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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Mulheres: “Cada direito é fruto de uma luta”

Mulheres: “Cada direito é fruto de uma luta”

Primeira turma do Projeto de Promotoras Legais Populares em Curitiba capacita 60 mulheres no combate à violência

Camilla Hoshino - Brasil de Fato
de Curitiba (PR)
Cerimônia de formatura das Promotoras Legais Populares - Foto: Joka Madruga
No dia 15 de dezembro de 2012, 60 mulheres do meio popular, de universidades, de movimentos sociais e organizações sindicais concluíram o primeiro curso do Projeto de Promotoras Legais Populares (PLPs), realizado na cidade de Curitiba (PR). Batizada com o nome de Maria Amélia Teles, em homenagem à militante feminista que lutou contra a ditadura militar no Brasil e que está à frente do projeto das PLPs desde seu início, a primeira turma celebrou a formatura com discursos, homenagens, poemas e palavras de ordem.
“Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”, gritavam as mulheres presentes no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR). As palavras simbólicas tinham o intuito de reafirmar um dos principais papeis das mulheres feministas: lutar por igualdade. 
Foram cinco meses de curso, 20 encontros, totalizando 40 horas de estudos. Mais de 10 organizações apoiaram o projeto, entre sindicatos, órgãos públicos e entidades da sociedade civil. O curso capacitou mulheres debatendo temas como gênero, sexualidade, Lei Maria da Penha, mídia, violência, saúde e poder. Todos eles a partir de uma perspectiva da educação popular feminista. Com a colaboração de aproximadamente 30 facilitadoras, 60 histórias de vida se uniram para combater o machismo e a violência.   
Segundo o Mapa da Violência 2012, publicado no mês de abril pelo Instituto Sangari, 4,4 mulheres morreram em homicídios a cada 100 mil habitantes, o que deixa o Brasil entre os sete países do mundo com maior taxa de homicídios femininos, ficando atrás apenas de El Salvador,Trinidad e Tobago, Guatemala, Rússia, Colômbia e Belize. Dentro do país, um dos piores números se encontra no Paraná. Com 6,3 homicídios a cada 100 mil mulheres, o estado está em 3º no ranking nacional.
Paula Cozero, coordenadora do projeto em Curitiba, trouxe essas informações durante a cerimônia de formatura, mas deixou claro que o objetivo de dar visibilidade à situação não é vitimizar as mulheres, mas colocá-las como protagonistas das lutas sociais. “Cada direito é fruto de uma luta”, relembrou a advogada e mestranda da UFPR. E é a luta por direitos sociais, econômicos e políticos para as mulheres que as Promotoras Legais Populares iniciam no momento da sua formatura.
Colocando-se como resposta a uma realidade de violência, a formação de Promotoras Legais Populares representa uma tentativa de descentralizar as forças que atuam na defesa e no cumprimento do direito. O principal objetivo do curso é empoderar as mulheres para que reconheçam as situações de violência, os seus direitos e ferramentas legais de acesso à cidadania e combate à discriminação e violência de gênero. Além de ressaltar a intenção do projeto, Paula também deu ênfase à importância de trazer para o meio popular um debate que permaneceu enclausurado durante muito tempo na academia.
Primeira turma do curso em Curitiba capacitou 60 mulheres - Foto: Joka Madruga
Ocupar, Resistir e Construir
Para a formatura das PLPs, o 3º andar do prédio histórico da UFPR foi decorado com um varal contendo a foto de cada uma das integrantes da turma Maria Amélia Teles. O rosto de 60 mulheres contrastou com os inúmeros retratos de homens juristas distribuídos pelos corredores da faculdade. No mês em que a UFPR comemora seu centenário, celebrar a capacitação de dezenas de mulheres em torno da luta feminista representa um marco e também um convite a uma transição mais profunda desse cenário acadêmico destoante. Essa é a opinião da integrante da Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras-SP, Magali Mendes, convidada pelas coordenadoras do curso para a formatura das PLPs em Curitiba.
Durante a cerimônia, Magali criticou, fazendo alusão às bandeiras dos movimentos sociais presentes no salão nobre no momento da cerimônia, os espaços centralizadores de poder da sociedade. “É preciso ocupar, resistir e construir dentro de espaços como a universidade pública, dominada historicamente por homens, brancos, pertencentes a uma elite”, disse.
No Brasil, a realidade dentro das universidades públicas faz parte de um palco político mais amplo, em que a mulher se encontra sub-representada, apesar de ser maioria da população. Atualmente, as mulheres não chegam a 20% nos cargos de maior nível hierárquico no parlamento, nos governos municipais e estaduais, nas secretarias do primeiro escalão do poder executivo, no judiciário, nos sindicatos e nem nas reitorias.
Em 2010, nas eleições gerais, as mulheres ficaram com 12,9% das cadeiras nas Assembleias Legislativas, com 8,5% das vagas na Câmara dos Deputados, com 9,8% no Senado e 7,4% nas câmaras municipais. Mas o fenômeno não é apenas nacional. No mundo, apenas 35 países (19%) contam com mulheres no Parlamento, enquanto que outras 152 nações (81%) não têm sequer uma mulher em seus Parlamentos, de acordo com a União Interparlamentar (IPU).
Os dados do Relatório 2009/2010 do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero ainda mostram que, no setor privado, num total de 89.075 empresas as mulheres ocupavam apenas 21,4%dos cargos de chefia.
Magali Mendes, Promotora Legal Popular desde 1994, ano em que se formou no 1º curso realizado em São Paulo, explica a urgência do projeto que vem sendo construído e multiplicado pelo país. “O Brasil é um país continental, onde a pobreza é feminina, tendo cara, cor e sexo. A intenção dos cursos é capacitar cada vez mais mulheres para que percebam que a as leis podem e devem estar a nosso serviço”, diz. 
Histórico
A história das Promotoras Legais Populares teve início na América Latina por meio da organização Flora Tristan, localizada no Peru. Em 1992, O Comitê Latino Americano e Caribenho em Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem), trouxe para o Brasil seminários a fim de discutir a implementação do curso no país. O desenvolvimento do projeto foi viabilizado com a contribuição inicial da União de Mulheres de São Paulo e do Grupo Themis, organização de direitos humanos atuante em assessoria jurídica, do Rio Grande do Sul.
A primeira experiência desenvolvida no Brasil aconteceu em 1992, em Porto Alegre (RS), e em 1994 o projeto foi levado para São Paulo. Além de estar presente em diversos estados como Rio de Janeiro, Pernambuco e mais recentemente no Paraná, em Curitiba e Londrina, o Projeto de Promotoras Legais Populares também é uma prática em outros países da América Latina, como Chile e Argentina. 
Assim como nos outros locais, a partir da formatura, a luta das Promotoras Legais Populares se torna permanente, buscando superar as situações de discriminação e desigualdade identificadas no cotidiano. “Tornar-se uma Promotora Legal Popular é assumir a responsabilidade de lutar constantemente pela justiça, pela igualdade das mulheres e pela transformação da sociedade, é assumir uma responsabilidade com as mulheres que estão lá fora”, enfatiza Magali, que terminou sua fala na formatura criticando a forma como a sociedade desqualifica o feminismo e o papel das mulheres na promoção e exercício da cidadania. 
Multiplicando a luta 
Turma foi batizada de Maria Amélia Teles, em homenagem à militante feminista
Foto: Joka Madruga
Para que o conhecimento construído durante o curso possa ser compartilhado no dia a dia do trabalho, das lutas sociais ou das organizações das quais fazem parte, o primeiro passo é o despertar da própria consciência das mulheres que integram o projeto e do reconhecimento como Promotora Legal Popular. Oengredi Mendes Maio dos Santos, assistente social, procurou o curso para que servisse de suporte e subsídio ao seu trabalho com catadoras de papel, na maioria mulheres que sofrem violência domiciliar. “Uma surpresa grande foi compreender porque eu estava naquele curso enquanto mulher. Além dos motivos que já tinha para o trabalho, em acreditar em uma sociedade diferente, foi importante para transformar a minha própria vida”, confessa.
Assim como Oengredi, a colega de turma Olga Ferreira de Souza Silva, cabeleireira e moradora da região metropolitana de Curitiba, deseja contribuir para que todas as mulheres avancem. “Agora estamos muito mais preparadas para instruir outras mulheres, pois conhecemos os direitos, os serviços e as políticas públicas a nosso favor”. Para Olga, uma das lideranças comunitárias de sua região, se tornar uma Promotora Legal Popular significa “contribuir para que outras mulheres possam sair do casulo e ser livres”, já que 6 em cada 10 brasileiros conhecem alguma mulher que já sofreu violência doméstica.
A Central de Atendimento à Mulher, por meio do Ligue 180, mostra a dimensão da violência doméstica sofrida pelas brasileiras. Em apuração realizada no primeiro semestre de 2012 pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), contatou-se que quase 60% dos relatos recebidos eram de violência diária contra a mulher, totalizando 19.171 casos. A violência semanal marca 21% dos registros, um total de 6.856 denúncias. 
 “O Direito tem sido um instrumento que estrutura e mantém um sistema injusto, desigual. As PLPs fazem uma enorme diferença quando buscam construir um Direito, com uma abordagem feminista, transformadora, que defenda todos os setores explorados da sociedade [...] Lembremos neste momento que a cada 24 segundos uma mulher é espancada e que a cada duas horas uma mulher é assassinada pela violência sexista, no Brasil”, relata Maria Amélia Teles, em sua mensagem encaminha às PLPs, especialmente para o momento da formatura.
Grata pela homenagem feita pela turma, que carrega seu nome no início de uma construção histórica em Curitiba, Amelinha, como assina em sua mensagem, termina sua carta fazendo um apelo às Promotoras Legais Populares do Paraná: “Espero que em Curitiba também seja realizado o movimento do abraço solidário ás vitimas de violência de gênero como forma de cobrar das autoridades e do poder público, as políticas públicas eficientes para enfrentar a violência. Só para informar em São Paulo, já realizamos o 3º Abraço Solidário. Amigas, obrigada por tudo. Sucesso na vida e sejam, onde estiverem, uma promotora legal popular [...] Beijos, Amelinha”.
Organizado apenas por mulheres e para mulheres, os cursos se tornaram um espaço importante para que as Promotoras Legais Populares se construam e se fortaleçam coletivamente. “Além de mais fortes, juntas, nós nos libertamos”, encerrou a oradora da turma, Lucilene Aparecida Soares, após a entrega dos diplomas.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Temos de tomar partido na luta contra o racismo

Temos de tomar partido na luta contra o racismo
Georg KreisGeorg Kreis está se retirando do cargo de presidente da Comissão Federal contra o Racismo (EKR) após 16 anos de atuação.
Em entrevista à swissinfo.ch, o historiador suíço declara que o ambiente na Suíça se tornou mais "pesado" e que o tratamento "duro" em relação aos outros é visto até como "qualidade".
swissinfo.ch: Durante 16 anos o senhor presidiu a Comissão Federal contra o Racismo (EKR). Qual foi seu maior sucesso na luta compra o racismo?
Georg Kreis: Nosso maior sucesso foi e continua sendo o fato das pessoas levarem mais a sério o problema do racismo desde 1996. Essa seriedade manifesta-se, em parte, de uma forma incorreta, mesmo que apenas de um ponto de vista superficial: o que posso dizer ou até que ponto posso ir sem ser condenado? Ao invés disso, deveríamos nos orientar para saber o que é positivo para a convivência das pessoas e o que podemos impingir a nossos concidadãos ou não.
swissinfo.ch: A observação do ambiente político no país faz parte das funções da EKR. Em que pé está a opinião pública em relação à população estrangeira?
G.K.: O clima em relação aos estrangeiros, aos "outros", se tornou claramente pior. Essa justaposição do "eu e os outros" ou "nós e os outros" se tornou mais pontual. Fica muito claro que a desvalorização dos outros se dá para a valorização pessoal.
swissinfo.ch: Por que o clima se tornou mais "duro"?
G.K.: Sou muito cético em relação a quaisquer explicações. Falamos de globalização, do aumento da migração ou do futuro incerto. Todas essas explicações me incomodam, pois elas sempre têm ao mesmo tempo um componente de justificação.
Na verdade, a primeira coisa que devemos esclarecer é porque o nacionalismo cresceu dessa maneira. Pois a desvalorização do suposto "outro" tem alguma coisa a ver com o tribalismo arcaico, que festeja as origens, em que as pessoas se orientam até as profundezas na classe média burguesa.
swissinfo.ch: Os casos registrados de racismo, sobretudo racismo contra pessoas de pele escura e de fé muçulmana, aumentaram segundo o último relatório da EKR. O que o senhor fez de errado?
G.K.: Eu não descartaria aqui ter cometido alguns erros. Mas o trabalho dos órgãos de prevenção até os de repressão não podem ser medidos através desses números. Não podemos saber quantos casos haveria se nós não existíssemos.
Além disso, o racismo na área privada não é registrado. Nas discriminações racistas, como por exemplo, na procura de postos de formação profissional, trabalho ou de moradia, há um grande número de casos não registrados.
swissinfo.ch: O senhor vê alguma conexão entre o clima político e o comportamento racista na população?
G.K.: Seguramente existem conexões. No nosso convívio, a ênfase do eu e o tratamento duro que se dá ao outro se tornou mais aceitável na sociedade. Esse comportamento chega até mesmo a se tornar uma qualidade.
Esse desenvolvimento é parte de uma concorrência neoliberal: os mais fortes sobrevivem, não há perdão. E tudo isso é combinado com a chamada liberdade de expressão.
A minha maior preocupação é a opinião pseudodemocrática, que se tornou mais forte nos últimos tempos, de que o racismo é apenas uma questão de opinião. Seguramente é difícil fazer uma separação nas áreas limítrofes, mas quando analisamos toda a problemática no contexto da avaliação pessoal, então considero isso censurável.
Não devemos trabalhar as pessoas em seu interior. O desejável seria que as pessoas não fossem antissemitas ou considerassem os ciganos seres inferiores. Porém o mais importante é que esses pensamentos não sejam manifestados publicamente.
swissinfo.ch: Então existem limites para a liberdade de expressão?
G.K.: Absolutamente! A maioria das pessoas acaba descobrindo que a liberdade de expressão, como sentimento mais arraigado da consciência suíça, tem seus limites na difamação individual.
O que parece difícil de perceber é que as difamações coletivas têm o mesmo efeito, pois elas têm consequências individuais para aqueles que pertencem a determinados grupos. Quando dizemos que os africanos são preguiçosos e que também não têm ética do trabalho, isso pode ter consequências negativas para os membros desse grupo.
swissinfo.ch: O Partido do Povo Suíço (SVP, na sigla em alemão, partido majoritário no país), com seus cartazes de plebiscitos ofensivos a estrangeiros como, por exemplo, contra muçulmanos, seriam corresponsáveis por um clima xenófobo no país?
G.K.: Naturalmente ele é corresponsável, mas por isso é que não devemos responsabilizá-lo por tudo. Responsáveis são sempre os indivíduos. Eu não posso dizer que fui encorajado pelos cartazes do SVP, mas é óbvio que o estímulo geral lançado por eles vai nessa direção, mesmo se os cartazes em si não estejam infringindo as leis contra o racismo.
Georg Kreis (Keystone)
swissinfo.ch: O senhor defende um engajamento mais forte dos cidadãos nas situações em que pessoas estão sendo discriminadas ou tratadas de forma racista. A nossa sociedade estaria pouco sensibilizada na área do racismo? A Comissão conseguiu sensibilizar muito pouco a sociedade civil para essa questão?
G.K.: Seguramente, mas o que significa sensibilizar? Eu estaria satisfeito se a conclusão for de que não somos responsáveis por isso. A Comissão tem o dever de indicar, alertar, mas não chega a ser finalmente uma comissão para educar as pessoas.
Não temos nenhuma necessidade de onipotência e não quereremos ser responsáveis por tudo. Por isso desejamos que a sociedade civil assuma suas responsabilidades. Temos no país um número suficiente de ONGs que fazem um bom trabalho com o mínimo de recursos que dispõem. Desejo um apoio individual maior a essas organizações.
swissinfo.ch: A Comissão perdeu nos últimos anos aceitação, especialmente aos olhos do SVP, para quem o senhor é uma figura polêmica, também devido às suas posições e parcialidade. A Comissão não deveria ser mais imparcial?
G.K.: Não, nós precisamos ser parciais. A questão é apenas saber do lado de quem. Temos de ser parciais na luta contra o racismo, em prol dos direitos humanos. Aqui não se tratar de fazer política de partidos.
Isso não impede, porém, que nossas posições também atinjam políticas partidárias, mas não significa que estejamos procurando isso ou que esse seja nosso objetivo. Pelo contrário: nós o evitamos. Na nossa última campanha – 'Jogo limpo na campanha eleitoral' – deliberadamente não citamos nenhum partido. Mas a mídia já foi logo dizendo: "Sejam então diretos que vocês estão falando do SVP."
Eu parto do princípio que o SVP, e outros partidos que não podemos simplesmente indicar com três letras, podem comviver muito bem com a nossa existência, pois somos a figura ideal do inimigo. De dia somos combatidos e, à noite, eles rezam para que nós continuemos a existir.
Gaby Ochsenbein, swissinfo.ch
Adaptação: Alexander Thoele