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segunda-feira, 14 de maio de 2012

Levante faz esculacho do torturador de Dilma Rousseff

pic.twitter.com/OIDmRsax


Levante faz esculacho do torturador de Dilma Rousseff

Maurício Lopes Lima, tenente-coronel reformado, reconhecido por Dilma como o seu torturador, foi "esculachado" esta manhã no Guarujá


O torturador Maurício Lopes - Foto: Reprodução

Cem jovens do Levante Popular da Juventude fizeram o esculhacho do tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima, que foi reconhecido pela presidenta Dilma Roussef como torturador da Operação Bandeirante, no município do Guarujá, no litoral de São Paulo (Rua Tereza Moura, 36), nesta segunda-feira (14).

Em depoimento à Justiça Militar, em 1970, quando tinha 22 anos, Dilma afirmouter sido ameaçada de novas torturas por dois militares chefiados por Lopes. Ao perguntar-lhes se estavam autorizados pelo Poder Judiciário, recebeu a seguinte resposta: "Você vai ver o que é o juiz lá na Operação Bandeirante" (um dos centros de tortura da ditadura militar).

Maurício Lopes Lima foi apontado pelo Ministério Público Federal (MPF), em ação civil pública ajuizada em novembro de 2010, como um dos responsáveis pela morte ou desaparecimento de seis pessoas e pela tortura de outras 20 nos anos de 1969 e 1970. Segundo o MPF, o militar foi "chefe de equipe de busca e orientador de interrogatórios" da Operação Bandeirante (Oban) e do DOI/Codi (veja destaques).

Lopes nega ter torturado qualquer preso, incluindo a presidenta, mas admite que a tortura era um procedimento comum à repressão. Em entrevista ao jornal A Tribuna, de Santos, em 2010, declarou: “Eu sou uma testemunha da tortura. Sim, eu sou. (...) a tortura, no Brasil, era uma coisa comum (...) da polícia nossa.”

Em entrevista em 2003 ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, Dilma foi perguntada de quem apanhava quando estava presa e respondeu: “O capitão Maurício sempre aparecia”.

Dilma, que era uma das líderes da VAR-Palmares, foi presa em 16 de janeiro de 1970. Ela foi brutalmente torturada e seviciada, submetida a choques e pau-de-arara durante 22 dias. No depoimento à Justiça Militar, em Juiz de Fora, em 18 de maio, cinco meses depois de ser presa, Dilma deu detalhes da tortura no Dops. "Repete-se que foi torturada física, psíquica e moralmente; que isso de seu durante 22 dias após o dia 16 de janeiro (dia em que foi presa)", diz trecho do depoimento.

Esculachos em série

O movimento social Levante Popular da Juventude promove mais uma rodada de esculacho de torturadores e agentes da repressão da ditadura em todo o país, nesta segunda-feira (14/5). Os manifestantes apoiam a instalação da Comissão da Verdade, cobram a localização e identificação dos restos mortais de desaparecidos políticos e exigem que os torturadores sejam julgados e punidos.

O jovens condenam a movimentação dos setores conservadores dentro e fora das Forças Armadas, que não aceitam a democracia e não admitem a memória, a verdade e a justiça, desrespeitando a autoridade da presidenta Dilma Rousseff e ministros de Estado, como no manifesto “Alerta à nação”.

Por isso, os jovens saem às ruas para denunciar a impunidade de torturadores e criminosos da ditadura com o objetivo de sensibilizar a sociedade e garantir que a Comissão tenha liberdade para fazer o seu trabalho e alcance seus objetivos.

Os jovens do Levante apoiam a Comissão e lutam para que sejam esclarecidos as graves violações de direitos humanos, como torturas, mortes, desaparecimentos, ocultação de cadáveres. Também querem a identificação dos autores desses crimes e das estruturas estatais e privadas envolvidas nesses crimes.

A partir disso, os jovens apoiam que o relatório da Comissão da Verdade seja encaminhado aos órgãos públicos competentes para auxiliar na localização e identificação de corpos e restos mortais de desaparecidos políticos, colaborando para a apuração das violações de direitos humanos e fazendo recomendações para a adoção de medidas e políticas públicas para assegurar que não aconteçam novamente.

Abaixo, leia nota do Levante sobre a instalação da Comissão da Verdade:

#Levantecontratortura: Comissão precisa de apoio para alcançar objetivos

A Comissão Nacional da Verdade precisa de apoio e acompanhamento de toda a sociedade, para que venha a cumprir a contento a tarefa que tem pela frente:

- conhecer a verdade sobre os processos de tortura, estupro, morte e desaparecimento forçado dos homens e mulheres que resistiram à Ditadura Militar;

- levar ao conhecimento da sociedade as lutas e a resistência daqueles que enfrentaram a ditadura e os nomes dos agentes do aparelho repressivo e os crimes por eles cometidos;

- fornecer os elementos necessários para que os torturadores, estupradores, homicidas e sequestradores que agiram em nome da ditadura com crime e covardia – e se escondem até hoje – possam ser responsabilizados e punidos, como determinou a Corte Interamericana de Direitos Humanos;

Convidamos a juventude e toda a sociedade para se posicionar em defesa da Comissão Nacional da Verdade, contra as pressões para que seus objetivos não sejam cumpridos ou os resultados desmoralizados, e contra os torturadores, quehoje denunciamos e que vivem escondidos e impunes e seguem ameaçando a liberdade do povo. Até que todos os torturadores sejam julgados, não esqueceremos, nem descansaremos.

No Brasil de Fato

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O torturador na vitrine

O torturador na vitrine

No Brasil a tortura como arma policial e como instrumento de domínio social foi instituição de Estado

Mário Maestri
O torturador debruçava-se sobre a vítima com objetivos imediatos. Através da destruição física e psicológica, buscava quebrar a vontade do torturado para que denunciasse companheiros; revelasse locais de encontro e reunião; indicasse atos passados e futuros. Exigia que tudo revelasse, a fim de interromper a dor lancinante e o medo à dilaceração irremediável da existência, vivida em extrema solidão.
A tortura durava minutos ou mantinha-se por horas, dias e semanas; podia deixar feridas, mais ou menos indeléveis, ou desembocar intencionalmente ou não na morte, sobretudo diante de vontade inquebrantável. Após sevícias inomináveis, Mário Alves morreu de hemorragia interna, empalado em cassetete, por esbirros indignados com o mutismo férreo do baiano.
A tortura possuía objetivo mais ambicioso. Almejava impor o medo aos que resistiam, pensavam em resistir, eram chamados à resistência, simpatizavam com ela ou conheciam sua existência. Todos deviam vigiar atos e passos, para não terminarem diante do torturador. Pais foram torturados diante dos filhos pequenos; jovens foram estupradas por cães; militantes foram dilacerados até a morte, como registro do direito absoluto do torturador. Devido a essa “função pedagógica”, enquanto a ditadura negava a prática da tortura, permitia-se que seu conhecimento penetrasse e aterrorizasse amplos segmentos da população.
No Brasil a tortura como arma policial e como instrumento de domínio social foi instituição de Estado. Ela foi introduzida, sustentada, justificada, financiada, apoiada ativamente pelas classes sociais que incentivaram e se locupletaram com o golpe militar: industriais; banqueiros; latifundiários; a grande imprensa; políticos conservadores; oficiais da ativa e retirados; a alta hierarquia da Igreja e da Justiça; etc.
Ainda hoje, as instituições judiciárias, legislativas e executivas do Estado desdobram-se para proteger e encobrir os responsáveis e os executores pelas práticas generalizadas de tortura e execução de prisioneiros políticos, atos que a justiça internacional e o direito dos povos definem como imprescritíveis e necessariamente objetos de punição exemplar.
Em 2010, o Superior Tribunal Federal reafirmou a impunidade daquelas ações criminosas. Em 14 de dezembro de 2011, a maioria dos vereadores porto-alegrenses, inclusive de partidos punidos pela ditadura, negaram, pelo voto, abstenção ou ausência, a rebatizar de Leonel Brizola a atual av. Castelo Branco – que homenageia o primeiro ditador do regime militar.
Os torturados arrastaram para sempre as feridas recebidas nas carnes e na alma. Amiúde, elas nunca cicatrizaram, sorvendo gota por gota a alegria da vida. Também no Brasil, a taxa de suicídio entre os grandes torturados é estarrecedora, e segue crescendo mesmo décadas após o martírio. Porém, em geral em silêncio, essas vítimas da desumanização promovida pelo Estado carregam orgulhosas a memória de luta empreendida, nas piores condições, por direitos sociais e humanos inarredáveis.
Os torturadores, não. Promovidos em suas carreiras civis e militares e retirados com aposentadorias magníficas, procuram esconder seus atos passados ou diminuir a magnitude e o sentido dos mesmos, quando é impossível negá-los. Sobretudo, mimetizam-se na população comum ou simplesmente recolhem-se para a vida familiar e privada, escondendo-se por de trás das portas aferrolhadas de seus ricos apartamentos e mansões.     
Retomando a prática consagrada em países como o Chile e a Argentina, uma garotada corajosa vem se postando diante das residências e locais de trabalho de torturadores em Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, São Paulo. Com carros de som, cartazes, panfletos e muita gritaria, denunciam aos passantes e vizinhos espantados, com farta documentação probatória, que ali se homizia no anonimato responsável pelo crime inominável de tortura de prisioneiros e prisioneiras inermes.
Em registro do indiscutível reconhecimento da infâmia de seus atos impunes, os torturadores revelados apenas se esgueiram pelas portas traseiras dos imóveis e residências ou arriscam-se a entrever os denunciantes, escondido por entre as cortinas das janelas, como os ratos que mergulham espavoridos no esgoto, aterrorizados pela luz do dia.
Mário Maestri é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-graduação em História da UPF. Foi preso e exilado, quando estudante, durante a ditadura militar. 

terça-feira, 27 de março de 2012

O torturador mora ao lado

 O torturador mora ao lado

Cristiano Navarro
Manifestação diante da empresa de
segurança privada Dacala - Foto: Cristiano Navarro

Os vizinhos não sabiam, mas na avenida Vereador José Diniz, 3.700, bairro do Campo Belo na cidade de São Paulo, trabalha um criminoso que em nome da ditadura civil e militar perseguiu, torturou, estuprou e matou militantes de esquerda.
Neste endereço funciona a empresa de segurança privada Dacala, e foi lá que cerca de 150 manifestantes mobilizados pelo Levante Popular da Juventude denunciaram o seu proprietário, David dos Santos Araujo, delegado aposentado da policial civil que atuou no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operação de Defesa Interna (DOICodi) utilizando codinome de “Capitão Lisboa”. Nos tempos do Doi Codi, Araujo se vestia como capitão do exército para passar como tal.
Para chamar a atenção para os crimes cometidos pelo “Capitão Lisboa”, o Levante Popular da Juventude usou de um método bastante conhecido em países vizinhos: o escracho. “Se não há justiça, há escrachos”, cobraram dos governos os movimentos sociais no Chile, Argentina e Uruguai durante a década de 2000 a punição contra militares que cometeram crimes nas ditaduras.
Com tambores, faixas, cartazes, carro de som e bandeiras os jovens gritavam, faziam pichações e dançavam para chamar a atenção das pessoas. “Pula, pula, pula quem é contra ditadura. Pula, sai do chão, quem é contra repressão!”.
As balconistas de uma farmácia vizinha, que assistiam ao ato, comentaram surpresas “nossa, você viu, o cara é um torturador”. No ponto de táxi da rua Demóstenes, ao lado da Dacala, foi a primeira vez que o taxista Nestor Pereira e seus companheiros ouviram falar do passado do empresário. “Eu trabalho aqui há muitos anos e a gente não sabia que ele era da ditadura. Mas tá certo, democracia é isso”.
Lira Alli, integrante do Levante explica que a ideia do protesto não é debater ou confrontar o criminoso, mas denunciar os crimes dialogando com a sociedade. “Nosso diálogo é com a sociedade, não com o torturador que está sendo denunciado pelo Ministério Público Federal por crimes contra a humanidade. Queremos que as pessoas saibam que este homem é um torturador. O dono dessa empresa é um torturador. David dos Santos Araújo é um torturador”. Durante a manifestação o torturador não apareceu, e procurado pela imprensa ele não respondeu. Os funcionários da empresa informaram que o dono da Dacala estava lá.
Escracho denuncia a presença do ex-policial
Foto: Levante Popular da Juventude
Escrachos como o que ocorreu em São Paulo foram organizados pelo Levante Popular na frente da casa de torturadores em Belo Horizonte, Belém, Fortaleza e Porto Alegre; manifestações em favor da Comissão da Verdade também ocorreram em Curitiba e Rio de Janeiro.
Para o estudante de direito e membro do Levante Popular da Juventude Caio Santiago, o debate sobre a memória do país vive um momento crucial. “Mesmo com as limitações para punição dos crimes, o governo Dilma teve uma boa postura de criar a Comissão da Verdade. Mas entendemos que a partir do manifesto dos militares a comissão passou a ser ameaçada”, afirma Santiago, que completa: “este é um tema que está em disputa na nossa sociedade, por isso o escracho pode ser decisivo”.
A lista de agentes da ditadura em São Paulo e em todo Brasil sujeitos a sofrer escracho é grande. Assim, outros grupos da capital paulista preparam novos protestos. É o caso do “Cordão da Mentira”, que será no dia primeiro de abril. Composto por coletivos políticos, grupos de teatro e sambistas de diversos grupos e escolas da capital paulista, o Cordão questionará quem e quais são os interesses que bloqueiam uma real investigação sobre a história brasileira. O desfile ocorrerá no dia da mentira e do golpe civil-militar de 1964. A concentração será às 11h30 em frente ao Cemitério da Consolação.

O que é um “escrache”?
Escrache, traduzido como escracho, é uma denuncia popular contra acusados de violações aos direitos humanos ou de corrupção, que se realiza mediante atos tais como discursos, panfletagens, teatro, cantos e pichações, em frente a um domicílio, um estabelecimento comercial ou em lugares públicos.
Os escraches se popularizaram na Argentina, Uruguai e Chile, com a mobilização de movimentos sociais e familiares que exigiam de seus governos a prisão para os crimes cometidos durantes os períodos de ditadura.

No Brasil de Fato

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Brigadeiro Rui Moreira Lima: "O torturador é um infame!"

Brigadeiro Rui Moreira Lima: "O torturador é um infame!"




Sobre as torturas mentais que sofreu, ao ser preso novamente, 6 anos depois do golpe, a quebra de hierarquia militar foi uma das coisas que mais chocou Moreira Lima: “Eu, um coronel, fui preso por um sargento e fiquei três dias num buraco que era chão de barro, sem poder deitar na cama, que era um tripé. Quando eu precisava fazer necessidades fisiológicas, vinha um soldado de 18 anos apontando arma pra mim”. Conta que só não morreu “porque não tiveram tempo pra isso”. Crê ter sido salvo pela repercussão das mortes do jornalista Vladimir Herzog e do operário Manuel Fiel Filho, as quais forçaram o fim da ditadura.
“E tem essa história de ‘revanche’… Ninguém quer fazer revanche em ninguém!”, assegura. E pede para que as pessoas se imaginem no lugar de uma mãe cujo filho “estava na faculdade e sumiu de casa e foi para o Araguaia”, por exemplo. “Eu já conversei com amigos meus que estiveram lá e me disseram: ‘Rui, lá não tinha quartel nem pra nós nem pra eles.’ Mas a grande questão é que ninguém pode suportar perder o seu filho e não saber onde ele está. O torturador é um infame!”, verbera Moreira Lima com as mãos em punho. “No mundo inteiro, os torturadores são presos independentemente do tempo que se passou depois das torturas”. Mas ele não acredita que isso vá acontecer aqui, embora considere equivocada a decisão do STF de anistiar os torturadores: “É crime contra a humanidade! Esses sujeitos não têm consciência, não têm alma, são covardes! Eu até digo pros meus colegas e eles me dizem: ‘Mas Rui… Você não alivia nada!’ E eu digo que não posso aliviar. Isso é porque vocês não foram cassados, não perderam o direito de voar… O Figueiredo anistiou os torturadores, ‘o lado de lá’, e não anistiou nós militares que lutamos pela democracia. Já em 79 eu deveria ter a patente de Brigadeiro, mas fiquei esperando 17 anos.”

Para ler na íntegra: QTMD?