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sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Violência contra a mulher = crime de tortura

Violência contra a mulher = crime de tortura


Senado aprova projetos que tratam de violência contra a mulher

Mariana Jungmann
Repórter da Agência Brasil
Brasília - Quatro projetos de lei que resultaram da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência contra a Mulher foram aprovados hoje (29) no plenário do Senado. As proposições visam a aumentar a rede de proteção às mulheres e o rigor na punição aos agressores. Os projetos seguem agora para a Câmara.
Um dos projetos aprovados é o que tipifica como tortura “a submissão de alguém à situação de violência doméstica e familiar, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental como forma de exercer domínio”.
Na parte de proteção às vítimas de violência de gênero, foi aprovado projeto que concede às mulheres benefício temporário da Previdência Social como forma de auxílio decorrente de risco social provocado por violência doméstica. E o que impõe maior celeridade na análise de pedidos de prisão preventiva contra agressores, de modo a evitar o agravamento da violência.
Além desses, foi aprovado projeto que estabelece que devem ser criados e organizados serviços públicos específicos, no Sistema Único de Saúde (SUS), para atendimento a mulheres e vítimas de violência doméstica em geral.
A CPI da Violência contra a Mulher gerou ainda outros projetos de lei que ainda estão tramitando no Senado. O relatório final da comissão foi entregue à presidenta Dilma Rousseff em sua última visita ao Congresso, na terça-feira (27).

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domingo, 1 de julho de 2012

Albernaz, o capitão que socou o rosto de Dilma Rousseff, em 1970

Albernaz, o capitão que socou o rosto de Dilma Rousseff, em 1970


‘Quando venho para a Oban, deixo o coração em casa’, dizia o militar do Exército
Reprodução da carteira de identidade de Benoni Albernaz, adulterada por ele para incluir a patente de coronel 
Agência O Globo

SÃO PAULO - O capitão Benoni de Arruda Albernaz tinha 37 anos, sobrancelha arqueada, riso de escárnio e fazia juras de amor à pátria enquanto socava e quebrava os dentes da futura presidente do Brasil Dilma Vana Rousseff, na época com 23 anos. Ele era o chefe da equipe A de interrogatório preliminar da Operação Bandeirante (Oban) quando Dilma foi presa, em janeiro de 1970. Em novembro daquele ano, seria registrado o 43º entre os 58 elogios que Albernaz recebeu nos 27 anos de serviços prestados ao Exército.
“Oficial capaz, disciplinado e leal, sempre demonstrou perfeito sincronismo com a filosofia que rege o funcionamento do Comando do Exército: honestidade, trabalho e respeito ao homem”, escreveu seu comandante na Oban, o tenente-coronel Waldyr Coelho, chamado por Dilma e por colegas de cela de “major Linguinha”, por causa da língua presa que tinha.

Um torturador com diploma do Mérito Policial

Quinze anos depois, os caminhos percorridos por Albernaz não o levaram à condição de herói nacional, como ele imaginava. Registro bem diferente foi associado a seu nome na sentença do Conselho de Justiça Militar em que foi condenado a um ano e seis meses de prisão por falsidade ideológica. “Ética, moral, prestígio, apreço, credibilidade e estima são valores que o militar deve desfrutar junto à sociedade e ao povo de seu país. A fé militar e o prestígio moral das instituições militares restaram danificadas pelo comportamento do réu”, concluiu o presidente do conselho, João Baptista Lopes.
A prensa nada tinha a ver com as sessões de tortura comandadas por Albernaz na Oban. Sua agressividade parecia se encaixar como luva na estrutura criada para exterminar opositores do regime. Apenas um ano depois de torturar Dilma e pelo menos outras três dezenas de opositores, ele recebeu das mãos do então governador de São Paulo, Abreu Sodré, o diploma da Cruz do Mérito Policial.
Filho de militar que representou o Brasil na 2ª Guerra Mundial, Albernaz nasceu em São Paulo e seguiu a carreira do pai. Classificou-se em 107º lugar na turma de 119 aspirantes a oficial de artilharia em 1956, mesmo ano em que se casou. Serviu no Mato Grosso do Sul antes de ser transferido para Barueri, em São Paulo, no início dos anos 1960.
Tinha fixação pela organização de paradas de Sete de setembro. Estava na guarda do QG do Exército na capital paulista, em fevereiro de 1962, quando o comandante foi alvo de atentado à bala. Conseguiu correr atrás do autor e o espancou. Virou pupilo do general Nelson de Mello, que mais tarde viraria ministro da Guerra no governo de João Goulart.
Estava em férias na noite do golpe militar de 1964 e, ainda assim, apresentou-se espontaneamente para o serviço. Em 1969, representou o comando de sua unidade na posse do secretário de Segurança Pública de SP, o general Olavo Viana Moog, um dos futuros comandantes do grupo que exterminou a Guerrilha do Araguaia.
Neste mesmo ano foi convocado pelo general Aloysio Guedes Pereira para servir na recém-criada Oban, centro de investigações montado pelo Exército para combater a esquerda armada. Foi lá que Dilma o conheceu.
“Quem mandava era o Albernaz, quem interrogava era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Começava a te interrogar; se não gostasse das respostas, ele te dava soco. Depois da palmatória, eu fui pro pau de arara”, disse a presidente em depoimento dado, no início dos anos 2000, para o livro “Mulheres que foram à luta armada”, de Luiz Maklouf Carvalho.
Em 2001, em relato à Comissão de Direitos Humanos de Minas Gerais, Dilma afirmou que já tinha levado socos ao ser interrogada em Juiz de Fora (MG), em maio de 1970, e que seu dente “se deslocou e apodreceu”. No mesmo depoimento, ela explicou: “Mais tarde, quando voltei para São Paulo, Albernaz completou o serviço com socos, arrancando meu dente”.

Telefone de magneto era usado para choques elétricos

Albernaz era conhecido por se divertir dizendo aos presos que, por ser muito burro, precisava ouvir respostas claras. Tinha na sala um telefone de magneto que era usado para “falar com Fidel Castro”, metáfora para a aplicação de choques elétricos, segundo relato de Elio Gaspari no livro “A Ditadura Escancarada”.
“Quando venho para a Oban, deixo o coração em casa”, explicava às vítimas. Uma delas foi o coordenador do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, primeiro preso a desaparecer após a edição do AI-5.
O mesmo general que convocara Albernaz para a Oban anos depois assinou relatório informando que Jonas “evadiu-se na ocasião em que foi conduzido para indicar um aparelho da ALN”. Trinta anos depois, O Globo noticiaria a existência de um relatório em que militares admitem a morte do guerrilheiro em decorrência de “ferimentos recebidos”.
— Albernaz era um homem terrível, o torturador mais famoso da Oban naquela época — confirmou ao Globo Carlos Araújo, ex-marido de Dilma, que foi preso alguns meses depois dela e submetido aos mesmos procedimentos da ex-mulher.

Renegado pelo Exército e atolado em dívidas

O trabalho na Operação Oban fez com que Benoni Albernaz caísse em desgraça na própria família. Aposentado e dono de uma fazenda em Catalão, Goiás, o pai se chateava ao saber do comportamento do filho:
— Ele usava o poder que tinha para extorquir as pessoas, e o pai ficava triste. Sempre foi uma família esquisita, muito desunida — conta a dona de casa Maria Lázara, de 60 anos, irmã de criação do capitão.
— Olha, acho que uma vez ele caiu do cavalo numa parada militar, antes da ditadura, e o cavalo pisou na nuca dele. A partir daí, ele não ficou bom da cabeça — supõe a prima Noemia da Gama Albernaz, que hoje vive em Cuiabá.
Albernaz deixou a Oban em fevereiro de 1971, quando o aparelho já havia se transformado no DOI-Codi. Por três vezes tentou fazer o curso de operações na selva, mas teve a matrícula recusada. Foi transferido para o interior do Rio Grande do Sul, passando da caça a comunistas às operações de rotina em estradas de fronteira. O Exército tentava renegá-lo. Em março de 1974, foi internado em Porto Alegre, vítima de envenenamento.
Albernaz tinha problemas com dinheiro. Foi denunciado pelo menos cinco vezes por fazer dívidas com recrutas e não pagá-los, apesar das advertências de seus superiores. Estava lotado no setor medalhístico da Divisão de Finanças do Exército, em Brasília, quando foi declarado inabilitado para promoções, por não satisfazer a dois requisitos: “conceito profissional” e “conceito moral”. Em março de 1977, o presidente Ernesto Geisel o transferiu para a reserva.
Em um escritório no Centro de São Paulo, passou a coagir clientes a comprar terrenos vestido com farda falsificada de coronel — embora tivesse sido transferido para a reserva como major — e dizendo-se integrante do SNI.
— Você é uma estrela de nossa bandeira. Vamos investir juntos, ombro a ombro, peito aberto — dizia aos clientes, segundo registros de reclamação levadas ao Exército, pistas que levariam à sua condenação por falsidade ideológica.
Em 1980, intermediou transações de ouro de baixa qualidade no Pará, vendendo como vantagem seu acesso aos garimpos. Nunca foi responsabilizado pelo espancamento, por encomenda, de um feirante de origem japonesa.
— Se não pagar agora, vai preso para o Dops — ameaçou, já em 1979, quando não mais pertencia ao Exército.
O agredido foi à delegacia prestar queixa e, ao saber disso, Albernaz baixou no local.
— Sou amigo íntimo do presidente da República, foi ele quem me deu isso — falou ao delegado, mostrando a pistola Smith & Wesson. — Na lista de torturadores, sou o número 2.
No fim dos anos 1980, Albernaz estava atolado em dívidas. Não conseguiu pagar a hipoteca e foi acionado pelo menos quatro vezes em ações de execução extrajudicial. Sofreu um infarto quando estava no apartamento da namorada, nos Jardins, em São Paulo, em 1992. Chegou morto ao Hospital do Exército. Deixou três filhos e herança de R$ 8,4 mil para cada, resgatados 15 anos após sua morte, quando fizeram o inventário. Nenhum deles quis falar.
— Siga em frente com o seu trabalho, que a gente está seguindo em frente aqui também — disse o filho Roberto, dentista, desligando o telefone.
— Isso é coisa do passado, gostaria que não me incomodasse — completou a também dentista Márcia Albernaz.
— Esquece nossa família, vai ser melhor para você — disse Benoni Júnior, médico do Exército.
No O Globo

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sábado, 30 de junho de 2012

A maldade da maldade: Padrasto teria torturado e estuprado meninas com aval da mãe



A maldade da maldade: Padrasto teria torturado e estuprado meninas com aval da mãe

Agentes da Delegacia de Polícia da Mulher de Lajeado, no Vale do Taquari, Rio Grande do Sul, prenderam na sexta-feira um homem de 32 anos por ter torturado, escravizado e estuprado duas enteadas, entre 2005 e 2011. De acordo com a delegada Márcia Scherer, o padrasto agia com crueldade e tinha apoio da mãe das crianças. "Ele mantinha relação sexual com ambas, em dias alternados, com o consentimento da mãe. Além disso, ele obrigava a mais velha a vender CDs e DVDs piratas como forma de sustento da família. Não fosse suficiente, dava choques elétricos nas duas."
Ele também havia gravado com ferro quente a inicial do nome dele na perna da enteada mais velha e faria o mesmo na mais nova, segunda a delegada, ao detalhar os motivos da prisão preventiva. O suspeito já havia sido investigado e indiciado, em 2003, por suspeita de estupro contra as crianças, quando a família vivia em outra região do Estado, mas acabou sendo absolvido no processo. As vítimas ficaram dois anos longe do convívio familiar, mas quando a mãe as levou para Lajeado os crimes voltaram a ocorrer com mais intensidade.
A mãe, que é considerada co-autora do crime, por ser conivente com os abusos sexuais e maus-tratos, e por buscar anticoncepcionais em um posto de saúde para as filhas, ainda não teve o pedido de prisão acatado. O caso é investigado desde 2011, quando os crimes foram descobertos, após uma delas relatar os casos a uma professora. Hoje com 14 e 15 anos, as jovens vivem sob os cuidados da avó materna.

No Terra

sábado, 23 de junho de 2012

Presidenta Dilma: " Não tenho qualquer sentimento. Nem ódio, nem vingança. Tampouco perdão"

Presidenta Dilma: " Não tenho qualquer sentimento. Nem ódio, nem vingança. Tampouco perdão"


Presidente comenta reportagens do EM sobre a tortura a que foi submetida durante a ditadura e afirma que todos têm o compromisso de não deixar jamais isso acontecer 


Denise Rothenburg e Gabriel Mascarenhas




"Vingar, ou se magoar, ou odiar é ficar dependente de quem você quer vingar, magoar ou odiar. Isso não é um bom sentimento para ninguém" - Presidente comenta reportagens do EM sobre a tortura a que foi submetida durante a ditadura e afirma que todos têm o compromisso de não deixar jamais isso acontecer"


Rio de Janeiro – Ao comentar a reportagem do Estado de Minas sobre a tortura que sofreu em Juiz de Fora (MG) no período da ditadura militar, a presidente Dilma Rousseff aproveitou para pregar o fim da tortura policial ainda existente no Brasil: “Venho dando depoimentos ao longo da minha vida. Alguns te asseguro muito difíceis. E este país evoluiu muito. E tem que evoluir mais, porque os depoimentos difíceis têm que ser eliminados em todas as esferas, inclusive na atividade da polícia, em geral”, disse a presidente.

A defesa abriu uma longa declaração de Dilma sobre a tortura e o depoimento ao Conselho de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), publicado no domingo com exclusividade pelo EM. Ao falar desse assunto, a maneira incisiva com que ela se pronuncia sobre vários temas dá lugar à emoção e a um tom mais pessoal: “Eu acredito, vou te dizer assim com sinceridade: eu entendo o interesse de vocês, sou presidente e, afinal de contas, vocês quererem saber o que aconteceu comigo. É um interesse legítimo. Agora, em geral, posso lhes dizer o seguinte: algumas das figuras que me torturaram não tinham nomes verdadeiros. Há, vamos dizer, elocubrações”, disse a presidente.

Nesse momento, ela passa a falar o que quer ver como foco ao longo do período em que o país conviverá com a Comissão da Verdade. “A questão não é o torturador. É a tortura. O torturador é um agente, mesmo ele tendo a sua responsabilidade reconhecida depois do que aconteceu no julgamento dos que estiveram em Nuremberg”, disse Dilma referindo-se ao tribunal que condenou nazistas depois da Segunda Guerra Mundial. Lá foi aprovado que, mesmo cumprindo ordens, o torturador é responsável. 

Dilma disse, porém, não achar que o torturador seja o problema. “O problema é em que condições a tortura é estabelecida e operada. E isso todos sabemos em que condições foi. Ninguém aqui desconhece o que aconteceu neste país num determinado período de sua história. E todos nós, eu tenho certeza, que estamos aqui nesta sala, temos o compromisso de não deixar jamais isso acontecer”, afirmou.

Foi o momento mais pessoal da entrevista, em que o estereótipo da Dilma durona se esvai. “E eu te digo: com o passar dos anos, uma das melhores coisas que me aconteceram foi não me fixar nas pessoas (nos torturadores), nem ter por elas qualquer sentimento. Como eu disse no meu discurso, nem ódio, nem vingança, nem tampouco perdão. Não há sentimento que se justifique contra esse tipo de ato. Há a frieza da razão. E a frieza da razão é não esquecer e, por isso, nós criamos a Comissão da Verdade”, comentou. “Se vingar, ou se magoar, ou odiar é ficar dependente de quem você quer vingar, magoar ou odiar. Isso não é um bom sentimento para ninguém”, reforçou a presidente.

Nesse momento, entretanto, ela recupera mais a formalidade e se refere à Comissão da Verdade como o fórum que tem como missão “virar a página deste país”. E, assim, inspirada na Grécia, tão em voga por conta da crise econômica, ela concluiu: “Na Grécia, vivemos na época da Grécia, se não me engano, aletheia, verdade, é o contrário de lethe, esquecimento. A verdade é esta: não se esquece, mas não se esquece do ponto de vista histórico e não do ponto de vista individual”. 



Para ler a íntegra, AQUI

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Revanche, sim


Revanche, sim


A tradição de conciliar é uma força contraditória do Brasil. Ora, nos faz avançar, porque a conciliação é mesmo o melhor caminho. Ora, é um âncora que nos prende ao atraso, porque conciliar também pode ser congelar problemas que merecem enfrentamento.
Na virada dos anos 70 para os 80, a ditadura militar de 1964 começou a cair de madura. 

Já havia falido a eficiência econômica do regime, hoje apontada como uma suposta virtude daqueles tempos. A Lei da Anistia de 1979 e o governo Figueiredo foram os últimos suspiros de uma ditadura que estava morrendo.

Para tentar ver com equilíbrio aquele período, invoca-se frequentemente o mito da competência tecnocrática do regime dos generais. Mas o fato é que os militares foram incompetentes na política e na economia.

Será que a nossa infraestrutura não teria prosperado muito mais com democracia? As tais obras faraônicas aconteceram pelos méritos do regime? Itaipu só foi construída por causa da ditadura? Ou muitas dessas obras foram projetos mal pensados e mal executados, como a Transamazônica e o acordo nuclear com a Alemanha?

Difícil enxergar algo de bom naqueles tempos, com exceção das músicas do Chico e da voz da Elis. A gente deve lembrar que uma geração inteira de líderes jovens foi morta, presa e torturada. E muitos que não aderiram à luta armada tiveram o mesmo destino. O Brasil perdeu talentos. Deixou de avançar porque a democracia foi interrompida. Não havia risco de golpe de esquerda nem de ditadura comunista. O país piorou com o golpe.

Hoje é um dia histórico. Vinte e sete anos após o fim oficial da ditadura, foi instalada a Comissão da Verdade. Antes tarde do que nunca.

Invocando nossa tradição conciliatória, setores da sociedade querem que os dois lados sejam investigados, referindo-se aos agentes da ditadura e aos militantes de organizações de esquerda.

Como já registrado neste espaço em colunas anteriores, não dá para tratar os dois lados com igualdade. Os militantes de esquerda, sejam os que pegaram em armas, sejam os que optaram pela resistência pacífica, já foram perseguidos, presos, torturados, mortos e exilados. Isso não aconteceu com os agentes do Estado que, ilegalmente, investigaram, prenderam, torturaram e mataram. O foco deve ser a ditadura.

Pela lei que a criou, a Comissão da Verdade não terá poder de punição. Poderá investigar para relatar o que aconteceu. Eventuais punições dependerão de outras leis e de outras interpretações da Justiça --algo que parece, hoje, bem distante da realidade.

Portanto, não existe hipótese de revanchismo. Mas há, sim, a oportunidade para uma revanche da democracia. Como disse a presidente Dilma Rousseff, "merecem a verdade factual aqueles que perderam amigos e parentes e que continuam sofrendo como se eles morressem de novo e sempre a cada dia".

Essas famílias, presidente, merecem a verdade. Mas também a merecem todos os brasileiros, sobretudo os mais jovens. Para que nunca mais algo assim aconteça no Brasil.

Kennedy Alencar

terça-feira, 8 de maio de 2012

RS:Homossexual é torturado por PMs e impedido de registrar queixa

Horror, horror!!Homossexual é torturado por PMs e impedido de registrar queixa 







sexta-feira, 27 de abril de 2012

Justiça do Rio determina que Estado reintegre servidor público acusado de subversão

Justiça do Rio determina que Estado reintegre servidor público acusado de subversão

O TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) determinou que o Estado do Rio reintegre um servidor público demitido durante a ditadura militar.  O homem foi preso e torturado, mesmo alegando não ter comportamentos subversivos.


Roberto Costa trabalhava como professor estadual, jornalista e ainda exercia atividade sindical. Foi preso e torturado nos anos 70 devido a uma homonímia (pessoas que possuem o mesmo nome) e  para sua segurança, precisou mudar seu nome e passou a viver escondido, tendo sido, por isso, demitido do serviço público estadual por abandono de cargo.

Na decisão, a juíza determinou que Roberto seja reintegrado no mesmo cargo que exercia, concedendo-lhe todas as vantagens e atualizando os triênios e as verbas atrasadas, bem como concedendo-lhe a aposentadoria em virtude de ele já possuir 70 anos de idade.

Em seu recurso, o Estado do Rio alegou ter havido prescrição administrativa da pretensão do autor do processo, mas a relatora do acórdão da 5ª Câmara Cível, desembargadora Cristina Teresa Gaulia, considerou que a mesma não aconteceu e manteve a decisão da juiza Neusa Regina de Alvarenga Leite, da 14ª Vara da Fazenda Pública da Capital.


Número do processo: 0289201-65.2010.8.19.0001


Última Instância

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O torturador na vitrine

O torturador na vitrine

No Brasil a tortura como arma policial e como instrumento de domínio social foi instituição de Estado

Mário Maestri
O torturador debruçava-se sobre a vítima com objetivos imediatos. Através da destruição física e psicológica, buscava quebrar a vontade do torturado para que denunciasse companheiros; revelasse locais de encontro e reunião; indicasse atos passados e futuros. Exigia que tudo revelasse, a fim de interromper a dor lancinante e o medo à dilaceração irremediável da existência, vivida em extrema solidão.
A tortura durava minutos ou mantinha-se por horas, dias e semanas; podia deixar feridas, mais ou menos indeléveis, ou desembocar intencionalmente ou não na morte, sobretudo diante de vontade inquebrantável. Após sevícias inomináveis, Mário Alves morreu de hemorragia interna, empalado em cassetete, por esbirros indignados com o mutismo férreo do baiano.
A tortura possuía objetivo mais ambicioso. Almejava impor o medo aos que resistiam, pensavam em resistir, eram chamados à resistência, simpatizavam com ela ou conheciam sua existência. Todos deviam vigiar atos e passos, para não terminarem diante do torturador. Pais foram torturados diante dos filhos pequenos; jovens foram estupradas por cães; militantes foram dilacerados até a morte, como registro do direito absoluto do torturador. Devido a essa “função pedagógica”, enquanto a ditadura negava a prática da tortura, permitia-se que seu conhecimento penetrasse e aterrorizasse amplos segmentos da população.
No Brasil a tortura como arma policial e como instrumento de domínio social foi instituição de Estado. Ela foi introduzida, sustentada, justificada, financiada, apoiada ativamente pelas classes sociais que incentivaram e se locupletaram com o golpe militar: industriais; banqueiros; latifundiários; a grande imprensa; políticos conservadores; oficiais da ativa e retirados; a alta hierarquia da Igreja e da Justiça; etc.
Ainda hoje, as instituições judiciárias, legislativas e executivas do Estado desdobram-se para proteger e encobrir os responsáveis e os executores pelas práticas generalizadas de tortura e execução de prisioneiros políticos, atos que a justiça internacional e o direito dos povos definem como imprescritíveis e necessariamente objetos de punição exemplar.
Em 2010, o Superior Tribunal Federal reafirmou a impunidade daquelas ações criminosas. Em 14 de dezembro de 2011, a maioria dos vereadores porto-alegrenses, inclusive de partidos punidos pela ditadura, negaram, pelo voto, abstenção ou ausência, a rebatizar de Leonel Brizola a atual av. Castelo Branco – que homenageia o primeiro ditador do regime militar.
Os torturados arrastaram para sempre as feridas recebidas nas carnes e na alma. Amiúde, elas nunca cicatrizaram, sorvendo gota por gota a alegria da vida. Também no Brasil, a taxa de suicídio entre os grandes torturados é estarrecedora, e segue crescendo mesmo décadas após o martírio. Porém, em geral em silêncio, essas vítimas da desumanização promovida pelo Estado carregam orgulhosas a memória de luta empreendida, nas piores condições, por direitos sociais e humanos inarredáveis.
Os torturadores, não. Promovidos em suas carreiras civis e militares e retirados com aposentadorias magníficas, procuram esconder seus atos passados ou diminuir a magnitude e o sentido dos mesmos, quando é impossível negá-los. Sobretudo, mimetizam-se na população comum ou simplesmente recolhem-se para a vida familiar e privada, escondendo-se por de trás das portas aferrolhadas de seus ricos apartamentos e mansões.     
Retomando a prática consagrada em países como o Chile e a Argentina, uma garotada corajosa vem se postando diante das residências e locais de trabalho de torturadores em Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, São Paulo. Com carros de som, cartazes, panfletos e muita gritaria, denunciam aos passantes e vizinhos espantados, com farta documentação probatória, que ali se homizia no anonimato responsável pelo crime inominável de tortura de prisioneiros e prisioneiras inermes.
Em registro do indiscutível reconhecimento da infâmia de seus atos impunes, os torturadores revelados apenas se esgueiram pelas portas traseiras dos imóveis e residências ou arriscam-se a entrever os denunciantes, escondido por entre as cortinas das janelas, como os ratos que mergulham espavoridos no esgoto, aterrorizados pela luz do dia.
Mário Maestri é historiador e professor do Curso e do Programa de Pós-graduação em História da UPF. Foi preso e exilado, quando estudante, durante a ditadura militar. 

sábado, 7 de abril de 2012

Protesto expõe legista acusado de encobrir tortura durante a ditadura militar

Protesto expõe legista acusado de encobrir tortura durante a ditadura militar

Blog do Sakamoto


Postes, muros e pontos de ônibus dos bairros da Vila Madalena e Pinheiros amanheceram com centenas de cartazes de protesto contra Harry Shibata, médico legista e ex-diretor do Instituto Médico Legal de São Paulo. Acusado de ser responsável por falsos atestados de óbito usados para acobertar assassinatos de opositores pela ditadura militar, ele teria ignorado marcas deixadas por sessões de tortura produzindo laudos de acordo com as necessidades dos militares. Os cartazes foram colados por um grupo de manifestantes na madrugada deste sábado (7).
Shibata é acusado de, sem ter visto o corpo, atestar como suicídio a morte de Vladimir Herzog, então diretor da TV Cultura, que fora convocado para “prestar esclarecimentos” no DOI-Codi, em em outubro de 1975. O orgão, ligado ao regime, tinha o objetivo de reprimir opositores e se transformou em um dos principais centros de tortura do país.
A morte do jornalista após sessão de tortura tornou-se um símbolo na luta contra a ditadura. E o culto ecumênico realizado em sua homenagem, em dezembro daquele ano, na Catedral da Sé, foi o primeiro grande ato da sociedade civil contra as atrocidades cometidas pelos militares.
Nos dias 31 de março e 1o de abril, manifestações no Rio de Janeiro e em São Paulo reuniram centenas de pessoas para lembrar o aniversário do golpe de 1964. Elas exigiram que os crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar sejam esclarecidos e os envolvidos em casos de tortura punidos por crime contra a humanidade.
Como parte dos protestos, residências de militares acusados de envolvimento em tortura foram marcadas. Da mesma forma, parte dos cartazes fornece o endereço do médico legista, em uma rua de classe média alta.
Neste sábado, comemora-se o Dia do Médico Legista. E o Dia do Jornalista.
Fotos Leonardo Sakamoto

sábado, 31 de março de 2012

Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas pela ditadura brasileira - Parte 1


E eles comemoram o que? Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas pela ditadura brasileira - Parte 1



SOLANGE LOURENÇO GOMES (1947-1982)

Paulista de Campinas, Solange Lourenço Gomes vivia no Rio de Janeiro, onde fez o curso clássico no Colégio Andrews e começou a estudar Psicologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1966. Participou de grupos de estudo sobre marxismo naquela faculdade e manteve, por algum tempo, ligações com o PCBR. Em 1968, vinculou-se à Dissidência da Guanabara, que posteriormente adotaria o nome MR-8, e passou para a clandestinidade por volta de setembro ou outubro de 1969. Morava com Daniel Aarão Reis Filho, dirigente daquela organização. Documentos policiais informam que Solange participou de várias ações armadas entre 1969 e 1970. No final de 1970, foi deslocada para a Bahia. Nos primeiros dias de março de 1971, depois de participar de uma panfletagem num jogo de reinauguração do estádio da Fonte Nova, em Salvador, quando ocorreu uma perigosa correria entre a multidão, Solange teria sofrido um grave surto psicótico e se apresentado a uma dependência policial, afirmando ser subversiva e fornecendo informações sobre o MR-8. No ano seguinte, em 6 de julho, Solange foi julgada pela Justiça Militar, na 2a Auditoria do Exército, no Rio, quando foi determinada sua internação no manicômio judiciário pelo prazo mínimo de dois anos. Depois de solta, em 1973, cursou Medicina e casou-se, em 1980, com Celso Pohlmann Livi. No requerimento que apresentou à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), o marido de Solange informou que ela se manteve em tratamento psiquiátrico desde que saiu da prisão. Anexou ao processo uma declaração do psiquiatra, dr. Alberto Quielli Ambrósio, atestando: “Durante estes anos, pude testemunhar seu enorme esforço para recuperar-se do grave quadro psiquiátrico, psicótico, consequência de sua prisão em 1971. As torturas físicas e mentais a que foi submetida enquanto presa fizeram-na revelar nomes de companheiros de movimentos políticos, bem como esse ‘depoimento’ no qual se dizia arrependida e renegava sua militância foi amplamente divulgado em jornais, denegrindo sua moral enquanto mulher. Estes fatos fizeram-na sentir-se sempre culpada pela desgraça e morte das pessoas. Ajudada por nossos esforços, de sua família e do marido, Solange obteve muitas e significativas melhoras, mas não conseguiu conviver com tantas marcas – insuperáveis – e continuar viva”. Em 1o de agosto de 1982, Solange atirou-se da janela de seu apartamento, no terceiro andar da rua Barão da Torre, no Rio, vindo a falecer no hospital Miguel Couto. Embora a data de sua morte seja muito posterior ao episódio da prisão e dos maus-tratos sofridos nos órgãos de segurança do regime militar, a CEMDP considerou comprovado que o suicídio decorreu dos traumas irreversíveis sofridos em 1971.



LYDA MONTEIRO DA SILVA (1920-1980)

Às 13h40 do dia 27 de agosto de 1980, no Rio de Janeiro, Lyda Monteiro da Silva morreu ao abrir uma carta-bomba. Ela era diretora da Secretaria do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e ocupava a função de secretária da Comissão de Direitos Humanos da entidade. A correspondência era endereçada ao presidente do Conselho Federal da OAB, Eduardo Seabra Fagundes. Lyda faleceu no mesmo dia, não resistindo aos ferimentos causados pelo atentado. Seu enterro, no cemitério São João Batista, foi presenciado por uma multidão de 4 mil pessoas, consternadas com a brutalidade do atentado. Na época, ficou absolutamente nítido o desinteresse do governo militar pela apuração dos fatos, o que fez crescer a certeza da motivação política do crime. A interpretação mais plausível do caso foi que o atentado teria sido praticado por militares insatisfeitos com a abertura política e com a Lei de Anistia aprovada no ano anterior, e que, ao mesmo tempo estavam interessados em intimidar o posicionamento combativo da OAB contra o regime.


LILIANA INÉS GOLDEMBERG (1953-1980)

Filha de profi ssionais bem estabelecidos, cursava o segundo ano de Psicologia na Universidade de Buenos Aires e trabalhava como secretária no Hospital da Criança da capital argentina quando abandonou a vida legal em função da militância política. Em 1970, militou nas Fuerzas Armadas Revolucionarias (FAR) e atuou em Mar del Plata. Em outubro de 1973, com a fusão das FAR com a organização Montoneros, Liliana foi enviada para Neuquén, no sul do país. De 1974 a 1976, voltou a viver em Buenos Aires, mas passou para a clandestinidade depois que seu irmão, Carlos Andrés Goldemberg, foi baleado dentro de um táxi. De 1977 a 1980, viveu na Espanha, cumprindo tarefas para os Montoneros. Em 1980, Liliana e seu companheiro, Eduardo Gonzalo Escabosa, codinome “Andrés”, regressavam à Argentina (a exemplo de muitos montoneros no exílio que foram engajados numa contraofensiva programada pela organização para enfrentar a ditadura argentina) quando foram encontrados pelas forças de repressão brasileira e argentina. Aluízio Palmar, no livro Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?, relata a morte do casal, ocorrida durante a travessia entre Porto Meira, em Foz do Iguaçu, e Puerto Iguazú, na margem argentina do rio Paraná: “Foi num sábado, 2 de agosto de 1980. Lílian, de 27 anos, loura e franzina, e seu companheiro Eduardo, de 30 anos, embarcaram na lancha Caju IV, pilotada por Antônio Alves Feitosa, conhecido na região como ‘Tatu’. Antes de atracar no lado argentino, dois policiais brasileiros que estavam a bordo mandaram o piloto parar a lancha e apontaram suas armas para o casal. Cercados, Lílian e Eduardo ainda puderam ver que mais policiais desciam ao atracadouro, vindos da aduana Argentina. Assim que perceberam ter caído numa cilada, Lílian e Eduardo se ajoelharam diante de um grupo de religiosos que estava a bordo e gritaram que eram perseguidos políticos e preferiam morrer ali a serem torturados. Em seguida abriram um saco plástico, tiraram os comprimidos e os engoliram bebendo a água barrenta do rio Paraná. Morreram em trinta segundos, envenenados por uma dose fortíssima de cianureto”.


MÓNICA SUSANA PINUS DE BINSTOCK (1953-1980)

Mónica Susana integrava o Movimiento Peronista Montoneros, organização de resistência armada à ditadura militar argentina (1976-1983). Em 12 de março de 1980, ela e Horacio Domingo Campiglia, também montonero, voltavam do exílio para a Argentina. Usando passaportes falsos, haviam saído da Cidade do México na véspera, num voo da empresa aérea venezuelana Viasa, que fazia conexão em Caracas com um voo da Varig rumo ao Rio de Janeiro. Na capital fl uminense, no aeroporto do Galeão, foram sequestrados. Mónica era casada com Edgardo Ignacio Binstock, com quem teve dois filhos. Edgardo aguardava a mulher no Rio de Janeiro. Desde 2005, ele é o secretário de Direitos Humanos da Província de Buenos Aires. As denúncias do sequestro, registradas nos requerimentos apresentados à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) e amplamente divulgadas pela imprensa nacional e argentina a partir de então, foram comprovadas em 2002, quando o Ministério de Justiça e Direitos Humanos argentino recebeu, do Departamento de Estado dos EUA, farta documentação sobre violações dos direitos humanos cometidas pelo Estado argentino entre 1975 e 1984. Integrantes do Batalhão 601 fizeram então contato com seu colega da inteligência militar brasileira, solicitando permissão para realizar uma operação no Rio de Janeiro. O Brasil a concedeu, e uma equipe especial de agentes argentinos, sob o comando operacional do tenente-coronel Román, viajou para a cidade em um C-130 da Força Aérea Argentina. Os dois militantes foram capturados com vida e levados para a Argentina. Tentando não alertar os Montoneros sobre a operação realizada no Brasil, os argentinos responsáveis pela prisão clandestina ainda cuidaram de hospedar um casal de argentinos num hotel, registrando-os com os documentos falsos de Mónica e Horacio, o que terminou deixando rastros de seu desembarque no Brasil. O memorando conclui afirmando que os dois estavam presos no Campo de Mayo, centro clandestino da repressão argentina.


THEREZINHA VIANA DE ASSIS (1941-1978)

Therezinha estudou em Aracaju, sua cidade natal, e concluiu o curso de Economia na Universidade Federal de Sergipe. Mudou-se então para Belo Horizonte, onde trabalhou na Caixa Econômica Federal. Foi presa e torturada em 1972 e, ao ser libertada um ano depois, exilou-se no Chile, onde fez curso de especialização na Universidade de Santiago. Lá, tornou-se militante do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Ao sair do Brasil, teria utilizado o nome erezinha Viana de Jesus, que consta de algumas das listas de mortos e desaparecidos políticos. As referências acerca de seu engajamento político no Brasil são imprecisas, mas foi anexado ao processo na Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) um depoimento em que Gilberto Fernandes Gomes de Faria afi rma taxativamente que Therezinha pertencia à AP em 1969, enquanto ele atuava na Corrente, organização que mais tarde se incorporaria à ALN. Assim como aconteceu com inúmeros outros militantes das organizações clandestinas, é possível que ela tenha tido mais de um engajamento partidário, conforme atesta um documento anexado por seu irmão ao processo. Em setembro de 1973, após o golpe militar no Chile comandado por Augusto Pinochet, erezinha viajou para a Holanda. Morou inicialmente em Roterdã e depois em Amsterdã, onde prosseguiu seus estudos, doutorando-se em Economia. Até 15 de setembro de 1977, Therezinha trabalhou na prefeitura local, mas seu contrato não foi renovado. O desemprego agravou os problemas psicológicos que vinha apresentando. Sua irmã, Selma Viana de Assis Pamplona, escreveu sobre ela: Em meados de 1977, Therezinha começou a me escrever, dizendo estar se sentindo seguida, pois, onde estava, via as mesmas duas ou quatro pessoas; em julho de 1977, saiu de férias da Prefeitura e fez curso de línguas; viajou pela Rússia e países da Europa Oriental e, onde chegava, encontrava as mesmas pessoas. Quando voltou da viagem, encontrou seu apartamento todo remexido, desarrumado. Observou que seu telefone estava “grampeado” e pedia que eu não lhe telefonasse. Às vezes, quando voltava do serviço, encontrava seu apartamento remexido, demonstrando ter entrado gente; começou a receber telefonemas anônimos com ameaças. Foi ficando nervosa e preocupada [...]. Por fim, apareceu morta, caída da janela. Ocorre que ela era muito católica, tinha medo da morte. E, antes de se sentir seguida, estava gostando muito de Amsterdã. De repente, ela ficou sabendo que se tratava da polícia secreta do Chile. Quanto aos outros, não chegou a saber. Morreu em fevereiro de 1978, com 36 anos de idade. Documentos juntados ao processo da CEMDP, como a certidão com informações da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e cópias de páginas do Dossiê dos Mortos e Desaparecidos, comprovam sua militância política.



MARIA AUXILIADORA LARA BARCELLOS (1945-1976)

Em 1o de junho de 1976, Maria Auxiliadora atirou-se nos trilhos de trem da estação de metrô Charlottenburg, em Berlim Ocidental, na Alemanha, e teve morte instantânea. Conhecida pelos amigos como Dora ou Dorinha, ela havia sido presa sete anos antes, no dia 21 de novembro de 1969, juntamente com seus companheiros da VAR-Palmares Antônio Roberto Espinoza e Chael Charles Schreier, na casa em que moravam no bairro do Méier, no Rio de Janeiro. Os três foram torturados no quartel da Polícia do Exército, na Vila Militar. Chael foi morto em menos de 24 horas. Vítima de cruéis torturas, Dora passou pelos presídios de Bangu, no Rio de Janeiro, e Linhares, em Juiz de Fora (MG). Foi banida e enviada para o Chile com outros 69 presos políticos em 13 de janeiro de 1971, no episódio do sequestro do embaixador suíço no Brasil. Nunca mais conseguiu se recuperar plenamente das profundas marcas psíquicas deixadas pelas sevícias e violências de todo tipo a que foi submetida. Durante o exílio, registrou, num texto com tons literários, suas difíceis memórias: “Foram intermináveis dias de Sodoma. Me pisaram, cuspiram, me despedaçaram em mil cacos. Me violentaram nos meus cantos mais íntimos. Foi um tempo sem sorrisos. Um tempo de esgares, de gritos sufocados, um grito no escuro”. 

Veja o depoimento de Maria auxiliadora no documentário A Report on Torture (1971) que ela gravou no Chile com outros prisioneiros políticos.


ZULEIKA ANGEL JONES (1923-1976)

“Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado fi lho.” O trecho da carta escrita em 23 de abril de 1975 pela estilista Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, e entregue ao compositor Chico Buarque e outros amigos, representou uma verdadeira premonição a respeito de sua morte um ano depois. Zuzu Angel morreu em 14 de abril de 1976 num acidente automobilístico na saída do túnel Dois Irmãos, no Rio de Janeiro. A suspeita de que o acidente tivesse sido provocado surgiu imediatamente em todas as pessoas bem informadas sobre o que era o aparelho de repressão política do regime militar. Mas foi somente através da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) que se tornou possível elucidar os fatos. Ficou provado que sua morte foi desdobramento e consequência da morte do filho, Stuart Edgard Angel Jones, em 1971. Profissional de sucesso – vestia atrizes como Liza Minnelli e Joan Crawford –, Zuzu transformou o desaparecimento de Stuart num acontecimento que provocou desgaste internacional para o regime militar, despertandoa ira dos porões da ditadura, que passaram a vê-la como ameaça. Buscando incansavelmente o paradeiro do filho, Zuzu Angel esteve nos Estados Unidos com o senador Edward Kennedy; furou o cerco da segurança norte-americana e conversou com o então secretário de Estado Henry Kissinger, em visita ao Brasil; prestou detalhado depoimento ao historiador Hélio Silva; e escreveu ao presidente Ernesto Geisel, ao ministro do Exército, Sylvio Frota, ao cardeal de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, e à Anistia Internacional. Em um de seus desfiles, estampou os figurinos com tanques de guerra e anjos. Em português, a palavra inglesa angel quer dizer anjo. Quando começou a receber ameaças de morte, alertou os amigos.Zuzu estava absolutamente sóbria na noite do acidente e, uma semana antes, tinha feito uma revisão completa em seu carro, que, sem aparente motivo, desviou-se da estrada e capotou diversas vezes em um barranco. A análise das fotos e dos laudos periciais, as inúmeras contradições e omissões encontradas no inquérito e os depoimentos de testemunhas oculares compuseram uma base robusta para a decisão da CEMDP reconhecendo a responsabilidade do regime militar por mais essa morte de opositor político.

NEIDE ALVES DOS SANTOS (1944-1976)

Nascida no Rio de Janeiro, Neide Alves dos Santos era ligada a Hiran de Lima Pereira, membro do Comitê Central do PCB. Seu nome não constava de nenhuma lista de mortos e desaparecidos políticos. Foi o trabalho da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) que possibilitou elucidar mais uma morte decorrente de torturas aplicadas pelos órgãos de segurança do regime militar. No início de 1975, quando estava em curso a Operação Radar, cujo objetivo era aniquilar o PCB, Neide viajou de São Paulo para a casa de sua irmã, no Rio, e contou que estava sendo seguida. Poucos dias depois, desapareceu por cinco dias e, quando retornou, tinha marcas de tortura por todo o corpo. Estava muito abalada emocionalmente, motivo pelo qual fi cou internada por algum tempo na Colônia Juliano Moreira para tratamento psiquiátrico. Algum tempo depois, retornou a São Paulo e novamente foi presa. Documentos do Dops/SP registram, no entanto, que Neide teria sido internada na noite de Réveillon. Conforme telex da 28a Delegacia de Polícia, de 31 de dezembro de 1975, Neide Alves dos Santos, cognome Lúcia, foi atendida no Hospital Municipal do Tatuapé e apresentava queimaduras. Estranhamente, a mensagem relata que, com ela, foi apreendido um caderno de anotações informando que pertencia ao PCB. Outro documento do Dops/SP registra a comunicação de seu falecimento, às 20h40 do dia 7 de janeiro de 1976. Num primeiro exame, o relator do processo na Comissão Especial, Paulo Gustavo Gonet Branco, propôs indeferimento, por considerar que as condições da morte “não preenchiam os requisitos da Lei”. Luís Francisco Carvalho Filho pediu vistas e conseguiu determinar que a morte ocorreu por responsabilidade dos agentes do Estado brasileiro. Em seu voto pelo deferimento, Luís Francisco enfatizou dois aspectos importantes. O primeiro era que os registros da Medicina Legal apontam como muito raro o “suicídio de mulher mediante fogo posto às vestes”.


JANE VANINI (1945-1974)

Nascida em Cáceres, no Mato Grosso, Jane estudou no Colégio Imaculada Conceição, em sua terra natal, até se mudar para São Paulo, em 1966, onde cursou Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). Além de estudar, também trabalhava no Mappin e na Editora Abril, onde conheceu Sérgio Capozzi, com quem se casou. Em agosto de 1969, o casal passou a integrar a ALN, fazendo de sua residência um abrigo para Joaquim Câmara Ferreira, o Toledo, principal dirigente da ALN após a morte de Carlos Marighella. Os vizinhos e os amigos o conheciam como tio Nico, pensando que fosse algum parente. Após uma série de prisões de membros da ALN em abril de 1970, o casal foi identificado pelos órgãos de segurança do regime militar. Colegas da Editora Abril ajudaram Capozzi a fugir, quando a Oban tentou prendê-lo no trabalho. O casal passou a viver na clandestinidade e seguiu de navio para Montevidéu, capital do Uruguai. Daquele país vizinho, os dois militantes seguiram para Cuba, onde participaram de treinamento militar. No país caribenho, Jane trabalhou na Rádio Havana. Com a cisão ocorrida na ALN, ela passou a integrar o Molipo e regressou ao Brasil em setembro de 1971. Do chamado Grupo dos 28, que fundou essa nova organização, Jane ficou entre os que conseguiram sobreviver após a sequência de prisões e mortes imposta pelo aparelho de repressão entre novembro de 1971 e maio de 1973. Conseguiu sair do Brasil e refugiou-se no Chile durante o governo de Salvador Allende (1970-1973), passando a militar no Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR). Trabalhou na revista Punto Final até 1973, quando já tinha se separado de Capozzi e casado com o jornalista chileno José Carrasco Tapia, conhecido como Pepe Carrasco, dirigente do MIR. Seu novo nome era Gabriela Hernández. Com o golpe militar que derrubou Salvador Allende, liderado pelo general Augusto Pinochet (1973-1990), Jane recusou-se a deixar o Chile e novamente passou à clandestinidade. Foi morar com Pepe em Concepción, agora sob a identidade de Carmen Carrasco Tapia. Em 6 de dezembro de 1974, ao meio-dia, Pepe foi preso pela polícia fascista de Pinochet. Nesse dia, como Pepe não havia voltado, Jane procurou outros militantes do MIR para saber se tinham alguma informação. Se ele estivesse vivo, queria tentar resgatá-lo das mãos da Direção de Inteligência Nacional (Dina), a implacável polícia política de Pinochet. A ação proposta por ela foi descartada, mas, sentindo a determinação de Jane, seus companheiros do MIR chegaram a trancá-la num banheiro para tentar preservar sua vida. Por volta de 22 horas, Pepe tinha certeza de que Jane já não estaria em casa. Aguentou a tortura por muitas horas além do prazo combinado. Ela, porém, tinha conseguido fugir pela janela do banheiro onde havia sido trancada e voltou para casa, esperando resgatar seu companheiro. Quando a polícia chegou, Jane resistiu sozinha durante quatro horas. Os agentes policiais, que não esperavam reação, chegaram a pensar que ali estivessem muitos guerrilheiros. Pediram reforços, até que Jane foi ferida e presa. Na casa, ela deixou um bilhete para Pepe com os dizeres: “Perdóname mi amor, fue un último intento por salvarte”.


ANA ROSA KUCINSKI SILVA (1942-1974)

Ana Rosa Kucinski Silva era professora universitária, formada em Química, com doutorado em Filosofia. Casada com o físico Wilson Silva, trabalhava no Instituto de Química da USP. Os dois conciliavam trabalho e estudos com a militância política na ALN. Ana Rosa estudou Química na Universidade de São Paulo (USP) durante a efervescência estudantil que marcou o início da resistência ao regime militar nessa área. Avançou em seu engajamento político a partir do namoro e do casamento com Wilson. Em 1966, este tinha organizado com Bernardo Kucinski, seu colega na Faculdade de Física da USP e irmão de Ana Rosa, uma exposição sobre os trinta anos da Guerra Civil Espanhola, na rua Maria Antônia. Em 22 de abril de 1974, Ana Rosa saiu do trabalho, na Cidade Universitária, e foi ao centro da capital paulista para almoçar com Wilson num dos restaurantes próximos à praça da República. O casal desapareceu nas proximidades. Os colegas de Ana Rosa na USP estranharam sua ausência e avisaram a família Kucinski, que imediatamente começou a tomar providências para a sua localização. Ao procurarem Wilson, souberam que ele também havia desaparecido. As duas famílias passaram a viver o tormento da busca por informações. O ex-agente do DOI-Codi/SP e ex-sargento Marival Dias Chaves do Canto, também em entrevista à Veja, em 18/11/1992, informou: “Foi o caso também de Ana Rosa Kucinski e de seu marido, Wilson Silva. Foram delatados por um cachorro, presos em São Paulo e levados para a casa de Petrópolis. Acredito que seus corpos também foram despedaçados”. O relatório do Ministério da Marinha, enviado em 1993 ao Ministro da Justiça, Maurício Corrêa, confirmou que Wilson Silva “foi preso em São Paulo em 22/4/1974, e dado como desaparecido desde então”. Na ficha de Wilson Silva, no arquivo do Deops, consta que ele foi “preso em 22/4/1974, junto com sua esposa Rosa Kucinski”.


IEDA SANTOS DELGADO (1945-1974)

Carioca e afrodescendente, Ieda era advogada e, embora militante da ALN, conseguiu manter a vida em completa legalidade até ser presa em São Paulo, em 11 de abril de 1974, quando desapareceu. Sua atuação política teve início entre 1967 e 1968, em Brasília, quando estudava direito na Universidade de Brasília (UnB) e participava discretamente das mobilizações estudantis que marcaram o período. Ao mesmo tempo, entre 1967 e 1970, trabalhou no Plano Nacional de Educação como assistente da assessoria jurídica do Ministério da Educação e Cultura. Formou-se advogada em 1969 e falava francês, italiano, inglês e espanhol. Em seguida, Ieda foi estagiária e, depois, assistente jurídica do Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério de Minas e Energia. Em 1973, passou a trabalhar como secretária jurídica do Centro de Pesquisas Experimentais. Ao ser presa, aguardava sua transferência para Brasília. Como funcionária do Ministério, fez curso de especialização na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, de setembro de 1971 a março de 1972. Ieda viajou para São Paulo durante os feriados da Semana Santa de 1974, no dia 11 de abril, para buscar passaportes para um casal de militantes da ALN que precisava deixar o país. Não retornou ao Rio de Janeiro. Por telefonema anônimo, sua família soube que ela tinha sido presa na capital paulista. Sua mãe, Eunice, viajou imediatamente para a cidade e iniciou uma busca desesperada pelo paradeiro da fi lha. Chegou a obter a informação, através de um general, seu amigo, de que Ieda estivera presa em Campinas (SP), onde chegou a ser hospitalizada em função das torturas, e também em Piquete (SP), onde permaneceu por pouco tempo. Tais informações, oficiosas, nunca foram confirmadas. Os diversos habeas corpus impetrados foram negados. Um mês depois da prisão da fi lha, Eunice passou a receber cartas de Ieda, o que a deixou ainda mais aflita. Inicialmente, em cinco linhas, em correspondência postada em Belo Horizonte, Ieda dizia para a família não se preocupar, pois estava bem. Um mês depois, chegou outra carta, nos mesmos termos, postada no Uruguai. A letra, no entanto, estava muito tremida. Eunice fez exames grafológicos e constatou que a caligrafia era de Ieda. Nesse período do regime militar, em que o desaparecimento se tornou regra sistemática nos órgãos de segurança, repetiram-se várias vezes episódios como esse em que, além do violento trauma trazido pelo desaparecimento, os familiares passaram a ser submetidos a verdadeiras operações de contrainformação e, muitas vezes, foram alvo de chantagem para obtenção de dinheiro em troca de informações que, em nenhum dos casos, se comprovaram verdadeiras.



Fonte: Direito à memória e à verdade : Luta, substantivo feminino Tatiana Merlino. - São Paulo : Editora Caros Amigos, 2010.



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