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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Nem santas, nem putas

Imagem do google
Nem santas, nem putas

Em maio deste ano, a Marcha das Vadias voltou às ruas brasileiras para denunciar o moralismo machista, que insiste em relacionar o tipo de roupa da vítima à prática de estupros. Os velhos estereótipos machistas ainda são o principal instrumento de dominação de gênero

Por Túlio Vianna na Revista Fórum

Em janeiro de 2011, o policial canadense Michael Sanguinetti, em uma palestra na York University, recomendou que “as mulheres evitassem se vestirem como putas, para não serem vítimas” de estupro. Como reação à sua fala, em abril do mesmo ano, cerca de 3 mil canadenses saíram às ruas para protestar na primeira SlutWalk, a Marcha das Putas ou, na tradução mais leve adotada no Brasil, a Marcha das Vadias. As manifestações se espalharam pelo mundo, e já em 2011 ocorreram em diversas cidades brasileiras. Em maio deste ano, as brasileiras voltaram às ruas para criticar a tese do policial Sanguinetti, que, longe de se restringir a uma opinião isolada, representa a síntese de um machismo arraigado que divide as mulheres em santas (as que merecem respeito) e putas (as que “não se dão ao respeito”).
Muito antes de Sanguinetti se tornar um ícone machista mundial, o legislador brasileiro já consagrava sua tese de atribuir parte da culpa do estupro à própria vítima na Exposição de Motivos da Parte Geral do nosso Código Penal. Nas palavras do legislador: “Fez-se referência expressa ao comportamento da vítima, erigido, muitas vezes, em fator criminógeno, por constituir-se em provocação ou estímulo à conduta criminosa, como, entre outras modalidades, o pouco recato da vítima nos crimes contra os costumes.” Na prática, o Código Penal permite que muitos juízes reduzam a pena de estupradores se entender que as roupas insinuantes da vítima provocaram o crime.
Evidentemente, quando um homem é estuprado por outro homem, nunca passa pela cabeça de qualquer juiz indagar qual roupa ele estava usando. Pouco importa se estava de terno ou de sunga: ninguém o acusará de ter “provocado” seu agressor ou “estimulado” o estupro. Já quando a vítima é mulher, a recomendação do legislador é seguida à risca pela maioria dos juízes, que julga não só se o acusado é culpado ou inocente, mas também se as roupas da vítima o provocaram ou não.
Em suma: a mulher, quando vítima de estupro, é a única vítima que é julgada no processo penal ao lado de seu algoz.
O detalhe importante é que essas palavras do legislador não foram escritas no século XIX, sob influência do puritanismo vitoriano, mas em 1984, quando o ser humano já havia pisado na Lua, inventado o computador pessoal e a pílula contraceptiva já era de uso comum pelas mulheres.
O machismo da nossa legislação penal reflete o machismo da sociedade em que vivemos e não está restrito a grupos religiosos e conservadores, mas pulula mesmo em ambientes sociais tradicionalmente liberais. Em outubro de 2009, a estudante Geisy Arruda compareceu à universidade onde estudava com um vestido rosa, considerado excessivamente curto por seus colegas, que passaram a hostilizá-la ostensivamente, a ponto de a moça precisar de escolta policial para sair do prédio. O episódio foi gravado por câmeras de celulares e, após sua divulgação na internet, ganhou repercussão nacional e transformou a vítima em celebridade. A atitude moralista dos estudantes demonstra muito bem a existência de uma regulação social dos corpos das mulheres que impõe restrições à sua liberdade, que vai muito além das roupas.
A sociedade não se limita a restringir o guarda-roupa das mulheres, mas limita a própria autonomia em relação ao exercício da sua sexualidade, impondo-lhe restrições moralistas quanto ao número de parceiros sexuais, à iniciativa do início do relacionamento e, até mesmo, quanto ao momento oportuno da primeira relação sexual.
A revistas femininas, que poderiam criticar esses papéis sociais de subjugação das mulheres, longe de fazê-lo, reforçam os estereótipos machistas que classificam as mulheres em “santas/putas”. A revista Nova, em sua edição nº 407, chegou ao cúmulo de recomendar uma “linha do tempo” de comportamento sexual para mulheres, na qual previa beijo no rosto e “selinho” no primeiro encontro, beijo na boca no segundo, conversas sobre DST no terceiro (pasmem!) e, finalmente, sexo no quarto encontro. Mulheres não são atrizes para seguirem um roteiro sexual preestabelecido: são sujeitos de suas próprias vidas e, como tais, devem ter sua autonomia estimulada para decidir quando, como e com quem desejam fazer sexo.
É claro que, do ponto de vista estritamente sexual, esta regulação moralista da sexualidade feminina é perniciosa até mesmo para os homens, pois se as mulheres não são livres para expressar sua sexualidade, acabam impondo restrições sexuais a seus parceiros, não por conta da ausência de desejo, mas para se adequar a convenções sociais moralistas. Relacionamentos saudáveis pressupõem dois sujeitos autônomos que decidem de comum acordo o que fazer dos seus próprios corpos, sem se deixar influenciar por normas de comportamento impostas por terceiros. Na prática, o que se vê são mulheres que deixam de fazer sexo quando têm vontade, por conta do moralismo social, e homens que paradoxalmente estimulam esse moralismo, rotulando de “vadias” ou “putas” as mulheres que exercem sua sexualidade com autonomia. Um círculo vicioso, que só se explica porque o que está em jogo não é meramente o sexo, mas relações de poder, que, em última análise, vão decidir quem “manda na casa”.
Toda esta regulação jurídica e social sobre os corpos e a sexualidade das mulheres tem por objetivo traçar uma linha que separa a mulher normal-santa da anormal-puta. Da mulher que se veste conforme a sociedade quer que ela se vista e que só faz sexo quando a sociedade tolera que ela faça daquela que decide sobre a roupa que lhe convém usar e o momento oportuno para transar.
Não se trata de mero moralismo, mas da definição de um papel social de subordinação das mulheres a uma ordem social que lhe impõe restrições ao uso de seus próprios corpos, a qual jamais se cogitou impor aos homens. O julgamento social atribui graus de liberdade bastante diferentes a homens e mulheres. Um homem sem camisa é um homem com calor; uma mulher com uma roupa curta é puta. Um homem que participa de orgias é um bon vivant; uma mulher que faz sexo na primeira noite é puta. Um marido infiel é fruto dos instintos polígamos comuns aos machos do reino animal; uma mulher infiel é puta.
A maior diferença entre homens e mulheres não está na média salarial ou na representação no Congresso Nacional, mas na autonomia de seus próprios corpos. Os homens são senhores de seu próprio corpo e não são julgados pelo destino que dão a eles. Já as mulheres são classificadas como santas se se sujeitam à regulação social dos seus corpos ou como putas se a rejeitam. O preço que pagam pela liberdade de dispor livremente de seus corpos é uma rotulação moral negativa. A “moça de família” é aquela que abre mão da autonomia sobre seu próprio corpo para se sujeitar ao moralismo social.
A igualdade entre homens e mulheres, garantida constitucionalmente, só se tornará realidade no dia em que homens e mulheres tiverem a mesma liberdade para dispor sobre seus próprios corpos e para decidir sobre o livre exercício de sua sexualidade. E essa não é uma conquista que dependa do legislador ou dos ministros do STF, mas de uma mudança cultural, o que é muito mais difícil de ser efetivado.
A Marcha das Vadias não é uma manifestação contra uma lei ou uma política pública. É uma passeata contra um moralismo disperso em homens e também em mulheres que insistem em classificar mulheres em santas e putas conforme o uso que fazem de seus próprios corpos. Uma passeata para lembrar que em um Estado Democrático de Direito não há santas ou putas, mas apenas mulheres livres e autônomas. F

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Mulher é torturada em vitrine para expôr testes de cosméticos em animais

Mulher é torturada em vitrine para expôr testes de cosméticos em animais


Carlos Merigo



Quando se fala nos testes que a indústria de comésticos pratica em animais, muita gente vira a cara, acha exagero ou manda logo um jocoso “oh, que dó. você está com peninha dos animaizinhos fofinhos?”.
O problema é que a verdade é muito mais cruel do que se imagina. Diversas marcas já aboliram esse tipo de teste, mas outras tantas continuam fazendo.
Para escancarar essa barbárie do especismo, a marca Lush criou um laboratório de experimentação na vitrine de uma de suas lojas em Londres. Só que ao invés de animais, colocou uma mulher como cobaia.
Mesmo sendo de mentirinha, as imagens chocam. Com isso, a Lush conseguiu chamar atenção para a causa e para os seus produtos, numa “instalação de arte” que durou 10 horas.
A pergunta é: Vale a pena ter mais uma nova marca de batom, rímel, desodorante ou produto de limpar fogão no mercado, ao custo de enfiar isso olho e goela abaixo dos outros?
Para ajudar na sua decisão, aqui vai duas listas: Uma de empresas que testam em animais| E outra das que não testam.
/via BuzzFeed

domingo, 22 de abril de 2012

A dor de uma violência retratada com delicadeza

A dor de uma violência retratada com delicadeza

Por Bia Bonduki


Violência sexual, física ou psicológica é um assunto que pode acabar rapidamente com o humor no ambiente. E para abordar a coisa de forma mais leve, a fotógrafa brasileira Adelaide Ivánova (ela própria uma vítima) criou o projeto “It’s OK to be a boy“.
O nome veio da letra de “What it feels like for a girl”, da Madonna. Esta parte aqui:
Girls can wear jeans (garotas podem usar jeans)
And cut their hair short (e deixar o cabelo curto)
Wear shirts and boots (usar camisas e botas)
‘Cause it’s OK to be a boy (porque é OK ser um garoto)
Ela escolheu a frase porque, no caso das meninas abusadas, a maioria foi “culpada” por estar no lugar errado, por mandar a mensagem errada, enfim, e os homens saíram como se tivessem sido tentados por elas.
A ideia partiu de um trabalho da escola onde estuda fotografia, na Alemanha, e também da experiência pessoal. Cansada de ver os casos de violência sendo tratados com descuido em delegacias do mundo todo, Adelaide decidiu ouvir o outro lado. Foi à caça de meninas dispostas a sair do silêncio e contar suas histórias, além de se deixarem ser fotografadas para o projeto – tudo sob o maior sigilo.
Primeiro, encontrou personagens nos estados brasileiros, mas agora seu desafio é encontrar histórias por toda a Europa – mil vezes mais difícil, uma vez que por lá o assunto quase não é comentado.



O intuito das fotografias é mostrar que a violência pode acontecer com qualquer mulher, não importa a idade, a classe social, raça ou onde estava no momento. As imagens servem para mostrar que, aos trancos e barrancos, é possível superar um trauma.
O projeto ainda não foi concluído. Se você desejar compartilhar sua experiência, escreva paraivanova.ivanova@gmail.com.
Juntas, ganhamos mais força. Tanto para superar traumas, como para dar um basta na violência, seja ela de qualquer categoria. Mas sem jamais perder a ternura.


quinta-feira, 19 de abril de 2012

Brasileira se torna única mulher do mundo a comandar um estaleiro

Brasileira se torna única mulher do mundo a comandar um estaleiro



Gisela MacLaren - única mulher do mundo a comandar um estaleiro /Foto: Miguel Sá
Linda, rica e poderosa, a carioca Gisela MacLaren, de 43 anos, dona da MacLaren Oil, acaba de ser confirmada no posto de única mulher do mundo a comandar um estaleiro. Aliás, dois: seu pai, o empresário Arthur MacLaren, morto no ano passado, deixou para ela em testamento os dois empreendimentos fundados pelo avô no Rio de Janeiro, há 80 anos. “Foi uma prova de confiança. Trabalho nos estaleiros desde os 15 anos, atravessando todos os mares, dos mais calmos aos mais bravos. E mostrei que meu casco é forte”, afirma ela, que se está concorrendo na licitação milionária dos módulos dos replicantes dos novos oito navios FPSOs da Petrobras.
Algum problema para uma mulher cercada de metalúrgicos por todos os lados? “Quando comecei, era hostilizada, não me levavam a sério por ser mulher e por ser filha do dono. Hoje essa questão de gênero está superada. É só ver os casos da Magda (Chambriard, diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, a ANP) e a Graça (Foster, presidente da Petrobras). Petróleo no Brasil virou coisa de mulher”.
Casada com Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, secretário de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro, ela diz não ter tempo nem paciência para as outras coisas de mulher. “Tira minha própria sobrancelha e faço minha maquiagem. Quando preciso, paro em qualquer birosca e peço para cortar meu cabelo. Se não ficar legal, minha secretária apara”.


Na Época

sábado, 14 de abril de 2012

Poesia do Dia – E Deus me fez mulher

Poesia do Dia – E Deus me fez mulher



Para homenagear a grandiosa vitória das mulheres brasileiras no Supremo Tribunal Federal (STF), que conquistaram o direito ao aborto de fetos anencéfalos, segue uma linda poesia da nicaraguense Gioconda Belli.
Gioconda lutou pela Força Sandinista de Libertação Nacional e ajudou a derrubar, na década de 70, o ditador Anastacio Somoza. É autora de “A mulher habitada” e “O país das mulheres”, entre outros livros.
Foto: Salvador García Bardón (http://www.flickr.com/sagabardon)

E Deus me fez mulher

E Deus me fez mulher,
De cabelos longos,
Olhos,
Nariz e boca de mulher.
E rugas
E suaves funduras
E me cavou por dentro,
Fez de mim uma incubador de seres humanos.
Teceu delicadamente meus nervos
E balanceou com cuidado
O número de meus hormônios.
Compôs o meu sangue
E me injetou com ele
Para que irrigasse
Todo meu corpo;
Nasceram assim as idéias,
Os sonhos,
O instinto…
Tudo o que criou suavemente
A marteladas de sopros
E perfurações de amor,
As mil e uma coisas que tornam mulher todos os dias
Pelas que me levanto orgulhosa
Todas as manhãs
E bendigo meu sexo.

*****

Y Dios me hizo mujer

Y Dios me hizo mujer,
de pelo largo,
ojos,
nariz y boca de mujer.
Con curvas
y pliegues
y suaves hondonadas
y me cavó por dentro,
me hizo un taller de seres humanos.
Tejió delicadamente mis nervios
y balanceó con cuidado
el número de mis hormonas.
Compuso mi sangre
y me inyectó con ella
para que irrigara
todo mi cuerpo;
nacieron así las ideas,
los sueños,
el instinto.
Todo lo que creó suavemente
a martillazos de soplidos
y taladrazos de amor,
las mil y una cosas que me hacen mujer todos los días
por las que me levanto orgullosa
todas las mañanas
y bendigo mi sexo.

*****
*O país das mulheres é um romance que conta a história de Fáguas, um pequeno país latino americano governado por mulheres por meio do Partido da Esquerda Erótica (PEE). Mais detalhes aqui.

terça-feira, 10 de abril de 2012

CEF é condenada a indenizar bancária humilhada no trabalho

CEF é condenada a indenizar bancária humilhada no trabalho


Uma empregada, que prestou serviços à Caixa Econômica Federal por trinta anos, os últimos deles em função de destaque, como gerente, procurou a Justiça do Trabalho alegando ter sido discriminada e perseguida no ambiente de trabalho. Isto porque, o gerente geral, em alto e bom som, informou a ela que deveria escolher entre ser transferida de agência ou rebaixada de função. O motivo apontado pelo chefe foi o fato de ninguém na agência gostar da reclamante, nem mesmo os clientes. Abalada, pressionada e recebendo telefonemas do supervisor da região, acabou aderindo ao PDV Programa de Demissão Voluntária. Sentindo-se humilhada, pediu a condenação da ex-empregadora ao pagamento de indenização por danos morais.
E a juíza Paula Borlido Haddad, titular da Vara do Trabalho de Três Corações, deu razão à trabalhadora. Ela considerou que os fatos narrados pela ex-bancária foram claramente comprovados no processo. A empregada ocupou, por anos seguidos, cargo de destaque no banco e, de uma hora para outra, foram-lhe dadas duas opções. Ou deveria concordar com sua transferência, ou seria rebaixada de cargo. "Desse modo, ficou a reclamante exposta ao isolamento que essa condição provoca de forma natural ou automática, com evidente prejuízo emocional, pois ficou desacreditada e envergonhada perante os colegas" , ressaltou.
A magistrada esclareceu que não se está discutindo o direito que o banco tem de remanejar seus gerentes. A questão é outra e refere-se à forma pela qual essas alterações são realizadas. Na visão da juíza, faz toda a diferença, nesse momento, o modo como o empregador usa sua autoridade. Princípios morais devem ser observados. No entanto, no caso analisado, não foi o que aconteceu. A testemunha ouvida assegurou que, o gerente geral disse para a reclamante que ela seria transferida porque ninguém gostava dela, incluindo os clientes. "Ora, o empregado pode ser destituído do cargo de confiança a qualquer momento, mas sua dignidade deve ser antes de tudo preservada" , frisou.
O banco, por meio de seu gerente, deveria ter agido com mais cuidado, respeitando a profissional como pessoa humana. A intenção inicial pode até não ter sido punir a empregada, mas foi o que acabou ocorrendo, de forma sutil e não menos violenta, por desprezo à honra da bancária. A julgadora lembrou que a literatura médica é rica em exemplos das consequências trágicas à saúde que os sentimentos de inutilidade e fracasso provocam em casos como os do processo. Levando em conta a conduta ilícita do réu, o sofrimento psíquico da reclamante e o nexo entre um e outro, a magistrada condenou a CEF ao pagamento de indenização por danos morais, no valor de R$30.000,00. A Caixa apresentou recurso, mas a condenação foi mantida pelo Tribunal da 3ª Região, sendo apenas reduzido o valor da indenização, para R$10.000,00.
( 0000032-60.2011.5.03.0147 ED )

Chega de torturar mulheres

Chega de torturar mulheres

O que o STF decidirá, ao julgar a permissão do aborto de anencéfalos, é se o Brasil respeita os direitos humanos – ou prefere seguir infligindo dor a mulheres que tiveram a infelicidade de gerar um feto incompatível com a vida


Depois de quase oito anos, o Supremo Tribunal Federal deverá votar nesta quarta-feira (11) uma ação que decidirá se as mulheres grávidas de um feto anencéfalo (malformação incompatível com a vida) poderão interromper a gestação sem necessidade de autorização judicial. Hoje, elas são obrigadas a peregrinar pela Justiça, em geral por meses. Em alguns casos, o juiz dá autorização, em outros não, numa zona ambígua que depende das crenças pessoais de quem julga. Às vezes, quando o juiz dá a licença, já demorou tanto tempo, ocorreram tantas idas e vindas no processo, que o bebê nasceu e morreu. Em parte porque, ao descobrir que uma mulher pediu a interrupção da gestação anencefálica, grupos religiosos usam a estratégia de atrasar o processo com recursos como, por exemplo, um “habeas-corpus para o feto”. A ação, que já é lenta, tarda ainda mais, até que não exista mais o que julgar. Na prática, como todos sabemos (com exceção dos hipócritas, talvez), as mulheres de classe média resolvem a questão buscando clínicas clandestinas de aborto, para não ter de se submeter à demora e às dificuldades de um processo judicial no Brasil. Quem procura a Justiça são as mulheres pobres, que dependem da rede pública de saúde para interromper uma gravidez. Nesta quarta-feira, o STF terá a chance de estancar – com atraso – uma violação sistemática dos direitos humanos causada por um vácuo na lei, que além de desamparar as brasileiras mais frágeis em um momento dificílimo da vida, as condena à tortura.
Divido essa coluna em duas partes. Na primeira, faço algumas considerações gerais sobre a questão que será julgada pelo Supremo a partir do meu olhar sobre ela. Na segunda, conto a história de uma mulher particular, Severina, porque aprendi que só compreendemos a vida – na vida. Em 20 de outubro de 2004, o Supremo derrubou uma liminar que permitia interromper a gestação de anencéfalo sem autorização judicial. Um dos ministros disse, ao votar: “Mas quem são essas mulheres? A gente nem sabe se elas existem”. As mulheres severinas existem. E, como veremos, são, sim, torturadas.
A pergunta que o Supremo responderá nesta quarta-feira é a seguinte: “Uma mulher, grávida de um feto anencéfalo, pode interromper a gestação sem necessidade de autorização judicial?”. Espero que a resposta da corte seja afirmativa. Acompanho o percurso dessas mulheres há quase dez anos e me parece claro que este é um debate de direitos humanos. Impedir uma mulher de interromper a gestação de um feto incompatível com a vida, se ela assim o desejar, é condená-la à tortura. Assim como também seria tortura obrigar uma mulher a interromper essa mesma gestação se ela desejar levá-la até o fim porque, por crença religiosa ou qualquer outro motivo, encontra sentido nesse sofrimento.
Este é o ponto: se o feto é incompatível com a vida, só quem pode decidir pela interrupção ou não da gestação é quem o carrega no ventre. Ninguém mais – nem as feministas, nem os padres, nem eu ou você. Em geral, olhar pelo avesso nos ajuda a enxergar o quadro com maior clareza. Imagine se a lei brasileira determinasse o oposto. Ou seja: pela lei, todas as mulheres grávidas de fetos anencéfalos fossem obrigadas pelo Estado a interromper a gestação assim que o diagnóstico tivesse sido comprovado. Se não quisessem, precisariam entrar na Justiça para impedir o aborto compulsório. Neste caso, a violação de direitos humanos seria a mesma. E eu estaria aqui, defendendo o direito dessas mulheres de levar a gestação até o fim com a mesma veemência.
Ninguém deveria poder decidir por uma mulher como ela vai lidar com a gestação, dentro do seu corpo, de um feto que não poderá viver. Só ela sabe da sua dor – e de que escolha será mais coerente com aquilo que ela é – e acredita. As estatísticas mostram que 100% dos anencéfalos morrem: cerca da metade ainda na gestação, a outra metade após o parto. O que acontece hoje – e é essa desigualdade de direitos que o Supremo vai anular ou cristalizar nesta quarta-feira – é que as mulheres que encontram sentido em levar essa gestação até o fim têm seu direito respeitado. E aquelas para quem é insuportável conviver, dia após dia, gerando a morte em vez da vida, são torturadas.
Nunca cometi a indignidade de julgar uma mulher que decide levar uma gestação de anencéfalo até o fim. O sentido só pertence a ela – e aqueles que a julgarem extrapolam limites de humanidade. Do mesmo modo, lamento aqueles que se apressam a condenar as mulheres para quem a gestação se tornou intolerável. Na tentativa de impor suas crenças para todos, com a soberba de quem acredita deter o patrimônio do bem, cometem barbáries contra pessoas já fragilizadas pela imensa dor que é gerar um filho condenado à morte por uma malformação. 


A dor e o luto pelo filho desejado e perdido são inevitáveis, como qualquer mulher ou homem que já testemunhou essa tragédia de perto – ou mesmo de longe – sabe. O outro sofrimento, o de continuar a gerar um filho para enterrá-lo, porque não lhe permitem interromper essa gestação sem futuro, não. Esse martírio pode ser evitado.
De tempos em tempos, grupos contrários à permissão do aborto no caso de anencefalia exibem uma mulher que decidiu levar a gravidez até o fim como uma espécie de heroína – como se ela fosse uma mãe melhor do que aquela que escolheu interromper a gestação. É uma mentira. Não há heroínas nessa história, apenas mulheres que sofrem. Qualquer oposição entre a mulher que optou por interromper a gestação e aquela que preferiu mantê-la é falsa. Ambas são mulheres que, diante da mesma tragédia, fizeram escolhas diferentes. E ambas devem ser respeitadas na sua decisão, seja ela qual for. O que discutimos aqui é por que uma escolha é reconhecida pelo Estado – e a outra não é.
Há algo importante para compreender nessa tragédia, que talvez parte das pessoas deixe de perceber por não ter convivido com ela. A mulher que se descobre grávida de um feto anencéfalo desejou aquele filho. Em geral, ela o planejou. Quando soube que estava grávida, ela comemorou. E então, num exame com 100% de confiabilidade, ela descobriu que seu filho era anencéfalo. Ou seja, uma malformação letal determinou a impossibilidade de seu filho viver.
Não se trata, portanto, de uma criança deficiente, como alguns definem, torturando também as palavras. Trata-se, como disse o ministro Ayres Britto, em 2004: “O que se tem no ventre materno é algo, mas algo que jamais será alguém”. Impor a essa mulher, submersa em desespero, a acusação de “assassina de crianças”, como alguns o fazem, “em nome da vida”, é cruel. Apenas isso: cruel.
Espero que, depois de quarta-feira, não caiba mais a nenhum de nós opinar sobre a escolha de uma mulher numa situação dolorosa como essa. Aquelas que decidirem levar a gestação até o fim continuarão sendo acolhidas em sua decisão – e aquelas que quiserem interrompê-la também serão amparadas pelo Estado. Ponto.
Agora, Severina, que nos conta com o seu viver o que é a vida em tragédia. Em 20 de outubro de 2004, no mesmo momento em que o Supremo derrubava a liminar que permitia o aborto de anencéfalo sem autorização judicial e um dos ministros perguntava se essas mulheres existiam, Severina Maria Leôncio Ferreira internava-se em um hospital do Recife para interromper a gestação. O médico decidiu deixar o procedimento para o dia seguinte – e no dia seguinte foi tarde demais. Severina teve de deixar o hospital carregando sua dor e sua barriga. Era o seu segundo filho. E ele não viveria.
Severina e seu marido Rosivaldo plantavam brócolis em Chã Grande, um pequeno município nas proximidades do Recife. Mesmo pobres e analfabetos, eles decidiram procurar a Justiça em busca de autorização para interromper a gravidez. Aqui talvez valha uma pausa para se enfiar na pele de Severina e imaginar o que é para uma mulher analfabeta, vinda da zona rural, sem dinheiro, buscar a Justiça no Brasil – e isso tudo em um momento em que se sentia despedaçada. Severina só teve a coragem de enfrentar essa enormidade porque continuar aquela gestação para a morte seria um martírio ainda maior.
Acompanhei Severina para contar o longo dia seguinte a que os ministros do Supremo não assistiriam. O documentário Uma História Severina (Imagens Livres), dirigido por mim e pela antropóloga Debora Diniz, mostra que as mulheres severinas existem – e precisam que o Estado reconheça sua existência, sua dor e seus direitos. A longa travessia de Severina é contada em apenas 23 minutos. Quem quiser pode assistir ao documentário na internet, basta clicar aqui. Em 2005, O filme foi enviado a todos os ministros do Supremo.
Não vou repetir o que está contado pelo registro da vida em curso de Severina. Cada um pode ver por si mesmo. Quero contar apenas sobre algumas pequenas delicadezas e grandes brutalidades da trajetória de Severina que podem complementar as imagens – e nos ajudar a compreender o que significa para uma mulher ser condenada a continuar gerando um filho para a morte. Nas últimas semanas do martírio de Severina, eu tirei férias da ÉPOCA, onde trabalhava como repórter especial, e passei a acompanhá-la. Só a deixei depois do enterro do bebê, que nasceu morto.
Se a liminar não tivesse sido derrubada, Severina faria o aborto no quarto mês de gestação. Como foi obrigada a entrar na Justiça, seu sofrimento foi prolongado até o sétimo mês, quando finalmente conseguiu a autorização. Tenho convicção de que Severina não deveria ter vivido o que viveu nesses três meses. Ao testemunhar seu sofrimento, ficou muito claro para mim que aquilo era, sim, um tipo de tortura – uma tortura imposta pelo Estado.
Até o exame revelar que seu filho era anencéfalo, Severina fazia o pré-natal na companhia de outras grávidas da zona rural, numa alegre romaria de mães tecendo roupinhas e planos. Severina queria muito um segundo filho – e Rosivaldo, seu marido, sonhava com uma menina. De repente, os caminhos dessas mulheres bifurcaram-se – também literalmente. Dali em diante, Severina seguiria sozinha, por outra estrada. E no percurso dela, haveria morte – e não vida.
Imaginar como era a cabeça do filho dentro dela foi um dos horrores vividos por Severina nos três meses que se seguiram. Ela tinha, naquele momento, um medo e uma esperança. O medo era o de machucar, com algum movimento mais brusco, aquela cabeça em que o médico disse e o ultrassom mostrou que faltava uma parte. Para ela, era como uma ferida aberta. Numa ocasião, Severina sentiu-se mal e botou para fora um vômito escuro. Pensou que era sangue. E sofreu atrozmente por pensar que tinha machucado a cabeça do bebê.
A esperança, Severina só às vezes confessava. Mas pensava, quase sempre, que algo mágico aconteceria de repente, e a cabeça do filho seria reconstituída dentro dela. A cada sensação diferente, essa fantasia reacendia-se. Severina então me dizia, meio envergonhada: “Eu sei que não pode ser, o médico disse que não acontece, mas será que...?”.
Enquanto esperavam por uma decisão judicial, em horas e horas de cadeira, pilhas e pilhas de papéis que não decifravam, Rosivaldo, o marido de Severina, enfrentava a curiosidade do povo na feira. Já se espalhara na pequena comunidade que ele era “o pai do bebê sem cabeça”. No próprio verbete do dicionário Houaiss, a anencefalia é definida como “monstruosidade”, o que diz bastante sobre como o senso comum percebe essa fatalidade. Na escassez de novidades da vida da cidade pequena, Rosivaldo despontou como o “pai do monstro”. E quando ele alcançava a feira para vender seus pés de brócolis, precisava se conter para não responder com violência física à agressão verbal da vida concreta dos dias.
Só quando a autorização judicial chegou, Severina reuniu forças para uma providência que até então não tivera coragem de tomar: comprar a roupa com que o filho seria sepultado. O ato transformou-se numa violência muito maior do que já era – uma violência que me faltou repertório para prever. Severina queria uma roupinha com capuz para impedir que a cabeça malformada do seu bebê ficasse exposta à curiosidade pública no enterro. Severina desejava pelo menos poder proteger seu bebê na morte. É importante lembrar que, agora, não era mais um aborto, como teria sido no início da gestação. Agora, seria um parto. Haveria um enterro e, para sempre, um filho sepultado. E, no caso de Severina, existiria ainda a insanidade de um bebê sem certidão de nascimento – mas com atestado de óbito.
Como venho do Estado mais frio do Brasil, eu jamais supus que encontrar uma touca poderia ser um problema. Mas, no clima tropical do Recife, Severina não conseguiu achar uma roupinha com capuz. E o inusitado do pedido fez com que ela se sentisse obrigada a explicar, de loja em loja: “Ele não vai viver”. Prometi, então, que depois que ela fosse internada, eu procuraria por ela. Encontrei no dia seguinte, em um shopping, uma roupinha branca com uma touca que ela ficou acariciando no hospital com os olhos afogados. Depois, buscou o álbum de fotografias de seu filho, Walmir, então com 4 anos. Acariciou cada foto em silêncio – cada uma delas uma prova de que ela poderia gerar um filho vivo.
Na rede pública de saúde, desenhou-se a estação seguinte do calvário severino. Ela foi empurrada de um hospital a outro, com a autorização judicial na mão. “Não há vagas”, “meus colegas são contra o aborto”, “tenha paciência”. Não fosse Paula Viana, da ONG Curumim, ajudar Severina a fazer cumprir seus direitos duramente conquistados, sua peregrinação duraria ainda mais tempo, como é mostrado no documentário.
Severina suportou mais de 30 horas de trabalho de parto, a maior parte delas com contrações excruciantes. Quando não tinha mais posição, arrastava-se até o corredor. Era inevitável encontrar-se com uma mãe feliz com seu bebê – vivo – no colo. Nesses momentos, os olhos de Severina gritavam uma dor que eu nunca vi no olhar de outro ser humano. Se a tortura de Severina fosse resumida em uma só cena, seria aquele olhar. Aquele olhar que palavras são insuficientes para descrever. Entre todas as mulheres da maternidade, Severina seria a única ali que, ao final, teria um caixão – e não um berço.
E assim foi.
Severina está longe de ter sido a única mulher torturada nesses anos todos, apenas que sobre a tortura dela há documento. Espero dormir na quarta-feira em um país que não torture mulheres porque tiveram a infelicidade de gerar um feto sem cérebro.
Eliane Brum escreve às segundas-feiras na Época

quarta-feira, 28 de março de 2012

“Não disfarce, peça ajuda”. A Rússia não quer saber de violência contra a mulher

Foto: Lowe Adventa

“Não disfarce, peça ajuda”. A Rússia não quer saber de violência contra a mulher

Por Anna Carolina Lementy


“Uma em cada 3 mulheres russas será vítima de violência doméstica pelo menos uma vez na vida. A despeito desse número elevado, 90% das mulheres nessa situação não procuram ajuda e continuam a sofrer humilhações. Para ocultar os vestígios de espancamento, elas utilizam cosméticos, acessórios como óculos e outros métodos. Nossa ideia tem o mesmo princípio: uma máscara que esconde um chamado por ajuda por meio da beleza, da moda e da publicidade”. É assim que a agência russa de publicidade Lowe Adventa explica sua nova campanha, feita a pedido do Anna – National Center for Violence Prevention (Centro Nacional de Prevenção à Violência, em português).
As fotos chamam a atenção — e é assim que deve ser quando a intenção é tratar do assunto. Mas o objetivo vai além do óbvio, que é atrair visibilidade. O Anna criou um canal de atenção às mulheres espancadas, onde elas conseguem assistência jurídica e psicológica. O resultado foi imediato. Desde o lançamento do canal de comunicação direta, o Anna recebeu mais de 10.000 ligações de toda a Rússia e de países da ex-União Soviética. Muitas queriam informações sobre a entidade, mas cerca de 3.000 mulheres disseram que eram vítimas de violência doméstica.
O Brasil não está nem perto de lançar uma campanha dessas, muito menos um canal exclusivo de comunicação com as vítimas. A Lei Maria da Penha está há cinco anos em vigor, mas temos uma estrutura muito precária de atendimento às mulheres que sofreram violência doméstica. Menos de 10% dos municípios do país possuem delegacias especializadas, de acordo com a Secretaria de Políticas para as Mulheres, de acordo com texto publicado pela Agência Patrícia Galvão. E essas delegacias são o único recurso que as mulheres possuem para denunciar seus agressores. Assistência jurídica e psicológica? Nem pensar.
“Ainda existe muita dificuldade de prefeitos e governadores em entender a importância deste tipo de unidade, pois muitos alegam não ter recursos e estrutura para montá-las”, diz Aparecida Gonçalves, secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, em entrevista a CartaCapital, replicada pela Agência Patrícia Galvão.
Dado importante: em quase 70% dos casos, a mulher sofre violência há mais de 10 anos. Para alguns, é fácil colocar a culpa nelas, que “continuam apanhando porque não denunciam”. Mas como, se faltam as tais delegacias especializadas? A falta delas, explica a secretária, obriga a vítima a recorrer ao serviço “comum” para registrar a queixa e enfrentar, muitas vezes, o descaso de indivíduos não qualificados para esse tipo de atendimento.
“Isso acaba gerando aquele tipo de questionamento à vítima: ‘tem certeza que a senhora vai fazer isso? Seu marido vai ser preso’”, diz. “Isso faz com que a mulher desacredite na proteção do Estado. Ou ela retorna ao seu agressor ou acaba tendo que encontrar seu caminho sozinha”.
Contraste: o estudo “O Progresso das Mulheres no Mundo”, divulgado pela ONU na quarta-feira 21, aponta que uma em cada 3 mulheres da América Latina sofre algum tipo de violência e 16% delas já foram vítimas de constrangimento e abuso sexual alguma vez na vida. Detalhe: 97% dos países da região aprovaram leis severas contra a violência de gênero.

domingo, 25 de março de 2012

"Parabéns pelo casamento! E o herdeiro vem quando?" ( Um post sobre pressões)

Foto: Shutterstock 

"Parabéns pelo casamento! E o herdeiro vem quando?" ( Um post  sobre pressões)

Carolina Ruhman

Eu tinha certeza absoluta de que quando casasse, a pressão familiar iria desaparecer. Porque sejamos francas: por mais que você tenha um trabalho legal, milhares de amigos e esteja sempre se divertindo, sua vida não está completa se não houver um homem em cena. É o que pensam nossos pais (principalmente as mães), tias e avós.
Não adianta ter namorado ou namorido: o que todo mundo quer é o papel passado, agora-eu-os-declaro-marido-e-mulher, sem essa de brincar de casinha. Como se casamento fosse garantia de segurança, de viveram-felizes-para-sempre.
Eis que descubro que não é nada disso que eles querem. Pura ingenuidade minha. Era tudo um esquema. Mais do que casamento, o que todo mundo está querendo mesmo são bebês. Lindos, pequenos, cheirosos e gordinhos. O casamento era só desculpa — estão todos querendo te ver grávida. O mais rápido possível. Sua mãe sonha com roupinhas de nenê e diz que nasceu para ser avó. Sua avó diz que gostaria taaanto de ter um tempo para ser bisavó… E aí a coisa complica, porque, sim, você também quer ter um filho. Só que não agora.
Para quem está acostumada com a pressão para casar logo (ou ir àquele encontro às cegas que dessa vez vai ser incrível e você finalmente vai desencalhar), a nova pressão parece brincadeira. Não tem aquela agressividade velada (quem nunca ouviu uma variante do “se você se recusa a sair com um cara que não conhece, como pretende conhecer alguém???”). Não, é muito mais sutil. É uma amiga que conta que voltou grávida da lua-de-mel, a prima do marido que mal teve filho e já dispara “quando vai ser a vez de vocês?”, etc. etc.
Quem, em sã consciência, diria que você deve engravidar correndo, quando
pode curtir o maridão, viajar e focar na carreira? Bom, quase todo mundo. Porque, ao que parece, na verdade, o que todo mundo espera é a continuação da espécie. Engraçado. Nós, que somos todos tão modernos, vivemos nos anos 2000, queremos é ver os outros tendo um monte de rebentos. Podemos, inclusive, flexibilizar no arranjo marital, contanto que bebês estejam no pacote.
Nesse clima “amistoso”, tome cuidado para não perder a cabeça e começar a viajar. Bebês nascem prontos para serem amados. E tem aquele momento em que você começa a fazer mais visitas à maternidade do que ao cinema… É fácil se empolgar e falar “eu também quero!”.
Mas preste atenção: quem sobreviveu a meses e anos de avós tentando
empurrar os netos das amigas em todas as festas de família e segurou
bravamente o namoro durante o tempo que quis, sonhando secretamente com o altar (ou não), já está escolada. Garanto.
E, por deus, como pensar em trocar sábados e domingos na cama até tarde — pura gostosura com o marido — e a liberdade de ir e vir sem ter que depender daquele pequeno ser (que vai depender completamente de você) pelo sonho de  fraldas sujas e visitas intermináveis ao pediatra? Uma hora, tudo isso vai fazer sentido. Mas, até lá, mães, tias, avós e (coragem) sogras, sosseguem!
Foto: Shutterstock


No Jezebel