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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Marcha Contra a Corrupção: como se apropriam dela

Marcha Contra a Corrupção: como se apropriam dela



Neste domingo, 28 de abril, o Estado de Minas publicou, no Primeiro Caderno, um texto intitulado “Contra a Corrupção, sem os artistas”, do jornalista Luiz Fernando Corrêa.

Como o texto não foi publicado na versão online, segue uma imagem da publicação original.

Ao que eu respondo:

Eu, artista, estou aqui, senhor Luiz Francisco Corrêa. Trabalhando duro para sobreviver do meu trabalho e, em meio a isso, dedicando o pouco tempo que tenho para atuar junto aoOcupe a Camara e à Marcha das Vadias Belo Horizonte.
Sabe como é, são muitas lutas para pouco tempo.

Ainda assim, eu poderia enumerar inúmeros colegas de arte que também estão ocupadíssimos, envolvidos em diversas frentes de luta e manifestação por uma cidade menos autoritária, por uma gestão menos corrupta e menos higienista. O pessoal do Fora Lacerda, conhece? Tem muitos fazedores de arte ali. E o pessoal que tem lutado pela assistência à população de rua? Outro dia mesmo teve um manifesto lindo, convidando a todos para Lavar o Viaduto Santa Tereza.

E as redes de apoio às Comunidades Dandara e Zilah Sposito, que envolveu o ativismo atuante de diversos artistas e arte-educadores de Belo Horizonte, o Sr. teve notícias?
E o movimento Praia da Estação, o sr. tem conhecimento?

São alguns dos poucos exemplos de movimentos que, quando não têm artistas na frente de combate, contam com muitos artistas como colaboradores. Artistas, professores, intelectuais, moradores de rua, prostitutas… A bem da verdade, não estamos nada preocupados em “representar a classe artística” como ativista ou o que quer que seja.
Estamos, sim, empenhados em lutar contra aquilo que nos oprime.
Estamos aí, na luta. E, perceba, todas elas, lutas com endereço certo…

Sabe como é, esse negócio de “Marcha Contra a Corrupção” é louvável, sobretudo quando acontece em meio a diversos movimentos que deflagram a insatisfação popular com relação a diversas distorções das estruturas sociais em que estamos inseridos.
Mas o senhor, como jornalista – alguém que se propõe a pensar a sociedade e a escrever sobre ela – deveria conhecer também o quão perigosas são essas bandeiras amplas, como a tal “marcha contra a corrupção”. A propósito, o senhor conhece alguém que seja a favor da corrupção, da roubalheira, do “desvio de dinheiro das áreas de saúde e educação, com obras superfaturadas”?
Então, é mais ou menos esse o ponto.
Esses movimentos que lutam contra aquilo que é indiscutivelmente um mal para toda a sociedade apresentam sempre certa ambivalência: se, por um lado, são muito potentes por reunirem pessoas dispostas a se manifestarem por um mundo melhor; por outro, correm o risco de se encerrarem em si mesmas, vagas que são.

Imagine o senhor que um senador que atualmente estampa principais matérias sobre a corrupção no país, o tal Demóstenes Torres, outroracomprou vassouras para serem usadas pela população a um movimento anticorrupção em Brasília. O senhor se lembra disso?
Imagine também o senhor que enquanto a população saia às ruas para marchar contra a corrupção, diversos portais de notícias escolhiam o cartaz que melhor poderia servir à sua linha editorial para ilustrar a marcha. Sabe a Veja? Aquela revista que está sendo investigada por estar diretamente envolvida no esquema do Cachoeira, o tal bicheiro que também fazia as vezes de editor da revista?
Pois é, a Veja escolheu retratar a Marcha como um movimento “que pede o julgamento do cidadão“. Não lhe parece algo reducionista essa abordagem sobre a Marcha, senhor Luiz Francisco?

Bom, parece que não, já que o senhor também dedicou vários parágrafos do seu texto a falar exclusivamente do mensalão. E, olha, apesar de não ter participado, eu acompanhei de perto a organização da Marcha Contra a Corrupção em Belo Horizonte, e posso afirmar que em momento algum os grupos articuladores demonstraram o desejo de direcionar a Marcha a um único escândalo de corrupção, justamente porque estes são inúmeros, e todos eles sempre nefastos.
Uma rápida busca na seção de Imagens do Google mostra manifestantes erguendo faixas de diversas frentes de protesto: Contra o governador Perillo, contra a Deputada Jaqueline Roriz, contra o Mensalão, pelo fim do voto secreto, pelo fim da impunidade…

Portanto, não sei, senhor Luiz Francisco, de onde o senhor tirou a enfática conclusão de que “o mensalão é uma das bandeiras mais fortes desse movimento”.
Ora, não seria muito mais inteligente e eficaz por parte dos manifestantes, então, organizarem uma “Marcha Contra o Mensalão”, ou quem sabe uma “Marcha pela punição dos mensaleiros”?
É por tudo isso, Sr. Luiz, que eu escolhi não participar da Marcha.
Arrisco-me a dizer que a Marcha Contra a Corrupção é a menor das preocupações de um político corrupto. O sr, por exemplo, saberia me dizer se houve algum político realmente incomodado com a Marcha? Aposto um bis que o José Dirceu, também citado pelo senhor, continua rindo da nossa cara.
Por não possuir destinatário, corre-se o risco de que um movimento tão legítimo sofra apropriações indevidas por parte daqueles que não sintam o menor pudor de direcionar a marcha ao caso que melhor satisfizer seu clamor por “justiça”.

Não acho, sinceramente, que o melhor da Marcha Contra a Corrupção seja a luta contra a corrupção. Mesmo porque, reduzir a discussão sobre a corrupção a uma discussão moral é limitar o debate, já que existem propostas concretas contra esse mal – como uma reforma política, ou o financiamento público de campanha – propostas que, desconfio, devem trazer maiores preocupações aos políticos corruptos, aos mensaleiros, aos que mergulham em cachoeiras, aos bicheiros, aos privataristas, aos sanguessugas, às empreiteiras…
O que penso é que a Marcha pode, sim, ser um dos tantos gatilhos que impulsionam grandes mudanças em uma sociedade, sobretudo pelo seu poder de reunir e de convocar as pessoas a deixarem a inércia confortável de seus lares, e saírem às ruas, para se fazerem protagonistas de um processo de mudança, para começarem a perceber como o estado, a polícia e a mídia muitas vezes atuam para impedir, cercear, neutralizar ou mesmo distorcer os movimentos sociais.

Então, que tenha continuidade o processo de mudança: a população saiu de suas casas, ocupou as ruas, gritou pelo fim da corrupção, muitos sentiram na pele (nos olhos e pulmões) o que pode a polícia com suas armas “não letais”, e aos poucos têm percebido o quanto a mídia e os “formadores de opinião” podem, quem diria, corromper o sentido da marcha.

Respondendo, portanto, à sua pergunta final, eu, artista, ativista, estou aqui, Sr. Luiz Francisco. Participando, observando, tentando entender as engrenagens dessa roda viva.
Não estou omissa.
Estamos atentos!
Débora Vieira
Atriz, arte-educadora, ativista, feminista.
Vassouras de protesto anti-corrupção de 2011 foram compradas pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Advogados pedem afastamento de Ophir Cavalcante, organizador da Marcha Contra a Corrupção, da Presidência da OAB



Advogados pedem afastamento de Ophir Cavalcante, organizador da Marcha Contra a Corrupção, da Presidência da OAB



Uma comitiva de advogados apresentou representação no Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil contra o presidente da entidade, Ophir Cavalcante. O grupo, liderado por Jarbas Vasconcelos, presidente eleito e afastado da OAB do Pará, acusa o advogado de corrupção e improbidade. O pedido foi distribuído nesta segunda-feira (12/12) entre os conselheiros. Também foram apresentados pedidos de afastamento de Alberto de Paula Machado, vice-presidente, e de Marcia Regina Machado Melare, secretária-geral adjunta. O presidente da OAB se manifestará sobre o assunto ainda nesta segunda-feira. No momento, Ophir Cavalcente acompanha a sessão.
A representação também é assinado por Alberto Antônio de Albuquerque Campos, vice-presidente da OAB-PA. Os dois advogados levaram diversas acusações ao Conselho Federal. Segundo eles, ações que tramitam na Justiça Comum e Federal contra o advogado, caso Ophir Cavalcante fique no cargo, permaneceriam prejudicadas, pois “a pressão atrapalha as investigações”.
Numa das ações, Ophir Cavalcante é acusado de receber, há mais de 13 anos, rendimentos mensais de R$ 20 mil, como procurador do Pará. Pelos cálculos de Jarbas Vasconcelos, o dano ao erário estadual atingire quase R$ 1,5 milhão. "Ophir não poderia advogar para ninguém, já que o cargo requer dedicação exclusiva", disse Jarbas Vasconcelos do Carmo, em conversa com a revistaConsultor Jurídico. Ele também foi denunciado por recebimento de particulares para advogar contra os interesses do Pará. A conduta é tipificada como patrocínio infiel.
"Até agora, o Conselho Federal não tomou nenhuma posição sobre o assunto, embora sejam de conhecimento do público as ações contra o presidente. Com nosso pedido, não é possível que a OAB vá se calar", acredita Jarbas Vasconcelos.
As acusações também serão apresentadas, na parte da tarde, ao Conselho Nacional de Justiça.
Intervenção
No final de outubro, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil decidiu intervir na seccional paraense da OAB. A intervenção foi aprovada por 20 bancadas e dois ex-presidentes que têm direito a voto, em sessão fechada que durou quase dez horas. Quatro seccionais votaram contra a intervenção. Com a decisão, os cinco diretores da OAB do Pará envolvidos em um processo que investiga irregularidades na venda de um terreno em Altamira ficarão afastados por seis meses, até a conclusão das investigações.
A intervenção tem por objetivo esclarecer a venda de um terreno que pertencia à seccional, ao lado do Fórum Trabalhista de Altamira, no interior paraense. O terreno foi vendido por R$ 301 mil para o conselheiro Robério D’Oliveira.
De acordo com conselheiros que se afastaram por conta própria da seccional, o terreno vale até três vezes mais e a negociação foi recheada de irregularidades. Uma procuração com assinatura falsificada do vice-presidente da seccional, Evaldo Pinto, teria sido utilizada no fechamento do negócio. A venda foi desfeita, mas a diretoria rachou. Três dos cinco diretores que podem ser afastados romperam com o presidente, Jarbas Vasconcelos, e se afastaram da diretoria. Outros 23 conselheiros seguiram o mesmo caminho.

No Conjur