“Não disfarce, peça ajuda”. A Rússia não quer saber de violência contra a mulher
Por Anna Carolina Lementy
“Uma em cada 3 mulheres russas será vítima de violência doméstica pelo menos uma vez na vida. A despeito desse número elevado, 90% das mulheres nessa situação não procuram ajuda e continuam a sofrer humilhações. Para ocultar os vestígios de espancamento, elas utilizam cosméticos, acessórios como óculos e outros métodos. Nossa ideia tem o mesmo princípio: uma máscara que esconde um chamado por ajuda por meio da beleza, da moda e da publicidade”. É assim que a agência russa de publicidade Lowe Adventa explica sua nova campanha, feita a pedido do Anna – National Center for Violence Prevention (Centro Nacional de Prevenção à Violência, em português).
As fotos chamam a atenção — e é assim que deve ser quando a intenção é tratar do assunto. Mas o objetivo vai além do óbvio, que é atrair visibilidade. O Anna criou um canal de atenção às mulheres espancadas, onde elas conseguem assistência jurídica e psicológica. O resultado foi imediato. Desde o lançamento do canal de comunicação direta, o Anna recebeu mais de 10.000 ligações de toda a Rússia e de países da ex-União Soviética. Muitas queriam informações sobre a entidade, mas cerca de 3.000 mulheres disseram que eram vítimas de violência doméstica.
O Brasil não está nem perto de lançar uma campanha dessas, muito menos um canal exclusivo de comunicação com as vítimas. A Lei Maria da Penha está há cinco anos em vigor, mas temos uma estrutura muito precária de atendimento às mulheres que sofreram violência doméstica. Menos de 10% dos municípios do país possuem delegacias especializadas, de acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, de acordo com texto publicado pela Agência Patrícia Galvão. E essas delegacias são o único recurso que as mulheres possuem para denunciar seus agressores. Assistência jurídica e psicológica? Nem pensar.
“Ainda existe muita dificuldade de prefeitos e governadores em entender a importância deste tipo de unidade, pois muitos alegam não ter recursos e estrutura para montá-las”, diz Aparecida Gonçalves, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, em entrevista a CartaCapital, replicada pela Agência Patrícia Galvão.
Dado importante: em quase 70% dos casos, a mulher sofre violência há mais de 10 anos. Para alguns, é fácil colocar a culpa nelas, que “continuam apanhando porque não denunciam”. Mas como, se faltam as tais delegacias especializadas? A falta delas, explica a secretária, obriga a vítima a recorrer ao serviço “comum” para registrar a queixa e enfrentar, muitas vezes, o descaso de indivíduos não qualificados para esse tipo de atendimento.
“Isso acaba gerando aquele tipo de questionamento à vítima: ‘tem certeza que a senhora vai fazer isso? Seu marido vai ser preso’”, diz. “Isso faz com que a mulher desacredite na proteção do Estado. Ou ela retorna ao seu agressor ou acaba tendo que encontrar seu caminho sozinha”.
Contraste: o estudo “O Progresso das Mulheres no Mundo”, divulgado pela ONU na quarta-feira 21, aponta que uma em cada 3 mulheres da América Latina sofre algum tipo de violência e 16% delas já foram vítimas de constrangimento e abuso sexual alguma vez na vida. Detalhe: 97% dos países da região aprovaram leis severas contra a violência de gênero.

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