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sábado, 14 de abril de 2012

Poesia do Dia – E Deus me fez mulher

Poesia do Dia – E Deus me fez mulher



Para homenagear a grandiosa vitória das mulheres brasileiras no Supremo Tribunal Federal (STF), que conquistaram o direito ao aborto de fetos anencéfalos, segue uma linda poesia da nicaraguense Gioconda Belli.
Gioconda lutou pela Força Sandinista de Libertação Nacional e ajudou a derrubar, na década de 70, o ditador Anastacio Somoza. É autora de “A mulher habitada” e “O país das mulheres”, entre outros livros.
Foto: Salvador García Bardón (http://www.flickr.com/sagabardon)

E Deus me fez mulher

E Deus me fez mulher,
De cabelos longos,
Olhos,
Nariz e boca de mulher.
E rugas
E suaves funduras
E me cavou por dentro,
Fez de mim uma incubador de seres humanos.
Teceu delicadamente meus nervos
E balanceou com cuidado
O número de meus hormônios.
Compôs o meu sangue
E me injetou com ele
Para que irrigasse
Todo meu corpo;
Nasceram assim as idéias,
Os sonhos,
O instinto…
Tudo o que criou suavemente
A marteladas de sopros
E perfurações de amor,
As mil e uma coisas que tornam mulher todos os dias
Pelas que me levanto orgulhosa
Todas as manhãs
E bendigo meu sexo.

*****

Y Dios me hizo mujer

Y Dios me hizo mujer,
de pelo largo,
ojos,
nariz y boca de mujer.
Con curvas
y pliegues
y suaves hondonadas
y me cavó por dentro,
me hizo un taller de seres humanos.
Tejió delicadamente mis nervios
y balanceó con cuidado
el número de mis hormonas.
Compuso mi sangre
y me inyectó con ella
para que irrigara
todo mi cuerpo;
nacieron así las ideas,
los sueños,
el instinto.
Todo lo que creó suavemente
a martillazos de soplidos
y taladrazos de amor,
las mil y una cosas que me hacen mujer todos los días
por las que me levanto orgullosa
todas las mañanas
y bendigo mi sexo.

*****
*O país das mulheres é um romance que conta a história de Fáguas, um pequeno país latino americano governado por mulheres por meio do Partido da Esquerda Erótica (PEE). Mais detalhes aqui.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Manual do estilo desconfiado


Manual do estilo desconfiado
Até segunda ordem, todo texto é suspeito
por Fernando Paixão






JUNTE-SE AOS DESCONFIADOS
Sempre fui um aficionado pelas artes e artimanhas do ato de escrever. Sou daqueles que consideram toda frase um parto – o que não implica, necessariamente, sofrimento. Tudo começa com o intruso espermatozoide que se instala em nosso cérebro e passa a acionar a sinapse daquela ideia, que ali permanece e recusa a se apagar, insiste diariamente em ser transformada em “mensagem para os outros”: texto.
Acontece, porém, na maioria das vezes, que passamos a macaquear as formas conhecidas de dizer. Repetimos as fórmulas, e mal. Confortados pelo doce prazer do nome impresso. Com frequência, tomamos um dentre os maneirismos disponíveis e o preenchemos com raciocínio e opinião. Mas sem perceber que as palavras e noções usadas já se encontram um tanto gastas por força da repetição e do hábito.
Qual o antídoto? Como sair do círculo repetitivo da inspiração? Se a resposta fosse simples, já teria surgido uma nova profissão no pobre mercado das letras: os estilistas de texto. Com lançamentos a cada ano de novos modelos de redação destinados aos diferentes segmentos: as notícias de jornal, as pesquisas acadêmicas, os romances de sucesso, e outros mais.
O jeito é mesmo desconfiar. Uma recomendação possível e honesta frente ao demo do senso comum que se infiltra no lero-lero de muitos escribas. Ler com o olhar desconfiado, pois ajuda a reconhecer muito gato que se passa por lebre, sobretudo quando assume ares de alta dicção. E, claro, escrever igualmente desconfiado – um pé atrás com as próprias afirmações. Até segunda ordem, todo texto é suspeito.
DESCONFIE DA FRASE LONGA
– Raros são os animais que podem dar saltos longos na natureza. Raros são os homens capazes de compreender uma série de frases compridas.
– Uma frase não se define pela extensão, senão pelo fôlego.
– As ideias que se alongam precisam girar em torno de um eixo. Cuidado com os malabarismos.
– A boa frase longa se contenta com passos curtos – e articulados.
– Para evitar a monotonia de uma série de frases longas, a alternância com a frase curta surpreende.
– As frases longas nunca são jovens.
DESCONFIE DA VÍRGULA
– Aqueles que tomam a vírgula por uma facilidade animam-se em encompridar os solilóquios. Melhor tomá-la por uma dificuldade.
– Toda vírgula implica dobrar uma esquina e continuar o mesmo caminho. O senso de direção não depende (só) dela.
– O texto que se iniciasse com uma vírgula teria antes de si o universo inteiro.
– Alguns escritores são acometidos da virgulite, típica de quem dá voltas ao pensamento.
– Existem as vírgulas da gramática e as do afeto.
– O pecado de Adão criou a primeira vírgula.
DESCONFIE DA PALAVRA GORDA
– Aquela que expressa ideia generalizante, usualmente abstrata. Além do peso.
– A gordura léxica está presente quando as palavras se inclinam para a retórica.
– O uso acumulativo de palavras obesas conduz a uma frase gorda.
– Antes de se expressar em palavras, a obesidade está no pensamento.
– A sintaxe é um recurso importante para engordar (ou emagrecer) a frase.
– Os parnasianos são os típicos escritores com sobrepeso.                        
DESCONFIE DA PALAVRA MAGRA
– Referente ao sentido direto, quase sempre em primeira acepção. Sem gordura.
– A magreza léxica se torna presente quando as palavras não chamam atenção para si.
– A ciência prefere exprimir-se por meio das palavras exatas. Só o osso interessa.
– A mesma palavra poderá ser mais ou menos delgada, a depender do contexto.
– O romance policial típico necessita de um estilo “magro” para colocar em ação os elementos da trama.
– A palavra magra se quer discreta e útil.
DESCONFIE DA CITAÇÃO
– A afinidade com o autor citado, por si só, não qualifica a citação. Então, o que a justifica?
– Não há como certificar o peso de duas citações opostas e igualmente claras e afirmativas.
– Existem citações de primeiro, segundo e terceiro graus. Quanto mais recuada no tempo, mais sábia.
– Poucos escritores citam os argumentos contrários às suas ideias. Pior para elas.
– Ninguém cita quem lhe parece “inferior”.
– Diz-me quem citas e eu te direi quem és.
DESCONFIE DO CLICHÊ
– O clichê transforma o senso comum em metal, peça que serve à máquina dos discursos.
– De tão usado, o clichê ficou cego, não sabe o que está dizendo.
– Clicheteiro é aquele que usa em demasia as frases conhecidas.
– O clichê apunhala o estilo.
– O clichê se aproxima de um ditado que não deu certo.
– O clichê é um chiclete usado.
DESCONFIE DO ADVÉRBIO
– Cabe ao advérbio dar um toque de relevo à frase.
– A circunstância define o colorido daquilo que se afirma; do contrário, predomina o vazio.
– Verbo e advérbio se atraem, mas nem sempre se encaixam.
– Os advérbios formam a polpa que reveste o caroço da frase central.
– Para garantir que seja exato, todo advérbio deve passar pelo setor de controle de excessos.
– Quem “mente” demais cai em descrédito.
DESCONFIE DO ELOGIO
– Monotonia: o elogio sempre se nutre de adjetivos.
– Boa parte das vezes o encômio vem antes de arrolados os argumentos.
– O elogio deve ser proporcional à qualidade moral e intelectual de quem o profere. Mas quem julga quem?
– A maioria dos elogios esconde a sua real motivação: o comércio de favores.
– Quem muito elogia deixa as palavras vazias.
– Elogiar a modéstia é um contrassenso.
DESCONFIE DO ADJETIVO
– Os adjetivos são como as cores, do suave ao berrante.
– Entre um e outro, recomenda-se a distância de algumas léguas.
– A culpa não está na palavra, mas no demiurgo que não sabe usá-la.
– O adjetivo funciona como o fermento da frase.
– Ao dispor de um adjetivo, indague-se: se ficar de fora, a frase empalidece?
– Faça psicanálise com os qualificativos que emprega.
– Adjetivos são palavras com alta variação de humor.
DESCONFIE DA (DES)CONFIANÇA
– A desconfiança é bem-vinda para que o estilo seja de bom quilate.
– A desconfiança é malvinda quando inibe a naturalidade da frase.
– O melhor estilo é aquele que se faz com a atenção posta no detalhe, nos dedos.
– Quem desconfia fia o texto pelo avesso.
– Quem (des)confia demasiado termina com as mãos no fiado.
– Desconfia quem deseja fiar de outra maneira. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Ervilha da Fantasia - Uma ópera Paulo Leminskiana

Ervilha da Fantasia - Uma ópera Paulo Leminskiana

Documentário para TV realizado em 1985 por Werner Schumann com edição de Eduardo Pioli Alberti e Produção Executiva de Altenir Silva, Willy Schumann, Werner Schumann.