos para as famílias dos alunos de escolas como o Bandeirantes, não para os jovens pobres da periferia.
De qualquer maneira, mesmo indiretamente, o jornal está mostrando, com suas escolhas, que o Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer até reduzir as diferenças sociais.

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