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terça-feira, 22 de maio de 2012

Relatora da ONU desmente bancada ruralista

Relatora da ONU desmente bancada ruralista






Brasília - Uma das principais justificativas usadas pelos parlamentares ruralistas que afirmam que o governo brasileiro “exagera” no combate ao trabalho escravo contemporâneo, procurando pelo em ovo, é que esse crime seria mal definido no Código Penal. Propuseram mudanças que, na prática, diminuiriam o número de situações que configuram a escravidão no país. E, para se embasar, utilizaram um relatório da armênia Gulnara Shahinian, relatora das Nações Unidas para as formas contemporâneas de escravidão. Dizem que ela mesmo afirma que o conceito não seria claro.
Pois bem, hoje a Folha de S.Paulo, em seu site, traz uma entrevista com a relatora em que ela diz que sua fala está sendo usada de forma equivocada pela bancada ruralista. Ela não apenas defende o artigo 149 do Código Penal, que trata do assunto, como diz que a punição para quem usa trabalho escravo no Brasil é “modesta”, defendendo a aprovação da proposta de emenda constitucional 438/2001, que prevê o confisco de propriedades em que esse crime for constatado e sua destinação à reforma agrária ou ao uso social urbano.
Há ruralistas na Câmara dos Deputados que dizem aceitar aprovação da PEC desde que seja também aprovada uma lei específica para conceituar trabalho escravo. Ou seja, somos a favor de punir homicídios, desde que seja usado o nosso conceito do que seja um homicídio. A proposta, que já foi aprovada em dois turnos no Senado e em primeiro turno na Câmara, está prevista para ir a votação nesta terça (22).
Gulnara não apenas defende o conceito brasileiro como diz que, no futuro, ele tem que ser ampliado ainda mais. O que deve arrepiar muitos parlamentares que já acham que o Brasil vai além do que deveria no combate a esse crime.
Posto, abaixo, trechos entrevista de Claudio Ângelo e João Carlos Magalhães com Gulnara Shahinian. Ela pode ser lida na íntegra aqui.
O que é a escravidão moderna? Como defini-la?É uma questão muito complexa. Eu gosto da definição que vocês têm no Código Penal, que é pôr a pessoa em “condições degradantes”. Condições inumanas. Porque a principal questão em torno da escravatura é pôr a pessoa nas condições mais inumanas possíveis. E, infelizmente, apesar de tudo o que se faz no mundo e das legislações, a escravidão ainda existe. Se você ler o relatório, verá que a escravidão existe em todas as partes do mundo. Não existe país imune a ela.
Então a sra. não concorda com a bancada ruralista no Congresso brasileiro quando ela diz que quer mudar a definição de trabalho escravo.De jeito nenhum. Francamente, fiquei muito feliz por eles estarem lendo o relatório e usando-o como ferramenta, mas acho que houve um grande mal-entendido. Eu estou muito feliz com o fato de que a definição de escravidão no Código Penal brasileiro vai além de padrões trabalhistas. Ela traz uma perspectiva de direitos humanos à legislação, o que é outro componente importantíssimo. Quando eu falei de uma definição mais clara, quis falar de acrescentar no futuro mais situações que acontecem no Brasil que podem ser qualificadas como trabalho escravo para ajudar os legisladores a reconhecer esses casos e puni-los.
Então seu objetivo é ampliar a definição?Não agora. Estou muito satisfeita com a definição atual e espero que ela seja usada, juntamente com a PEC. Mas eu sou de opinião de que no campo, hoje, os fiscais do Ministério do Trabalho e a polícia já têm tantas situações que podem ser qualificadas como escravidão que podem guiar o desenvolvimento de diretrizes definidoras. É um processo em contínuo desenvolvimento. Mas hoje estou feliz com o que está na lei.
E qual é a sua opinião sobre a provisão da PEC de expropriação de terras onde se pratica trabalho escravo? Não é uma punição severa demais?Acho que não. A punição é muito modesta na lei brasileira. A expropriação seria um sinal muito claro para outros países de que manter escravos hoje, no mundo moderno, é um crime contra a humanidade. E o fato de ser uma emenda constitucional é fundamental, porque atinge o país inteiro, em vez de passar por vários níveis de legislação local. Um dos buracos que eu encontrei na legislação brasileira, e uma das causas da impunidade, é que há níveis locais de legislação. É por isso que eu defendo no relatório que casos de escravidão sejam adjudicados apenas por lei federal.
E se a PEC passar com mudanças na definição mais estrita de trabalho escravo? Ela ainda seria eficaz?Absolutamente não. Não se trata apenas de violações trabalhistas, mas de violações à dignidade humana. Todos os elementos da lei devem estar lá para que ela seja eficaz.
A sra. falou que existe escravidão no mundo inteiro. Como o Brasil se compara a outras partes do mundo?(Risos) Eu sempre julgo os países pelo nível de compreensão do problema e por sua capacidade de agir. O Brasil, para mim, é um exemplo de boa práticas, de reconhecimento de que a escravidão existe e de ações contra ela nos níveis políticos mais altos. Eu levei a experiência do Brasil a vários países por onde viajei, como a Mauritânia, o Equador e o Peru. Eu acho que há interesse e vontade política. Há programas interessantes, mas, como em vários lugares, há lacunas a serem preenchidas.
Quais?Primeiro, a impunidade. A aplicação da lei às vezes é fraca. Quando os fiscais do Trabalho viajam pelo país, não há muitos casos que se transformam em ações criminais na Justiça. Outra questão são as contradições entre os tribunais federais e locais. Apenas seis Estados brasileiros têm programas de erradicação do trabalho escravo. Estive em Mato Grosso, que tem um programa estadual excelente. Há programas excelentes de erradicação da pobreza no Brasil, que precisam ser reforçados. O acesso à educação também. A intimidação e a violência contra os defensores dos direitos humanos é outra questão. E o processo de reabilitação das pessoas libertadas não é muito forte. A reforma agrária também é uma coisa que eu mencionaria, o processo não foi muito rápido.
Por que a escravidão persiste em países que se desenvolvem depressa, como o Brasil?As pessoas falam muito sobre o fator trabalho no desenvolvimento. Mas pouca gente fala sobre o fator humano. Não acho que o fator humano seja levado muito a sério e que se dê aos seres humanos o ambiente necessário para que desenvolvam suas habilidades. Os programas [governamentais] geralmente não atacam as raízes da escravidão, nem atingem os mais pobres dentre os pobres. E há, claro, a concorrência econômica, tentar obter a mão-de-obra mais barata.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alguns desenhos para ajudar a bancada ruralista entender o que é trabalho escravo

Alguns desenhos para ajudar a bancada ruralista entender o que é trabalho escravo

Trabalho escravo, de Lucas Barbosa de Oliveira, 6º ano, 11 anos de idade, da Escola Pedro Valle



Carvoaria, pelo estudante Jhon de Oliveira Araújo, 2º colegial, 17 anos, da Escola Marechal Rondon


Desenho elaborado pelo aluno Emerson Silva Martins, 5° ano, de 9 anos, da Escola Jean Piaget

Estamos livres, de Marcos Antonio Silva dos Santos, 9º ano, 14 anos, da Escola Jonathas P Athias


domingo, 29 de abril de 2012

Bancada ruralista: eles sabem dar uma festa teve até gincana

Bancada ruralista: eles sabem dar uma festa teve até gincana

Ruralistas fazem churrasco para comemorar o fim do país com aprovação do Código Florestal

Uma coisa é inegável quando se trata da bancada ruralista: eles sabem dar uma festa


Chico Dega
Uma coisa é inegável quando se trata da bancada ruralista: eles sabem dar uma festa. Depois de aprovarem o Código Florestal, para comemorar o futuro desmatamento desenfreado que ocorrerá no país, os deputados foram para a casa do deputado e relator do projeto do Código, Paulo Piau, onde fizeram um belo churrasco. “A presidente Dilma tentou vetar nosso churras, mas passamos por cima dela”. Disse rindo. Contando com o churrasco, essa já é a terceira derrota do Governo para a oposição. 
                                                        Folhapres
Além de se empanturrarem de carne, os ruralistas fizeram várias gincanas para relaxar, com destaque para a gincana da APP, na qual cada parlamentar, com uma motosserra na mão, podia desmatar à vontade a floresta nativa próxima a casa de Piau. Quem desmatasse mais em uma hora saía vencedor. “Gente, só tomem cuidado para não desmatarem os 15 metros perto dos rios. Eu tentei deixar a coisa livre pra gente se divertir, mas sabe como é, nem sempre a gente consegue tudo o que quer”. Ao fim dessa gincana, seguiu-se outra, na qual os ruralistas reflorestaram a área com eucaliptos. “Viu só? Nenhum prejuízo para o meio ambiente. Não sei do que esses ambientalistas reclamam tanto”, disse o líder da bancada Moreira Mendes.
Depois da comemoração, os deputados se reuniram, já pensando no próximo projeto para fazer com que o país afunde... quer dizer, progrida ainda mais. “Agora que legalizamos o desmatamento, não podemos parar. Achamos que é uma boa hora para drenar todos os rios do país e vender a água para o exterior, afinal tem água de sobra aqui. Mas não é hora de pensar em política, e sim de comemorar!” completou Moreira Mendes antes de enfiar os dentes em um pedaço de frango, batizado carinhosamente de “ambientalista atropelado”. 

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Bancada ruralista busca retroceder diversas conquistas da sociedade brasileira

Bancada ruralista busca retroceder diversas conquistas da sociedade brasileira



Por Vanessa Ramos
Da Página do MST
 
No meado do mês de março, a bancada ruralista tornou pública propostas que podem alterar principalmente o cenário político do Brasil e contribuir para o aumento da disparidade de classes, caso sejam aprovadas. Além da polêmica reforma do Código Florestal, o setor estabelece mudanças na legislação trabalhista, fundiária, tributária, indigenista e quilombola.
Os principais pontos da agenda são: reforma do Código Florestal; impedir a criação de unidades de conservação e a demarcação de áreas indígenas e quilombolas; revisar a legislação trabalhista; impedir atualizações dos índices de produtividade; autorizar apenas desapropriações de terras se houver recursos no orçamento da União; liberar organismos geneticamente modificados; facilitar o registro de agrotóxicos; e barrar a aprovação da PEC 300, que prevê o confisco de propriedades rurais onde for constatado trabalho escravo.
O objetivo dos ruralistas é aprovar todas essas bandeiras até 2015, período em que terminam os atuais mandatos. Para isso, eles contam com apoio de 217 parlamentares (deputados e senadores), que compõem a atual bancada ruralista, para priorizar o interesse do setor.

Desde que as propostas, referentes ao Código Florestal, tornaram-se públicas,  pesquisadores, cientistas e estudiosos têm apontado os principais problemas e os desafios futuros a serem enfrentados, caso seja aprovado pelo Senado e sancionado pela presidenta Dilma Roussef.
Segundo Zilda Ferreira, jornalista e especialista em educação ambiental, em entrevista à Página do MST, o novo Código Florestal fere as leis ambientais, além de significar um retrocesso às conquistas políticas do Brasil.
Para Zilda, “a Reforma Agrária e a soberania alimentar poderiam, efetivamente, promover a emancipação social do trabalhador brasileiro.”
Leia a entrevista:

O que as alterações no Código Florestal significam para o Brasil?
Se novo Código Ambiental for aprovado pelo Senado e sancionado
pela presidenta, várias catástrofes ambientais poderão ser desencadeadas, além de afetar a soberania política do país, em virtude do  lobby conservacionista. Vou destacar apenas os principais danos à natureza e o desrespeito às leias ambientais.
Primeiro: as mudanças nas regras de preservação da mata nativa nas propriedades rurais, que constam no novo Código Florestal, aprovado na Câmara, aumentam em 22 milhões de hectares desmatadas no país. O equivalente ao Estado do Paraná. Esse número representa as áreas de reserva legal que poderão ser desmatadas legalmente.

O texto permite que nenhum hectare daquilo que já foi desmatado ilegalmente precise ser restaurado. Além da reserva legal, o novo Código reduz a proteção das áreas de preservação permanente (APPs), que são as margens dos rios, encostas, topos dos morros e vegetação litorânea, como mangues e restingas.

O novo texto diz ainda que as APPs, ocupadas com agricultura, não precisam ser  recuperadas com vegetação nativa. Ou seja, um incentivo ao desrespeito às leis ambientais vigentes. Os argumentos dos ruralistas são muitos, mas não se sustentam. Não ouviram os cientistas e nem os ambientalistas. Essas mudanças, previstas no novo Código Florestal, vão aumentar: erosão dos solos; degradação dos mananciais (por falta de proteção das nascentes); aterramento de rios e lagos; redução da umidade relativa do ar; aumento do efeito-estufa; comprometimento da qualidade da água; perda da biodiversidade; desertificação; entre outros danos à Mãe Terra.
Além disso, geólogos, geógrafos além de outros especialistas apontaram como principal causa da tragédia na região serrana do Rio de Janeiro, ocorrida no início deste ano, que dizimou quase mil vidas, a ocupação irregular no topo dos morros e às margens dos rios. Com novo Código Florestal, essas ocupações passam ser legais.

Qual das mudanças no Código Florestal mais lhe preocupa?
É muito difícil apontar qual é mais importante e qual me preocupa mais. Elas estão todas, de certa forma, interligadas. Mas, creio que a proposta da reforma da legislação trabalhista seja o maior retrocesso às conquistas sociais.
Os defensores argumentam o custo elevado da contratação de mão-de-obra, pelo suposto excesso de encargos sociais. Querem corte nos direitos do trabalho. Como ninguém tem coragem de dizer que o trabalhador brasileiro ganha muito, atacam os encargos. Porém, o custo do trabalho no Brasil é notoriamente baixo, seja qual for o critério adotado para determinar o que é  salário e o que é encargo.
Como mostram todas as experiências internacionais, sem nenhuma exceção, a retirada de direitos trabalhistas não gera nenhum novo posto de trabalho. Essas demandas retratam a mentalidade escravocrata dos ruralistas.

A Reforma Agrária e a soberania alimentar poderiam, efetivamente, promover a emancipação social do trabalhador brasileira. Isso permitiria um país sem miséria. Mas, quebraria o modelo atual do agronegócio. Seria um sonho, principalmente para as crianças indígenas que morrem de fome no Mato Grosso do Sul, um dos maiores exportadores de commodities e onde impera a fortaleza do agronegócio. Este é o retrato do porquê a agenda ruralista contrapõe-se a Reforma Agrária.
A agenda da bancada ruralista contrapõe-se a Reforma Agrária?
Elas significam retrocesso às conquistas políticas. Uma verdadeira contrarrevolução jurídica, prevista nos países latino-americanos por Boaventura de Souza Santos. As elites, através do judiciário, pretendem barrar conquistas como: ações afirmativa; acesso à educação; demarcação de terras indígenas e de quilombolas; além de criminalizar os movimentos sociais, principalmente o MST, e anistia aos torturadores na ditadura.
Vão discutir reforma tributária sem onerar as grandes fortunas. A mudança no Código Florestal e a violência no campo têm como finalidade adiar o debate sobre a  Reforma Agrária e soberania alimentar, que possibilitariam a autonomia da classe trabalhadora.

As mudanças na legislação trabalhista e fundiária são decisivas na atual crise do capitalismo. É preciso mobilização para que a concentração de terra não aumente ainda mais e a força de trabalho não seja escravizada, ou seja, que os donos do capital não se apropriem da natureza e de nossa força de trabalho.