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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O capitalismo zumbi de FHC, Serra, Kassab & seus estertores


O capitalismo zumbi de FHC, Serra, Kassab & seus estertores

“Cada vez que FHC se pronuncia, aumenta mais o apoio a Lula e Dilma"
Datafolha: no fim do mandato, Kassab tem rejeição recorde de 48% dos eleitores; Haddad tecnicamente empatado com Russomano (que é antes o voto da rejeição paulistana – na hora do vamos ver, o sujeito desaparece) e Serra afunda! A herança do neoliberalismo: 75 milhões de jovens estão desempregados no mundo; 200 milhões trabalham por menos de US$2 ao dia; 12,7% é a média do desemprego nessa faixa; ela atinge 22, 6% na Europa (52% na Espanha e 54% na Grécia)/ Dilma afronta o PSDB pela 2ª vez em 48 horas: Brasil taxa importações /O artigo de domingo passado de FHC noEstadão é uma das manifestações bizarras do que falava Gramsci, aliás,o que poderia haver de mais mórbido nesse arrastado colapso neoliberal do que um ex-presidente tucano vir a público pontificar lições de ética, finanças e desenvolvimento, tendo como “paradigma” o governo e o credo que já foi para o ralo da história há quatro anos?
Mas é sobretudo contra os anacronismos de FHC (e os estertores dum neoliberalismo zumbi, tipo morre-não-morre) que clamam os editoriais da Carta Maior, os artigos de Saul Leblon e Emir Sader desta semana. Respaldados nos novos índices do Datafolha, é claro.
Sem esquecer a gafe mais recente – e mais anacrônica – do próprio FHC que, em conferência ao lado do ex-presidente Clinton (seu muso), ficou putíssimo e contradisse (com dados do seu pífio governo) os rasgados elogios que Clinton (agora ex-muso) fez ao Brasil sob o governo Lula.
Segundo Leblon, FHC, Serra e outros se valem do limbo pegajoso do presente para insistir em políticas e agendas furadíssimas, mas ainda não substituídas no plano mundial – o que dificulta sua ruptura definitiva também no Brasil. A quebra do banco Lehamn Brothers completa quatro anos no próximo dia 15. A falência do 4º banco de investimento dos EUA rompeu o sistema financeiro mundial e desencadeou o naufrágio no qual nos debatemos desde 2008.
Oportunamente, esta semana começa também a convenção do Partido Democrata nos EUA, da qual Obama sairá candidato à reeleição. Visto como esperança em meio ao terremoto de 2008, o “democrata” também foi naufragando no mar das próprias contradições, sendo apenas mais suportável (ou menos pior) como candidato do que seu antecessor Bush, ou o adversário. Mas o “picolé de chocolate diet” norte-americano (uma espécie de versão ianque do picolé de xuxu Alckmin) é insuficiente para aliviar o quadro indigesto da maior crise capitalista desde 1929.
George Soros, megaespeculador & superpicareta global (mas que por isso mesmo sabe das coisas), declarou recentemente que teme pelo desfecho político da deterioração em marcha. Sobretudo na Europa, lotada por governos histericamente ortodoxos. Profundamente pessimista com o futuro do euro, vítima da incapacidade alemã de se assumir como “salvadora da UE” (o que seria pedir MUITO do capitalismo prussiano de Ângela Merkel, porra, a Alemanha perdeu duas guerras e ISTO não desceu!) Soros, a 20ª maior fortuna do planeta, adverte que “assim como aconteceu depois de 29, o salve-se quem puder será entremeado de nacionalismos econômicos e totalitarismo político”.
O extremismo das políticas de mercado dobrou a aposta neoliberal na perseguição do “arrocho infinito”. O resultado desespera eleitores que se voltaram à direita desde 2008, vítima já do salve-se quem puder supracitado: Espanha, Portugal, Itália, Grécia, etc., afundam nas águas do desemprego generalizado (e consequente aumento de violência), das revoltas populares, dos juros extorsivos.
Ninguém pode (nem deve) levar a sério “os esforços” do direitista Rajoy para esfolar a Espanha até o osso, em troca de maior confiança dos mercados. Aliás, os mercados tiraram mais de 240 bi de euros da economia espanhola só no primeiro semestre deste ano, malgrado ter “feito a lição de casa” (igualzinho a FHC). Na França, o socialista recém-eleito François Hollande vê o espaço de seu governo estreitar-se sob duplo torniquete: de um lado, a voz de três milhões de desempregados; do outro, as pressões do bureau do euro para cortar 33 bilhões do orçamento público.
Além dos “mercados”, ninguém ganha nada com isso e todos se ferram. Uma lição histórica que o mundo está custando a assimilar. Na sala VIP do mundo, o ambiente é asfixiante, mas a brisa da esperança que sopra fracamente na América Latina ainda é insuficiente para determinar uma rota de longo prazo às margens do engessamento neoliberal. Afinal, a AL conseguiu, em pleno colapso, preservar baixas taxas de pobreza e desemprego, com alguma retomada de investimento.
Contudo, os avanços sociais tendem a se tornar mais difíceis. Sobretudo porque, após vitórias significativas contra a pobreza, ir além implica afrontar a desigualdade e isto requer mudanças estruturais na alocação da riqueza existente, seja na esfera fundiária, urbana, patrimonial ou financeira.
A carga fiscal média vigente na AL, de 18% a 19%, trava esse passo. (Dados da CEPAL, “Mudança Estrutural para a Igualdade: Uma Visão Integrada do Desenvolvimento”). Na Europa e na América Latina, incluindo-se o caso específico do Brasil, a alavanca fiscal emperrada reflete um flanco mais grave: como lidar com o desarmamento político das forças sociais que deveriam assumir a tarefa de acionar o papel hegemônico da iniciativa pública?
Ainda segundo Leblon, “a questão que se coloca aos partidos progressistas é de urgência transparente: quanto tempo o futuro ainda pode esperar antes que manifestações mórbidas, como a de FHC, tentem se impor à sociedade com sua agenda zumbi?”
Para Emir Sader, não é por acaso que FHC é o político mais repudiado pelos brasileiros. Já na eleição de 2002, Serra distanciou-se dele. Em 2006, as privatizações, colocadas como tema central no segundo turno, levaram Alckmin a uma derrota acachapante. Em 2010, de novo Serra nem mencionou FHC, tentando aparecer como “o continuador do governo Lula”, contribuindo assim para sua própria desmoralização definitiva.
Contudo, FHC não ouve ninguém, despreza os que o cercam, mas sofre da teoria da dependência da dor de cotovelo. Dedica as turvas forças mentais que lhe restam para atacar Lula, cujo sucesso – espelhado no apoio de 69,8% dos brasileiros que querem sua volta como presidente em 2014 – lhe é insuportável. Sem contar que nenhuma pesquisa sequer faz a mesma consulta sobre o FHC – para não massacrá-lo de vez.
Seus coleguinhas tentam convencê-lo a não escrever mais, a deixar de se expor à execração publica, a se retirar definitivamente da vida pública, mas ele não ouve: seu orgulho ferido grita mais alto, mesmo assim, quem lê seus artigos? E cada vez que ele se pronuncia, aumenta o apoio a Lula e Dilma.
Eis a triste “eficácia” do capitalismo zumbi praticado por FHC.
A verdadeira – e tristíssima – herança maldita do neoliberalismo? A mercantilização total do ser humano, a covardia, o desarmamento moral e político, o “individualismo” babaca e a desolidarização em massa da humanidade.

sábado, 1 de setembro de 2012

Kassab, o sexo e a cidade

Kassab, o sexo e a cidade


Xico Sá




Ficou suspenso no ar o sorriso mais bonito que já ganhei na noite. Era Ângela no balanço sobre o balcão da boate Kilt. Tocava um Rolling Stones.

Foi a derradeira vez que estive no castelo dos desejos clandestinos da rua Nestor Pestana. Levara um gringo viejo, amigo madrileño da crônica esportiva, para testemunhar o melhor show erótico do planeta.

O visitante não é uma desculpa. Sempre frequentei, nas viagens ao fim da noite de SP, na buena, este tipo de ambiente.

Como todo mundo já sabia, a Kilt foi fechada, depois de decreto de desapropriação, pelo Sr. Kassab. Será demolida.

Não podemos negar que tem um quê de Gengis Khan (séc. XIII) na política do sr. K. Tudo que desconhece ou não gosta, ele destroi.

A Kilt era a última das casas importantes do gênero na região central da cidade. A equipe do prefeito desapropriou o castelinho sob a desculpa da intervenção urbana na praça Roosevelt.

Depois do escândalo da “máfia do alvará” fica difícil acreditar que a perseguição às boates e bares seja apenas a assepsia moral do kassabismo –o que já seria deprimente- ou, na melhor das hipóteses, ousados planos urbanísticos.

Siga o dinheiro, amigo, como recomenda o jornalismo investigativo americano.

Siga o rastro dos conjuntos imobiliários gigantes. Onde pequenas casas são fechadas, vem sempre uma placa de uma megaobra privada um tempo depois. Ao lacrar estabelecimentos, automaticamente a prefeitura facilita a venda, por baixo custo, dos imóveis.

Em ano de campanha eleitoral, negócios como estes costumam abastecer de grana os cofres dos candidatos.

Queria este cronista, que cobriu pelo menos dez eleições de peso como repórter, estar viajando na maionese conspiratória. Quem dera.

Kassab vai além do simplesmente folclórico –com suas proibições malucas, veja aqui a lista que publiquei em outro post.

Só me resta lembrar do sorriso de Ângela no balancê da Kilt. Guardo agora aquele sorriso pendurado no trapézio do meu cérebro. Como o amigo Brás Cubas protegia as suas obsessões e ideias fixas.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Onde vai parar a política higienista de Kassab?



Onde vai parar a política higienista de Kassab?


Raquel Rolnik

No final do mês passado, circulou na imprensa a informação de que a Prefeitura de São Paulo quer proibir organizações assistenciais de distribuir sopão para moradores de rua. O secretário municipal de Segurança Urbana, Edsom Ortega, chegou a afirmar que as instituições que descumprissem a determinação seriam punidas. Hoje são 48 as instituições que oferecem este serviço na capital paulista.
Depois de uma forte repercussão nas redes sociais, a Prefeitura divulgou uma nota dizendo que “não cogita proibir a distribuição de alimentos por ONGs na região central da cidade”. O comunicado diz ainda que “O que existe é a proposta de que as entidades ocupem espaços públicos destinados para o atendimento às pessoas em situação de rua, como as tendas instaladas pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. A Prefeitura entende que a união das ações das ONGs com as dos agentes sociais têm potencial para tornar ainda mais eficazes as políticas de reinserção social”.
É possível que, neste caso, tenha havido um mal entendido causado pela declaração do secretário Edsom Ortega, que já tratou de desdizer o que havia afirmado anteriormente. Ainda assim, 300 pessoas protestaram no dia 6 de julho em frente à Prefeitura, na região central da cidade, contra a tentativa de proibição da distribuição do sopão. Batizado na redes sociais de “Sopão da gente diferenciada”, em referência ao “Churrascão da gente diferenciada” de Higienópolis, o protesto chamou atenção também para as políticas higienistas do prefeito Gilberto Kassab.
Há vários exemplos recentes desta,política: a ação policial para retirar usuários de crack da região da Luz em janeiro deste ano, e, mais recentemente, a tentativa da Prefeitura de cassar a licença de trabalho de ambulantes, assunto que também já comentei aqui no blog.
Aliás, no final do mês passado, o Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu manter a permissão de trabalho de ambulantes em diversas regiões da cidade. Em maio, quando a prefeitura cassou mais de 4 mil permissões, a Defensoria entrou com uma ação na Justiça em favor dos ambulantes. Depois de várias liminares favorecendo um e outro lado, a Justiça finalmente tomou uma decisão a favor dos trabalhadores. A Prefeitura determinou, então, sete locais para o trabalho dos ambulantes, o que desagradou novamente os trabalhadores, que não consideram adequadas as novas localizações.
O que está em jogo neste conjunto de ações por parte da Prefeitura é uma visão securitária e higienista do espaço urbano, assim como sua enorme dificuldade de tratar temas que são complexos – como o vício do crack ou a situação do morador de rua – reduzindo-os simplesmente à presença ou não destas pessoas em determinados espaços públicos.

domingo, 1 de julho de 2012

Mais de 50% dos entrevistados não soube apontar nenhuma área que Kassab atua melhor

Mais de 50% dos entrevistados não soube apontar nenhuma área que Kassab atua melhor


Note, no gráfico abaixo, que, em quase tudo, os governos Erundina e Marta tem os menores índices.


Datafolha revela os 11 principais problemas da cidade para eleitores


Há 23 anos o transporte público e a violência são as principais queixas dos eleitores paulistanos. Seis prefeitos depois, de diferentes partidos, ambas continuam sem solução e atualmente estão, ao lado do sistema de saúde, no topo da lista de problemas.

A qualidade do atendimento em postos e hospitais públicos é hoje o maior motivo de insatisfação na capital. A área é apontada como o principal problema da rede de serviços municipais por 26% dos eleitores, segundo pesquisa Datafolha.

As entrevistas ocorreram nos dias 13 e 14 de junho com 1.077 pessoas. Foram ouvidos homens e mulheres de todas as regiões da cidade, com mais de 16 anos e que votam aqui.
"As respostas são espontâneas", explica o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino. "Isso mostra como a percepção de piora na saúde aumentou muito de 2008 para cá."

"A avaliação é significativa porque ela é constante", diz Paulino. "E, no caso da segurança, desde 2007 ela fica nesse mesmo patamar. O medo acaba sendo uma marca da cidade." O resultado, acrescenta, não costuma sofrer influência de ondas de crime, como a recente série de arrastões a restaurantes e condomínios.

Se por um lado as três áreas concentram a preocupação de mais da metade do eleitorado, questões tradicionais também aparecem, como educação, enchente e trânsito.
Juca Varella - 27.mar.2012/Folhapress
Vale do Anhangabaú alagado, em março, após enxurrada vinda da avenida Nove de Julho, na região central
Vale do Anhangabaú alagado, em março, após enxurrada vinda da avenida Nove de Julho, na região central
Na mesma pesquisa, o Datafolha perguntou aos entrevistados em qual área Gilberto Kassab (PSD) está se saindo melhor. Metade não soube apontar nenhuma. "É uma evidência de que a população está reprovando a gestão atual", afirma Paulino.

Na última quinta-feira, o prefeito fez o penúltimo balanço do seu programa de metas, instituído em 2009 para melhorar a infraestrutura da cidade e a vida dos moradores.

Com mais seis meses de mandato, 84 dos 223 objetivos foram concluídos, 138 estão em andamento e um deles, a transferência de verbas para o Rodoanel, não será cumprido. 

"Existe bastante entusiasmo pelos resultados apresentados", comemorou Kassab na ocasião.

A cinco dias do início da campanha, a sãopaulo mostra quais são os 11 principais problemas da cidade e apresenta soluções, apontadas por 40 especialistas entrevistados.

Falta de investimento e de vontade política são os motivos da permanência das mesmas reclamações por tantos anos. Sem essas duas iniciativas, nada mudará. "A trajetória não é fácil: precisa de recursos e de estrutura", diz Paulo Puccini, especialista em saúde pública.

Nas ruas, faltam recursos para destravar o nó da mobilidade. "Deixamos o problema acontecer e ficamos esperando uma solução mágica", afirma o professor Jaime Waisman, da Politécnica da USP.

A origem das falhas é antiga e revela a falta de planejamento. "Como crescemos demais e a infraestrutura não acompanhou, temos deficiência de segurança pública assim como de mobilidade", avalia o sociólogo Marcelo Batista Nery, do Núcleo de Estudos da Violência da USP.

O que fazer para mudar? Atitude política, diz o arquiteto Jaime Lerner. "Quando você melhora a qualidade de vida da população, o custo político vale a pena."

Confira os principais problemas e as soluções apontadas por especialistas:
COLABOROU REGIANE TEIXEIRA


Folha de  São Paulo

sexta-feira, 29 de junho de 2012

São Paulo, uma cidade para poucos

São Paulo, uma cidade para poucos


Em janeiro, com o projeto de retirada “a força” dos habitantes da cracolândia, comentei como o centro de São Paulo está sendo alvo de ações de higienismo, com foco sempre na segurança, gerando uma “venda” de liberdades em nome do isolamento (o texto é esse). Tenho defendido nesse espaço, há algum tempo, que a privação das liberdades individuais em nome da “sensação de segurança” não é algo tolerável, e que não podemos simplesmente, enquanto sociedade, “jogar para longe” o problema da pobreza e da desigualdade social, reproduzindo e amplificando o velho problema das cidades latino-americanas, construídas em um ambiente de segregação, com clara separação entre ricos, morando nas regiões nobres, e pobres, morando nas periferias. São Paulo é um exemplo claro dessa separação.


Distrubuição de Sopa no Centro de SP pode ser proibida (Fonte: estadao.com.br)
Nas últimas semanas, tivemos três amostras dessa política de restrição de direitos em São Paulo:
1) Camelôs no centro da cidade: em abril, Kassab cassou a licença de todos os camelôs do centro de São Paulo, dando um mês para os mesmos saírem de regiões com longo histórico de atuação, como a Rua 25 de Março e a Rua Santa Ifigênia, próximas à Estação da Luz. A proibição foi tão unilateral que até as licenças de trabalho para deficientes físicos foram cassadas. A Defensoria Pública de São Paulo entrou com processo contra a prefeitura da cidade, e ontem os camelôs puderam voltar ao trabalho, por ordem da Justiça. A prefeitura deve recorrer.
2) Bancas de jornal na Praça da Sé: donos de bancas de jornal, na Praça da Sé, lidam com ameaças constantes e tiveram suas licenças cassadas sem o respeito à defesa prévia. Comerciantes com negócios familiares de décadas na região, só permanecem em funcionamento por meio de liminar, devido à defasada legislação da prefeitura, que dá margem a perseguições, e, nesses casos em específico, é cumprida à risca. Os próprios fiscais da área já admitiram que o objetivo é “limpar a área”.
3) A prefeitura quer proibir a distribuição gratuita de sopão para moradores de rua na região do centro. O objetivo é “limpar as ruas”, forçando os moradores a procurarem os albergues municipais. A caridade pode ser punida pela vigilância sanitária por “sujar as ruas”, dentre outras coisas. Vale lembrar que a insensibilidade não é inédita: a prefeitura já usou a “dor e o sofrimento” para tentar arrancar os moradores da região das ruas. Aparentemente, sem nenhum sucesso.
O Objetivo
É muito inocente afirmar que Kassab faz tudo isso por “maldade”. Kassab, como muitos outros gestores públicos, pensa em São Paulo como uma “cidade-vitrine”, impregnada na lógica perversa de que territórios “disputam investimentos entre si”. E essa fixação por tornar São Paulo uma cidade “que sedie eventos” arranca todo e qualquer escrúpulo do administrador público no trato com o cidadão.
São Paulo vai sediar a abertura da Copa de 2014, com um custo altíssimo (a construção do estádio em Itaquera). Mas sofreu uma enorme derrota política ao perder, no ano passado, ocentro de imprensa para o Rio de Janeiro. Isso quer dizer que milhares de jornalistas, que poderiam passar um mês hospedados em São Paulo, fornecendo material para seus órgãos de imprensa espalhados pelo mundo, estarão no Rio de Janeiro. Que também terá outra enorme “vantagem competitiva” em relação a São Paulo: sediará as Olimpíadas, em 2016.
Essa lógica concorrencial, aplicada aos municípios, fez São Paulo pleitear o maior evento, em relevância internacional, depois da Copa do Mundo e da Olimpíada: a Expo 2020. Para isso, Kassab prometeu a construção de um enorme Parque de Exposições em Pirituba.
Só que essa lógica tem todo um lado próprio. Entidades como a FIFA e o BIE (Bureau Internacional de Exposições, que organiza as “EXPOs” pelo mundo) contam com toda uma série de exigências. Além disso, tais eventos, que atraem pessoas de quase todos os países, promovem o turismo no país. Para isso, é necessária uma “aparência de cidade” limpa e exemplar. E, nesse contexto, o centro de São Paulo, decadente e esquecido pelas autoridades por décadas, é uma ferida no coração da cidade.
Os Eventos
Em tese, sediar tais eventos seria algo muito bom para a cidade. Em uma observação inicial, promoveria o investimento em infra-estrutura e o desenvolvimento econômico, que são praticamente dois mantras dos governantes de países emergentes nos últimos anos.
No entanto, na prática, o efeito é inverso. A história prova que, se a cidade não conta com uma estrutura prévia, tais eventos só aumentam a segregação. Prova disso foi a Olimpíada de Beijing, em 2008, e a Expo 2010 em Shangai. Em ambos os eventos, operários foram expulsos das cidades, apesar das óbvias negativas governamentais. Em Londres, também existem denúncias nesse sentido.
Olimpíadas, Copas do Mundo e exposições são, cada vez mais, eventos que privilegiam a sociedade do espetáculo. A sociedade da ostentação, em que cidades e países disputam entre si, de forma arrogante, o privilégio de ter organizado um evento “maior” ou “melhor”. Tal movimento tem marcos específicos:
1) World Expo’ 88, em Brisbane: marcou a retomada dos grandes eventos internacionais organizados pelo BIE. A maioria dos eventos organizados entre 1970 e 1986 eram feiras de classe II, sem tanta abrangência. O movimento de ampliação começou em Brisbane, em 1988, mas o grande marco foi a Expo’ 1992, que foi fundamental na reformulação urbana de Sevilla e serviu de parâmetro para que as cidades sedes das demais exposições de “nível I” passassem pelas mesmas intervenções urbanas.
2) Olimpíadas de Barcelona, em 1992: o único caso de reformulação profunda proporcionada por uma Olimpíada que deu certo. Barcelona virou símbolo de cidade moderna, e até hoje os profissionais que participaram da reformulação da cidade atuam em projetos do tipo. No entanto, a espetacularização da cidade, que deveria ser um fenômeno restrito ao caso catalão (e, realmente, fez muito bem para a cidade), virou a regra para o COI: para sediar uma Olimpíada, uma cidade deve ter um megaprojeto, caríssimo, que inclua não apenas o parque esportivo, mas toda a estrutura urbana. Em alguns casos, como o de Atenas, tais exigências, aliadas com uma execução precária, contribuíram para levar o país à bancarrota.
3) Copa do Mundo dos EUA, em 1994: antes da Copa do Mundo dos EUA, não existiam “exigências FIFA”, e nem a exploração de marketing excessiva em torno dos estádios. Prova disso é o fato de que a Copa de 1982, por exemplo, foi disputada em 17 estádios, alguns sem nenhuma intervenção. Em 1986, o México organizou a Copa do Mundo em um ano, após a desistência da Colômbia, por conta dos transtornos ocasionados pela erupção do Nevado del Ruiz.
O fato é que, no começo da década de 90, não existia futebol profissional nos EUA. Para sediar a Copa do Mundo, que deveria “apresentar o soccer para os EUA”, foram necessários enormes investimentos em infra-estrutura, seja na construção ou na adaptação de estádios. O problema é que a FIFA, sob o comando de João Havelange, e, depois, de Sepp Blatter (que assumiu em 1998), tornou a quantidade absurda de investimentos realizada pelos EUA um padrão. Prova disso é que o mesmo esforço de construção de “estádios-espetáculo” foi feito para a Copa de 2002, no Japão e na Coréia do Sul. E replicado na Alemanha, na África do Sul, e, agora,no Brasil.
A Reflexão
Esses três exemplos mostram que, para sediar “grandes eventos”, além de fazer investimentos absurdos e desnecessários, você precisa de uma cidade “com aparência de moderna”. Limpa, asséptica, inodora, insípida. Sem graça, no final das contas.
O que Kassab está tentando fazer em São Paulo é inescrupuloso, e causa asco, de fato. Mas é só um reflexo da lógica que o capitalismo pós-moderno impõe para o desenvolvimento urbano. Só que essa obsessão pelo desenvolvimento não pode adquirir os contornos que tem adquirido em São Paulo: em nome de uma cidade “limpa”, a população é deslocada, expulsa, jogada na periferia, onde as exposições e os eventos internacionais não chegam.
Com isso, São Paulo, cada vez mais, torna-se uma cidade para poucos. Uma cidade que se divide em dois: de um lado, a cidade “oficial”, lugar do espetáculo, onde ocorrem os grandes eventos, o “cartão-postal” de São Paulo para o mundo. Do outro, a cidade segregada, suja, violenta, da repressão, sem condições básicas de vida, a periferia esquecida pela administração.
Para os que desfrutam do poder econômico e podem pagar pelas benesses da “cidade oficial”, São Paulo é maravilhosa, sedia eventos lindos, e é um dos melhores lugares do mundo. Para quem está na periferia segregada, oprimido, sem seus direitos fundamentais, resta a violência e o descaso por parte do poder público. É para esses lugares que Kassab quer levar os mendigos, os camelôs, até mesmo os donos de bancas de jornal. Em nome de sua cidade limpa, de sua cidade higienizada e sem graça.
E é por isso que São Paulo está cada dia mais insuportável e violenta. Essa relação de segregação é insustentável, indisfarçável e desconfortável para todos. É impossível segmentar a violência, por mais que as pessoas contratem seguranças particulares e morem em casas com muros de 4 metros. A relação de conflito, antes latente, se expõe de forma cruel, sem máscaras, em toda a sua complexidade. E, infelizmente, a população começa a achar comum atitudes que beiram o fascismo, como impedir a caridade para os moradores de rua.
A solução? Repensar a cidade, incluir as pessoas, desconcentrar os investimentos, não se guiar pela “lógica do espetáculo”, e sim pela “lógica da inclusão”. Nenhuma cidade estará preparada para ser uma “cidade-espetáculo” enquanto todos os seus moradores não forem efetivamente cidadãos,  com todos os seus direitos preservados e com todas as suas necessidades básicas atendidas. Enquanto os administradores municipais ignorarem isso, teremos que lidar com situações extremas, esdrúxulas e inaceitáveis, como a proibição do comércio ou da caridade.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Bora, gente: Internautas organizam “sopaço” em frente à casa de Kassab

Bora, gente: Internautas organizam “sopaço” em frente à casa de Kassab



Internautas estão planejando para o dia 6 de julho um "sopaço" em frente à casa do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab. O protesto é contra a proibição de distribuição de sopa a moradores de rua nas vias públicas da região central da cidade. Atualmente, 48 instituições oferecem voluntariamente o sopão e, após determinação da prefeitura, terão de distribuir o alimento em nove tendas, conhecidas como espaços de convivência social. A ideia é que o morador de rua fique mais tempo em abrigos. 
Em nota, a "Prefeitura de São Paulo informa que não cogita proibir a distribuição de alimentos por ONGs na região central da cidade. O que existe é a proposta de que as entidades ocupem espaços públicos destinados para o atendimento às pessoas em situação de rua, como as tendas instaladas pela Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. A prefeitura entende que a união das ações das OGNs com as dos agentes sociais têm potencial para tornar ainda mais eficazes as políticas de reinserção social".
Até a tarde desta quinta-feira, 8.700 pessoas haviam sido convidadas e cerca de mil, confirmado presença.
Churrascão da gente diferenciada
Em maio do ano passado, internautas marcaram o  "churrascão da Gente Diferenciada" no bairro Higienópolis após o anúncio de que o Metrô de São Paulo havia mudado de local que abrigaria uma das suas estações, no tradicional bairro de elite da capital paulista. 
Um grupo de moradores do bairro iniciou um movimento com o objetivo de impedir a construção da estação Angélica no local que estava no projeto. Um abaixo-assinado elaborado pela Associação Defenda Higienópolis foi espalhado por condomínios da região contestando o projeto. No mesmo documento, os moradores manifestavam a preocupação de que a obra aumente o fluxo de pessoas na região "especialmente em dias de jogos e shows" e de "ocorrências indesejáveis".

No IG

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Antes fosse penetra: O penetra indigesto na festa do PT

Antes fosse penetra, foi convidado: O penetra indigesto na festa do PT


Não gostei da festa dos 32 anos do PT, em Brasília. Senti falta de juventude, vibração. Aquela alegria das antigas.Tô ficando velho? Estamos ficando velhos? Cadê os jovens petistas e suas cores? Festa cinzenta aquela. E os discursos então? Marco Maia até que tentou vibrar, na marra, no grito. Não convenceu nem contagiou. Rui Falcão parecia um zumbi anestesiado. Dilma previsível, visivelmente cansada, burocrática. Definitivamente, discursos inflamados não são o seu forte. Aliás, só teve discurso-sedativo, sem novidades: tiramos 28 milhões da miséria! Fazem dois anos que repetimos a mesma coisa. 28 milhões, primeiro operário presidente, primeira mulher presidenta… Ótimo! Parabéns pra nós, pro PT… Mas quais são as novidades? Qual é o plano? Alguma idéia nova que não fique mofando ao lado do marco regulatório da mídia? Será que só a economia interessa? Precisamos politizar o diálogo com o povo brasileiro.
A ausência do Lula foi monumental. Nunca o PT esteve tão desfigurado!
Pra piorar tudo, apareceu o Kassab. Convidado ou penetra? Tá de brincadeira? Estão nos testando? Talvez estejam sim, talvez estejam medindo o tamanho da rejeição da militância. Não sei se era o som ruim, a minha conexão ou falta de entusiasmo geral, mas nem a vaia que Kassab recebeu foi convincente: tão fraquinha e despretensiosa que acho que ele saiu de lá acreditando que pode superar nossa rejeição. Vai sonhando, vai! É mais fácil água e óleo se mesclarem que ele ser aceito. Além disso, ele também despreza o PT e os petistas. Mas, ossos do ofício, pensa que tem que nos engolir pra subir na vida. Que pretensão a dele! Costela de Serra, seu destino é perder.
Kassab tem o mesmo DNA do criador: aposta que o tempo apaga seus erros, que a memória é curta etc. Aliás todos eles pensam da mesma forma. Alckmin, Serra, Kassab… Como se não existissem milhares de vídeos no Youtube registrando as enchentes, a higienização, a barbárie de seus ataques à população, a bolinha de papel que venceu a Globo…
O plano do prefeito paulistano é óbvio até para uma criança. Juntou uma gangue de mercenários como ele próprio ao redor de uma sigla que não é partido, nem é social, muito menos democrático. Pretende disputar o governo de SP em 2014. Por isso se oferece como uma prostituta ao PT e ao PSDB. É uma jogada rasa, de um sujeito que foi alçado por Serra no improviso de 2006 e tornou-se um clone mal acabado do seu criador. Pensa que tem “carreira” política pela frente.
Sei não… Lula, mais do que ninguém, conhece a militância do PT. Sabe que jamais vamos engolir o Kassab. Mesmo que uma chapa com o PSD signifique ganhar a prefeitura de São Paulo. Os “meios que justificam os fins” tem limites. Kassab é um deles.
Teoricamente, quando deixa de ser presidente e pode, assim, observar a cena política com mais clareza, sem o peso e a pressão do cargo, é de se esperar que um político que tem 40 anos de estrada, ainda mais com a biografia que carrega, desenvolva mais esperteza e construa melhores estratégias. Então o que acontece na cabeça de Lula? Talvez tenha jogado verde ao não dizer não ao Kassab. Talvez não se trate de quem vai ficar com Kassab, mas de quem vai conseguir NÃO ficar com ele! Talvez a ausência de Lula na festa do PT não tenha sido ordem médica… O PiG e a oposição adorariam registrar Lula e Kassab lado a lado, cúmplices do projeto prefeitura de São Paulo, em plena comemoração dos 32 anos do PT. Diriam que o PT faz qualquer negócio pelo poder, etc etc. Lula não deu este gostinho a eles…
Além disso, convenhamos: Haddad é um baita de um candidato. Além de carismático tem o Enem e o PróUni e seus números fantásticos pra mostrar – mesmo que o PiG tente avacalhar ano após ano. A educação é uma bandeira que seduz mais que qualquer outra. Sem contar que o ex-ministro da educação tem o maior cabo eleitoral do planeta. Quem precisa de um vice pinçado da tropa do Kassab?
Uma coisa é certa em tudo isso: essa questão vai ficar pairando no ar até o prazo limite. As pesquisas vão determinar o destino de Kassab. Quanto ao PT, espera-se que o limite seja assinar um tratado de não agressão. O que exigiria um contorcionismo gigantesco por parte de seu marketing.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

"O DEM fez um grande investimento em Kassab", diz Maia

Ó! Quem não vai gostar dessa comparação são os transexuais, porque ninguém merece ser comparado com os Demos.


"O DEM fez um grande investimento em Kassab", diz Maia

Rodrigo Maia: presidente do DEM diz não chantagear mas não garante que o partido não vá pedir o mandato de volta

Ana Paula Grabois -Valor

Em meio à disputa interna com o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, o presidente do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ), diz que a legenda se tornaria “transexual” e “transformista” em caso de fusão com o PMDB. Maia defende a manutenção da aliança com o PSDB de olho no projeto presidencial de 2014 e cita o senador Aécio Neves (PSDB-MG) como um favorito.

Mais fortalecido depois da vitória de ACM Neto (BA) para a liderança do DEM da Câmara, vai trabalhar pelo lançamento de uma chapa única em torno do senador José Agripino Maia (RN) à presidência da legenda, na convenção de 15 de março. O grupo de Kassab, com apoio do ex-senador Jorge Bornhausen (SC), tenta lançar o ex-senador Marco Maciel (PE) – que não conseguiu a reeleição no ano passado – para ocupar o posto.

Filho de Cesar Maia, ex-prefeito do Rio que também não conseguiu se eleger ao Senado em 2010 pelo DEM, Maia reconhece os problemas do partido nas últimas eleições. A saída, diz, é manter-se na “centro-direita” e unificar o discurso à classe média. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por telefone ao Valor:

Valor: Como o senhor vê o DEM, dividido em dois grupos?

Rodrigo Maia: Saímos das eleições com resultado aquém do que gostaríamos. Esse é o pano de fundo da briga. Mas saímos melhor do que imaginavam. Tivemos um resultado razoável naquilo que foi possível. Elegemos dois governadores com uma candidatura presidencial muito frágil no primeiro turno, principalmente nas regiões onde o Democratas é mais forte, no Nordeste. Tudo isso somado ao auge de popularidade do ex-presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva]. Nesses anos todos, fomos o principal contraponto dele.

Valor: Houve problemas em 2010?

Maia: Não. Trabalhamos juntos a eleição inteira em todos os Estados, inclusive em Santa Catarina, quando o PSDB quase declarou apoio a Angela Amin. Fomos eu e Jorge [Bornhausen] juntos ao Sérgio Guerra e conseguimos reverter uma situação quase irreversível. No Espírito Santo, trabalhamos da forma que o Serra queria, pedido pelo Kassab e pelo Jorge, apoiando o candidato do PSDB. A única questão que tinha ficado é que eu havia declarado em outubro de 2009 ser a favor da candidatura do Aécio para 2010. Não fiz nenhum movimento para que minha opinião prevalecesse, apenas dei uma entrevista.

Valor: O estopim foi a proposta de fusão?

Maia: No dia da apuração do segundo turno estive com o Kassab, que disse: ‘o DEM acabou, acho que a gente tem que caminhar com uma fusão para o PMDB, o PMDB só tem político mais velho, a gente toma o poder rapidamente’. Falei que não era bem assim. Muitos políticos nossos têm aliança com o PMDB, mas não podem ir para o PMDB porque não têm espaço, a fusão não faz nenhum sentido do ponto de vista ideológico ou do interesse local. Marcamos uma reunião com o Jorge para dois dias depois. Nesse período, dias 2 e 3 de novembro, o Kassab colocou seus interlocutores para falar a favor da fusão.

Valor: Houve reação?

Maia: Começou a haver reação de todos os lados, 80% do DEM não queria. Muitos querem manter aliança com o PMDB, caso do senador Agripino Maia. Outros por questões ideológicas ou locais. Por que vou abrir mão de ter o poder de comandar um partido e ser o segundo ou terceiro quadro do PMDB? Quando o Jorge voltou, resolveram mudar a estratégia, que era tomar o DEM e fazer a fusão.

Valor: O DEM se tornaria governista?

Maia: Na verdade, estamos numa questão inusitada. Na política, pela primeira vez, teríamos um partido transexual, seria fazer transformismo.

Valor: E vai apoiar o José Serra em São Paulo?

Maia: Não é o que o Kassab promete ao Temer. Entramos no processo de disputa pela liderança da Câmara, era o primeiro teste para o Kassab fazer o que ele entendia correto. Não o julgo, ele tem uma grande vantagem, pensa de uma maneira bem transparente, nunca escondeu sua posição. Passada a eleição do líder, o resultado é claro. Da nossa parte, vamos trabalhar de forma radical pelo consenso. Queremos chegar à convenção com chapa única. Em 8 de dezembro, fui ao limite para tentar um acordo. Infelizmente, não foi possível.

Valor: Só o Agripino?

Maia: Sim, é o melhor nome. O objetivo é tentar de forma bem firme um consenso que mantenha o DEM vivo como partido de oposição, que possa construir um projeto para 2014 desde já.

Valor: O DEM teria nome próprio para 2014?

Maia: Pode ser um projeto próprio como poder ser um projeto próximo ao PSDB. Os dois partidos precisam trabalhar unidos.

Valor: Pode ser o Aécio?

Maia: Certamente. Aécio seria um grande nome em 2010, será um dos principais protagonistas de 2014. Está na hora de parar de brigar para dentro e de debater com os nossos adversários, o governo está começando.

Não podemos querer reformar o partido fazendo uma operação de troca de sexo, o partido não pode ser transexual


Valor: O senhor quer a permanência de Kassab no DEM?

Maia: Sim, por que não? Não posso querer que fiquem no partido somente os meus aliados. O Kassab tem uma relação pessoal comigo muito correta. Do ponto de vista político, ele, de forma clara, comandou um processo do outro lado.

Valor: O DEM de São Paulo sem o Kassab ficaria enfraquecido?

Maia: Temos que trabalhar incansavelmente para Kassab continuar no DEM. Não porque o partido vai ficar mais fraco ou forte, mas porque é um quadro que teve muito investimento do partido. O Jorge, quando presidente, foi fundamental na decisão dele sair como vice [na chapa de José Serra à Prefeitura de São Paulo, em 2004]. Ele não queria. É importante que se tenha o entendimento que o DEM precisa ser valorizado com a permanência dele. Não sei como ele está pensando, me dá a impressão que pensa como oposição à política local. O vejo tentando independência em relação ao PSDB de São Paulo, principalmente ao Alckmin [Geraldo Alckmin, governador de São Paulo].

Valor: Com quem ele vai fechar?

Maia: Ele diz para o Serra que vai ficar no PMDB com o Serra, diz que vai ficar com o DEM e com o PMDB, diz também que se aproximou do palanque da Dilma. Em alguma hora ele vai ter que escolher. Mas é um dos grandes articulistas políticos que conheço. Saberá organizar e espero que permaneça no DEM.

Valor: Qual o argumento de Kassab à fusão com o PMDB?

Maia: De que o DEM acabou e não tem espaço. Ele diz que só vão sobrar dois partidos: PT e PSDB. E que o PMDB é um partido de centro que vai ficar e é um caminho.

Valor: Ele não discute posição ideológica?

Maia: Não. Nunca discutiu, nunca foi a forma dele atuar, sempre foi um bom articulador político. Quem trouxe o prefeito Cesar Maia de volta ao PFL foi o Kassab.

Valor: Se ele sair para o PMDB, o DEM vai reclamar o mandato dele?

Maia: Não quero discutir isso porque não quero que saia. Não vou entrar na discussão, tem uma lei e não é apenas o partido quem pode pedir o mandato. É importante que ele fique e não posso chantagear. Quero que fique pelas suas qualidades, pelo bom governo que faz em São Paulo e pela importância que tem ao partido. Não podemos querer reformar o partido fazendo uma operação de troca de sexo, o partido não pode ser transexual. A sociedade não vai entender troca de sexo.

Valor: Virar governo?

Maia: Não pode ser um transformismo em vez de um reformismo. Vamos reformar o partido, trabalhar em espaços que perdemos no Nordeste, na comunicação da imagem do partido em três ou quatro temas.

Valor: O DEM precisa mudar o discurso?

Maia: Não. O que deve e não foi feito é tentar fazer uma comunicação nacional única com três ou quatro temas e trabalhar com os diretórios regionais, porque demos em 2010 prioridade à questão regional. Em 2007, ficamos com a bandeira contra a CPMF. Para a classe média, temos a questão da carga tributária. Outro tema é a segurança pública.

Valor: Alguns do DEM defendem a fusão com um partido pequeno, uma brecha a quem migrar ao PMDB sem perder o mandato.

Maia: A vitória do ACM Neto mandou alguns sinais. O partido não quer fusão com ninguém nesse momento. A ótica dos que defendem esse tipo de fusão é a porta de saída. Essa equação foi derrotada com a vitória do ACM Neto, da tese de que o DEM é um partido de centro-direita, reformista, que deve existir no Brasil. Se já decidiram sair do partido, é mais fácil que se sentem na mesa para discutir uma saída. Não pode mostrar uma estratégia e ter outra por detrás. O jogo tem que ser mais claro.

Valor: O DEM poderia liberar o mandato do grupo de Kassab?

Maia: Ninguém aqui é criança nem se conheceu ontem. Se ele e alguns deputados decidirem sair, não estou dizendo que o partido vai liberar, tem que sentar na mesa.

Valor: Qual a importância dele para o DEM em São Paulo?

Maia: Talvez ele nem se considere assim, mas o vejo claramente um político de centro-direita. Se pensa em ir ao PMDB, aliado ao PT, deve pensar de outra forma. Para a sociedade paulista, quem vota no Kassab é o eleitor mais conservador, mais liberal na economia. É o eleitor que vota nos Democratas no Brasil inteiro. O Kassab representa não apenas a principal cidade do país, mas sinaliza ao eleitor de classe média do país.


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