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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Troféu Sinceridade: Ana Claudia Lemos resume sua participação nos Jogos: “Uma merda”

Troféu Sinceridade: Ana Claudia Lemos resume sua participação nos Jogos: “Uma merda”



Ainda falta uma semana para terminar, mas a Olimpíada de Londres já tem uma medalhista de ouro em sinceridade: Ana Claudia Lemos.
Bem posicionado na zona mista do Estádio Olímpico, o repórter Tiago Maranhão, do SporTV, ofereceu o microfone à atleta minutos depois de ela chegar em quinto lugar numa eliminatória dos 200 m rasos.
“O que você achou da sua partipação?”, perguntou. “Uma merda”, resumiu Ana Claudia. “Frustrante. Eu esperava muito mais de mim.”
O ex-atleta Andre Domingos, comentando atletismo no SporTV, não gostou: “O atleta tem que ser educado”. O narrador  Roby Porto apoiou o comentarista. “Pedimos desculpas ao telespectador por ter que ouvir isso”. Em um momento posterior, lamentou que Ana Claudia tenha “cuspido marimbondos”.
Discordo de Domingos e Porto. A atleta não ofendeu ninguém, nem deu nenhuma desculpa. Apenas desabafou sobre o próprio desempenho. Estou com ela.
Mais informações aqui e aqui.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Os Jogos Olímpicos do machismo

Os Jogos Olímpicos do machismo

Carta Capital

A revista espanhola "Interviú", especializada em mulheres nuas, conseguiu convencer duas atletas olímpicas a aparecer na capa da edição atual
A revista espanhola “Interviú”, especializada em mulheres nuas, conseguiu convencer duas atletas olímpicas a aparecer na capa da edição atual. Foto: Reprodução
Os Jogos Olímpicos de Londres expõem de forma intensa uma característica um tanto lamentável do jornalismo esportivo, o machismo. No Brasil e no exterior, veículos de imprensa abusam de fotos e notícias cujo destaque é a beleza do corpo de determinadas competidoras e não sua capacidade atlética. É uma contradição da própria função do jornalismo, provocada por uma série de fatores.
O machismo aparece principalmente nos portais de notícias na internet e nas versões online das publicações. Assim, um óbvio causador deste fenômeno é o culto ao “clique”, existente em todo o mundo e particularmente relevante no Brasil. A lógica é a seguinte: se a sua peça jornalística não tem um determinado número de acessos, ela é irrelevante.
Assim, melhor do que entrevistar especialistas para mostrar como o corpo da norte-americana Missy Franklin é perfeito para a natação, é fazer uma galeria de fotos com atletas gostosas, como esta do jornal italiano Gazzetta dello Sport. O trabalho é muitas vezes facilitado pelas agências de notícias, que no vôlei de praia (esporte no qual as mulheres podem usar biquínis) chegam ao cúmulo de cortar a cabeça das atletas de uma foto e destacar o bumbum. Além de fácil, as galerias são rápidas e, o principal, dão muitos cliques.
Soma-se à busca ansiosa pela audiência (mesmo que de baixo nível), o fato de algumas atletas não se importarem em aparecer para o público graças a seus atributos físicos, e não atléticos. A revista espanhola Interviú publica nesta semana uma reportagem sobre alguns dos principais temas do esporte olímpico, como a remuneração dos atletas e o doping. As principais personagens da reportagem são Patricia Sarrapio, que vai representar a Espanha no salto triplo, e Ana Torrijos, corredora que se machucou e não vai aos Jogos. Como o texto é ilustrado? Com fotos de Patricia e Ana, juntas e completamente nuas, em paisagens londrinas.
Dar um destaque maior, na cobertura das Olimpíadas, a atletas bonitas em detrimento de outras que sejam esportistas melhores, consiste um absurdo jornalístico. A função básica do jornalismo é avaliar e explicar à população o que é ou não relevante em determinado assunto, e com o esporte não deveria ser diferente. Fazer isso é tratar o esporte como algo pouco sério.

sábado, 28 de julho de 2012

Por que a Globo preferiu pagar a usar imagens de graça da Record

Por que a Globo preferiu pagar a usar imagens de graça da Record







A briga pelos direitos de transmissão de imagens dos Jogos Olímpicos de Londres produziu uma situação aparentemente bizarra no Brasil. A Globo preferiu pagar a uma empresa estrangeira por imagens que poderia usar de graça, cedidas pela Record. É uma história complicada, que mostra o estado de animosidade entre as duas emissoras.
Dona dos direitos de transmissão da Olimpíada, a Record é obrigada a ceder gratuitamente um pacote diário para todas as concorrentes na TV aberta brasileira.
A emissora informou na semana passada as condições de uso deste material. Avisou que vai ceder diariamente seis minutos de imagens para serem usados em blocos de até três minutos em qualquer telejornal ou programa de cobertura nacional, num período de 24 horas.
A Record exige que as emissoras enviem uma fita e a retirem na emissora, diariamente, às 18h30, com as imagens. Não pode haver repetição ou replay das imagens exibidas em cada programa.
Segundo a Record, até 2008, em Pequim, quando a Globo detinha os direitos de transmissão dos Jogos, “as imagens só eram liberadas para exibição em blocos de dois minutos, em apenas três programas ao longo do dia”.
A Globo afirma que procurou a Record em abril, querendo saber quais seriam as condições de uso destas imagens e que, como não obteve resposta, procurou o COI (Comitê Olímpico Internacional) para saber se haveria alternativas na obtenção de imagens.
A emissora, então, comprou da OBS (Olympic Broadcast Services) um pacote pelo qual pode usar seis minutos de imagens em no máximo três programas jornalísticos regulares, podendo exibir até dois minutos em cada. Este pacote foi oferecido a empresas não detentoras de direitos dos Jogos por 6 mil libras (cerca de R$ 19 mil).
A OBS envia as imagens via satélite em boletins de 30 em 30 minutos. Não há restrição para replay e é possível usar uma mesma cena nas 48 horas seguintes.
O acerto com a OBS limita o uso das imagens a três telejornais (diferentemente da Record, que permite que elas sejam usadas até oito vezes no intervalo de 24 horas) e a dois minutos por programa (em vez de três, como oferece a concorrente), mas deixa a Globo com maior  oferta e agilidade.
Ao comprar este pacote, a Globo se comprometeu a sempre creditar as imagens ao detentor dos direitos no Brasil, a Record, mas não precisa mostrar a logomarca da concorrente, o que teria de fazer se utilizasse as imagens cedidas de graça.
As limitações estabelecidas pelo OBS são, de fato, exigências do COI, que a Globo, como qualquer outro não detentor de direitos, se comprometeu a aceitar.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Estúpida!: Tweet racista tira atleta grega dos Jogos Olímpicos

Estúpida!: Tweet racista tira atleta grega dos Jogos Olímpicos


Carta Capital


Voula Papachristou. Foto: Facebook

Voula Papachristou. Foto: Facebook
A Carta Olímpica, um documento que serve como base para a organização dos Jogos Olímpicos desde seu início, traz sete princípios fundamentais em sua abertura. Cinco deles falam de “bom exemplos”, “princípios éticos”, “desenvolvimento harmonioso da humanidade”, “união de atletas de todo o mundo”, incompatibilidade entre qualquer tipo de discriminação e o movimento olímpico, e da criação de um espírito olímpico que requer “entendimento mútuo com espírito de amizade, solidariedade e jogo limpo”. Com um único tweet, Voula Papachristou, atleta do salto triplo da Grécia, conseguiu violar todos eles ao mesmo tempo. E foi expulsa dos Jogos Olímpicos de Londres.
A expulsão de Papachristou, de 23 anos, foi confirmada nesta quarta-feira 25 pelo Comitê Olímpico Grego. A decisão foi tomada depois da repercussão negativa gerada por uma “piada” feita por ela na internet. Na segunda-feira 23, Papachristou comentou em sua conta no Twitter o Vírus do Oeste do Nilo, uma doença originária da África transmitida por mosquitos, que matou uma pessoa na Grécia neste ano e infectou outras quase 200. Papachristou saiu com essa: “Com tantos africanos na Grécia… pelo menos os mosquitos do Vírus do Oeste vão poder comer comida feita em casa”.
A reação ao comentário racista foi imediata e intensa, a ponto de fazer com que a Esquerda Democrática, partido integrante do atual governo de coalizão grego, se manifestasse. Em comunicado, a sigla pediu a expulsão de Papachristou e afirmou que “piadas” deste tipo “não são toleradas pela sociedade grega”. Nesta quarta, o Comitê Olímpico Grego desprezou os inúmeros pedidos de desculpas de Papachristou e confirmou sua expulsão. Reforçou a polêmica o fato de Papachristou ter em seu Twitter diversos “retuítes” de Ilias Kasidiaris, porta-voz do Aurora Dourada, partido de ultradireita da Grécia que teve expressivos ganhos eleitorais nas últimas eleições com uma plataforma xenófoba e racista. Recentemente, Kasidiaris agrediu uma parlamentar comunista com um tapa no rosto durante um acalorado debate.
O tema do racismo no esporte parece não ter fim. Durante a Eurocopa, disputada em junho, o assunto foi debatido longamente por conta das constantes manifestações racistas na Polônia e na Ucrânia, sedes da competição. Um analista polonês tentou explicar o comportamento de parte de seus compatriotas dizendo que a falta de educação para o convívio com os “diferentes” era tão comum na na Polônia que muitas pessoas poderiam chamar um negro de “macaco” sem querer ofender. A análise não era uma tentativa de justificar o racismo, mas sim de explicar as origens daquele comportamento. A tese não serve para explicar atos explícitos de racismo como os verificados na Polônia e na Ucrânia e em muitos outros países durantes jogos de futebol. Ela ajuda a entender, porém, como um jornal italiano compara um atleta italiano negro com o King Kong e acha tal coisa normal. Basicamente, esta explicação diz que parte dos atos racistas são, na verdade, ocasionados por uma quase inimputabilidade de quem o pratica. Este tipo de racismo seria originado pela obtusidade de indivíduos e pela incapacidade de certas sociedades de contornar esta situação.
O caso de Papachristou é diferente. Um atleta não tem o direito de ser obtuso. Não tem justamente porque o atleta, queira ele ou não, serve como representante de um país e exemplo para a sociedade. Como atleta profissional, Papachristou tem a oportunidade de conviver com gente de todo o mundo, de todas as cores e credo, o que, ao menos na teoria, ajudaria a tornar seu pensamento menos obtuso e, portanto, menos racista. Com seu tweet, mostrou que mesmo convivendo num ambiente mais plural, não conseguiu escapar do racismo. Ao fazer uma “piada” com os africanos vivendo na Grécia, Papachristou desperdiça a possibilidade de que os Jogos Olímpicos sejam usados para criar um mundo mais harmonioso e ajuda a estimular a intolerância com a qual esses imigrantes são recebidos.
Mais que isso, Papachristou exemplifica a incapacidade dos seres humanos de conviver com os “diferentes”. Em 1936, o corredor negro Jesse Owens humilhou Adolf Hitler nos Jogos Olímpicos de Berlim ao conquistar quatro medalhas de ouro numa competição organizada para mostrar “a supremacia ariana”. Isso ocorreu há quase 76 anos, mas o tempo não fez efeito, e o racismo continua em voga.