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quinta-feira, 8 de março de 2012

Luiza Erundina: representação feminina no Congresso é vergonhosa



Luiza Erundina: representação feminina no Congresso é vergonhosa



Agência Brasil


Chegar à prefeitura da maior cidade do país representou um fato histórico para o Brasil e, para Luiza Erundina, uma ousadia a mais uma em sua vida. “Naquela ocasião ajudou, embora tenha trazido muito preconceito.Mulher, nordestina, de esquerda, do PT, ousar ser prefeita derrotando os caciques da política paulistana. Eu costumo dizer: só faltava ser negra pra ter completado o quadro”, comenta a hoje deputada federal pelo PSB.
“Aí era melhor, porque eu tinha mais uma razão porque lutar”, destacou a deputada ao se referir ao único preconceito que não sentiu na vida, o racial. “Porque a luta é ideológica, ela é cultural. Mais que uma luta do poder pelo poder. É uma luta por valores, por concepções. Não foi fácil naquela ocasião, mas valeu a pena. Eu faria tudo de novo”, destacou.




Erundina assumiu a prefeitura de São Paulo em 1988. Ela considera que conseguiu imprimir uma marca de sensibilidade em sua administração. “Acho que a mulher tem mais sensibilidade para mudar a forma de exercer o poder, e essa é a nossa tarefa. Não é só disputar e conquistar poder. É transformar a forma de exercer o poder, senão reproduz o modelo machista, patriarcal, autoritário, centralizador. E o que é que muda? Nada.”
Hoje, na Câmara dos Deputados, exercendo seu quarto mandato, Erundina é autora do projeto que tem por objetivo garantir metade das cadeiras de direção da Câmara e do Senado para mulheres. Ela é uma das parlamentares mais combativas da sub-representação das mulheres no Parlamento brasileiro.“A nossa representação no Congresso Brasileiro é uma vergonha.”
Erundina, no entanto, não acredita que o preconceito de gênero seja a única barreira para a ascensão das mulheres. Em sua opinião, essa baixa participação é fruto da cultura machista dominante no Brasil. “Nós, mulheres, não somos instadas, orientadas e estimuladas desde criança, adolescente, de jovens, a ocuparmos os espaços públicos, como os meninos já o fazem por estimulo da própria família, do ambiente, da comunidade. E nós incorporamos esse papel secundário nosso na sociedade. É como se o poder fosse para os homens e nós não fôssemos capazes de disputar e de exercer o poder”, observou.
“Às vezes até subliminarmente: votamos em homens porque não queremos reconhecer nossa impotência, nossa pretensa impotência, nossa pretensa incapacidade, nossa inferioridade em relação aos homens. Portanto, há uma carga cultural, educacional, social muito forte para se romper.”
Nesse contexto, a reforma política, na opinião da deputada, é primordial não só para alterar as regras eleitorais, mas para a organização dos partidos e das práticas políticas, para a transparência e a forma como os agrupamentos políticos funcionam.
“Não tenho dúvida de que a barreira maior de integração de inclusão da mulher na sociedade brasileira é o acesso ao poder”, enfatizou Erundina.

8 de Março: mais um dia de luta.

8 de Março: mais um dia de luta.

No Mulher Alternativa
[Esta imagem foi criada por mim, é Creative Commons e pode ser redistribuída na web; façam bom proveito!]

Não preciso repetir o que minhas companheiras de luta vêm dizendo lindamente ao longo da semana. Indico, a quem quiser entender nossa revolta com "parabéns por ser mulher" e outros tipos de celebração "pelega", alguns textos muitíssimo bem escritos. Não tenha medo de confrontar seu próprio machismo - este é um presente muito mais produtivo que você pode dar a si mesma, a si mesmo e a cada mulher a seu redor.
Suely explicou a diferença (só faltou desenhar pros mais desentendidos) entre uma data "comemorativa" comercial, como "dia das mães", e o 8 de Março:
"Não tenho nada contra os mimos, gentilezas, presentes e outras e delicadezas, embora eu tenha cá as minhas restrições a incentivar o consumismo. O Dia Internacional da Mulher é um dia de luta. É um dia de mobilização, de manifestações públicas, de debates e de reflexão pela igualdade de gênero e por melhoria das condições de vida para as mulheres. No mundo inteiro as mulheres vão às ruas para comemorar as conquistas, protestar contra a violação de direitos, gritar pelo fim da violência doméstica e sexual e reivindicar políticas públicas para a igualdade entre mulheres e homens."
(da Suely Oliveira, em Matizes Feministas: Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores)
Já Cynthia lindamente criou uma série de respostas e questionamentos às frases machistas mais comuns (e que tantas de nós sequer identifica como machista) que ouvimos nesse dia do ano. Entre elas "mulheres, vocês embelezam o mundo", "parabéns por ser mulher", "adoro as mulheres, afinal, nasci de uma", "falta um dia do homem", entre outras pérolas de quem realmente não sacou (ou não quer sacar) o que significa este dia.

"Como estou cansada de todo ano ouvir discursos machistas no Dia Internacional da Mulher, este ano preferi fazer a listinha das besteiras que eu já ouvi. Tenho certeza que vocês conhecem pelo menos alguma delas. Aproveitei também para explicar o quê está de errado nessas frases ridículas, pra ajudar os moços a entenderem que as palavras que eles acham lindas podem ser muito ofensivas. Quem sabe esses discursos entram em extinção?"
(da Cynthia Semíramis, em seu blog: Os Machistas no Dia Internacional da Mulher)
Pra ir ainda mais a fundo e saber um tiquinho da história desta data comemorativa - que, diferentesmente de certas outras que são fruto de um calendário religioso ou de lobby de associações comerciárias - a Srta. Bia fez o favor de criar um belo post citando o livro de Nalu Faria, a quem interessar:

"Quero falar especialmente sobre o momento de luta em que vivemos. Por meio do grupo das Blogueiras Feministas diariamente disputamos espaços na internet. Construímos por meio de diferentes vozes, maneiras de pensar o feminismo. Portanto, o Dia da Mulher para mim tem um caráter de conquista e continuidade. É tempo de celebrar, mas também é hora de visualizar nossos desafios. Hoje, sou eternamente grata por todas as mulheres que contribuíram para que eu possa ter um blog. Pela liberdade que tenho de escrever na internet. No livro “As origens e a comemoração do Dia Internacional das Mulheres” de Ana Isabel Alvarez González, Nalu Faria (coordenadora da Sof – Sempreviva Organização Feminista), relata grande parte do meu sentimento atual em relação ao 8 de março na apresentação do livro. Por isso, reproduzo trechos de seu texto aqui" 
(da Bianca Cardoso, em Groselha News: Troque Sua Rosa Por Um Mundo Com Mais Igualdade)

No coletivo Jardim de Lilith, a Talita também recupera um pouco da história do Dia 8 de Março. Reflete, como todas nós, sobre os "parabéns" e "mimos", como bem disse Suely no texto indicado ali em cima.

"A questão é que o 08 de março deveria continuar a ser tomado como um marco de quanto as questões de gênero são endêmicas e prejudiciais a todo o desenvolvimento social. Não precisamos ganhar rosas vermelhas ou presentes ditos "femininos". Precisamos, unicamente, sermos tratadas com igualdade tanto fora quanto dentro de nosso ambiente de trabalho."
(da Talita Rodrigues da Silva, no Jardim de Lilith: Um Pouco Sobre História, Muito Sobre Lutas)

Pra fechar com chave de ouro este post, convoco as palavras da Luciana. Sempre na mosca, dizendo o que eu sinto por aí. Refletindo, sentido e marcando com uma força que emana da delicadeza, este momento crucial de crítica e reflexão feminista.

"Hoje, espalha-se por aí, é dia da mulher. E virão rosas. E receber rosas é a perfeita metáfora do que significa esse dia. Eu não tenho nada contra rosas, gosto até, mas o certo é que elas murcham brevemente depois de arrancadas. E esse dia da mulher, em rosas e eufóricos “parabéns por ser mulher” – como uma evidência biológica e não um vir a ser - é assim: um efêmero oba-oba que se extingue no cotidiano dos salários diferentes para fazer a mesma atividade, nas jornadas duplas e triplas de trabalho, na regulação externa sobre o corpo feminino, na violência sistemática e institucionalizada contra a mulher, na naturalização das expectativas de comportamento, na redução da mulher à maternidade, na demanda de docilidade constante...um conjunto complexo de situações que implicam na necessidade de uma luta constante e não um arroubo romantizado sobre uma entidade coletiva indiscriminada.
"Então, dão-nos rosas, como dizendo: aproveita que é só hoje. Pois eu digo: não, não me façam homenagens, não elogiem o que é um suposto em mim, não celebrem por mim e em meu nome. Pois eu digo Não. Não, desobrigada. Não quero ver meus sonhos, direitos e desejo em pétalas murchas, amanhã."
(da Luciana Nepomuceno, em Borboletas Nos Olhos: Metáfora Perfeita)

Um dia, uma semana, um ano, uma vida longa e de muita luta a cada uma de nós.