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terça-feira, 7 de maio de 2013

"Violência e intolerância são efeitos colaterais da ligação entre fé e política"

"Violência e intolerância são efeitos colaterais da ligação entre fé e política"

Aliança entre fé e política leva à intolerância religiosa, diz escritora britânica - Entrevista Karen Armstrong

folha de são paulo


REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A violência e a intolerância não são elementos inevitáveis no "DNA cultural" das religiões, mas sim efeitos colaterais da aliança entre fé e política, para os quais as tradições religiosas são capazes de desenvolver antídotos pacifistas.

É o que afirma a escritora britânica Karen Armstrong, 68, que participa do ciclo Fronteiras do Pensamento amanhã, em São Paulo.


Britânica Karen Armstrong diz que violência e intolerância são efeitos colaterais da ligação entre fé e política
Britânica Karen Armstrong diz que violência e intolerância são efeitos colaterais da ligação entre fé e política

Ex-freira, Armstrong estudou literatura na Universidade de Oxford e passou as últimas décadas produzindo documentários e escrevendo livros que investigam a história das grandes tradições religiosas. "A ética da compaixão é o centro de todas essas grandes tradições, e é preciso retomá-la", argumenta.
Por email, ela diz à Folha que o ateísmo radical é produto do fundamentalismo e que está "encorajada" com os sinais de humildade do papa Francisco, embora não espere grandes mudanças.
*

Folha - É comum ouvir dizer que, ao longo da história, o monoteísmo deu impulso à violência e à intolerância porque ele tende a ser exclusivista. A sra. concorda?
Karen Armstrong - Não. Existem fundamentalistas entre os hindus e budistas.
A história mostra que nenhuma fé consegue se transformar numa "religião mundial" se não for adotada por um Estado ou império dinâmico e em expansão.
Como os Estados são inerentemente violentos (nenhum pode se dar ao luxo de acabar com seus exércitos), as religiões acabam adquirindo uma ideologia "imperial".
Mas os monoteísmos também desenvolveram uma alternativa contracultural não violenta. As pessoas é que são violentas, e não as abstrações que chamamos de "religiões".

O que significa ser uma monoteísta "freelance", como a sra. se definiu certa vez? É possível transcender as raízes históricas do judaísmo, do cristianismo e do islamismo e ainda se considerar monoteísta?
Esse é um termo que usei de forma casual e que tem me perseguido desde então. Eu quis dizer que era capaz de obter sustento espiritual das três fés abraâmicas [referência a Abraão, que seria ancestral de judeus e árabes], e que não conseguia ver nenhuma delas como superior.
Depois que afirmei isso, estudei as religiões orientais não teístas, e sou capaz de encontrar igual inspiração nelas.
O termo que aplico a mim mesma hoje em dia é o de "convalescente". Estou em "fase de recuperação" depois de ter uma experiência religiosa ruim quando era moça [Armstrong tornou-se noviça aos 17 e sofreu com a disciplina e as penitências físicas].

Ao ler seus livros, a impressão é que a sra. fala de Deus como um conceito importante, mas que não necessariamente teria base real "lá fora". Se Deus não tem existência objetiva, por que se importar com Ele?
Nossas mentes possuem uma predisposição natural para a transcendência, ou seja, temos ideias e experiências que estão além do alcance de nossa compreensão. Todos nós buscamos momentos de "êxtase", nos quais "ficamos de fora" do nosso eu. Se não encontrarmos isso na religião, vamos buscar tal sensação na arte, na música, na natureza, até no esporte.
Nesses momentos, sentimos que habitamos nossa humanidade de um jeito mais pleno. "Deus" é um símbolo que, se usado de forma apropriada, traz essa experiência.

Como a sra. enxerga o movimento dos Novos Ateus, que defende que os não crentes combatam de forma mais ativa a religião? É o sinal de um futuro cada vez mais secular?
O Novo Ateísmo é, em grande medida, um produto do fundamentalismo religioso, o qual tentou domesticar a transcendência de "Deus" e acabou por transformá-lo em algo inacreditável.
Mas, ao longo da história, os monoteístas, por exemplo, insistiram que "Deus" não é um outro ser e que não podemos dizer que "ele" existe, porque nossa noção do que é a existência é limitada demais.
Na verdade, as pessoas estão ficando enjoadas com [Richard] Dawkins [zoólogo britânico], [Sam] Harris [neurocientista americano; ambos são expoentes dos Novos Ateus] etc. porque eles são agressivos e intolerantes demais. Acho que a Europa está de fato destinada a seguir o caminho do secularismo, mas os EUA continuam sendo um país muito religioso.

Quais são suas impressões sobre o papa Francisco?
Achei muito encorajador quando fiquei sabendo que ele abandonou seu palácio e adotou um estilo de vida mais simples. Mas ele ainda é conservador do ponto de vista teológico e ético, então não espere muitas mudanças!

Vários papas, diante da pressão pelo sacerdócio de mulheres, afirmaram que teologicamente isso seria impossível, já que Jesus escolheu como apóstolos apenas homens. Como vê esse raciocínio?
Eu acho que Jesus ficaria surpreso ao ver qualquer tipo de sacerdócio no "cristianismo". Os primeiros cristãos achavam que os sacerdotes só existiam no paganismo e no judaísmo; o modelo deles era mais igualitário.


RAIO-X KAREN ARMSTRONG
NASCIMENTO
14 de novembro de 1944, em Wildmoor, Reino Unido
FORMAÇÃO
Aos 17 anos, tornou-se noviça e assumiu o nome de irmã Marta. Deixou o convento quatro anos depois. Estudou literatura inglesa na Universidade de Oxford
PRINCIPAIS LIVROS
"Jerusalém - Uma Cidade, Três Religiões" (2000), "Maomé - Uma Biografia do Profeta" (2002)

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Rede de atendimento à mulher vítima de violência é precária em todo o país

Rede de atendimento à mulher vítima de violência é precária em todo o país


Os problemas estão mais concentrados no sistema de Justiça
A precariedade no serviço de atendimento às mulheres vítimas de violência é generalizada, afirmou nesta segunda-feira a senadora Ana Rita (PT-ES) que está no Rio de Janeiro até quinta-feira para participar de diligências e audiência pública da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga a violência contra a mulher.
O Rio de Janeiro é o 12º estado visitado pela comissão, que tem como objetivo investigar a situação da violência contra a mulher no Brasil e apurar denúncias de omissão do Poder Público. Relatora da comissão, a senadora disse que o balanço feito até o momento sobre o atendimento à mulher é desanimador.
- Em alguns lugares as deficiências estão concentradas no Executivo: delegacias especializadas, centros de referência, casas abrigo. Em outros, os problemas estão mais concentrados no sistema de Justiça: varas especializadas e defensorias públicas que não funcionam adequadamente, o Ministério Público que não está cumprindo seu papel – exemplificou a senadora ressaltando que, em alguns lugares, ainda não há Defensoria Pública. “É preciso que essa rede de atendimento funcione de forma integrada e articulada para que a mulher seja realmente protegida.”
Na terça-feira, a comissão promoverá uma audiência pública na Assembleia do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) para ouvir gestores públicos, representantes do Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, movimentos sociais e sociedade civil organizada.
Para a titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher do centro do Rio, Celia Silva Rosa, o maior desafio é tornar o serviço àsvítimas mais ágil e eficaz. “O trâmite sai da delegacia, vai para o Ministério Público, às vezes volta porque falta alguma coisa e até chegar ao Judiciário demora. O ideal é que haja mais promotorias e juizados para esse assunto e que os serviços sejam mais concentrados para que a mulher não tenha que repetir sua história e viver novamente aquela violência.”
A delegada sugeriu ainda a existência de um médico-legista em cada delegacia especializada para fazer o exame da vítima, que hoje precisa ir ao Instituto Médico-Legal (IML).
Celia contou que há pedidos de medida protetiva (para impedir o acusado de se aproximar da vítima ou de entrar em contato com ela e seus familiares) que demoram meses para serem concedidos pela Justiça.
No Rio, a taxa de homicídios de mulheres está em 5,2 assassinatos para cada grupo de 100 mil, acima da média nacional, que é 4,4. A capital fluminense ocupa a 19ª colocação no ranking de violência contra o sexo feminino. Porto Velho, Rio Branco, Manaus estão nos primeiros lugares, com índices acima de dez homicídios para cada 100 mil mulheres. Os dados fazem parte do Mapa da Violência 2012, elaborado pelo Instituto Sangari e pelo Ministério da Justiça.
Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) de 2010 apontam que o Brasil é o 7º país com maior número de mulheres assassinadas no mundo. Nos últimos 30 anos foram assassinadas mais de 92 mil mulheres, 43,7 mil só na última década. Além disso, segundo os dados, 68,8% dos homicídios ocorrem dentro de casa e são praticados por maridos ou companheiros.
Além da senadora, a CPMI é composta pela deputada federal Jô Moraes (PCdoB-MG), que a preside, e a deputada Keiko Ota (PSB-SP). A comissão já esteve no Distrito Federal, em Pernambuco, em Minas Gerais, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, no Espírito Santo, em Alagoas, no Paraná, em São Paulo, na Bahia, na Paraíba e em Goiás. As próximas audiências e diligências serão realizadas nos dias 12 e 13 de novembro, em Mato Grosso do Sul, e nos dias 22 e 23 de novembro, no Amazonas. O relatório, que deve ser concluído em dezembro, vai apresentar o diagnóstico da realidade sobre o atendimento das mulheres vítimas de violência doméstica, com a sugestão de medidas para superar esses problemas no Brasil.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tráfico, assalto, estelionato: Classe Média no Crime

Tráfico, assalto, estelionato: Classe Média no Crime

Os crimes em Franca: Ação de uma quadrilha de classe média, em reportagem do Jornal da Record




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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Estado excludente e privatista: Violência & poder em Sampa

Estado excludente e privatista: Violência & poder em Sampa



“A violência é a base mais fraca possível para a construção de um governo. É a arma favorita do impotente"
Qualquer um pode ser preso ou morto se estiver no lugar errado”, declarou a professora da USP e especialista em Sociologia Urbana, Vera da Silva Telles ao site Carta Maior desta semana, analisando o atual surto de violência e a ação policial nas periferias de São Paulo. Entre 17 e 28 de junho, segundo dados do Sistema de Informações Criminais, 127 pessoas foram assassinadas na capital. Durante o mês de junho, 39 cidades da Grande São Paulo registraram 166 mortos.
Na avaliação de Telles, a explosão de violência nas periferias de Sampa faz parte de “um embaralhamento dos critérios de ordem, no qual a ação dos agentes policiais gera um sentimento de imprevisibilidade nos moradores de tais áreas.” (apesar do jargão criptoacadêmico, é uma explicação muito simplista, confusa e rebuscada pro entendimento do leitor comum, vocês não acham?). Por outro lado, especula-se que o estopim para essa onda de “violência extralegal” seria um suposto confronto entre membros do PCC (Primeiro Comando da Capital) em 28 de maio, na zona leste, com oficiais da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), do qual teria resultado cinco mortes.
Para muitos, a violência do Estado – sobretudo um Estado tucano há décadas – é o ingrediente central dos assassinatos em Sampa, refletindo práticas higienistas, sem contar o encarceramento que se maximizou em toda a região, na mesma medida em que, sintomaticamente, extinguiram-se os empregos sob o império dum Estado excludente e privatista. Mas as conexões entre violência, poder e autoridade estão sutilmente articuladas em reflexões exemplares por Slavoj Zizek, em seu último livro (1), uma vez que ele considera o estudo do antagonismo da ordem social uma tarefa maior do nosso tempo.
Segundo o filósofo esloveno, a única maneira de nos orientarmos na charada da violência é nos concentrarmos em sua natureza paralática (a “paralaxe zizekiana” é o efeito do aparente deslocamento do objeto observado devido à mudança na posição do observador. A exemplo daquela frase de Malcolm Lowry: “Quando se olha diretamente para o abismo, este devolve o olhar”). Resumindo: como “reagimos” à violência e nela interferimos, modificando-a.
Inicialmente, é preciso examinar os curtos-circuitos entre os diversos níveis, digamos, entre poder e violência social. Uma crise econômica que causa devastação é vivenciada como poder incontrolável e quase natural, mas deveria ser vivenciada como violência. O mesmo acontece com a autoridade e a violência: a forma elementar de crítica da ideologia é exatamente desmascarar a autoridade como violência.
Aqui o autor se refere a Hannah Arendt que elaborou (2) uma série de distinções entre “poder”, “vigor”, “força”, “violência” e “autoridade”. “Força” deve ser reservada para as “forças da natureza” ou a “força das circunstâncias”, indicando a energia liberada por movimentos físicos ou sociais. Nunca deve ser intercambiável com o “poder” no estudo da política: a força se refere a movimentos da natureza e outras circunstâncias humanamente incontroláveis, enquanto poder é função das relações humanas.
Nas relações sociais, o poder resulta da capacidade humana de agir em concerto para convencer ou coagir os outros, enquanto “vigor” é a capacidade individual de fazer isso. “Autoridade” é uma “fonte” específica de poder. Representa o poder investido em pessoas em virtude de seus cargos e autoridade quanto a conhecimentos relevantes. Existe autoridade pessoal na relação pais e filhos, professor e aluno, padres ou pastores e comunidade de fiéis. Sua marca é seu reconhecimento inquestionável, não é necessária nem coação nem persuasão para que os outros obedeçam. Portanto, a autoridade não brota simplesmente dos atributos do indivíduo, seu exercício depende da disposição por parte dos outros de atribuir respeito e legitimidade e não da capacidade pessoal (as tais “gestão” & “competência” eternamente invocadas como mantras neoliberais) de alguém de persuadir ou coagir.
Portanto, é fundamental distinguir poder de violência: o poder é psicológico, uma força moral à qual as pessoas obedecem naturalmente, enquanto a violência impõe a obediência por meio da coação física. Os que empregam a violência podem impor temporariamente sua vontade, mas seu comando é sempre tênue, porque quando a violência acaba ou diminui, há ainda menos incentivo para obedecer às autoridades. O controle da violência exige vigilância constante. Violência de menos é ineficaz; violência demais gera revolta. A violência pode destruir o poder antigo, mas não pode criar autoridade que legitima o poder novo.
Logo, a violência é a base mais fraca possível para a construção de um governo. É a arma favorita do impotente: os que não têm muito poder tentam controlar os outros usando a violência. Ela raramente cria poder. O terrorista que explode um prédio ou assassina um político dá ao governo a desculpa que ele deseja para reduzir as liberdades individuais e expandir sua esfera de influência. Quando um governo recorre à violência, é porque sente que seu poder está se esvaindo. Os governos que dominam pela violência são fracos e sem legitimidade.
A proposta do terrorismo político de esquerda na EU nos anos 70/80 (o Baden-Meinhof na Alemanha, as Brigadas Vermelhas na Itália, a Action Directe na França, etc.) resultam duma época em que as massas estão totalmente imersas no torpor ideológico capitalista e a crítica da ideologia já não funciona mais, donde só o recurso ao real nu e cru da violência direta consegue despertá-las.
A “maioria silenciosa” pós-política de hoje não é estúpida, mas cínica e resignada. A limitação da pós-política é bem exemplificada não só pelo sucesso do populismo direitista, cujos expoentes europeus foram, apesar da impopularidade crescente, reeleitos “democraticamente”, a exemplo de Tony Blair (eleito também várias vezes a pessoa mais impopular do Reino Unido), Sarkozy, Berlusconi e outros.
Isto significa que o descontentamento geral não tem como encontrar uma expressão política eficaz. Há algo muito errado aqui: o problema não é que as pessoas “não sabem o que querem”, e sim que esta “resignação cínica” as impede de agir, de modo que o resultado é a estranha lacuna entre o que elas pensam e como agem, isto é, votam.
Portanto, a violência sistemática dos sucessivos, além de fracos e ilegítimos (ou deslegitimados/desmoralizados) governos tucanos em Sampa é o inevitável resultado catastrófico deste voto “cínico e resignado” da maioria silenciosa pós-política paulistana.
É isso aí. Uma pílula amarga de engolir, contudo, também segundo Zizek, “a verdade é violenta”.
(1)Vivendo no fim dos tempos. São Paulo, Boitempo, 2012.
(2)In Hannah Arendt. Rio, Sobre a Violência, Civilização Brasileira, 2009.

Congresso em Foco

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Policiais da UPP agem como toda a PM nas favelas



Policiais da UPP agem como toda a PM nas favelas


Embora não se possa afirmar que todos os policiais das UPP´s estejam envolvidos nos crimes, é inegável que subsistem quadrilhas que aterrorizam os moradores 

Na última quinta-feira (07), em pleno feriado de Corpus Christi, o mecânico Jackson Lessa dos Santos, 20 anos, saiu da obra onde ajudava seu pai, na favela do Fogueteiro (Catumbi), passou na casa da irmã, Jacqueline, para levar o sobrinho à sua casa, onde o esperava a esposa e seus três filhos. Por volta das 15h, dirigia-se para um bar, onde se encontravam várias crianças, para comprar biscoitos, quando foi surpreendido pelo aparecimento de seis policiais militares vindo do Beco da Raia, já atirando.
Jackson foi atingido nas costas e cercado pelos PMs. Segundo diversas testemunhas, implorou para que o deixassem viver, mas os policiais o executaram com diversos tiros no rosto. A violência da execução foi tamanha que um membro da Rede contra a Violência, irmão de Josenildo dos Santos , assassinado por policiais em 2009, localizou pedaços da arcada dentária de Jackson no local da execução, o que indica que seu crânio foi praticamente estraçalhado a tiros.
A irmã de Jackson tentou ainda socorrê-lo, mas foi agredida pelos policiais, que arrastaram o corpo como se fosse um animal, infringindo ainda por cima todas as recomendações de não alteração do local para execução de perícia técnica. O corpo foi colocado numa viatura e levado para o Hospital Sousa Aguiar, embora já fosse evidentemente um cadáver. Esse tipo de ação visa normalmente justificar a remoção do corpo sob pretexto de “socorro” às vítimas, e conta infelizmente com a conivência de funcionários dos hospitais que aceitam dar entrada em cadáveres.
Todas as testemunhas negam que houve troca de tiros e a irmã de Jackson, Jacqueline, e outras testemunhas, afirmaram que os PMs rasgaram o documento do mecânico e ainda colocaram uma arma em suas mãos e efetuaram pelo menos um tiro. Como normalmente faz a PM em favelas para encobrir seus crimes cometidos contra trabalhadores pobres e negros, a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Coroa/Fallet/Fogueteiro divulgou uma nota alegando que houve confronto durante uma operação e que com Jackson foram encontradas armas e drogas. Como os parentes imediatamente procuraram a imprensa e denunciaram a execução, a PM foi obrigada a recolher armas dos policiais para a perícia, mas só o fizeram para dois PMs, enquanto pelo menos seis participaram da ação. Segundo as testemunhas, entre estes PMs está um policial conhecido como “Espinha”, conhecido como matador por atirar imprudentemente nas operações policiais, sem nenhum cuidado pela presença de pessoas, inclusive crianças. Policiais civis só chegaram ao local para realizar uma “perícia” cerca de três horas após o fato.
Parentes e amigos de Jackson, muito revoltados, enterraram seu corpo no sábado 09/06, após sua mãe, Edileide, conseguir liberá-lo no IML. Membros da Rede contra a Violência estiveram presentes e já organizaram o encaminhamento dos parentes e testemunhas ao Ministério Público e à Defensoria Pública para formalizar a denúncia de assassinato.
A brutal execução de Jackson acontece quase exatamente um ano depois do primeiro caso de execução sumária numa favela ocupada por UPP, o assassinato de André de Lima Cardoso Ferreira no Pavão-Pavãozinho em 12/06/2011, caso também acompanhado pela Rede, que levou à denúncia por homicídio de dois PMs (a primeira audiência judicial do processo será no próximo dia 16/07). Desde então, as denúncias de graves abusos cometidos por pinicais das UPPs, inclusive violência sexual contra moradoras das comunidades e roubos. Existem inclusive relatos de outras execuções, não denunciadas porque teriam sido de pessoas realmente ligadas ao tráfico de drogas, feitos por moradores, acusando policiais da mesma UPP do Fogueteiro e da UPP vizinha do Morro da Mineira. A Rede tem denunciado sistematicamente violações no Pavão-Pavãozinho - Cantagalo , e as denúncias são tantas que já estão sendo feitas freqüentemente pela grande imprensa mesmo.
Esses fatos desmentem completamente a alegação oficial, do governo estadual e em especial da Secretaria de Segurança Pública, de que os policiais das UPPs receberam um treinamento diferenciado e que não repetem os métodos brutais e corruptos que sempre caracterizaram a atuação das Polícias Militar e Civil nas favelas e periferias do Rio de Janeiro. Embora não se possa afirmar que todos os policiais das UPPs estejam envolvidos nesses atos e violações, é fato inegável que subsistem violentas quadrilhas que aterrorizam os moradores nos “plantões do terror”, e a situação tende a se agravar com a implantação das UPPs em outras regiões fora do eixo Centro-Zona Sul-Tijuca, onde pelo menos as denúncias são mais fáceis de serem realizadas junto à imprensa, a órgãos do poder público e organizações defensoras dos Direitos Humanos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Quando se acredita que a violência é uma forma de ensinar

Quando se acredita que a violência é uma forma de ensinar


e116 Quando se acredita que a violência é uma forma de ensinarSantiago, Chile, 25/4/2012 – Certo grau de violência contra meninos e meninas é aceito no Chile como uma forma de ensino ou correção de condutas, especialmente por parte dos pais. “A violência está incorporada como uma conduta de educação e de interação dos pais com os filhos”, disse à IPS a psicóloga Soledad Larraín, especialista do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) em casos de maus-tratos infantis.
Os adultos consideram que uma bofetada, uma palmada nas nádegas ou xingar não é maltratar, acrescentou. Três em cada quatro crianças no Chile sofria maus-tratos físicos ou psicológicos, segundo um estudo realizado em 2006 pelo Unicef. Embora estes números possam variar na nova pesquisa prevista para este ano, Larraín alerta que estatísticas como esta, e outras, não são animadoras.
Em 1994, o primeiro estudo desse tipo indicava que 34,3% das crianças chilenas sofriam maus-tratos físicos graves, índice que caiu para 25,9% em 2006, enquanto a violência psicológica aumentou de 14,5% para 21,4% no mesmo período. “Estes números refletem que isto é totalmente tido como natural e não é considerado pelos pais como uma forma de violência”, afirmou Larraín.
Para a especialista do Unicef, “é importante gerar uma mudança cultural na qual não se aprove a violência como uma forma de educação. Os estudos demonstram que os maus-tratos psicológicos provocam dano à saúde mental das crianças, que não é inócuo e nem uma boa forma de educar, e é isso que a sociedade tem que assumir”.
Dados divulgados pela organização não governamental Activa no dia 9 indicam que em 2011 morreram no Chile 12 crianças em razão de diferentes atos de violência, 33% a mais do que no ano anterior. Maus-tratos dentro da família contra os menores, no entanto, cresceram 8,5% em igual comparação. “Embora não sejam muitos os casos no Chile que acabem com morte de menores de idade, é preocupante que haja um aumento significativo”, disse à IPS a diretora da Activa, Gloria Requena.
Requena atribui este aumento ao fato de ainda hoje “a violência contra menores ser aceita no Chile como uma forma válida de ensino quando as crianças não seguem as condutas esperadas”. Ela destaca que a mãe é quem mais usa de violência contra filhos e filhas, porque sobre ela culturalmente recai a responsabilidade de educá-los, acrescentando que os resultados do estudo da Activa mostram a violência física e não as agressões psicológicas, porque só considera as denúncias policiais, e chama a atenção para os menores entre cinco e nove anos que não são capazes de denunciar.
Segundo as duas especialistas ouvidas pela IPS, a violência infantil é transversal aos setores socioeconômicos, mas há diferenças no tipo de maus-tratos aplicados. Larraín aponta que nos setores de menor renda há mais violência física grave, enquanto nos setores de renda maior se evidencia um grau maior de ataques psicológicos, um padrão que se repete também nos casos das mulheres que apanham.
Larraín acrescentou que a conduta dos chilenos e chilenas é muito semelhante ao restante dos latino-americanos. “Lamentavelmente, há poucos estudos para comparar, mas, em geral, na região da América Latina e do Caribe a violência física leve está incorporada como uma pauta legítima para educar e de interação entre os pais e os filhos”, ressaltou.
Um caso real de violência psicológica é o de Alejandra Peña, de 34 anos, que desde os seis sofreu esse tipo de violência por parte de seu pai. O mau tratamento que teve seu período crítico em sua adolescência se estendeu até completar 31 anos, quando decidiu cortar relações com seu agressor. Peña afirmou que a violência contra ela sempre consistiu em “desqualificações e insultos”.
Suas irmãs, hoje com 15 e 11 anos, também foram vítimas de agressões psicológicas e testemunhas durante anos da violência conjugal entre seus pais, que chegava à agressão física. As irmãs de Peña viviam em um clima constante de violência familiar. Seu pai “atirava coisas, não batia nelas, mas as meninas não sabiam se isso viria a acontecer”, contou a mulher. “Elas testemunharam a violência conjugal física e psicológica desde muito pequenas, e também sofreram maus-tratos psicológicos e econômicos”, enfatizou.
Embora Peña tenha conseguido escapar dessa situação, suas irmãs tiveram que continuar suportando-a. “É algo muito forte, causa muita impotência saber que elas estão se expondo a um dano e que nada se pode fazer porque não depende de alguém. Sinto raiva, muita pena e muito medo de que algo grave aconteça com elas”, declarou à IPS.
Para Larraín, uma das principais travas para enfrentar a violência contra as crianças é o tabu de que as coisas que acontecem dentro da família são privadas. “Tem sido muito difícil entrar portas adentro no tema da violência. Em geral, os Estados e os governos são tremendamente cuidadosos em não se meter na intimidade familiar, sem entender que, se os direitos da criança estão sendo violados, as autoridades têm a obrigação de protegê-la”, afirmou.
Por sua vez, Requena denunciou que os grupos vulneráveis no Chile têm “escassa proteção”, contam apenas com um único órgão público voltado à proteção infantil, que é o Serviço Nacional de Menores (Sename), que possui um orçamento muito baixo. Além disso, o Sename tem um contexto legal muito limitado e só intervém “quando há situações denunciadas, isto é, que são de conhecimento público, e quando se trata de crianças infratoras da lei”.
A diretora da Activa recomendou gerar políticas de Estado e não legislar de forma conjuntural pelo impacto público de algum caso. “É indispensável visibilizar o fenômeno da violência, melhorando os sistemas de registro e análises em matéria de violência dentro da família”, ressaltou. Envolverde/IPS
(IPS) 

domingo, 22 de abril de 2012

A dor de uma violência retratada com delicadeza

A dor de uma violência retratada com delicadeza

Por Bia Bonduki


Violência sexual, física ou psicológica é um assunto que pode acabar rapidamente com o humor no ambiente. E para abordar a coisa de forma mais leve, a fotógrafa brasileira Adelaide Ivánova (ela própria uma vítima) criou o projeto “It’s OK to be a boy“.
O nome veio da letra de “What it feels like for a girl”, da Madonna. Esta parte aqui:
Girls can wear jeans (garotas podem usar jeans)
And cut their hair short (e deixar o cabelo curto)
Wear shirts and boots (usar camisas e botas)
‘Cause it’s OK to be a boy (porque é OK ser um garoto)
Ela escolheu a frase porque, no caso das meninas abusadas, a maioria foi “culpada” por estar no lugar errado, por mandar a mensagem errada, enfim, e os homens saíram como se tivessem sido tentados por elas.
A ideia partiu de um trabalho da escola onde estuda fotografia, na Alemanha, e também da experiência pessoal. Cansada de ver os casos de violência sendo tratados com descuido em delegacias do mundo todo, Adelaide decidiu ouvir o outro lado. Foi à caça de meninas dispostas a sair do silêncio e contar suas histórias, além de se deixarem ser fotografadas para o projeto – tudo sob o maior sigilo.
Primeiro, encontrou personagens nos estados brasileiros, mas agora seu desafio é encontrar histórias por toda a Europa – mil vezes mais difícil, uma vez que por lá o assunto quase não é comentado.



O intuito das fotografias é mostrar que a violência pode acontecer com qualquer mulher, não importa a idade, a classe social, raça ou onde estava no momento. As imagens servem para mostrar que, aos trancos e barrancos, é possível superar um trauma.
O projeto ainda não foi concluído. Se você desejar compartilhar sua experiência, escreva paraivanova.ivanova@gmail.com.
Juntas, ganhamos mais força. Tanto para superar traumas, como para dar um basta na violência, seja ela de qualquer categoria. Mas sem jamais perder a ternura.


quinta-feira, 15 de março de 2012

Há muito tempo venho refletindo sobre:Abandonar um filho pode ser a gota d’água em um processo de violência contínuo sofrido pelas mães


Há muito tempo venho refletindo sobre: Abandonar um filho pode ser a gota d’água em um processo de violência contínuo sofrido pelas mães  

Casos recentes de mães que abandonam filhos presos em casa e de recém-nascidos jogados no lixo ou “descartados” nas ruas comovem e até mesmo indignam. É difícil explicar como alguém pode ser capaz de tamanha violência. Afinal, o que leva uma mãe a fazer isso? As possibilidades podem ser várias e culpar apenas a mulher é a forma mais simplista e menos acurada de tratar a questão.

“Em primeiro lugar é bom lembrar que há a questão gravíssima da depressão pós-parto, fenômeno mais comum e mais danoso do que se pensa. E há outros fatores: problemas graves de saúde mental (psicóticos) – muitas mulheres passam a vida inteira sem sequer receber um diagnóstico -, déficit intelectual e um acúmulo de estressores como pobreza extrema, baixa escolaridade, problemas com consumo abusivo de álcool, drogas, viver em comunidades muito violentas”, explica a pesquisadora Lucia Williams, pesquisadora do Laboratório de Análise e Prevenção da Violência da Universidade Federal de São Carlos (Laprev/UFSCar).

“Os casos de maus tratos são sempre ocasionados por um conjunto de fatores, geralmente quando os estressores se acumulam em relação aos recursos que a pessoa tem para enfrentar os problemas. Não há um perfil específico, dada à multiplicidade de possibilidades. 

De qualquer forma, seria imprescindível que a houvesse um monitoramento de mulheres em risco, como as assinaladas acima”, completa a pesquisadora.

Mulher não é monstro, mas alguém que não vê alternativa

“No LAPREV atendemos uma mulher que havia enterrado o feto ainda vivo, numa tentativa de aborto, sendo tal fato descoberto. Ela estava arrasada e ao conhecê-la, via-se que era uma pessoa muito sofrida com uma longa história de vitimização por violência e não o “monstro” que poderia aparecer”, conta Willians.

“Essas mulheres não são monstruosas, mas sofredoras. São o resultado de uma sociedade que não oferece uma alternativa. Elas não são más ou querem abandonar suas crianças – é absurdo sequer imaginar que uma mulher vá engravidar com esse objetivo”, comenta a socióloga Maria José Rosado, da equipe do grupo Católicas pelo Direito de Decidir uma organização não governamental que milita, entre outras bandeiras, pela descriminalização do aborto.

No Brasil o aborto é qualificado como crime contra a vida pelo Código Penal Brasileiro, prevendo detenção de 1 a 10 anos, de acordo com a situação. O artigo 128 do Código Penal dispõe que não se pune o crime de aborto quando não há outro meio para salvar a vida da mãe ou quando a gravidez resulta de estupro.

“Um dado claro é o de que em todos os países onde há leis restritivas de punição ou criminalização este tipo de procedimento nunca diminuiu os números de aborto – seja em quais condições forem, ainda que com risco de morte. Ou seja, o aborto existe e é feito, mas a sociedade e o Estado fingem que não acontece. E quando não há a possibilidade de abortar durante a gestação, as mulheres abortam a criança nascida – jogam na lata do lixo, no saco plástico, abandonam”, diz Rosado.

Em 2008, pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) realizaram um estudo no qual buscaram definir o perfil de quem faz aborto no Brasil. De acordo com os resultados, 70% das mulheres que abortam tem entre 20 e 29 anos, trabalham, são católicas, tem um parceiro estável e pelo menos um filho – muito similar ao perfil da mãe que abandonou o recém-nascido em Praia Grande , no litoral de São Paulo, um caso de grande repercussão ano passado. Seria então a legalização do aborto a resposta para o fim de casos de violência contra as crianças?

“A pessoa e a família continuariam desestruturadas”, acredita o advogado Osmar Golegã, especialista em direito de família e criminal. “O aborto, neste caso, não seria uma solução. Mas resolveria o estigma social de que as pessoas têm que ficar juntas por causa de uma gravidez”, completa.



Para Lucia, com a legalização do aborto seriam discutidas e aprovadas políticas públicas que ofereceriam à mulher outras possibilidades.

Planejamento familiar e diálogo sobre o próprio futuro

Rosado explica também que a legalidade do aborto traria maior tranquilidade ao diálogo e ao planejamento da família. “Todo o ser humano deveria ser trazido à sociedade numa condição de acolhimento. E há casos em que a gravidez não foi planejada e, neste sentido, é indesejada.”

Rosado explica que, em países onde se tem liberdade de discutir a questão, onde há uma lei que permite à mulher dizer se quer ou não levar a gravidez ao fim, ela tem melhores condições de decidir sobre isso.

“Um exemplo foi de uma mulher que tive contato, casada, que já tinha duas filhas adolescentes e engravidou. Todos os médicos disseram que o bebê nasceria com problemas sérios de saúde. Como ela estava em um país onde se permitia o aborto, ela conversou com as filhas, com o marido e pesaram o que para eles deveria acontecer e se decidiu por manter a gravidez. Mas eles só puderam fazer isso com tranqulidade porque havia a possibilidade caso a decisão fosse a de interromper a gravidez”, conta a socióloga.

Aborto familiar

De acordo com a socióloga Maria José, os homens são totalmente desresponsabilizados destes processos. “Quem foram os homens responsáveis por essas gravidezes sobre as quais depois se fez um aborto e as mulheres foram presas?”, questiona.

No exemplo citado anteriormente, o delegado responsável pelo caso, Flavio Magario, disse à imprensa que a razão do abandono da criança na caçamba foi desespero. “Ela alegou que agiu assim porque o susposto pai da criança demonstrou um certo menosprezo pela gravidez. Somado a isso, ela tem mais três crianças que ela supostamente cuida recebendo um salário de apenas R$ 600”, disse na ocasião.

“Eles [os pais] abortaram antes delas. Não queremos a criminalização, mas maior esclarecimento para que eles também se previnam”, afirma Rosado.

Prevenir – com todos os recursos disponíveis – é o melhor contraponto para esse tipo de violência no momento. Para ela, não faltam apenas políticas públicas voltadas para a prevenção de gravidezes indesejadas, mas também educação.

“Falta a exigência de uma educação sexual nas escolas adequada, bem feita por profissionais capazes. Falta uma distribuição massiva nos postos de saúde e o acompanhamento dos métodos contraceptivos. Não basta colocar à disposição, mas ter profissionais que saibam orientar as pessoas e equipes que acompanhem as mulheres e os homens no uso de anticoncepcionais”, diz.

E por quê? A resposta mais branda seria “tabu”. “São jogos de interesse político que fazem com que o governo se curve à exigências de grupos religiosos e, principalmente, das instituições religiosas como, por exemplo, a Igreja Católica (mas não somente ela). Nosso direitos são trocados à cada eleição por votos”.

“Para pensar no aborto temos que pensar na maternidade. Só quando conseguirmos pensar na maternidade enquanto uma escolha e não como resposta a um destino biológico que obrigam todas as mulheres a serem mães a gente vai entender que o aborto é uma solução e não um problema. O problema é a maternidade num momento inadequado”, finaliza.

box saude mental 2 Abandonar um filho pode ser a gota d’água em um processo de violência contínuo sofrido pelas mães
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por Marina Teles


No O que tenho?

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

MORDAÇA: PM é proibida pelo governo de divulgar dados sobre a violência em Minas Gerais

 MORDAÇA:  PM é proibida pelo governo de divulgar dados sobre a violência em Minas Gerais

Para especialistas, população não se sente mais segura sendo enganada


Joelmir Tavares no O Tempo



A cúpula da Polícia Militar proibiu os comandantes das 18 regiões da corporação em Minas de divulgarem à imprensa qualquer estatística que revele os índices de criminalidade no Estado.
Sem tornar públicos os dados da violência desde janeiro de 2011, o governo decidiu que as informações só poderão ser fornecidas desde que "previamente analisadas" pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), que comanda a segurança pública em Minas. Apenas as ocorrências "não classificadas como violentas" poderão chegar ao conhecimento da sociedade, diz a ordem aos comandantes.

As orientações, feitas pelo comando da Polícia Militar num encontro com os líderes dos batalhões, no mês passado, foram reforçadas ontem em um memorando assinado pelo chefe da assessoria de comunicação organizacional da corporação, tenente-coronel Alberto Luiz Alves, endereçado aos chefes das unidades.

A reportagem de O TEMPO teve acesso ao memorando 5008.2/2012 e ao texto publicado ontem na rede interna de comunicação da PM (veja trechos abaixo).

Na mensagem dessa quarta, intitulada "Divulgação de dados estatísticos", o assessor da corporação explica que "as unidades, quando demandadas pelos órgãos de imprensa, poderão fornecer informações sobre as estatísticas afetas às demais modalidades criminosas, não classificadas como violentas, desde que os dados solicitados sejam previamente analisados pelos respectivos comandantes quanto à provável repercussão da divulgação e reflexo na sensação de segurança da população".

O segredo em torno dos números dá força às especulações de que a violência em Minas cresceu acima da média. Em Belo Horizonte, acredita-se que o aumento tenha sido de 20%. Estudo apresentado nesta semana pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) mostrou que os assassinatos de homens entre 15 e 29 anos em Minas subiram 74,7% entre 2001 e 2007.

Especialistas em segurança pública criticam a falta de transparência. O argumento de que a publicação dos dados aumentaria a sensação de insegurança é "ultrapassado e anacrônico", diz o secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Renato Sérgio de Lima. "Não é escondendo as estatísticas que o governo deixará a população mais segura. Esse era um pensamento dos anos 90, completamente equivocado. As pessoas sabem onde os crimes acontecem".

A omissão dos números ainda faz com que, na opinião do pesquisador mineiro Robson Sávio, também membro do FBSP, "cresça a desconfiança da população em relação às corporações".
Outra consequência desastrosa, garante, é o prejuízo ao planejamento de ações de enfrentamento do problema. "Se o governo estivesse declarando os dados com transparência, não haveria nenhum problema na atitude da PM. A questão é que não tomamos conhecimento de mais nenhuma informação". Até 2010, a Fundação João Pinheiro publicava relatórios trimestrais sobre criminalidade com base em dados do governo.

Mortes. O memorando 5008.2, assinado pelo então chefe do Estado Maior da PM, Márcio Martins Sant’Ana, hoje comandante geral da corporação, informava que as estatísticas criminais de 2011 seriam divulgadas em janeiro, o que não ocorreu.
Seds entra em contradição ao comentar texto enviado à PM
A Secretaria de Defesa Social (Seds) afirmou ontem, por meio de nota, discordar da ideia de que "a divulgação dos dados aumenta a sensação de insegurança". No entanto, o memorando enviado nessa quarta-feira pelo assessor de comunicação da PM, tenente-coronel Alberto Luiz Alves, aos comandantes é claro ao afirmar que a "provável repercussão da divulgação" pode
refletir "na sensação de segurança da população".

O órgão também declarou que ainda não divulgou o relatório de 2011 porque "os dados estão sendo compilados".

Sobre a análise que os comandantes devem fazer antes de fornecer dados à imprensa, a Seds explica que se trata de "fazer a contextualização das ocorrências". "Por exemplo: aumento de ocorrências de perturbações de sossego em um bairro pode ser entendido como resultado do acréscimo de bares na região". (JT)

FOTO: DANIEL IGLESIAS - 22.8.2011
Crimes como homicídios estariam sendo ‘escondidos’ da imprensa
"MAQUIAGEM"
Ocorrências são manipuladas
Em vez de homicídio, encontro de cadáver. No lugar de tentativa de homicídio, lesão corporal ou disparo em via pública. É dessa forma, de acordo com entidades de classe e especialistas em segurança pública, que policiais militares estão sendo pressionados a preencher boletins de ocorrência, maquiando os fatos. O objetivo seria baixar os índices de criminalidade no Estado.

A Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) desmente as denúncias. Ontem, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa discutiu as adulterações e aprovou requerimento para que o assunto seja abordado em uma audiência pública conjunta com a Comissão de Segurança Pública.

"Os militares sofrem assédio moral há pelo menos três anos", afirma o coordenador de cidadania e direitos humanos da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares (Aspra-MG), Luiz Gonzaga Ribeiro. Segundo ele, a exigência para falsificar os boletins está criando "uma guerra" entre os níveis de comando da PM. "É a política de resultados a qualquer custo", denuncia.

A Polícia Civil também tem sido coagida a contribuir para o "clima de aparente tranquilidade" no Estado, diz o ex-presidente da Associação dos Delegados de Minas Gerais Francisco Rabelo, 67, que se aposentou em outubro. "Quem dá alguma entrevista que desagrada ao governo é repreendido".

Inconsistência. Além da suposta manipulação dos boletins, a proibição de que unidades da PM divulguem dados sobre crimes violentos, adotada no mês passado, faz Minas retroceder na prestação de contas sobre a criminalidade, na avaliação do secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), Renato Sérgio de Lima.

Estudiosos da área dizem que a melhor maneira de mostrar que há controle sobre a segurança é dando publicidade e veracidade aos números. "Os fatos mostram que a Seds não consegue, de fato, gerenciar e governar o setor", critica o pesquisador Robson Sávio. (JT)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

10 covardes, 10 bandidos: Morador de rua é espancado no Centro de Curitiba

10 covardes, 10 bandidos: Morador de rua é espancado no Centro de Curitiba

morador d e rua ESPANCADO NA PRACA TIRADENTESAgressão aconteceu na madrugada deste sábado. Segundo testemunhas, um grupo de 10 pessoas teria espancado à vítima
Um morador de rua, de 33 anos, ficou gravemente ferido após ser espancado por cerca de dez homens na madrugada deste sábado (4) na esquina das ruas Barão do Cerro Azul e Prefeito João Garcez, na Praça Tiradentes, em Curitiba. Segundo testemunhas, os agressores eram jovens e vestiam-se com correntes e adereços semelhantes aos usados por punks.
De acordo com o jovem que auxiliou a vítima e acionou a polícia, o agredido tinha o supercílio ferido e um corte profundo na mão esquerda. Segundo o jovem, os agressores teriam utilizado uma garrafa para espancar a vítima.
O 12º Batalhão, que atendeu a ocorrência, não conseguiu apurar a motivação do espancamento. Segundo o Cabo Roberto,a vítima tem aparência franzina e ficou bastante ferido após a agressão. "A gente não tem o o motivo. Parece uma pessoa humilde, um morador de rua. Ficou muito ferido na cabeça e tem um corte profundo na mão", disse à reportagem da Rádio Banda B. A vítima foi encaminhada ao Hospital Evangélico.
Fonte: Bem Paraná