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terça-feira, 7 de agosto de 2012

De toga não se joga Fla-Flu

De toga não se joga Fla-Flu

Por Alberto Dines
O magnífico espetáculo judicial montado no plenário do Supremo Tribunal Federal já atendeu a parte de suas atribuições e mostrou que, apesar da generalizada desconfiança que envolve a magistratura, o ambiente da corte impôs uma inesperada objetividade capaz de desarmar a radicalização do tipo Fla-Flu que vem paralisando o país há alguns anos.
O escândalo do mensalão foi incubado na mídia por meio daquela fita clandestina produzida por arapongas profissionais flagrando um alto funcionário dos Correios a embolsar tranquilamente uma “cervejinha’ de 3 mil reais. O segundo round, também midiático e altamente dramatizado, recolocou a imprensa no seu clássico papel de mediadora.
A entrevista de Roberto Jefferson à repórter Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, revelando em detalhes o funcionamento do sistema de distribuição de mesadas aos deputados da base aliada em troca do apoio ao governo, prometia uma dinâmica de controvérsias e contestações.
Sete anos depois, às vésperas do julgamento dos 38 réus indiciados pelo Ministério Público, a mídia tenta retomar o protagonismo – desta vez para mobilizar a sociedade em torno das questões de corrupção e impunidade embutidas na Ação Penal 470, vulgo “mensalão”.
Porções de suspense
Justifica-se a tentativa de eletrização do ambiente considerando o conjunto de vetores que atuam para desmobilizar a sociedade brasileira: a televisão, sobretudo as telenovelas e o futebol, combinados ao baixo nível cultural e político dos segmentos ascendentes.
O início do julgamento foi tenso e intenso, o bate-boca entre o ministro-relator (Joaquim Barbosa) e o ministro-revisor (Ricardo Lewandowski) prometia grandes emoções. O surpreendente resultado desfavorável ao desmembramento mostrava que as estrelas do espetáculo dos próximos dois meses poderiam ser os ministros. O placar de 9 a 2 contra o desmembramento do processo em várias instâncias apontava que o saber jurídico – associado às consciências individuais – poderia converter-se em animador do show.
Pela lógica da retribuição de favores, os ministros nomeados pelo presidente Lula deveriam votar em defesa do desmembramento e, neste caso, o placar deveria ser de 8 a 3 a favor dos réus.
Não foi. Esta imprevisibilidade é que forneceria as doses de suspense e adrenalina para segurar a audiência. Tudo indicava a transferência do Fla-flu ideológico para um Fla-Flu jurídico, embora seja ponto pacifico que a toga não é o uniforme mais apropriado para pelejas empolgantes.
Em campo
No primeiro fim de semana da nova temporada forense, o mensalão e seus personagens foram os campeões das redes sociais. Mas as redes sociais são invisíveis e extremamente voláteis. Ocupam grandes territórios nos fins de semana e se esvaziam em seguida. A rede aberta de TV está imersa até às 10 da noite na irrealidade ficcional, depois vai dormir.
Os canais por assinatura, sobretudo os noticiosos, poderão servir de incubadoras de opções para um rentabilizar o “julgamento do século”. A GloboNews preparou-se e está em campo. Resta saber se é possível armar um Fla-Flu sem polêmicas e controvérsias.

Observatório da Imprensa

quinta-feira, 12 de abril de 2012

“Eu existo, Merval”

“Eu existo, Merval”
“Eu existo, Merval”Foto: Montagem/247

Ontem à noite, quando assistia à Globonews, o empresário Ernani de Paula, ex-prefeito de Anápolis, quase caiu da cadeira quando ouviu o comentário do jornalista Merval Pereira, que denunciava à editora de política Renata Lo Prete uma possível ficção criada pelo PT para melar o processo do mensalão. Segundo Merval, “inventaram” um certo Ernani de Paula para tumultuar o caso. Através do 247, Ernani mandou um recado ao comentarista da Globo. “Merval, eu existo”, disse ele. “Fui testemunha ocular da história e conheci de perto todos os personagens”.
Ernani, de fato, conhece de perto a realidade de goiana. Foi prefeito de Anápolis, cidade natal de Carlos Cachoeira, e conviveu com o contraventor. Mais: sua ex-mulher, Sandra Melon, foi suplente de Demóstenes Torres na sua primeira eleição para o Senado, em 2002. “Eu o ajudei muito e os votos de Anápolis foram cruciais para ele”, diz Ernani. Em 2004, um ano após a posse de Lula, havia um projeto de poder, que envolvia Demóstenes, o governador Marconi Perillo e o bicheiro Carlos Cachoeira. Demóstenes migraria do DEM para o PMDB e seria Secretário Nacional de Justiça. Assim, Sandra Melon, ex-mulher de Ernani se tornaria senadora. “É por isso que eu sabia de tudo que se passava na política goiana”.
Ernani era uma testemunha tão próxima do que ocorria naquelas bandas que chegou até a figurar na famosa fita em que Waldomiro Diniz, ex-secretário da Casa Civil, é filmado pedindo propina a Carlos Cachoeira. “Antes da conversa filmada com o Waldomiro, o Cachoeira atende um telefonema, meu, e tenta me convencer a trabalhar para o PT. Em seguida, ele desliga, me xinga e diz que eu era pior do que o Waldomiro. Ou seja: ali fica claro que ele tinha a intenção de filmá-lo para comprometê-lo. Isso está na fita, que inclusive a Globo tem. O Cachoeira tinha uma estratégia padrão. Ele atraía as pessoas para o seu big brother, prometia dinheiro e acabava comprometendo um monte de gente.”
A denúncia do mensalão
Com a fita de Waldomiro Diniz, Cachoeira pretendia constranger o governo a fazer do senador Demóstenes secretário Nacional de Justiça. “E a pressão quase surtiu efeito. No início do governo Lula, foi feita sim uma comissão de estudos para legalizar o jogo no Brasil e federalizar o que já era permitido em Goiás”, diz Ernani de Paula. Só que, como o plano não surtiu efeito, Cachoeira partiu para uma segunda denúncia. E foi assim, segundo Ernani de Paula, que nasceu a fita de Maurício Marinho, apadrinhado de Roberto Jefferson, recebendo uma propina de R$ 3 mil nos Correios. Ela foi filmada pelo araponga Jairo Martins, que a repassou à revista Veja. E foi assim que se desencadeou o maior escândalo política da história recente no Brasil. “Isso não quer dizer que o esquema do Marcos Valério não existiu”, diz ele. “O Marcos Valério existe, a Fernanda Karina existe, o Merval existe e eu também existo”, diz Ernani de Paula, que oferece ao articulista da Globonews seu email (ernanidepaula@uol.com.br) e seu telefone (011-89555671).