A queda da paladina da informação
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| Foto: José Cruz/Agência Brasil |
A divulgação de conversas telefônicas entre o diretor da sucursal de Brasília da revistaVeja, Policarpo Junior, e o bicheiro Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, reacendeu o debate sobre a ética no jornalismo. O caso da Veja, porém, pode ir além do julgamento sobre o bom ou mau exercício da profissão. Revelações mais recentes de diálogos indicam um grau de intimidade tão forte entre os envolvidos que colocam a publicação sob suspeita.
Mais de 200 telefonemas interceptados pela Polícia Federal mostram a proximidade entre Policarpo e pessoas ligadas a Cachoeira. Nas conversas, questões que vão além da relação convencional e da troca de informações entre fonte e jornalista.
E não foram só conversas por telefone. Um levantamento realizado pela Agência Carta Maior, baseado no inquérito 3430, resultado da Operação Monte Carlo, evidencia pelo menos dez encontros entre o editor da Veja em Brasília e integrantes do esquema de Cachoeira. Com o próprio bicheiro foram quatro encontros.
Suspeito
O jornalista e professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), Venício Artur de Lima, é cauteloso ao lembrar que as gravações divulgadas até o momento são apenas fragmentos de todo um conjunto de informações. Entretanto, ele afirma que, pelos diálogos já tornados públicos, é possível supor algo além de relações “normais” entre Veja e Cachoeira.
Ele sustenta que, no jornalismo, o objetivo da fonte é passar ao jornalista informações que sejam relevantes ao interesse da sociedade. Diferente do que ocorreu neste caso, as informações transmitidas a Policarpo Junior eram utilizadas em benefício do próprio Cachoeira.
Outro fator que causa estranheza, segundo Lima, é o fato de Cachoeira assumir o comando da revista em algumas situações. Em uma das gravações, Policarpo pede ao bicheiro onde publicar uma nota. Seu interlocutor responde que poderia ser no “Radar” (uma das seções da semanal) ou na página da revista na internet. Para o professor, trata-se de uma “relação desvirtuada”.
“Se você tem a fonte construindo a pauta do jornalista, em nível de detalhe de indicar inclusive onde ele, de acordo com seus interesses de fonte, julga que é mais conveniente que a informação seja publicada, naturalmente há uma inversão que coloca [a relação] sob suspeita”, afirma.
Falta de ética, no mínimo
O presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Celso Schroeder, também condena a relação entre o editor da semanal e Cachoeira, que visa, segundo ele, a objetivos que passam longe do interesse público.
“Infelizmente isso não é de agora, a Veja já vem há algum tempo abandonando o jornalismo e exercendo uma atividade que beira, muitas vezes, a atividade político-partidária e, nesse caso, a contravenção”, diz.
Para o presidente do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, o caso vai muito além de um problema ético da revista.
“Se você é pautado pelo corrupto, você é corrupto também. A Veja não é só um problema ético, é um problema criminal. O Roberto Civita não devia estar sendo chamado, se é que os parlamentares vão ter coragem, só pra depor na CPMI [Comissão Parlamentar Mista de Inquérito]. Devia ser chamado pra depor na delegacia”, afirma.
Nosso Murdoch
O caso da Veja tem sido comparado ao episódio do tablóide inglês News of the World. Investigações apontaram que o jornal, pertencente ao conglomerado de Rupert Murdoch, valia-se de escutas ilegais, obtidas junto à Scotland Yard, para obter informações exclusivas de personalidades do mundo político e artístico. As denúncias levaram à perda sucessiva de anunciantes, que culminou no fechamento da publicação.
Para Borges, as comparações não só são válidas como deixam a semanal brasileira em uma situação pior do que a inglesa.
“No caso Murdoch, provou-se até agora que os órgãos de imprensa corrompiam autoridades, mantinham relações muito íntimas com os governantes do Reino Unido, promoviam escutas ilegais e clandestinas. No caso do Civita, é mais do que isso. É relação com o crime organizado”, acusa.
Silêncio e defesa
As denúncias envolvendo o tablóide de Murdoch vieram à tona por meio do jornal The Guardian, um dos mais tradicionais da Inglaterra. Por aqui, a postura da imprensa é bem diferente. A divulgação das informações que colocam em xeque a credibilidade da revista de maior circulação no Brasil tem ficado restrita, até agora, à Rede Record, à revista Carta Capital e à internet. Em vez de censuras ou condenações por parte da mídia corporativa, aVeja tem recebido apoio explícito ou, no mínimo, um silêncio aliado.
A principal defesa, até agora, partiu de um editorial do jornal O Globo. Além de defender o diretor do Grupo Abril, Roberto Civita, das comparações com Murdoch, o texto diz, entre outras coisas, que “blogs e veículos de imprensa chapa branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT desfecharam uma campanha organizada contra a revista Veja”.
Blindagem
O presidente da Fenaj critica a defesa incondicional em favor da Veja. Para ele, é dever da categoria apoiar toda investigação que leve à elucidação dos fatos.
“Eu tenho visto alguns colegas temerosos de que isso se reverta em uma cruzada contra a imprensa. Ao contrário, é nossa obrigação como jornalistas e como entidade depurar e indicar para a sociedade o que achamos que é bom jornalismo e mau jornalismo”, afirma.
Para o integrante do Coletivo Intervozes João Brant, é igualmente lamentável que os veículos utilizem o argumento da defesa da liberdade de imprensa para proteger a Veja e seus profissionais.
“A liberdade de imprensa é uma garantia constitucional para se defender a liberdade de expressão e o direito à informação. Liberdade de imprensa não é um direito, é uma garantia”, diz.
Diante da blindagem nos meios tradicionais, Altamiro Borges destaca a importância da internet para manter o assunto em pauta.
“Essa nova mídia é que tem cumprido um papel fundamental na denúncia, a blogosfera e as redes sociais é que têm cutucado o tema. No geral, a grande mídia está cúmplice, houve um pacto mafioso em defesa da Veja”, afirma.
Manifestações
Em 8 de maio, a União da Juventude Socialista (UJS) realizou um ato de protesto contra a relação da revista Veja com Cachoeira. O ato foi realizado em frente ao prédio da editora Abril, em São Paulo (SP) e pediu a convocação de Civita na CPMI.
No mesmo dia, o assunto foi um dos mais comentados no microblog twitter, com a tag “#CivitanaCPI”.
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