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domingo, 7 de setembro de 2014

Primeira professora com Síndrome de Down do país defende escola normal para todos e emociona plateia

Primeira professora com Síndrome de Down do país defende escola normal para todos e emociona plateia 


A potiguar Débora Seabra, de 33 anos, não poderia ter escolhido outra profissão, senão professora. Em sua apresentação no encontro internacional Educação 360, na tarde deste sábado, ela deu uma lição de superação e emocionou a plateia com sua história de vida: Débora é a primeira professora com Síndrome de Down no país e dá aulas na Escola Doméstica em Natal (RN) a 28 alunos da alfabetização. Ela é do time que luta pela Inclusão com i maiúsculo, como gosta de repetir.

A jovem destaca o suporte que encontra na família e defende a escola regular para todos os alunos, sem distinção. Ela enfrentou dificuldades, sim, mas conta que cresceu fazendo tudo o que qualquer pessoa da idade dela fez e faz, como aulas de balé, curso de teatro, "boas festas americanas em casa" e trabalhos em lojas, como modelo e recepcionista de eventos e seminários.

- A inclusão começa na família e a minha sempre foi meu porto seguro. Sempre estudei em escolas regulares porque o contrário é discriminatório. Inclusão ensina a conviver - disse ela.

Débora concluiu o curso de magistério em 2004, na Escola Estadual Professor Luiz Antônio, em Natal. Fez estágio e trabalhou voluntariamente como professora auxiliar na Escola Doméstica, por dez anos, em função de uma lei estadual que a impedia de receber o benefício da pensão da mãe, funcionária aposentada do Ministério Público, caso tivesse a carteira assinada. Depois de muita luta, esta foi mais uma das suas vitórias e a carteira assinada pela Escola Doméstica, onde também estudou, chega essa semana.

- Precisava de dinheiro para sair com os amigos, né?! - disse Débora, arrancando risadas das pessoas que acompanhavam sua palestra com muito carinho.


A professora potiguar Débora Seabra


A história de vida de Débora se reflete nas páginas do livro "Débora conta histórias", com oito fábulas inclusivas, apenas uma personagem humana e animais considerados "diferentes" - um sapo que não sabe nadar, uma galinha surda e um pato gay, por exemplo. A ideia surgiu em 2010, como presente de Natal para os pais e o irmão. O lançamento do livro aconteceu em Recife, no Congresso Internacional de Tecnologia da Educação. Ela agora quer se dedicar a um livro sobre o que viveu. Já começou a escrevê-lo com calma, entre um jogo e outro do ABC de Natal, que sempre acompanha com o irmão. Os domingos, segundo ela, são dos amigos:

- Gosto de sair, de passear com minhas amigas, de malhar e dançar. Essa é minha rotina: trabalho muito durante a semana e fim de semana, depois de curtir minha família, me divirto com os amigos.

Na escola, como professora auxiliar, participa de todas as atividades, desde o planejamento semanal de aulas, contação de histórias, eventos culturais e artísticos, organização dos arquivos e materiais e brincadeiras com a turminha. É Débora quem também conversa com os pais dos alunos e conta com orgulho que conhece todos eles. Às sextas, vira e mexe precisa intervir numa briga ou outra entre os alunos, que neste dia podem levar para a escola um brinquedo de casa:

- A gente senta numa roda e conversa com eles. Fala sobre o respeito.

Era quando faltava respeito, que Débora mais sofria. Ainda na escola, foi alvo de bullying e humilhação. Lembra de colegas que abusavam e pediam seu celular emprestado para gastar por conta. Lembra também daqueles que não a queriam nos grupos de trabalho e de disciplinas em que tinha alguma dificuldade maior. Débora lembra bem de uma garota que tirou o sapato e a fez cheirar. Neste dia, ela decidiu que seguiria em frente:
- Pensei 'não vou desistir, não vou desistir' e gritei com ela. Chamei uma amiga e perguntei o que fazia e ela gritou junto comigo.

Na plateia, a mãe de uma criança com Síndrome de Down se manifestou, querendo saber o que foi mais difícil. Uma professora que este ano recebeu na escola um aluno portador da mesma síndrome disse que a cada dia todos aprendem com o menino e quis saber sobre o relacionamento dela com as crianças. Outra educadora perguntou como os professores podem ajudar mais nessa inclusão e um rapaz a questionou sobre planos para o futuro. A cada resposta de Débora, era impossível conter a emoção:

- Ninguém pode passar pelo que eu passei, por humilhação, discriminação e exploração. Tenho dois alunos que são gêmeos e a gente trata eles igual. Meu irmão e eu somos diferentes, mas meus pais tratam a gente igual também. Não tenho uma doença, é só um jeito diferente de ser. Especial para mim é minha família. A diversidade abre caminhos para todos. Superar dificuldade nos fortalece e traz felicidade.

Extra


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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Impróprio é o preconceito, a discriminação: Facebook marca foto de garoto com síndrome de Down como 'imprópria'

Impróprio é o preconceito, a discriminação: Facebook marca foto de garoto com síndrome de Down como 'imprópria'


Mãe diz que rede social chegou a bloquear conta por causa da foto do filho. Site pediu desculpas, mas mãe pede mudanças da marcação de imagens.


Facebook


O Facebook marcou como "imprópria" fotos de um menino de 7 anos com síndrome de Down que a mãe publicou em sua página na rede social. Ela chegou a ficar três dias com a conta bloqueada por conta da marcação. A rede social se desculpou pelo erro.

Em entrevista ao site "MSNBC", Diana Cornwell, da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, afirma que na foto, seu filho aparece participando de "olimpíadas especiais" e que, se ele fosse mais velho, o caso da marcação de sua imagem como imprópria, causaria problemas graves. "Eu acho que o Facebook precisa rever sua política de marcação de fotos. Se você marca uma foto, é preciso enviar para a rede social o motivo pelo o qual a marcou e, ainda, o Facebook precisa avaliar o motivo desta marcação antes de decidir bloquear a imagem".

O Facebook enviou um pedido de desculpas pelo erro ao site. "A foto foi retirada do site por um equívoco", diz a mensagem enviada por e-mail. "Pedimos desculpas por qualquer inconveniente que isto pode ter causado e esperamos que ela continue a publicar as experiências de seu filho nas olimpíadas especiais, no Facebook".

A rede social possui mais de 100 bilhões de fotos de seus 901 milhões de usuários. Todos os dias são publicadas 250 milhões de imagens no site, que enfrenta problemas para retirar do ar imagens de pedofilia, abuso de animais, corpos entre outros. O problema, segundo Diana, é que não há uma área de atendimento ao consumidor e que, por isso, casos com o dela podem acontecer. Ela criou uma petição on-line que já tem quase 20 mil assinaturas pedindo para que o Facebook mude sua política e seu método de marcação de fotos consideradas impróprias.

O serviço que cuida da publicação de conteúdo impróprio no Facebook é terceirizado. Os monitores são da Índia, Turquia, Filipinas e Paquistão. De acordo com a reportagem, para cada foto de pessoas com Síndrome de Down ou de mãe amamentando o filho que é retirada, eles precisam cuidar de milhares de outras imagens realmente impróprias. A proposta de Diana, que é aumentar a análise das imagens marcadas como imprópria, com uma análise maior do Facebook sobre o motivo, pode fazer com que imagens agressivas possam ficar na rede social por mais tempo.
O erro cometido pelo Facebook não é o primeiro. Em dezembro de 2011, a rede social teve que se desculpar por ter bloqueado uma imagem de uma mãe amamentando o filho com o seio. Em março, o site retirou do ar a imagem de um casal homossexual se beijando. Nos dois casos, as fotos foram colocadas de volta na rede social.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

“Não mudaria nada em Beatriz”, diz Lindbergh Farias, sobre a filha Down


“Não mudaria nada em Beatriz”, diz Lindbergh Farias, sobre a filha Down





Maria Antonia, Beatriz (colo) e Lindbergh
O jeito expansivo lembra o líder estudantil dos cara-pintada, os jovens que saíram às ruas pedindo o impeachment do presidente Fernando Collor em 1992. Mas quem fala agora é o senador e pai de família Lindbergh Farias (PT-RJ), 41 anos, casado há 17 com Maria Antonia, união que resultou em Luiz (15) e Beatriz (1 ano e 2 meses). “A gente já pensa em outro filho, e só de pensar o clima fica maravilhoso”, diz Lindbergh, rindo, gesticulando, animado.
Beatriz nasceu em junho de 2010, pouco antes do início da campanha eleitoral que faria de Lindbergh o senador mais votado do Rio de Janeiro, com 4,2 milhões de votos. Beatriz, pequena demais, apareceu no colo do pai, ao lado do irmão e da mãe, no momento “esta é minha família” da propaganda eleitoral na TV. Baixa o pano. Nada mais foi dito. O que ninguém viu, e nem todo mundo soube depois, é que Beatriz é diferente. Tem Síndrome de Down. Pai e mãe foram informados depois do parto. Descobriram o universo das pessoas com deficiência e suas necessidades especiais. Entraram de cabeça nele. “Eu já abracei muitas causas na minha vida, mas esta causa me abraçou”, diz Lindbergh.
A probabilidade de nascer um bebê com Síndrome de Down é de um para 600 nascidos vivos. A chance aumenta com a idade dos pais, mas pode acontecer em qualquer família, em gestações de mulheres de qualquer idade e raça. A Síndrome de Down é um acidente genético. Todo ser humano tem 23 pares de cromossomos. O portador da Síndrome tem um cromossomo a mais ligado ao par 21. “Não existem graus de Síndrome de Down e as diferenças de desenvolvimento decorrem de fatores individuais, como carga genética, educação e meio ambiente”, diz o texto explicativo do site Fundação Síndrome de Down, uma boa referência para quem quer saber mais sobre o tema. As crianças com a Síndrome apresentam atrasos no desenvolvimento motor e na fala.
A filha de Lindbergh está com 1 ano e 2 meses. Fica de pé e ensaia os primeiros passos. O senador saca o celular e mostra o vídeo da neném. Aparece uma menininha de cabelos lisinhos, franja e perninha grossa se apoiando numa cadeira. Depois de uns instantes, ele cai sentadinha. Sem tirar os olhos da telinha, ele me pergunta:“Não é uma gostosa? Olha, é uma paixão en-lou-que-ce-do-ra. Ela sai do colo de qualquer um para o meu. Até da mãe! É um prestígio!!”.
Dia desses, num avião ao lado da presidente Dilma Rousseff, Lindbergh fez a mesma coisa. Mostrou fotos de Beatriz e viu fotos de Gabriel, o neto da presidente. “Você sabia que a presidente também conhece a Galinha Pintadinha!?”, diz, às gargalhadas, revelando o sotaque paraibano no “pintadinha”. “A gente com filhos vive num mundo paralelo. Eu quero sair na rua com Beatriz atrás dos cachorros. Conheço todos da vizinhança, tem o Luigi…tem o…”, diz, se divertindo com a própria história. “Tem coisa mais simples e feliz do que isso?”
A entrevista é interrompida porque há novidades no Plenário, um assessor avisa. É quarta-feira, dia que quase tudo acontece no Congresso. O senador pede licença. Precisa votar, mas promete retornar ao gabinete. Está disposto a falar mais da família. Lindbergh é daqueles que atribuem aos filhos o dom de tornar os pais pessoas melhores, “mais sensíveis”. Faz troça de si mesmo. Desanda a contar cenas domésticas corriqueiras.
“Noite dessas, eu estava tomando cerveja com um grande amigo, falávamos de família e tal. Lá pelas tantas eu viro para ele, já quase com um certo ar de superioridade, e tasco um ‘mas sua filha é normaaaal!’, diz, elevando o tom de voz, antes de rir de si mesmo com a onda que tirou. “É que Beatriz é maravilhosa”.
Lindbergh volta do Plenário, como prometido. A conversa segue. Sobre as dificuldades de lidar com uma criança especial, ele para pra pensar e diz o seguinte: “Eu sou tão feliz com ela. Ela é tão maravilhosa. Eu não queria um detalhe diferente em Beatriz”. E, para deixar claro que não está encarando tudo como um problemão, revela que sua maior preocupação são os outros.
O inferno são os outros
“Tem deficiências e deficiências”, diz Lindbergh, propositadamente evitando  enveredar pelasdificuldades maiores que muitas famílias enfrentam, conforme revelam esses dois posts antigos aqui do blog. “O Down tem muitas alegrias, grandes conquistas. Às vezes, os de fora olham de um jeito que não é o mesmo jeito de quem vive de perto. Você fica preocupado com o preconceito, claro. Vai ter a escola…Como vai ser na escola? A gente não quer que nosso filho sofra”, diz, sério, pensativo. “Mas vai rolar, ela vai ter que enfrentar, e nós também”.
Lindbergh parece lembrar de algo mais, antes de mudarmos de assunto. “No início, é sempre mais difícil. Teve uma coisa que um geneticista me disse…”. Ele se cala de repente. “Ele disse assim ’ninguém vai chamar tua filha para dançar’”. A voz faltou em algum trecho da frase. Com os olhos vermelhos e marejados, ele tenta prosseguir. “Eu desabei…eu desabei. Como assim ninguém vai chamar minha filha para dançar!?” Num esforço para se recuperar da emoção, ensaia continuar. “Desculpe, é bobeira minha…”
Silêncio no gabinete.
Beatriz, como outras crianças com a Síndrome, irá conviver com iguais e diferentes. Perceberá com o tempo as próprias limitações e aprenderá a lidar com elas. Ela vai dançar sim, remenda o pai. “Vai ter a festa das crianças e dos adolescentes como ela, vai ter festa com outros. Ela vai dançar. Vai freqüentar esses dois grupos. Maria Antonia diz que ela será independente, que vai morar sozinha!!”, diz Lindbergh, com o sorriso fácil de novo no rosto.
Um dos mais graves erros de conduta com as pessoas Down, num passado não muito distante, era encará-las como doentes. A Síndrome de Down não é doença, mas muita gente não sabe disso. Por ser uma alteração genética, não tem cura. Hoje, o grande equívoco é infantilizar essas pessoas. Tratá-las eternamente como crianças, alertam os especialistas, o que só faz reduzir suas potencialidades. Essas crianças podem e devem estudar. Quando adultos, terão direito ao trabalho e poderão ter um relacionamento afetivo e vida sexual. Precisam, portanto, de educação e informação.
Como presidente da subcomissão permanente de Assuntos Sociais da Pessoas com Deficiência, Lindbergh decidiu buscar soluções para entraves corriqueiros e sérios na vida dos brasileiros necessitados de assistência especial. Em vez de brigar por uma lei e enveredar por complicadas negociações, ele resolveu bater na porta do Palácio do Planalto e convidar a presidente Dilma a comprar a briga. “Muita coisa pode ser resolvida com  decretos presidenciais, portarias ministeriais e outros atos legais menos complicados”, disse.
No mesmo dia em que tomou posse na Casa  Civil, a ministra Gleisi Hoffman chamou o senador para conversar. Foi encarregada pela presidente da República de tomar conta do assunto.Voaram ofícios do senador para a presidência, e para 11 ministérios. Seguiram-se reuniões e negociações. Esse trabalho-formiga está dando forma a um grande programa a ser anunciado por Dilma Rousseff no dia 21 de setembro. Trata-se de um conjunto de ações que vão da obrigação de incluir o diagnóstico precoce de autismo e Síndrome de Down no protocolo médico de atendimento aos recém-nascidos até a criação de um regime especial de aposentadoria para os trabalhadores com Down. A expectativa de vida dessas pessoas gira em torno de 43 anos. Não faz sentido exigir delas 30 anos de contribuição com o INSS como os demais, para ter o mesmo direito à aposentadoria.
Outras histórias
Políticos são procurados por pessoas em busca de soluções para os problemas mais diversos. Foi assim que Lindbergh conheceu Fausto, um rapaz carioca autista que havia sido aprovado na prova de habilidade específica de Música para a Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas foi reprovado no Enem. Fausto estava frequentando as aulas como ouvinte, até uma reunião entre o reitor, Lindbergh e os pais do candidato a aluno. Agora, ele estuda oficialmente e poderá se formar. “Olha que sensacional. A gente fica aqui no Congresso pensando em grandes projetos, e de repente tem essas pequenas vitórias que fazem toda a diferença na nossa vida”. O mais engraçado, conta Lindbergh, foi a sinceridade do rapaz. “No primeiro encontro ele foi logo me avisando ‘ó, não votei em você não. Votei no Cesar Maia!”.
No último domingo, o senador Lindbergh Farias embarcou para Nova York. Com a deputada federal Rosinha da Adefal (PTdoB/AL), uma das cadeirantes eleitas em 2010, ele integra a delegação brasileira da Conferência dos Direitos da Pessoa com Deficiência, das Nações Unidas.
Dados preliminares do Censo 2010 indicam que o contingente de brasileiros com deficiência aumentou em pelo menos 3 milhões de pessoas, estatística inflada cada vez mais por vítimas de acidentes de trânsito. Se esse dado se confirmar, há 28 milhões de brasileiros convivendo com deficiências. O maior problema desse grupo não são as próprias limitações, mas a falta de estrutura no país para exercerem a própria autonomia.
Na Época