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terça-feira, 1 de maio de 2012

Meninas gostam de rosa, meninos gostam de azul. Até quando?

Foto: Shutterstock

Meninas gostam de rosa, meninos gostam de azul. Até quando?

Patricia Fincatti


Ter um filho é se questionar constantemente sobre tudo – já que você botou uma pessoa a mais nesse mundo (e espera que essa pessoa seja gente boa, honesta, trabalhadora, limpinha etc., ao invés de um ogro), começa a se perguntar do porquê de várias coisas que sempre existiram, mas que nunca te incomodaram. Esse negócio de “coisa de menino e coisa de menina” é a minha rusga mais recente da série “não ligava (ao menos, não muito) e agora ligo”. Explico.
Eu tenho uma filha, que no começo do ano fez dois anos e foi para o maternal na escolinha. Isso implicava comprar o uniforme da escola (bênção divina para o bolso dos pais, que agora não têm de comprar uma tonelada de roupa), uma mochila daquelas de rodinhas e uma lancheira. “Ok”, pensei. “Escolho uma bonitinha que não seja tão grande, e boa”. Quem me dera fosse tão simples.
Olho as vitrines. Entro numa loja. Primeira pergunta da vendedora: “menino ou menina?” Digo que é menina e sou bombardeada por modelos que são basicamente um vômito de glitter, babados, frufrus, corações, flores, princesas, bonecas… E rosa. Muito rosa. Parece que todo senso comum sobre o que uma menina acharia bonito foi mastigado e lançado nessas mochilas.
Aí, depois de me recuperar do excesso de açúcar daquela seção, vou ver a dos meninos: parece feita sob medida para aquele futuro lutadorzinho de jiu-jitsu que toda mãe de menino tem em casa. Tudo muito agressivo, remetendo à ação! Heróis! Velocidade! Caveiras (hã?)! Não há meio-termo — e parece que a palavra “unissex” não foi inventada. Ou você é uma menina, e gosta de princesas e bonequinhas que têm uma expressão que parece resultado de uma overdose de antidepressivos, ou é um menino, e isso significa que adora a cor preta (acho que azul já é out) e de sair dando chutes em monstros (na falta deles, os coleguinhas servem). Ah, não vamos esquecer dos times de futebol também.
Estou falando de mochilas (e ainda por cima atrasadíssima, porque o ano escolar começou faz tempo), mas o artigo poderia ser qualquer outro de consumo infantil: roupas, brinquedos, material escolar, coisas para bebês, etc. E todo consumo implica em uma opção explícita, que diferencie os gêneros: “menina(o)? Então toma, é disso aqui que você tem de gostar, já pensamos em tudo para você”.
Mesmo com pouca idade, a menininha abaixo já percebeu tudo isso e ficou revoltada. Com razão. É tudo extremamente compartimentalizado – meninos não encostam nas coisas de menina (vai que essa cara de “tomei muito Prozac” pega!), e meninas estão confinadas à seção do vômito rosa (vai que encostar na bancadinha de ferramentas faz a mão cair, sei lá).
Uma amiga minha, que tem um filho mais ou menos da idade da minha filha, disse que ele gosta de brincar de algumas coisas “de menina”, como cozinhar e limpar a casa, mas que nunca compra brinquedos desse tipo porque o pai do menino acha “estranho” brincar com essas coisas.
Aí eu penso: por quê? Onde é que está o problema exatamente? Por que a identidade de gênero na infância (pensando na dimensão do consumo, que é cada vez mais comum e mais estimulado nessa fase) tem de ser construída de forma tão rígida, com possibilidades tão limitadas de transitar entre ser menino e ser menina? É medo de quê? De criar uma geração de meninas “machas” que gosta de brincar com carrinho e de ser o herói que dá porrada em todo mundo? Ou de criar uns meninos “moles” que gostam de flores e de histórias de amor? E outra: se isso acontecer, qual é o problema?
Eu, com a minha inteligência limitada, não consigo pensar em outro motivo ulterior para essa coisa toda que não seja um preconceito agudo contra a homossexualidade. Vamos opor meninas e meninos em termos dos gostos e brincadeiras de cada um para ninguém cruzar para “o lado de lá”. Não sou acadêmica da área, posso estar chovendo no molhado e tal. Esse é só o meu palpite, e eu tenho mais perguntas do que respostas. Se você tiver um diferente, por favor, me esclareça.
Aí também tem outro aspecto, em que entram os muitos questionamentos que todo pai e mãe se faz: o quanto eu contribuo para isso? Sim, porque sou eu que compro as coisas para a minha filha (ela felizmente ainda não tem cartão de débito, essa praga moderna).
Na Suécia, a tendência agora é discutir as diferenças de gênero de forma a eliminá-las. Está ocorrendo uma tentativa de levar a igualdade entre sexos ao extremo, passando por um debate político e também linguístico (com o uso do pronome pessoal “hen”, que não se refere especificamente ao gênero masculino ou feminino), até chegar à regulamentação das esferas mais mundanas da vida cotidiana, como o veto a brinquedos que sejam muito estereotípicos.
A revista Slate traz um artigo interessante sobre isso, e ouviu os argumentos de quem é a favor e contra. Políticos do partido social-democrata acreditam que o papel das pré-escolas seja “combater os padrões de gênero tradicionais, e dar a meninas e meninos as mesmas oportunidades para testar e desenvolver habilidades e interesses sem serem limitados por papéis estereotípicos de gênero.” Por outro lado, Elise Claeson, ex-especialista em igualdade de gêneros da Confederação Sueca de Profissões, argumenta que todo esse movimento pode confundir as crianças numa época de descoberta e formação da identidade, dizendo que “adultos não deveriam interromper nas crianças o processo de descoberta de seu gênero e sua sexualidade.”
Em outros países existem alguns casos de pais e mães que escolhem criar seus filhos sendo “genderless”, ou seja, sem atribuir a eles uma identidade feminina ou masculina – o próprio Jezebel americanonoticiou isso há algum tempo. Leio essas coisas e fico pensando “imagina o trampo que deve dar não comprar coisas que sejam estritamente de menino ou de menina.”
Isso porque, como eu disse, o consumo é direcionado ainda no útero (as vendedoras de lojas de coisas para bebê nem te dão bom dia, já saem perguntando qual é o sexo do alienzinho crescendo na sua barriga). E, como minha filha é menina, está consumindo coisas para menina o tempo todo, seja em casa, na escola ou com os avós e tios. Sair da “lista de compras” para menina é extremamente difícil, e ela vem com algumas preferências (formadas não sei onde, mas não são todas em casa) que se conformam ao ser menina.
A pedagoga e psicóloga espanhola Montserrat Moreno escreve em seu livro Como se ensina a ser menina – O sexismo na escola, que “nas brincadeiras livres é que se exercitam espontaneamente os modelos aprendidos de conduta, é aí que aparece a fantasia com a qual cada indivíduo se identifica. Mas, curiosamente, é nesses momentos de ‘liberdade’ que cada indivíduo se encontra mais intensamente limitado pelas normas estabelecidas, como se tivesse ‘plena liberdade’ para identificar-se com os arquétipos que estão destinados a ele em função de seu sexo, mas não para transgredi-los.” Ou seja,mesmo quando o consumo não está diretamente
envolvido, as “amarras” de gênero estão presentes, como fios invisíveis que guiam as brincadeiras de meninos e meninas. Olhando assim, parece uma luta perdida tentar criar uma criança livre (ou um pouco mais livre, ao menos) desses estereótipos.
Voltando à questão do consumo: não estou me eximindo da “culpa” de estar criando uma fiel súdita das princesas – mesmo não comprando nada do tipo por opção, isso acaba entrando na minha casa. Tenho plena consciência de que, se tenho uma menina, sou direcionada a comprar A, B e C e a me afastar de X, Y e Z. Quando compro algo de que deveria me afastar, sinto um arrepio de transgressão e uma autossatisfação inútil e vazia, do tipo “olha como eu sou moderna”. Não sou, estou rezando pela cartilha. Então qual é o meu papel, assim como o de pais e mães que não querem criar meninas que vão ficar suspirando por príncipes ou meninos que vão virar delinquentes juvenis?
A cantora de ópera Jessye Norman, famosa pela interpretação da personagem principal de Aida, em que a protagonista escolhe no final ser enterrada viva com seu amado, Radamès, que havia sido condenado à morte, disse numa entrevista que gostaria mesmo é de interpretar uma Aida que virasse e dissesse algo mais ou menos assim (li isso há muito tempo, as palavras não eram exatamente essas): “então, Radamès, estou aqui tendo de escolher entre você e a minha vida… E vou escolher minha vida, sabe, porque você não é o único homem do mundo.” Acho que é isso que temos de fazer com nossas meninas. Refletir, questionar, criar outras narrativas e alternativas ao que querem ou esperam que elas sejam. Exercitar a escolha sempre que possível, mesmo quando escolhem por nós e por elas.

No Jezebel

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Criança, consumo e sexismo – meus tostões sobre o Dia da Criança




Criança, consumo e sexismo – meus tostões sobre o Dia da Criança

Se ainda não aconteceu com você nesta semana vai acontecer, fatalmente: você ligará a televisão ou abrirá/acessará algum jornal ou portal de notícias e encontrará ao menos uma reportagem comentando a movimentação das compras para o Dia da Criança, as expectativas dos comerciantes traduzidas em porcentagens de lucros e projeções de vendas, encontrará também matérias especiais indicando presentes para os pequenos. A data é mais um daqueles imperativos comerciais aos quais a sociedade tem dificuldade em resistir, daí a alocação de espaço em veículos de informação e de recursos nos bolsos das famílias. Aqui em casa neste ano foi mais ou menos diferente: não planejamos qualquer compra de presente especial para a criança pequena da casa, mas ela foi contemplada pelas tias e pela avó materna. Nossa justificativa é a mesma usada em outros dias comemorativos ao longo do ano: existe um ano todo para ganhar presente, homenagem, atenção, e é bom que procuremos escapar de surtos consumistas, incluindo aqueles específicos sazonais; para a criança é importante também o aprendizado de que deve haver limites para consumo e de que essa atividade deve ser passível de crítica.
Essa aprendizagem não é muito fácil. Existe uma pressão social para que o consumo ocorra (imagine a criança de classe média chegar e comentar que não ganhou presente no Dia da Criança, qual é a reação que devemos esperar da maior parte das pessoas? Ainda que a criança seja presenteada em outras ocasiões…), existe uma pressão do mercado e da mídia. As propagandas no estilo “não esqueça a minha Caloi”“eu tenho, você não te-em” e “peça para o papai…” desapareceram mas foram substituídas por um esforço contínuo e intenso em expor, repetir e reforçar a propaganda. Dez minutos em um canal ou em um horário de programação televisiva voltados às crianças devem servir para ilustrar o que afirmo; uma conversa rápida com famílias com crianças também
Afinal, qual é o problema com esse negócio de Dia da Criança? Eu diria que não é só a data comemorativa em si, mas o conceito de associar um dia específico a um tipo específico de consumo. Por exemplo, ainda que as livrarias anunciem também produtos para as crianças com mais ênfase na data o presente em geral é brinquedo. Por vários motivos: a falta do hábito de leitura como lazer e fora do ambiente escolar, a pouca intimidade com os livros, a dissociação entre livro e brinquedo. Prefiro não apontar com certeza o preço dos livros infantis como motivo para que eles não sejam presentes tão populares porque levo em consideração o que muitas famílias concordam em pagar por brinquedos – li hoje uma reportagem num jornal local na cidade onde passei o final de semana e ali se afirmava que os pais entrevistados assumiram que gastariam entre 50 e 100 reais com o presente. Ora, esse valor é bem suficiente para comprar alguns livrinhos. Ou jogos pedagógicos. Ou DVDs. Não posso responder por todo mundo, claro, mas eu acho que apesar de haver brinquedos que podem ficar marcados na memória da criança um livro, um quebra-cabeça ou um DVD duram mais – acho mais fácil enjoar de um brinquedo (sobretudo eletrônico, em que a brincadeira não precisa necessariamente ser inventada) do que de um livro, que pode ser relido mais vezes, com o mesmo encanto, o mesmo interesse (eu releio periodicamente alguns dos meus livros e fico feliz em reviver situações e experimentar sentimentos familiares, mas também sempre repenso alguma coisa) e novos encantos.
Outra questão importante tem a ver com o direcionamento dos brinquedos para o gênero: aponta-se tanto a modernidade do mundo e da sociedade, a derrubada de fronteiras, de tabus, mas ainda existem nas lojas de brinquedos prateleiras de menino e de menina; os vendedores ainda nos abordam e nos perguntam “é pra que idade? É pra menino ou é pra menina?”. Ainda encontramos produtos de aparência “feminina” e “masculina” e aludindo a qualidades específicas de cada gênero – delicadas florzinhas enfeitando conjuntos de panelinhas cor-de-rosa e bonecos parrudos em tons escuros, com chamas adesivadas, passando uma imagem de vigor, virilidade, força. “Ah, mas você pode dar mesmo assim um conjunto de panelinhas pro seu filho, você pode dar um playmobil de piratas pra sua sobrinha”, e é verdade (sim, eu já fiz isso das panelinhas, e não esqueci um post muito preciso da Mari Biddle a respeito da diferença entre um playmobil de menino e de menina). Pra mim não faz diferença a cor, de fato, mas por que continuar investido obrigatoriedade nos estereótipos de gênero tão arraigados? Meninas também são aventureiras e fortes, meninos também são meigos e contemplativos, a menos que haja o estímulo contínuo para que adotem apenas o comportamento esperado pelo senso comum. Da minha parte acho bobagem suprimir atitudes e sentimentos naturais de uma criança em nome de uma convenção social que em geral é sexista e injusta, porque impõe limites que para serem superados demandam um esforço besta – a menina vai crescer e vai precisar provar que não há problema algum em não ser meiga, delicada, voltada à vida doméstica e o homem crescido vai se ver frente ao velho dilema de “homem não chora” (sim, são exemplos bobinhos, porque bobinha é a insistência em reforçar estereótipos, amarras).
O Dia da Criança é depois de amanhã. As compras podem estar em cima da hora, mas dá tempo sempre de parar para pensar um pouquinho em todas as questões suscitadas por datas comemorativas de fundo comercial e por esta data em especial. Antes de mais nada questione se é fundamental ceder ao apelo consumista e quais os custos financeiros, sociais, psicológicos que estão envolvidos em burlar a data ou aderir a ela:  a criança que você presenteia tende a compreender melhor a ausência, devidamente justificada e quem sabe negociada, de um presente dia 12 de outubro? Você se sentiria melhor comprando o presente ou deixando de fazê-lo? Qual é o custo dos presentes dados nesta data e ao longo do ano (vamos lembrar que assim que a campanha do Dia da Criança virar a esquina o Natal vai começar a nos soterrar nas prateleiras e corredores)? Reflita também a respeito da prevalência do brinquedo tradicional como presente – nossas crianças estão chegando a um ponto de ganhar dois ou três brinquedos repetidos no aniversário e acho que todo mundo já se viu coçando a cabeça em frente a uma pilha de brinquedos na loja, com dificuldades para escolher algo que aquele aniversariante ainda não tenha. Um passeio pode ser tão ou muito mais interessante do que mais um carrinho, e presentear com momentos e não produtos é fundamental para o desenvolvimento de sentimentos, sensibilidades e atitudes que os brinquedos podem não alcançar – então pense se não vale a pena ignorar aquele anúncio ridículo da rede de lojas que quer te ensinar que “criança gosta é de brinquedo”. Por fim sugiro que você leve consigo a reflexão importante a respeito do peso dos brinquedos para o desenvolvimento e o estímulo do sexismo desde a primeira infância (já falei sobre esse assunto em um texto lá no Blogueiras Feministas há algum tempo).
Criança gosta de atenção, de estímulo, de desafio, de gentileza, de novidade, de amor. Pense em como você pode oferecer isso e tenha um ótimo Dia da Criança!