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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

29 coisas que nós mulheres evitamos fazer porque tememos por nossa segurança


29 coisas que nós mulheres evitamos fazer porque tememos por nossa segurança

 Estas são algumas das maneiras comuns das mulheres alterarem sua rotina todos os dias. Isso mesmo, é desgastante.


Uma amiga relatou, recentemente, que um colega de trabalho sugeriu que ela experimentasse sair para uma corrida depois do trabalho. A ponte de Manhattan, disse ele, fica praticamente vazia tarde da noite. A vista é linda. E além disso, é mais fresco depois que o sol se põe - horário perfeito para uma corrida antes de dormir. Ela deveria experimentar.
Sem chances, ela respondeu. Não dá nem para considerar. Não posso correr sozinha à noite. Principalmente na ponte. Eu posso ser atacada. Posso ser estuprada. Tantas coisas podem acontecer. Coisas que os homens nem precisam considerar.
Porque por mais que o feminismo tenha auxiliado as mulheres a conquistar igualdade com os homens no local de trabalho e em casa, ainda existem muitas formas sutis, mas muito reais, de se exigir que as mulheres policiem e monitorem a si mesmas. A esfera pública ainda é um lugar temível e assustador para a circulação de mulheres - principalmente sozinhas, e principalmente à noite.
Vale refletir no quanto você muda a sua vida - seja pegando um caminho diferente para casa, chegando em casa cedo, mudando o jeito de se vestir, andar ou de usar o cabelo - para se sentir segura. São coisas sobre as quais os homens geralmente não precisam refletir, que eles não cogitam, e que simplesmente não precisam considerar enquanto levam suas vidas. E são coisas que absorvem uma absurda quantidade de tempo, de força e de controle emocional para serem negociadas no dia-a-dia.

Quando indagadas o que elas NÃO faziam - que atividades deixavam de fazer a fim de se proteger, as mulheres que entrevistei responderam:

1. Ficar bêbada, porque nunca se sabe se alguém pode tentar atacá-la quando você estiver sob a influência da bebida.


2. Deixar nossas bebidas no bar, longe da vista, porque alguém pode tentar colocar drogas nelas.


3. Mudar para certos bairros ou morar em determinados quarteirões, porque o assédio é muito forte.


4. Receber sozinhas os assustadores síndicos, cara da TV a cabo ou eletricista, porque isso nos faz sentir inseguras.


5. Viajar sozinhas, pois existem certos lugares onde simplesmente não é seguro ser uma mulher viajando sozinha.


6. Experimentar um site de hospedagem do tipo “couch-surfing”, porque ficar na casa de um estranho parece ser um convite para problemas.


7. Correr sozinhas à noite, porque temos medo de agressores.


8. Retrucar a quem te assedia, porque você nunca sabe se as palavras ofensivas se transformarão em ações violentas.


9. Encontrar um estranho - para sair ou para comprar algo em algum site de compras - sem contar a uma amiga exatamente onde vamos estar, porque sabemos que sempre existe a ameaça de perigo.


10. Caminhar para casa à noite sem ter as chaves na mão, porque você nunca sabe quando pode precisar de uma arma improvisada.

11. Usar roupas transparentes quando estamos andando sozinhas, porque quem assedia encara isto como um convite para nos incomodar.


12. Usar roupas chamativas ou espalhafatosas, tanto faz, porque isto também estimulará comentários de homens desconhecidos.


13. Usar qualquer coisa que exponha nossos seios ou que lembre aos homens que somos mulheres, porque isso é visto como um convite aos olhares maliciosos.


14. Usar rabo de cavalo, porque isto facilitará que um agressor nos agarre pelo cabelo.


15. Usar salto alto, porque isso dificultará a fuga caso a gente precise.


16. Começar um bate-papo com um homem, porque ele pode interpretar isto como um convite para se aproximar de nós de modo libertino.


17. Fazer contato visual com estranhos, porque isto é visto como um convite para que se aproximem de nós.


18. Até o sorriso pode ser visto como uma aprovação tácita para que falem conosco ou se aproximem de nós.

19. Comer algo em público - como sorvete de casquinha - que pode atrair atenção masculina indesejada.


20. Andar de bicicleta à noite, porque não queremos lidar com o assédio.


21. Ficar numa festa ou num show depois que nossos amigos foram embora, porque não queremos nos preocupar em ficar presas numa situação potencialmente ameaçadora.


22. Entrar num vagão do metrô apenas com homens, porque temos medo de que algo possa acontecer. Em vez disso, procuramos vagões de metrô com outras mulheres já presentes.


23. Passear tarde da noite com fones de ouvido e música alta, porque temos medo que os agressores possam vir por trás.


24. Abrir a porta para visitantes inesperados, porque é possível que alguém tenha entrado no edifício, e que esteja planejando atacar.


25. Deixar que o motorista do táxi ou paquera nos deixe em frente de casa, porque não queremos que desconhecidos saibam onde moramos.


26. Ir diretamente para casa, às vezes, se tememos que alguém esteja nos seguindo. Em vez disso, paramos num bar da região e fingimos que temos um encontro.


27. Informar nosso sobrenome a estranhos ou pretendentes em potencial, porque fica muito mais fácil para um estranho descobrir onde você mora ou trabalha.


28. Ficar até tarde sozinha no escritório, por causa da chance de sermos atacadas.


29. Usar um caixa automático externo ou isolado, porque tememos ser agredidas.

BuzzFeed

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Vem aí na Globo: mais uma série para colocar as negras em seu devido lugar

Vem aí na Globo: mais uma série para colocar as negras em seu devido lugar

por : 

O elenco da nova série
O elenco da nova série

A Rede Globo vai lançar mais um produto para reforçar os estereótipos que associam os negros à pobreza. Escrita por Miguel Falabella e prevista para estrear em setembro, a série “Sexo & as Negas” será uma versão de “Sex & the City” ambientada no bairro de Cordovil, na Zona Norte do Rio de Janeiro.
No lugar das mulheres profissionalmente bem sucedidas da série original, a versão brasileira terá uma camareira, uma cozinheira, uma operária e uma costureira.
O título de gosto duvidoso entrega um detalhe: as quatro protagonistas são negras. A série vai seguir a tendência cristalizada na mídia brasileira de associar a população negra à pobreza, à favela, ao samba etc.
Não vejo problemas na ideia de Falabella ambientar a história em um “subúrbio”, assim como caráter não se mede pela profissão exercida. O que me incomoda é a insistência em estereotipar a população negra, principalmente do sexo feminino, ignorando que há negras de classe média, com nível universitário e ocupando posições de destaque.
Negras que consomem cosméticos badalados, compram automóveis, casa própria e até os tais sapatos Manolo Blahnik, objeto de desejo de Carrie Bradshaw, a personagem principal de “Sex & The City”. Elas ainda são minoria em relação à população branca, mas numerosas o suficiente para merecer um tratamento mais igualitário dos meios de comunicação.
Embora sejam mais de 50% da população brasileira, negros e pardos são minoria entre os personagens da teledramaturgia e da publicidade. Tanto que estrangeiros menos informados, influenciados pelas telenovelas exportadas mundo afora, ficam surpresos quando descobrem que o Brasil é o segundo país mais negro do mundo.
Os escassos papéis com atores ou atrizes negros são destinados, em sua maioria, a personagens de menor importância na trama ou com uma condição social mais baixa. Na publicidade, então, parece que negros não consomem manteiga, cerveja, não compram automóveis, usam serviços bancários ou de telefonia.
A fala recente da filósofa e ativista americana Angela Davis resume o quadro: “Sempre assisto TV no Brasil para ver como o país se representa e a TV brasileira nunca permitiu que se pensasse que a população é majoritariamente negra”.
Pelo que os roteiristas da Globo estão produzindo, a opinião de Angela não será diferente na próxima vez em que ela visitar o Brasil e aproveitar para zapear a TV.


Marcos SacramentoSobre o Autor
Marcos Sacramento, capixaba de Vitória, é jornalista. Goleiro mediano no tempo da faculdade, só piorou desde então. Orgulha-se de não saber bater pandeiro nem palmas para programas de TV ruins.
DCM

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Mulheres solidárias, sempre!: Garçonete solidária paga pizza após ver cliente amamentando

Mulheres solidárias, sempre!: Garçonete solidária paga pizza após ver cliente amamentando

Jackie Johnson-Smith viveu uma experiência curiosa e, segundo ela, emocionante, após amamentar o filho em uma pizzaria de Iowa (EUA). 
Quando o marido de Jackie recebeu a conta, havia uma mensagem na notaassinada pela garçonete que atendera a família:
"Eu paguei uma das suas pizzas. Por favor, agradeça à sua mulher por ter amamentado"  / Facebook
"Fiquei sem palavras e emocianada. Embora eu não precise de um incentivo para alimentar meu filho, aquilo fez com que eu me sentisse muito bem. É incrível como nós mulheres podemos fazemos com que nos sintamos bem quando damos força umas para as outras", escreveu Jackie no Facebook. 

De acordo com a emissora KCCI 8 News, a garçonete tocada pela amamentação se chama Bodi Kinney. 

"Precisamos ficar juntas e nos apoiar quando chega o momento de cuidar dos filhos", disse ela.

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quinta-feira, 18 de abril de 2013

"Ridículas"

"Ridículas" 

Mirian Goldenberg

 Pesquisa sobre corpo, envelhecimento e felicidade efoi perguntado aos entrevistados: "Você deixaria de usar algo porque envelheceu?". O resultado mostra uma diferença de gênero marcante: 96% das mulheres responderam "sim"; 91% dos homens, "não". 

"Dê um exemplo de uma pessoa que envelheceu mal", as mais citadas foram atrizes, cantoras e apresentadoras de televisão "que não aceitam o envelhecimento", "negam a idade", "fingem que são jovens" e "se comportam de forma inadequada para a idade". Os pesquisados enfatizam que, por não aceitarem o envelhecimento, elas são "ridículas": usam roupas inadequadas para a idade que têm, fazem excesso de cirurgias plásticas e namoram homens mais jovens. 


Uma professora de 60 anos reclama: "De um lado, existe a obrigação de permanecer jovem, com o corpo, o comportamento e o espírito alegre, exuberante. De outro, há o medo de parecer ridícula por não me comportar e não me vestir como uma mulher de 60 anos. Acho que tenho que ser mais discreta, elegante, quase invisível. Qual a medida certa? É um grande mistério". 


Já os homens pesquisados disseram que não mudariam ou não mudaram nada em sua forma de vestir, permanecendo, quando mais velhos, fiéis ao mesmo estilo que sempre tiveram. 


Uma jornalista de 59 anos disse: "Aposentei meus shorts, saias curtas, botas, camisetas decotadas, jeans e vestidos justos, apesar de continuar magra e com o corpo em forma. Passei por uma verdadeira transformação para me tornar uma senhora respeitável. Já o meu marido continua o mesmo garotão, vestindo o mesmo jeans desbotado, as mesmas camisetas surradas, o mesmo tênis velho. Morro de inveja!". 


O marido, um jornalista de 62 anos, contou: "Minha mulher parece outra pessoa. Cortou o cabelo bem curto. Mudou o guarda-roupa inteiro depois dos 50 anos. E ela é uma mulher linda, com o corpo mais bonito do que o de muita garota. Ela abandonou tudo o que sempre usou e gostou. Acha que tem que se vestir como uma velha só para os outros não fazerem fofoca".


O que você acha pior ao envelhecer: continuar tendo comportamentos e roupas de "jovem" ou mudar completamente de estilo em função do medo de ser considerada "ridícula"? 


MIRIAN GOLDENBERG é antropóloga, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de "Coroas: Corpo, Envelhecimento, Casamento e Infidelidade" (Ed. Record)



terça-feira, 9 de abril de 2013

Marca de cerveja ironiza anúncios que usam mulheres para vender: A imagem da mulher na publicidade

Marca de cerveja ironiza anúncios que usam mulheres para vender: A imagem da mulher na publicidade

Comercial traz discussão sobre a imagem da mulher na publicidade

Marca de cerveja ironiza anúncios que usam modelos para vender. Rachel Moreno, psicóloga e autora do livro A Imagem da Mulher na Mídia, fala sobre a representação feminina nas peças publicitárias 

Por Felipe Rousselet

No dia 28 de março, a marca de cerveja Bohemia lançou um comercial televisivo para promover suas vendas no qual ironiza anúncios de outras marcas que utilizam a imagem de mulheres bonitas.
A peça publicitária foi criada pela agência de publicidade AlmapBBDO, uma das maiores do país. No entanto, a mesma agência possui também a conta da cerveja Antarctica, também da Ambev, marca mais popular e que tradicionalmente explora o estereótipo da "mulher gostosa" nas suas propagandas.
Fórum conversou com a psicóloga Rachel Moreno, autora do livro A Imagem da Mulher na Mídia, para saber a sua análise da nova peça publicitária, da representação feminina na publicidade e a razão pela qual a imagem da mulher é tão vendável aos olhos do mercado publicitário e de seus clientes.
Fórum - O que a senhora achou da nova propaganda da cerveja Bohemia, que faz uma brincadeira com outras marcas que utilizam a imagem da “mulher gostosa” em suas propagandas?
Rachel Moreno - Em um primeiro momento, gostei. Finalmente uma propaganda de cerveja que rende homenagem a quem consegue degustar cerveja de fato, as características organoléticas e a qualidade da cerveja mais do que a imagem que é associada a ela. Fiquei feliz, fiquei contente.
Só que parei para pensar. A propaganda é boa, sem dúvida, mas não deixa de ser uma propaganda da Ambev, que acabou segmentando o mercado. Acho que tiveram a sensibilidade de perceber que estava provocando algumas reações negativas e acabaram segmentando. Afinal, a Ambev é dona da Skol e outras marcas de cerveja que acabam utilizando a imagem da “mulher gostosa” para vender.
Existe um mercado mais crítico em relação a essa abordagem de utilizar essa imagem [da “mulher gostosa”], e existe outro mercado, tradicional, que eles vão continuar tentando atingir da mesma maneira para ampliar o seu público.
A terceira coisa que me chamou atenção nessa história é que as mulheres estão se transformando em um segmento absolutamente importante dentre os bebedores de cerveja, mas elas ainda não são contempladas pelas publicidade. O que temos é a “mulher gostosa” que cai feito mosca no colo do homem bebedor de cerveja ou, então, nessa propaganda Bohemia, uma senhora que aparenta ter bastante idade e não representa a maioria das mulheres consumidoras de cerveja. Fica faltando ainda direcionar o produto às mulheres especificamente.
Eu me pergunto a razão disso. Outro dia, estava conversando com uma pessoa que conheço em uma agência de publicidade e ela me disse, “entendo o porquê de vocês reclamarem quanto à imagem da mulher na propaganda, mas temos que trabalhar com o imaginário do bebedor de cerveja. E o que você imagina que o imaginário do bebedor de cerveja veja após a segunda garrafa? Mulher bonita e gostosa caindo no seu colo”. Ou seja, este é o foco.
Qual seria o porquê dessa resistência em trabalhar com mulheres especificamente? Será que isso feminiliza o produto ao ponto deles terem medo de afastar o bebedor de cerveja masculino?  Será que as mulheres ainda se veem como transgressoras ao beber cerveja? Acho que não. Acho que a publicidade está no caminho, mas ainda falta reverem de forma mais aprofundada os seus preconceitos.
Fórum – A agência que produziu o comercial da Bohemia, a AlmapBBDO, é a mesma que possui a conta da Antarctica, uma cerveja mais popular e que costuma utilizar a imagem da “mulher gostosa”. Como você vê essa situação, uma cerveja popular utilizando a imagem da “mulher gostosa”, enquanto outra cerveja, premium e da mesma agência, critica esta postura?
Rachel Moreno - Como cerveja premium, eles estão querendo atingir um segmento que presta mais atenção na cerveja em si, na qualidade da cerveja. Os senhores mais velhos provavelmente caracterizam melhor isso do que mulheres. Mas, de forma geral, você não tem propagandas direcionadas para as mulheres em termos de cerveja, este é um ponto constante.
Outra coisa que eu gostaria de levantar em relação à propaganda da cerveja é o horário em que ela é veiculada. Sei que existem agrupamentos que estão pressionando para que se modifique a lei para que a propaganda de cerveja também passe depois das nova da noite, porque antes disso temos crianças assistindo televisão. Só que existe uma resistência muito grande, uma bancada que defende os interesses da indústria cervejeira e que resiste a isso.
Fórum – Como a senhora vê essa diferença feita pela publicidade, em relação ao poder aquisitivo dos consumidores de cerveja?
Rachel Moreno - Essa pergunta remete a muita informação e muito trabalho que eles [mercado publicitário] possuem acumulado em termos de pesquisa. Não tenho acesso a esses dados, mas fiz algumas pesquisas algum tempo atrás.
O que sei é que o grande público, que consome bastante, é focado nos jovens, que não são tão conhecedores de cerveja assim. Sei que o hábito entre esses jovens muitas vezes é começar com a melhor cerveja e depois da segunda ou terceira cerveja, ver quanto dinheiro resta no bolso e quantas cervejas dá pra comprar e aí podem baixar a qualidade da marca. Depois da segunda ou terceira cerveja a descriminação entre as marcas é menos sutil. Aí o que interessa é prolongar o papo regado a cerveja, que acaba sendo um objeto intermediário para essa sociabilidade. Até por isso as nossas cervejas são mais aguadas que outras cervejas de fora, particularmente as europeias.
Por um lado, há um público mais conhecedor e uma cerveja que pretende ser premium. Por outro, você tem um grande público que pode começar com uma cerveja premium e acabar com uma mais barata. Então, eles [marcas de cerveja] têm que se comunicar de  modo a garantir o segmento que lhes interessa e o maior número de consumidores possível.
Fórum - O mercado publicitário objetiva vendas e lucros. Neste contexto, qual a razão da imagem da mulher ser tão vendável nas publicidades de cerveja?
Rachel Moreno - O que acontece é que a sociabilidade, a situação de relaxamento entre  diversos amigos em um ambiente social, para jogar conversa fora, tem como corolário, digamos, uma situação cercada de pessoas simpáticas, mulheres gostosas que prestam atenção em você.
É um pouco dessa fantasia que a cerveja tenta preencher. É essa a promessa de felicidade que ela apresenta como uma consequência do seu consumo. É nisso que as pessoas acabam apostando, consciente ou inconscientemente.
Fórum – Como a senhora vê o retrato da mulher pela publicidade? Existiram avanços nos últimos anos?
Rachel Moreno - Houve um avanço sim, mas não aqueles que nós esperávamos. Não aqueles que as mulheres esperam em termos de um retrato mais fiel dos avanços que as mulheres tiveram na sociedade de modo geral.
Avançamos muito ultimamente. Uma gama muito grande de mulheres são chefes de família, estamos em todas as carreiras e profissões, mas ainda temos o teto, não chegamos lá em cima ainda. Estamos no mercado de trabalho, provamos nossa competência, acumulamos mais anos de estudo em qualquer tipo de cargo ou nível no qual a gente esteja. Ou seja, nossa parte da lição de casa nós fizemos.
Agora, a isso tudo não corresponde o retrato, digamos, mais fiel disso em termos de publicidade. Mas, por outro lado, a publicidade tem sido a que mais se atualiza sua imagem, inclusive em relação à programação.
Vou dar um exemplo para tornar isso mais concreto. Um tempo atrás não tinham negros ou negras na publicidade. Depois de um tempo, começou a ter mulheres negras na publicidade. Pesquisei e fui ver porque isso acontecia. Basicamente, em um primeiro momento, aconteceu porque passou a ter um segmento da população negra com poder aquisitivo, o que tornou este segmento interessante para a publicidade. Depois, em um segundo momento, a indústria se reposicionou e achou mais interessante focar uma classe social, um pouco abaixo daquela que ela focava, por achar que ganharia mais em quantidade de venda, do que focando aquele segmento mais alto, classe A e B 1, que é mais restrito,  no qual poderia ganhar mais com o preço, mas menos em quantidade total. E quando você foca um segmento mais popular, encontra predominância, ou uma grande proporção, de negros na população. E se você quer falar com esse segmento, o negro tem de se reconhecer também para poder se sentir atingido pela publicidade.
Então, a propaganda começou a colocar imagens de mulheres negras. Depois disso, começou a acontecer o que costuma acontecer em termos de programação com relação a qualquer coisa. Quando um anunciante foca um público determinado, o conteúdo da programação acaba se “contaminando” e criando um ambiente favorável à discussão daquele produto, procedimento ou comportamento. Se você tem como anunciante uma marca de cosméticos, tem de falar de beleza em algum momento ou mostrar pessoas bonitas. Então, negros e negras começaram a entrar na publicidade para depois entrarem na programação.
Isso é um avanço, por um lado. Mas, por outro, que tipo de negro e negra aparece na publicidade? São negros e negras que possuem um perfil bastante diferenciado, nariz mais afinado, cabelo mais cacheado, uma tez mais clara. Elas representam tão pouco a diversidade da mulher brasileira quanto a Gisele Bündchen representa a diversidade das mulheres brasileiras brancas. Está distante do modelo, muito distante. Justamente para servir do modelo pelo qual as pessoas tem de comprar produtos e procedimentos para se aproximarem cada vez mais dele, uma promessa de beleza e felicidade impossíveis.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Mulheres: “Cada direito é fruto de uma luta”

Mulheres: “Cada direito é fruto de uma luta”

Primeira turma do Projeto de Promotoras Legais Populares em Curitiba capacita 60 mulheres no combate à violência

Camilla Hoshino - Brasil de Fato
de Curitiba (PR)
Cerimônia de formatura das Promotoras Legais Populares - Foto: Joka Madruga
No dia 15 de dezembro de 2012, 60 mulheres do meio popular, de universidades, de movimentos sociais e organizações sindicais concluíram o primeiro curso do Projeto de Promotoras Legais Populares (PLPs), realizado na cidade de Curitiba (PR). Batizada com o nome de Maria Amélia Teles, em homenagem à militante feminista que lutou contra a ditadura militar no Brasil e que está à frente do projeto das PLPs desde seu início, a primeira turma celebrou a formatura com discursos, homenagens, poemas e palavras de ordem.
“Quando uma mulher avança, nenhum homem retrocede”, gritavam as mulheres presentes no Salão Nobre da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR). As palavras simbólicas tinham o intuito de reafirmar um dos principais papeis das mulheres feministas: lutar por igualdade. 
Foram cinco meses de curso, 20 encontros, totalizando 40 horas de estudos. Mais de 10 organizações apoiaram o projeto, entre sindicatos, órgãos públicos e entidades da sociedade civil. O curso capacitou mulheres debatendo temas como gênero, sexualidade, Lei Maria da Penha, mídia, violência, saúde e poder. Todos eles a partir de uma perspectiva da educação popular feminista. Com a colaboração de aproximadamente 30 facilitadoras, 60 histórias de vida se uniram para combater o machismo e a violência.   
Segundo o Mapa da Violência 2012, publicado no mês de abril pelo Instituto Sangari, 4,4 mulheres morreram em homicídios a cada 100 mil habitantes, o que deixa o Brasil entre os sete países do mundo com maior taxa de homicídios femininos, ficando atrás apenas de El Salvador,Trinidad e Tobago, Guatemala, Rússia, Colômbia e Belize. Dentro do país, um dos piores números se encontra no Paraná. Com 6,3 homicídios a cada 100 mil mulheres, o estado está em 3º no ranking nacional.
Paula Cozero, coordenadora do projeto em Curitiba, trouxe essas informações durante a cerimônia de formatura, mas deixou claro que o objetivo de dar visibilidade à situação não é vitimizar as mulheres, mas colocá-las como protagonistas das lutas sociais. “Cada direito é fruto de uma luta”, relembrou a advogada e mestranda da UFPR. E é a luta por direitos sociais, econômicos e políticos para as mulheres que as Promotoras Legais Populares iniciam no momento da sua formatura.
Colocando-se como resposta a uma realidade de violência, a formação de Promotoras Legais Populares representa uma tentativa de descentralizar as forças que atuam na defesa e no cumprimento do direito. O principal objetivo do curso é empoderar as mulheres para que reconheçam as situações de violência, os seus direitos e ferramentas legais de acesso à cidadania e combate à discriminação e violência de gênero. Além de ressaltar a intenção do projeto, Paula também deu ênfase à importância de trazer para o meio popular um debate que permaneceu enclausurado durante muito tempo na academia.
Primeira turma do curso em Curitiba capacitou 60 mulheres - Foto: Joka Madruga
Ocupar, Resistir e Construir
Para a formatura das PLPs, o 3º andar do prédio histórico da UFPR foi decorado com um varal contendo a foto de cada uma das integrantes da turma Maria Amélia Teles. O rosto de 60 mulheres contrastou com os inúmeros retratos de homens juristas distribuídos pelos corredores da faculdade. No mês em que a UFPR comemora seu centenário, celebrar a capacitação de dezenas de mulheres em torno da luta feminista representa um marco e também um convite a uma transição mais profunda desse cenário acadêmico destoante. Essa é a opinião da integrante da Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras-SP, Magali Mendes, convidada pelas coordenadoras do curso para a formatura das PLPs em Curitiba.
Durante a cerimônia, Magali criticou, fazendo alusão às bandeiras dos movimentos sociais presentes no salão nobre no momento da cerimônia, os espaços centralizadores de poder da sociedade. “É preciso ocupar, resistir e construir dentro de espaços como a universidade pública, dominada historicamente por homens, brancos, pertencentes a uma elite”, disse.
No Brasil, a realidade dentro das universidades públicas faz parte de um palco político mais amplo, em que a mulher se encontra sub-representada, apesar de ser maioria da população. Atualmente, as mulheres não chegam a 20% nos cargos de maior nível hierárquico no parlamento, nos governos municipais e estaduais, nas secretarias do primeiro escalão do poder executivo, no judiciário, nos sindicatos e nem nas reitorias.
Em 2010, nas eleições gerais, as mulheres ficaram com 12,9% das cadeiras nas Assembleias Legislativas, com 8,5% das vagas na Câmara dos Deputados, com 9,8% no Senado e 7,4% nas câmaras municipais. Mas o fenômeno não é apenas nacional. No mundo, apenas 35 países (19%) contam com mulheres no Parlamento, enquanto que outras 152 nações (81%) não têm sequer uma mulher em seus Parlamentos, de acordo com a União Interparlamentar (IPU).
Os dados do Relatório 2009/2010 do Observatório Brasil da Igualdade de Gênero ainda mostram que, no setor privado, num total de 89.075 empresas as mulheres ocupavam apenas 21,4%dos cargos de chefia.
Magali Mendes, Promotora Legal Popular desde 1994, ano em que se formou no 1º curso realizado em São Paulo, explica a urgência do projeto que vem sendo construído e multiplicado pelo país. “O Brasil é um país continental, onde a pobreza é feminina, tendo cara, cor e sexo. A intenção dos cursos é capacitar cada vez mais mulheres para que percebam que a as leis podem e devem estar a nosso serviço”, diz. 
Histórico
A história das Promotoras Legais Populares teve início na América Latina por meio da organização Flora Tristan, localizada no Peru. Em 1992, O Comitê Latino Americano e Caribenho em Defesa dos Direitos das Mulheres (Cladem), trouxe para o Brasil seminários a fim de discutir a implementação do curso no país. O desenvolvimento do projeto foi viabilizado com a contribuição inicial da União de Mulheres de São Paulo e do Grupo Themis, organização de direitos humanos atuante em assessoria jurídica, do Rio Grande do Sul.
A primeira experiência desenvolvida no Brasil aconteceu em 1992, em Porto Alegre (RS), e em 1994 o projeto foi levado para São Paulo. Além de estar presente em diversos estados como Rio de Janeiro, Pernambuco e mais recentemente no Paraná, em Curitiba e Londrina, o Projeto de Promotoras Legais Populares também é uma prática em outros países da América Latina, como Chile e Argentina. 
Assim como nos outros locais, a partir da formatura, a luta das Promotoras Legais Populares se torna permanente, buscando superar as situações de discriminação e desigualdade identificadas no cotidiano. “Tornar-se uma Promotora Legal Popular é assumir a responsabilidade de lutar constantemente pela justiça, pela igualdade das mulheres e pela transformação da sociedade, é assumir uma responsabilidade com as mulheres que estão lá fora”, enfatiza Magali, que terminou sua fala na formatura criticando a forma como a sociedade desqualifica o feminismo e o papel das mulheres na promoção e exercício da cidadania. 
Multiplicando a luta 
Turma foi batizada de Maria Amélia Teles, em homenagem à militante feminista
Foto: Joka Madruga
Para que o conhecimento construído durante o curso possa ser compartilhado no dia a dia do trabalho, das lutas sociais ou das organizações das quais fazem parte, o primeiro passo é o despertar da própria consciência das mulheres que integram o projeto e do reconhecimento como Promotora Legal Popular. Oengredi Mendes Maio dos Santos, assistente social, procurou o curso para que servisse de suporte e subsídio ao seu trabalho com catadoras de papel, na maioria mulheres que sofrem violência domiciliar. “Uma surpresa grande foi compreender porque eu estava naquele curso enquanto mulher. Além dos motivos que já tinha para o trabalho, em acreditar em uma sociedade diferente, foi importante para transformar a minha própria vida”, confessa.
Assim como Oengredi, a colega de turma Olga Ferreira de Souza Silva, cabeleireira e moradora da região metropolitana de Curitiba, deseja contribuir para que todas as mulheres avancem. “Agora estamos muito mais preparadas para instruir outras mulheres, pois conhecemos os direitos, os serviços e as políticas públicas a nosso favor”. Para Olga, uma das lideranças comunitárias de sua região, se tornar uma Promotora Legal Popular significa “contribuir para que outras mulheres possam sair do casulo e ser livres”, já que 6 em cada 10 brasileiros conhecem alguma mulher que já sofreu violência doméstica.
A Central de Atendimento à Mulher, por meio do Ligue 180, mostra a dimensão da violência doméstica sofrida pelas brasileiras. Em apuração realizada no primeiro semestre de 2012 pela Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), contatou-se que quase 60% dos relatos recebidos eram de violência diária contra a mulher, totalizando 19.171 casos. A violência semanal marca 21% dos registros, um total de 6.856 denúncias. 
 “O Direito tem sido um instrumento que estrutura e mantém um sistema injusto, desigual. As PLPs fazem uma enorme diferença quando buscam construir um Direito, com uma abordagem feminista, transformadora, que defenda todos os setores explorados da sociedade [...] Lembremos neste momento que a cada 24 segundos uma mulher é espancada e que a cada duas horas uma mulher é assassinada pela violência sexista, no Brasil”, relata Maria Amélia Teles, em sua mensagem encaminha às PLPs, especialmente para o momento da formatura.
Grata pela homenagem feita pela turma, que carrega seu nome no início de uma construção histórica em Curitiba, Amelinha, como assina em sua mensagem, termina sua carta fazendo um apelo às Promotoras Legais Populares do Paraná: “Espero que em Curitiba também seja realizado o movimento do abraço solidário ás vitimas de violência de gênero como forma de cobrar das autoridades e do poder público, as políticas públicas eficientes para enfrentar a violência. Só para informar em São Paulo, já realizamos o 3º Abraço Solidário. Amigas, obrigada por tudo. Sucesso na vida e sejam, onde estiverem, uma promotora legal popular [...] Beijos, Amelinha”.
Organizado apenas por mulheres e para mulheres, os cursos se tornaram um espaço importante para que as Promotoras Legais Populares se construam e se fortaleçam coletivamente. “Além de mais fortes, juntas, nós nos libertamos”, encerrou a oradora da turma, Lucilene Aparecida Soares, após a entrega dos diplomas.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

As Olimpíadas mais femininas da história


As Olimpíadas mais femininas da história

por José Eustáquio Diniz Alves


(Agência Patrícia Galvão) O sexo feminino não disputou competição na primeira Olimpíada da era moderna, que aconteceu em Atenas, em 1896. O Barão Pierre de Coubertein, fundador do Comitê Olímpico Internacional, disse que as mulheres tinham apenas um papel: “coroar os homens vencedores”.

Mas o tempo não pára e a realidade foi mudando nos jogos seguintes, na medida em que cresciam as delegações mistas. O percentual de países que enviaram atletas do sexo feminino passou para 2% em Paris (1900), chegou a 9% nas Olimpíadas de Londres (1908), a 45% nas Olimpíadas de Antuerpia (1920), a 54% em Amsterdã (1928), a 70% em Montreal (1976), a 85% em Atlanta (1996), a 96% em Pequim (2008) e finalmente chegou a 100% em Londres (2012).

Mas não foi fácil convencer todos os países a enviarem mulheres nas delegações. Foi sob pressão recente do governo inglês e do Comitê Olímpico Internacional que três países muçulmanos que resistiram à inclusão feminina cederam e enviaram mulheres aos jogos de 2012. Foi o resultado de um esforço de um século para reduzir o hiato de gênero, que esteve presente desde o início do movimento olímpico moderno, ainda no século XIX. Portanto, foi uma vitória da persistência e da luta pela equidade de gênero o fato de todos os países mandaram mulheres em suas delegações olímpicas, pela primeira vez na história.

Mas o percentual de mulheres ainda não atingiu a paridade, embora falte pouco. Entre 1900 e 1920 o percentual de atletas do sexo feminino no total de atletas dos jogos ficou entre 1% e 2%. Atingiu o percentual de 10% em 1920, atingiu 21% em 1976, 34% em 1996, chegou a 42% em Pequim (2008) e alcançou 44% em em 2012. Dos cerca de 11 mil atletas participantes dos jogos Olímpicos de Londres, o sexo feminino atingiu um montante de cerca de 5 mil atletas. A judoca Wojdan Shaherkani, por exemplo, se tornou a primeira mulher a representar a Arábia Saudita em uma Olimpíada.

A China, que tem disputado a liderança do quadro de medalhas e que tem uma população predominantemente masculina, enviou uma delegação de cerca de 400 atletas a Londres, sendo 57% do sexo feminino. As mulheres chinesas têm sido fundamentais para que o gigante asiático se destacasse no topo dos pódios. O mesmo acontece com os Estados Unidos que enviou 268 atletas do sexo feminino e 255 atletas do sexo masculino, sendo que a taxa de sucesso na conquista de medalhas foi de 30% para as mulheres e 15% para os homens americanos. O fato é que as mulheres foram fundamentais tanto para a China, quanto para os Estados Unidos estarem no topo do ranking internacional.

No caso do Brasil, a primeira participação feminina aconteceu há 80 anos, quando a nadadora Maria Lenk participou das Olimpíadas de Los Angeles, em 1932. Por coincidência, foi o mesmo ano em que as mulheres brasileiras conquistaram o direito de voto. Nas Olimpíadas de Barcelona, em 1992, o percentual de mulheres na delegação brasileira foi de 26%, passando para 46% em Sidney, em 2000, e ficando próximo da paridade (50% para cada sexo) nas olimpíadas seguintes.

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As Olimpíadas de Barcelona (1992) foram as últimas em que as mulheres brasileiras não conquistaram medalhas. De lá para cá, tem havido maior igualdade de gênero no pódio. Nas Olimpíadas de Sidney e Atenas as mulheres brasileiras não conquistaram medalhas de ouro, mas conquistaram 4 medalhas (33%) em 2000 e somente 2 medalhas (20%) em 2004. A primeira medalha de ouro feminina do Brasil foi conquistada apenas nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Nesta Olimpíada as mulheres conquistaram 4 das 15 medalhas brasileiras, representando 27% do total.

Porém, o hiato de gênero no topo do pódio foi revertido nas duas últimas Olimpíadas, pois as atletas brasileiras conquistaram 2 das 3 medalhas de ouro, tanto em Pequim 2008, quanto em Londres 2012. Na China, as mulheres ganharam 6 das 15 medalhas brasileiras, representando 40%, o maior percentual da história até então. Mas na Inglaterra, o desempenho das atletas brasileiras foi um pouco melhor, conquistando 7 das 17 medalhas, representando 41% do total. Um recorde.

O Brasil terminou as Olimpíadas de Londres em 22º lugar. Mas sem as duas medalhas femininas de ouro teria ficado em 37º lugar no ranking internacional. Além disto, nos dois últimos dias de competição foi a vitória das meninas do vôlei que compensaram a ressaca e a frustração da perda do ouro no vôlei masculino e, especialmente, no futebol masculino (que nunca viu a cor do ouro), apesar de todo investimento e publicidade vinculados a este esporte.

Também é preciso destacar que é a primeira vez que as mulheres brasileiras conquistam 2 medalhas de ouro em 2 Olimpíadas consecutivas. As mulheres ainda não atingirama paridade (50%/50%) na participação e no número de medalhas, mas já fizeram um grande avanço nos últimos 80 anos, desde as braçadas pioneiras de Maria Lenk, em 1932. Ficar com zero medalhas femininas, como em Barcelona há vinte anos, parece coisa definitiva do passado. O que os dados mostram é que a maior participação feminina nas competições olímpicas tem se traduzido em aumento do número de medalhas conquistadas.

Os jogos do Rio de Janeiro em 2016 podem ser as primeiras Olimpíadas com igualdade total de gênero e a distribuição de um número igual de medalhas para os dois sexos. O governo brasileiro e o Comitê Olímpico Internacioal devem batalhar para atingir a meta da paridade de sexo no número de competições de 2016 e garantir que os esportes incluídos nas olimpíadas tenham sua versão feminina e masculina sempre que viável.

A equidade de gênero nos esportes é um aspecto importante para ajudar a colocar um fim à discriminação de gênero na sociedade. Para que o mundo e o Brasil se tornem lugares justos e prósperos é preciso romper com as desigualdades entre homens e mulheres em todos os campos de atividade, garantido a igualdade de direito e de oportunidades para todos os cidadãos e cidadãs de todas as comunidades em nível local, nacional e internacional. A equidade de gênero é boa para as mulheres e para os homens, assim como para outros grupos sociais e para as atuais e as futuras gerações.

domingo, 5 de agosto de 2012

Sensacional: Vídeo mostra como os publicitários veem comerciais de cerveja

Sensacional: Vídeo mostra como os publicitários veem as mulheres nos comerciais de cerveja







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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Democracia e Desigualdade: Mulheres e STF



Democracia e Desigualdade: Mulheres e STF


No final de 2012 a Presidenta Dilma terá a possibilidade de reduzir a desigualdade de gênero no Poder Judiciário, em seu órgão máximo, o STF, o que terá efeito extraordinário para a imagem da mulher na sociedade brasileira e para o reconhecimento de sua capacidade. A Presidenta poderá, com a aposentadoria compulsória do Ministro Cezar Peluso, em setembro, e do Ministro Ayres Britto, em novembro, indicar duas mulheres para o STF. Poderá também inovar e tornar mais democrática a escolha dos membros do Supremo Tribunal Federal. O artigo é de Samuel Pinheiro Guimarães.


Samuel Pinheiro Guimarães na Carta Maior


“Mas o meu país, como todos os países do mundo, ainda precisa fazer muito mais pela valorização e afirmação da mulher”. 
Presidenta Dilma Rousseff, na abertura da 66ª Assembléia Geral da ONU, em 21 de setembro de 2011

1. Quanto mais complexa uma sociedade, quanto mais diversa, quanto maiores as diferenças regionais, étnicas, religiosas, de gênero e de riqueza, mais difícil é a tarefa de elaborar normas para reger as relações de toda ordem entre as pessoas, as empresas e as agências do Estado.

2. Uma sociedade é tanto mais democrática quanto maior a participação de seus cidadãos (e cidadãs...) na elaboração e na execução das normas que regem a sua vida.

3. Em sociedades de grande dimensão territorial e populacional e de grande complexidade econômica e social a participação direta dos cidadãos na elaboração dessas normas não é possível.

4. Este é o caso do Brasil, ainda que entre nós, o recente sistema de organização de conferências nacionais, as leis de iniciativa popular, como foi a da ficha limpa, e o referendo, são certamente avanços importantes no sentido de maior democratização do país, enfrentando a resistência dos inimigos da participação popular que se apresentam como indignados adversários da “democracia direta”.

5. De toda forma, nas grandes sociedades e devido à complexidade de certos temas, os cidadãos têm de escolher representantes para elaborar essas normas, outros tantos indivíduos para executá-las e ainda outros para dirimir os conflitos que decorrem da interpretação das normas.

6. O sistema de representação popular será tão mais democrático quanto melhor refletir os interesses dos diferentes segmentos da sociedade.

7. Isto não ocorre no Brasil. Nem no Legislativo, nem no Executivo nem no Judiciário.

8. As disparidades políticas, econômicas e sociais são a principal característica da sociedade brasileira.

9. Uma dessas disparidades é a disparidade de gênero, de grande importância, pois afeta direta ou indiretamente a todos os brasileiros. 

10. As disparidades entre homens e mulheres são de toda ordem. As mulheres recebem remuneração menor por trabalho igual; as mulheres ocupam menor percentual de cargos de chefia nas empresas; as mulheres são, com muito maior frequência, vítimas de violência doméstica e de violência sexual; as mulheres chefiam a maioria das famílias uniparentais. Embora uma mulher ocupe, pela primeira, vez a Presidência da República, as mulheres estão espantosamente sub-representadas nos cargos mais elevados dos Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário.

11. 51% dos brasileiros são mulheres. Entretanto, há apenas 45 mulheres na Câmara em um conjunto de 513 Deputados, ou seja, menos de 9% do total. No Senado Federal, são nove Senadoras e 72 Senadores homens, em um total de 81. Esta situação de desigualdade vem se repetindo a cada Legislatura que é eleita desde 1988. 

12. A superação das desigualdades entre homens e mulheres no Poder Legislativo é uma tarefa de grande complexidade e que demandaria, para se tornar efetiva, uma reforma da Constituição. A lei 9504/97, que obriga os Partidos políticos a apresentarem 30% de candidatas mulheres, não surtiu os efeitos esperados. Será necessário, ao ritmo atual, aguardar décadas e talvez até séculos, para atingir a paridade de gênero no Poder Legislativo e assim corrigir uma (a outra é a de riqueza) das duas principais desigualdades que caracterizam o Brasil.

13. Em 2010, na Índia, apesar de todos os desafios que sua sociedade enfrenta, foi aprovada lei que atribui às mulheres um terço das cadeiras do Parlamento.

14. Assim, não se pode dizer que o Estado brasileiro seja democrático, do ponto de vista da representação do principal grupo de sua população, que são as mulheres, no Poder Legislativo. E o mesmo ocorre no Executivo e no Judiciário.

15. Na chefia do Poder Executivo, está a Presidenta Dilma, que não veio a ser eleita por força do funcionamento do sistema partidário tradicional, mas sim por uma iniciativa política de extraordinário alcance do ex-Presidente Lula que ousou lançar sua candidatura. No Ministério, em um total de 38 Ministros, dez são Ministras, de Ministérios de relativamente pouca verba e pouco pessoal, ainda que alguns deles tenham grande poder político, como a Casa Civil, a Secretaria de Relações Institucionais e o Ministério do Planejamento.

16. Os Secretários Executivos são uma espécie de Vice-Ministros. Há 38 deles, dos quais somente sete são mulheres.

17. São 535 mil o total de funcionários dos Ministérios comandados por homens enquanto que o número de funcionários dos Ministérios chefiados por mulheres não ultrapassa 40 mil.

18. Nos Ministérios, existem cerca de 2400 cargos de alta chefia e assessoria que são ocupados por 1700 homens, 70%, e por 700 mulheres, cerca de 30%.

19. Os orçamentos, em 2012, dos Ministérios chefiados por homens somam em seu conjunto R$ 629 bilhões enquanto que os orçamentos dos Ministérios chefiados por mulheres somam R$ 11 bilhões.

20. É verdade que Maria das Graças Foster chefia a Petrobrás, empresa que é uma das maiores do mundo e que, no sentido orçamentário e de influência, vale mais do que muitos Ministérios, isolados ou em conjunto. 

21. Mas, no total das 120 empresas estatais somente três são chefiadas por mulheres.

22. São 10 as agências reguladoras no Brasil, e apenas uma delas, recentemente, veio a ser chefiada por uma mulher. 

23. A mesma dificuldade de reduzir a desigualdade de gênero que se encontra no Legislativo, ainda que em muito menor escala, se encontraria no Poder Executivo, onde, porém, a vontade política, a começar pela designação dos Secretários Executivos, poderia contribuir para enfrentar este desafio.

24. Uma minoria de homens (49% da população) domina, se sobrepõe, quem sabe se poderia até dizer que oprime, de forma sutil as mulheres, que são 51% da população, através da ocupação majoritária dos cargos no Legislativo e no Executivo, isto é, controlam o processo de elaboração e de execução das normas que regem toda a vida social do país.

25. O Poder Judiciário é o menos democrático dos três Poderes da República devido à forma pela qual são escolhidos os integrantes dos Tribunais Superiores.

26. No Poder Judiciário, seu órgão de cúpula, o Supremo Tribunal Federal, é integrado por onze Ministros, dos quais dois são mulheres. Nos demais tribunais superiores (Superior Tribunal de Justiça - STJ, Tribunal Superior do Trabalho – TST e Superior Tribunal Militar - STM) são, ao todo, 71 Ministros, dos quais apenas 11 são mulheres. A relação é de cinco mulheres para 26 homens no STJ; de cinco mulheres para 20 homens no TST; de uma mulher para 14 homens no STM.

27. Somente em 2000, pela primeira vez na história do Brasil, uma mulher, a Ministra Ellen Gracie, foi escolhida para integrar o STF, onde hoje há duas Ministras mulheres, as Ministras Cármen Lúcia e Rosa Weber, e nove homens.

28. No final de 2012 a Presidenta Dilma terá a possibilidade de reduzir a desigualdade de gênero no Poder Judiciário, em seu órgão máximo, o STF, o que terá efeito extraordinário para a imagem da mulher na sociedade brasileira e para o reconhecimento de sua capacidade.

29. A Presidenta poderá, com a aposentadoria compulsória do Ministro Cezar Peluso, em setembro, e do Ministro Ayres Britto, em novembro, indicar duas mulheres para o STF. Poderá também inovar e tornar mais democrática a escolha dos membros do Supremo Tribunal Federal.

30. Poderá a Presidenta Dilma, se assim o quiser, solicitar a cada Tribunal de Justiça estadual uma lista tríplice de juízas e advogadas, assim como poderá consultar cada seção regional da OAB para que cada uma indique os nomes de três advogadas, com mais de vinte anos de militância jurídica ou de ensino do Direito. A partir do exame do mérito dos nomes incluídos nessas listas, e de outros nomes de mulheres de notável saber jurídico, a Presidenta poderá fazer suas indicações para as duas vagas no STF.

31. Caso isto ocorra, a Presidenta Dilma terá dado um passo decisivo para aumentar a participação da sociedade brasileira na escolha dos membros do Poder Judiciário, para tornar o Brasil mais democrático e terá reduzido o extraordinário desequilíbrio de gênero em um dos três Poderes da República.

32. A indicação de duas mulheres para o Supremo Tribunal Federal depende apenas da vontade política da Presidenta Dilma Rousseff, a primeira mulher presidenta do Brasil.

sábado, 21 de julho de 2012

Em um mundo governado por homens, mulheres trabalham mais


Em um mundo governado por homens, mulheres trabalham mais





Homens que trabalham no Brasil gastam 9,5 horas semanais com afazeres domésticos, enquanto que as mulheres que trabalham dedicam 22 horas semanais para o mesmo fim. Os dados são do relatório “Perfil do Trabalho Decente no Brasil: um Olhar sobre as Unidades da Federação”, divulgado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) nesta quinta (19). Com isso, apesar da jornada semanal média das mulheres no mercado ser inferior a dos homens (36 contra 43,4 horas, em termos apenas da produção econômica), a jornada média semanal das mulheres alcança 58 horas e ultrapassa em mais de cinco horas a dos homens – 52,9 horas – somando com a jornada doméstica. Ou 20 horas a mais por mês. Ou dez dias por ano.
A análise foi feita com base nos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE, que mostra também que 90,7% das mulheres que estão no mercado de trabalho realizam atividades domésticas. Enquanto isso, entre nós homens, esse número cai para 49,7%.
“Evidencia-se, portanto, que a massiva incorporação das mulheres ao mercado de trabalho não vem sendo acompanhada de um satisfatório processo de redefinição das relações de gênero com relação à divisão sexual do trabalho, tanto no âmbito da vida privada, quanto no processo de formulação de políticas públicas”, diz o relatório.
A violência de gênero não é monopólio de determinada classe social e nível de escolaridade. E não se manifesta apenas através da porrada, mas possui mecanismos mais sutis. Como manté-las trabalhando mais e não reconhecer essa diferença. Pior, subverter o discurso em favor do homem.
Trabalho doméstico não é considerado trabalho, mas sim obrigação, muitas vezes relacionado a um gênero, que tem o dever de cuidar da casa. É sintomático, portanto, que apenas recentemente a Organização Internacional do Trabalho tenha conseguido que os países aprovassem direitos iguais para trabalhadores domésticos em relação ao restante da sociedade.
A questão da jornada tripla (trabalhadora, mãe e esposa) é apenas um elemento para corroborar o fato de que vivemos em uma sociedade com um pé no futuro e outro no passado. A qual todos nós pertencemos e, portanto, somos atores da perpetuação de suas bizarrices. Discutimos muito sobre as mudanças estruturais pelas quais o país tem que passar, citando saúde, educação, transporte, segurança, mas esquecemos dos problemas ligados a quem que sofre com o desrespeito aos seus direitos fundamentais. Que não conhecem classe social, cor ou idade. Como as mulheres que são maioria numérica – e minoria em direitos efetivados.
Mesmo em cargo de chefia, as mulheres têm que provar que são melhores do que os homens. Quando o ex-presidente da Argentina, Néstor Kirchner morreu, houve gente que perguntou se Cristina teria capacidade de tocar o governo sem os conselhos dele na cama. Fino.
Temos uma mulher na Presidência. Simbolicamente relevante, politicamente insuficiente, não serve para justificar nenhuma mudança estrutural. São poucas as governadoras, prefeitas, senadoras, deputadas, vereadoras. Mas também CEOs, executivas, gerentes, síndicas de condomínios. Falta criar condições para que elas cheguem lá. Ou alguém acha que isso vai ocorrer por geração espontânea?
A Suprema Corte tem 11 assentos. Só dois deles pertencem a mulheres, infelizmente. Mulheres são maioria nas redações, mas não em cargos de alta chefia – muito menos entre os editorialistas, que redigem a opinião dos veículos de comunicação.
Diante de constatações vergonhosas, colocamos a culpa no processo de formação do Brasil, na herança do patriarcalismo português, nas imposições religiosas, no Jardim do Éden e por aí vai. É mais fácil atestar que somos frutos de algo, determinados pelo passado, do que tentar romper com uma inércia que mantém cidadãos de primeira classe (homens, ricos, brancos, heterossexuais) e segunda classe (mulheres, pobres, negras e índias, homossexuais etc).
É o que eu já disse aqui antes: todos nós, homens, somos sim inimigos até que sejamos devidamente educados para o contrário. E tendo em vista a formação que tivemos, é um longo caminho até alcançarmos um mínimo de decência para com o sexo oposto.