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segunda-feira, 24 de junho de 2013

O gigante é anticapitalista ou entendeu tudo errado?

O gigante é anticapitalista ou entendeu tudo errado?

O tal “gigante” (ainda) não está pronto para um Occupy

A participação massiva da tradicional classe média “brasileira com muito orgulho, com muito amor”, dado o seu imenso grau de despolitização, se deu de forma frontalmente contrária àquela desempenhada por seus pares no chamado, por eles próprios, “primeiro mundo”
Marcelo Netto Rodrigues - Brasil de Fato
Quando as primeiras manifestações convocadas pelo Movimento Passe Livre (MPL) começaram a ganhar corpo (e mentes), tinha-se a impressão de que a expectativa dos pequenos grupos de Ocupas, que se formaram no Brasil em 2011, enfim, se tornava realidade – mesmo que com um atraso de quase dois anos.
Há de se dizer, inclusive, que muitos integrantes do MPL são Ocupas e vice-versa, dependendo do grau do seu envolvimento com um movimento ou outro.
Mas poucos dias foram necessários para perceber que o tal “gigante” ainda não está pronto para um movimento do tipo Occupy/Indignadxs em larga escala. A participação massiva da tradicional classe média “brasileira com muito orgulho, com muito amor”, dado o seu imenso grau de despolitização, se deu de forma frontalmente contrária àquela desempenhada por seus pares no chamado, por eles próprios, “primeiro mundo”.
Isso porque a despeito de toda a disputa ideológica sobre o termo, a pauta desses novos movimentos anticapitalistas é claramente de “esquerda” – algo que essa classe média só consegue associar ao PT ou à cor “vermelha”.
Já a participação da periferia e da chamada “nova classe média” também aconteceu de maneira difusa. Uns participaram por não terem nada a perder; outros, por quererem mais do que o consumo pode oferecer, ou seja, serviços públicos em quantidade e de qualidade. Aqui se viu os frutos do descolamento dos reais interesses dessa nova classe alargada, que alguns estudiosos chamam de "precariado", e aqueles adotados pragmaticamente pela esquerda tradicional, partido ou movimento social, após o PT ter chegado ao poder. 
Para que não haja dúvidas, a pauta dos novos movimentos anticapitalistas passa por protestar contra: corporações transnacionais que exploram pessoas e países; acordos de comércio desiguais; condições de trabalho injustas; destruição do modo de vida de indígenas e camponeses; criminalização dos pobres; e, principalmente, contra o esvaziamento da democracia representativa, subjugada à lógica econômica neoliberal global.
Posto isso, é necessário reforçar que os "neo-cara-pintadas" entenderam tudo errado – e pior, à “direita”, reproduzindo “velhas” práticas em um contexto que exige algo completamente novo. Os ares trazidos por movimentos como Occupy/Indignadxs são taxativos em afirmar que o problema é o sistema capitalista neoliberal global e não a "corrupção"; que o que está em jogo não é uma "nação", nem um "povo" específico – o que passa a noção de um grupo homogêneo unido -, mas sim, uma "multidão" sem pátria, que vê como bem-vinda a diferença entre seus membros.

Por outro lado, a esquerda tradicional também tem que entender que a "multidão", que conscientemente saiu às ruas junto com o MPL, não é mais a "massa" que ela estava acostumada a lid(er)ar - com sua visão de vanguarda que nivela as diferenças e as potencialidades das pessoas -, mas uma "multidão" que abarca diferentes formas de expressão, identidades múltiplas, vários tons de cores.
Enquanto ambos ignorarem que o “novo”, como dizem os zapatistas no México – principal inspiração do MPL e do Occupy –, de fato, só tem como surgir de maneira horizontal, “abaixo e à esquerda”, e não de um slogan de partido ou de práticas burocráticas viciadas, o “velho” continuará a sufocar a auto-emancipação dos que lutam. Ambos têm de levar a sério, e não só falar da boca para fora, o que um dos nossos maiores pedagogos já dizia, à frente do seu tempo: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão”.








P.S. "O Gigante Acordou" também foi jargão na Marcha da Família, no Golpe de 64. Foto do livro "Marcha com a Família..." publicado em 1964 com o cartaz "O Gigante Acordou"

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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Não somos classe média, não somos morenos

Não somos classe média, não somos morenos




Trezentos e cinqüenta anos de escravidão e 124 de discriminação racial condenaram à marginalização econômica e social a esmagadora maioria dos descendentes de escravizados no Brasil. À exclusão somou-se uma série de adjetivos para justificar a escravidão e o racismo. Negro, no Brasil, tornou-se sinônimo de criminoso, desonesto, ocioso, ignorante, imoral etc. Por outro lado, os poucos que, driblando as colossais barreiras impostas pelo racismo, conquistam alguma ascensão social, são imediatamente “promovidos” à morenos, mulatos, escurinhos.
Ou seja, ao negro são creditados tantos atributos negativos que o simples fato de sair da marginalidade exige sua reclassificação étnica. O senso comum, que desde o final do século XIX evitar qualificar como negros os afrodescendentes considerados incluídos, é decorrente da secular ideologia que se propõe à “branquear” e integrar à sociedade – de forma subalterna – uma pequena minoria, de maneira a legitimar a exclusão da maioria.
A caracterização de classe operária ou classe média para um determinado grupo social não deve estar delimitada apenas pelo seu poder aquisitivo. O papel que cada um desempenha na produção das mercadorias que – negociadas no mercado – geram lucro, apropriado por aqueles que se tornaram donos dos meios de produção, é o principal fator de classificação de cada grupo no interior da sociedade capitalista. Um torneiro mecânico ou ferramenteiro de uma grande montadora do ABC recebe um salário superior a de um professor da rede pública do estado de São Paulo.
Todavia, o primeiro continua membro da classe operária e o segundo da classe média. Assim como integram o conceito amplo de classe operária, os trabalhadores em serviços, no sistema financeiro, no comércio, na construção civil e não apenas aqueles que operam as indústrias. No Brasil, as condições de vida e trabalho da maioria da classe operária, até a última década, se assemelhava às condições vividas pelos trabalhadores europeus do século XIX.
A partir da derrota do neoliberalismo, em 2003, com o início de uma nova fase econômica e social no País, a classe operária brasileira apenas se aproximou da condição econômica dos trabalhadores europeus no século XX. Considerá-los classe média, além de impreciso, significa creditar-lhes o mesmo perfil ideológico e as mesmas demandas da clássica classe média.
Vivemos em um país onde raça e classe são coincidentes. A imensa maioria da classe operária é composta de negros, a totalidade da classe dominante e a grande maioria da classe média é de brancos. Nominar os operários, que agora consomem, de “nova classe média” e os negros com pequena ascensão social de “morenos” são duas vertentes da mesma concepção ideológica, matriz dos instrumentos de cooptação que supervalorizam a mobilidade social individual em detrimento da coletiva.
Estamos experimentando um processo inédito de melhora geral das condições de vida da classe operária em nosso país. Essa melhora, objetivamente é resultado da ação dessa própria classe, que a três décadas retomou os sindicatos dos interventores da ditadura, organizou federações, confederações e centrais sindicais, ombreou-se com os movimentos sociais, criou ou foi participar de partidos de esquerda e elegeu governantes que implementaram políticas econômicas e sociais que redundaram nessa espetacular ascensão social. Quem levou o país a ser governado por um partido de orientação socialista, quem construiu a nova agenda que se contrapôs ao neoliberalismo e quem, agora, colhe os frutos do que semeou é a classe operária.
Chamá-los de “nova classe média”, é negar a história recente, é pasteurizar a luta, é despolitizá-la enquanto classe. É mascarar as contradições de classe, pois todos estariam igualados (e irmanados) pela oportunidade de acesso ao consumo. Negar sua condição de classe operária, majoritariamente negra, significa deslegitimar as tradicionais organizações de massa, protagonistas das mudanças operadas na última década.
É considerar que as igrejas, as entidades filantrópicas, de profissionais liberais, as ONGs e as associações de consumidores, dão conta de atender suas demandas. É permitir que a mídia, em sua cotidiana tentativa de usurpar a representação social, se arvore porta-voz desse grupo, objetivando sua domesticação, despolitização, branqueamento e incorporação à um projeto político conservador.
O imenso contingente de pessoas que obtiveram significativas melhorias em suas vidas ao longo dos governos Lula e Dilma, compõem uma parte da sociedade que está protagonizando profundas mudanças sociais e políticas no País, utilizando os tradicionais instrumentos de organização classista. Essa classe é constituída, em sua maioria, por homens e mulheres negros, herdeiros de um legado de luta de quatro séculos e de uma cultura ancestral que remonta à Antiguidade.
Compreender o caráter dos 40 milhões de trabalhadores e trabalhadoras, resgatados da marginalidade na última década, têm como conseqüência a reafirmação da legitimidade das históricas representações e formas de organização do povo brasileiro: os movimentos sociais, as organizações de luta contra a discriminação racial, o movimento sindical.
Não é coincidência o constante ataque, tentativas de criminalização e deslegitimação dos movimentos sociais, por setores do Poder Judiciário, alguns governos estaduais e a grande mídia, porta vozes dos interesses do poder econômico. Fazem parte da mesma estratégia de branquear e “carimbar” como classe média a maioria dos trabalhadores brasileiros. Reafirmarmos nossa identidade étnica e a classe social a que pertencemos é fundamental para a resistência à cooptação ideológica.
Por Ramatis Jacino
Fonte: Afropress

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tráfico, assalto, estelionato: Classe Média no Crime

Tráfico, assalto, estelionato: Classe Média no Crime

Os crimes em Franca: Ação de uma quadrilha de classe média, em reportagem do Jornal da Record




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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Se batem em “bichas” ou “mendigos”, a culpa pode ser sua

Se batem em “bichas” ou “mendigos”, a culpa pode ser sua

Leonardo Sakamoto



Enquanto isso, entre amigos da classe média…
- Uma puta! Alguém pega o extintor para jogar nessas vadias.
- Um índio! Alguém pega gasolina para a gente atear fogo nesses vagabundos.
- Um mendigo! Alguém pega um pau para a gente dar um cacete nesses sujos.
- Umas bichas! Alguém pega uma lâmpaga fluorescente para bater nessas aberrações.
Duas pessoas em situação de rua foram queimadas neste sábado (25) em Santa Maria, cidade-satélite do Distrito Federal. Um rapaz de 26 anos não resistiu às queimaduras de terceiro grau e morreu no dia seguinte. A outra vítima, um homem de 42 anos, está internado em estado grave.  Testemunhas afirmam ter visto um grupo de pessoas primeiro incendiando um sofá e depois queimando os dois enquanto dormiam, utilizando um líquido inflamável.
Bater em “puta” e “bicha” pode. Assim como em índio e “mendigo”. Lembram-se do pataxó Galdino, que morreu queimado por uma “brincadeira” de jovens da classe média brasiliense enquanto dormia em um ponto de ônibus em 1997? Ou a população de rua do Centro de São Paulo, que vira e mexe é morta a pauladas enquanto descansa? Até onde sabemos, apesar dos incendiários brasilienses terem sido presos, eles possuíam regalias, como sair da cadeia para passear. E na capital paulista, crimes contra populacão de rua tendem a ser punidos com a mesma celeridade que agressões contra indígenas no Mato Grosso do Sul.
Isso quando a culpa não recai sobre a própria vítima. “Afinal de contas, o que essa gente diferenciada estava fazendo fora do seu lugar? Os jovens agiram com violência desnecessária, mas o mendigo também pediu, né?”
Na prática, as pessoas envolvidas nesses casos apenas colocaram em prática o que devem ter ouvido a vida inteira: putas, bichas, índios e mendigos são a corja da sociedade e agem para corromper os nossos valores morais e tornar a vida dos cidadãos de bem um inferno. Seres descartáveis, que vivem na penumbra e nos ameaçam com sua existência, que não se encaixa nos padrões estabelecidos pelos homens de bem.
A sociedade tem uma parcela grande de culpa em atos como esse, da mesma forma que tem com os jovens que se tornam soldados do tráfico por falta de opções, fugindo da violência do Estado e do nosso desprezo. A culpa é deles. Mas também é nossa.