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terça-feira, 23 de setembro de 2014

A disputa pelo voto do 'irmão' evangélico no Rio

A disputa pelo voto do 'irmão' evangélico no Rio

Candidatos se desdobram para conquistar evangélicos, que representam quase um terço do eleitorado fluminense

Por Marsílea Gombata
Da Carta Capital

LogoEleicoes2014"Vai com Deus, irmão". “Obrigado, fica com Deus”. “Deus te ouça, nós vamos chegar lá”. “Vem aqui receber um beijo do bispo!". As frases poderiam ser parte do final de um culto religioso, mas têm um contexto bem específico: a campanha eleitoral que busca abocanhar 28,53% (4,69 milhões) dos eleitores do estado do Rio de Janeiro, percentual de evangélicos no terceiro maior colégio eleitoral do País.
Em uma manhã ensolarada de setembro, o candidato ao governo do estado pelo PRB, Marcelo Crivella, caminhou na feira da praça General Osório, em Ipanema, distribuiu DVDs com propostas, santinhos, sorrisos, fotos e um pedido: “A senhora não vai me trair com o Pezão, não, né?”. Provavelmente não. Fã do ex-senador que foi ministro da Pesca e cantor gospel, dona Maria da Penha Borges, 59 anos, é da Igreja Internacional da Graça de Deus. Decepcionada com o DVD de propostas distribuído pelo candidato, sobrinho do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, ela queria ouvir mensagens de fé e louvor na voz de Crivella. “É isso que o povo está precisando”, diz a moradora de Campo Grande, zona oeste do Rio, que trabalha como doméstica na elitista zona sul carioca.
Crivella, no entanto, não é o único candidato evangélico na disputa. Seu rival Anthony Garotinho (PR) também é protestante, o que leva alguns eleitores mais religiosos a ficarem indecisos sobre quem seguir nas urnas no dia 5 de outubro, primeiro turno da eleição. “Estava na dúvida entre Garotinho e Crivella, mas vejo o trabalho dele e gosto mais. Ele sabe o que faz”, afirma Marli Andrade, 60 anos, que trabalha como autônoma fazendo sabão em Bangu, onde vive. Ela conta fazer parte da Assembleia de Deus, mas jura de pé junto que seu credo não tem a ver com a opção política para este ano. “Não é por causa da igreja que vou votar no Crivella, é porque vejo muitos por aí que não fazem nada, principalmente na zona oeste, onde moro”.
Na conversa entre o candidato pelo PRB e os eleitores que passam pela praça, as duas primeiras perguntas – “Qual é o seu nome?” e “Onde você mora?” – vêm seguidas por uma espécie de bênção: “Vai com Deus, dona Eugênia” e “Obrigada, irmão”, como se quem passasse por ali esperasse um “pastor”, não um político. “Só tenho confiança em votar nele mesmo”, confessa o aposentado Joaquim Raimundo, 70 anos, que se apressou para conseguir um beijo do bispo Crivella para o neto. “Voto nele por ser um ficha limpa e também por ser da Universal, da qual faço parte há 20 anos”.
A escolha por uma figura conhecida religiosamente pesa mais dentre os evangélicos, segundo o cientista político Cesar Romero Jacob. De acordo com o professor da PUC-Rio, a lógica que seguem esses eleitores é distinta do jeito de se pensar política tradicionalmente. “O voto aqui não é na política. Os evangélicos não estão votando em questões como a autonomia do Banco Central, não está em questão a agenda política. É o princípio do ‘irmão vota em irmão’”.
Apesar da mensagem de fé que joga aos eleitores em potencial, Crivella nega que a religião influencie a política nos dias de hoje. “Hoje em dia não. A gente precisa realmente verificar um projeto, verificar a ficha do candidato. Essa coisa de irmão votar em irmão não pode ser desculpa para se eleger um irmão que muitas vezes não precisa ser eleito, mas sim de uma lição para não ser reeleito”, disse o ex-ministro, em aparente alusão ao rival Garotinho, da Igreja Presbiteriana.
Crivella acredita, no entanto, ser natural que seus eleitores esperem dele a palavra de Deus. “As pessoas me conhecem não há 15, mas há 30 anos como cantor gospel. É natural que quisessem me ver distribuindo CD de música de louvor, mas eu não posso nessa época”, explica o bispo que largou na corrida empatado com Garotinho com 25% das intenções de voto, mas agora luta para recuperar seis pontos percentuais perdidos em parte para o atual governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB).
Líder na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, Garotinho também nega uma campanha eleitoral específica para angariar votos evangélicos. Segundo ele, a prática do “irmão vota em irmão” está em desuso dentre a maior parte dos evangélicos e, por isso, garante não fazer nenhuma ação especial. “Às vezes entregamos algum documento no qual passamos reafirmando nossas convicções para quem estiver nas igrejas, mas nada além disso”, afirma. O candidato classifica, inclusive, como prejudicial a tentativa de se misturar política e religião. “Eu defendo o Estado laico, essa é nossa bandeira. Misturar política e religião não serve à democracia. Atrapalha muito, aliás”.
Mas o discurso do ex-governador (1999-2003) e atual deputado federal, cuja trajetória tem início em Campos dos Goytacazes, contrasta com sua própria campanha. No início da corrida eleitoral, nove meses antes do pleito, o candidato começou a organizar um cadastro online para distribuir brindes aos fieis evangélicos no qual dizia: “Ficamos combinados assim: eu oro por você e você ora por mim”. Na peça, Garotinho se autodenominava como “intercessor” e prometia dar a cada inscrito um kit com livro, camiseta e carteirinha personalizada com a sua foto. O pacote trazia ainda uma carta de boas-vindas assinada pelo “irmão Garotinho”.
Radialista e ex-aliado do governador Luiz Fernando Pezão e de Sergio Cabral, Garotinho também mantinha um programa em emissoras AM no qual misturava orações e sorteio de presentes como geladeiras e máquinas de lavar. O programa de rádio e o cadastro de fieis eleitores foram vistos pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio como campanha antecipada e tornaram-se alvo de ação do Ministério Público, que exigiu o pagamento da multa de 5 mil reais diários caso a distribuição de brindes continuasse antes do prazo legal, três meses antes do primeiro turno.
Situação semelhante se passou com Crivella, que em junho foi impedido de distribuir brindes, como CDs e exemplares do jornal Folha Universal em cultos de sua igreja, correndo o risco de ter de pagar multa diária de 25 mil reais.
De acordo com o último censo do IBGE, com 4% de espíritas, 45,8% de católicos e 28,53% de evangélicos de um total de 16,46 milhões de habitantes, o Rio de Janeiro é um dos três estados, ao lado de Rondônia e Roraima, onde os seguidores do Vaticano não são maioria. Nele, a recém-chegada à corrida presidencial Marina Silva (PSB) tem cerca de 36% das intenções de voto, segundo o último Datafolha, contra 30% da presidenta Dilma Rousseff (PT). A capital possui atualmente 23,37% de evangélicos. O quadro inteiro é reflexo do aumento do número de evangélicos em todo o Brasil: em dez anos, o número de seguidores no Brasil cresceu de 6,8% em 2000 para 22,2% no ano de 2010.
As campanhas eleitorais de candidatos como Crivella e Garotinho, explica o professor de teoria política Antonio Carlos Alkmim, funciona em duas frentes diferentes. Quando o interlocutor não é evangélico, os políticos escondem o fator religião. Mas quando falam a esse eleitorado específico, buscam ressaltar essa característica ao máximo. “Existe uma preocupação em fazer essa distinção. Eles tratam a base evangélica de forma diferenciada”, explica, ao ressaltar que em alguns momentos o discurso evangélico chega a se sobrepor à apresentação das propostas. “É o ser evangélico que está falando em primeiro lugar”.
Autor do livro De Brizola a Cabral, de Collor a Dilma – A Geografia do Voto no Rio de Janeiro de 1982 a 2010, Alkmim explica ainda que enquanto Garotinho apresentou nas eleições passadas um melhor desempenho no interior do Rio de Janeiro, em especial no norte fluminense, onde fica Campos dos Goytacazes, Crivella foi melhor na capital e tem um eleitorado mais pulverizado nas outras regiões.
A disputa pelos “votos irmãos”, em geral, é tão específica e direcionada que os outros dois principais candidatos na disputa pelo Palácio Guanabara não evangélicos parecem não gastar muito tempo tentando angariar esses votos. “Há pastores que me respeitam, que poderiam votar em mim. Só que as circunstâncias dessas eleições com dois candidatos evangélicos mudaram meu foco: sei que de 100 evangélicos que converso, estou disputando dez votos”, conta o petista Lindberg Farias, senador e ex-prefeito de Nova Iguaçu, quarto colocado nas pesquisas, com 12% das intenções de voto. “Se o cara não é Garotinho, é Crivella. Se não é Crivella, é Garotinho. Acaba sobrando muito pouco para mim. Eu sempre fiz muita agenda visitando igrejas evangélicas, mas diminuí porque achei que fosse ser em vão”.
Segundo colocado nas pesquisas e tecnicamente empatado com Garotinho, o candidato à reeleição Pezão diz não crer em um voto segmentado dos evangélicos, mas se mostra satisfeito com o apoio de figuras como o presidenciável Pastor Everaldo (PSC) em sua coligação. “Tenho também muitos pastores evangélicos me apoiando, grandes pastores, como Abner Ferreira da Assembleia de Deus e Serafim de Souza da Ceader (Convenção Evangélica das Assembleias de Deus do estado do Rio de Janeiro). O Arolde de Oliveira, da Radio Melodia, radio evangélica mais forte do Rio, também me apoia”, diz.
Em seu discurso, Pezão afirma não ser “salutar” misturar política e religião, mas, como todo candidato hoje, não tem outra opção senão se render ao eleitorado evangélico. “Sempre faço eventos com eles. Temos uma ótima ligação”.
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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Esqueça Sheherazade. A culpa é de Silvio e do governo

Esqueça Sheherazade. A culpa é de Silvio e do governo

Foi Silvio Santos quem criou Sheherazade e abriga outros âncoras fascistas Brasil afora. O governo, por sua vez, permite o uso criminoso de uma concessão pública

por Lino Bocchini  - Carta Capital

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Sheherazade é um alvo menor. A moça é uma mera testa-de-ferro, uma boneca de ventríloquo. A verdadeira voz dos discursos diários pregando o ódio, a violência, o preconceito e a intolerância é a de Silvio Santos. Foi ele quem decidiu trazer a jornalista da TV Tambaú, afiliada de sua emissora na Paraíba, para o palanque nacional do Jornal do SBT. É o empresário quem a mantém intocada e lhe protege para que siga discursando no horário dito nobre. É Silvio quem a segura para que, ao noticiar a polêmica em torno de suas declarações, ela possa zombar de nossa cara e bravatear que não abrirá mão de seu “direito de liberdade de expressão”.
E tem mais. Sob o comando ou conivência de Silvio, outras vozes semelhantes ganham força nas afiliadas do SBT. É o caso, por exemplo, de Paulo Martins. Comentarista do Jornal da Massa, veiculado toda noite pela afiliada do SBT do Paraná, Martins passeia pelos mesmos temas de sua colega Sheherazade, como por exemplo o rolezinho:
“Aposentaram a cinta, essa é a geração mãozinha na cabeça. Ninguém tem direito de se organizar em bando e tumultuar uma propriedade privada, atrapalhar a vida de quem é responsável e honrado, tem compromissos e não tem tempo pra perder com rolezinho”.
O jornal da Massa faz parte da programação da Rede Massa, o maior grupo de comunicação do Paraná. O conglomerado é de propriedade de Carlos Massa, o Ratinho, que tem seu programa na grade nacional do SBT.
Em seus comentários diários Martins já afirmou, por exemplo, que os presidentes do Brasil, do Equador, da Argentina e da Venezuela formam “a gangue do Foro de São Paulo”. Ao ver que seu parceiro de bancada assustou-se com a palavra “gangue”, emendou: “Os caras são parceiros das Farc, você quer que eu chame eles do quê?”. Há coerência com a forma que ele refere-se à atual administração federal: “a ditadura Dilma Roussef”.
Em Santa Catarina, o SBT de Silvio Santos mantém um outro apresentador-comentarista que cerra fileiras com Sheherazade e Martins. É Luiz Carlos Prates, que todo dia fala o que bem entende na bancada do SBT Meio Dia, levado ao ar pela afiliada catarinense do SBT, propriedade do Sistema Catarinense de Comunicação.
Prates tem 50 anos de carreira e é figura conhecida no estado. Passou por diversas emissoras antes de instalar-se no SBT e tem uma longa lista de frases, digamos, de destaque. É o tipo de comentarista que, ao falar do trânsito em Florianópolis, lamenta que “hoje em dia qualquer miserável tem um carro”. Ou, ao analisar o drama das meninas que têm sua intimidade escancarada em fotos ou vídeos na internet, diz que “só uma débil mental se expõe promiscuamente desse jeito”.
E o governo com isso?
Por mais antipatia de uma parcela da população que uma revista Veja ou um jornal O Estado de S. Paulo possam despertar, faz parte do jogo democrático a sua existência. São negócios como outro qualquer e, por mais que incomodem, têm todo o direito de existir e publicar o que bem entenderem, dentro dos limites da Constituição.
No caso de uma rádio ou televisão, contudo, a história é outra. Eles operam por meio de outorgas concedidas pelo Ministério das Comunicações com o aval do Congresso. E aí há regras. Afinal, é uma autorização de uso de um bem público, não é uma mera iniciativa privada, como querem nos fazer crer.
Pela legislação em vigor, é o Ministério das Comunicações o órgão responsável por fiscalizar o conteúdo veiculado pelas emissoras e responsabilizá-las se houver violação da lei. No caso de Sheherazade, por exemplo, há uma lista de violações. Foram desrespeitados os direitos humanos assegurados pela Constituição Federal, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e há violação explícita do Código Brasileiro de Telecomunicações, que determina que o serviço de radiodifusão não pode ser usado para humilhar pessoas e expô-las a condições degradantes, "nem que seus fins sejam jornalísticos".
Ou seja, está tudo muito explícito. É só o Ministério das Comunicações, comandado por Paulo Bernardo, começar a agir e multar as empresas. Só não o faz porque não quer.
É importante sublinhar também que Carlos Massa ou o proprietário de qualquer outra emissora brasileira tem o mesmo direito de usufruir daquele espaço do que qualquer universidade, ONG, empresa ou pessoa física. São eles os donos unicamente por acordos políticos.
E é no mínimo questionável o uso de tais concessões para enriquecer bispos de igrejas suspeitas, faturar bilhões a cada ano com a venda de publicidade ou colocar no ar comentaristas como Sheherazade, Martins e Prates, que diariamente desrespeitam as leis, deseducam e pregam a violência e o preconceito para milhões de brasileiros.
Só o governo, por meio do Ministério das Comunicações, pode mudar isso. E só a sociedade civil organizada pode pressionar o governo e o Congresso para que isso aconteça.
Continuemos criticando Sheherazade, ela merece. Até gosta. A apresentadora estava se deliciando ao noticiar a polêmica em torno do seu nome na noite de quinta-feira 6. O sorrisinho constante era o retrato da confiança de quem está sendo não apenas protegida pelo patrão, mas também sendo beneficiada pela omissão de quem poderia fazer algo em Brasília. Ela e Silvio estão rindo da sua cara.
(Colaborou Bia Barbosa, do Intervozes)

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sexta-feira, 31 de maio de 2013

Cultura do estupro, medidas paliativas do governo e as redes sociais como espelho da sociedade

Cultura do estupro, medidas paliativas do governo e as redes sociais como espelho da sociedade

Por  | Preliminares

Muito tem se falado de cultura do estupro. E muito tem se negado sua existência. É comum ver o discurso de que mulheres precisam “se dar o respeito”, “vestir-se decentemente” ou “não se portar como uma vagabunda” para evitar o crime. Essa é a famosa culpabilização da vítima, um dos recursos mais usados e bem aceitos na cultura do estupro.
A questão é que estupros acontecem em países em que mulheres vestem burcas. Estupros acontecem no exército e na marinha, com mulheres uniformizadas respeitando normas rigidas. Com mulheres que acabaram de sair da igreja. E pesquisadores dizem que o estuprador tem desejo por poder, não só pelo corpo feminino. O sexo é um detalhe, a subjugação é o clímax.
A cultura do estupro se dá quando a mídia, por exemplo, exibe anúncios em que mulheres são violentadas como se isso fosse algo normal. O site Business Insider lista, regularmente, anúncios que estimulam ou desqualificam a violência contra a mulher. Em um deles, do governo do Egito, representa a mulher por meio de um pirulito com plástico e outro sem, sendo atacado por moscas (representando o homem), com a seguinte frase: "Você não pode parar (as moscas), mas pode proteger-se".
Ao mesmo tempo que grupos lutam para discutir o exemplo social dado a meninos e a cultura que desqualifica a liberdade feminina e dá liberdade para que o homem acredite que nunca poderá receber um não como resposta, o número de casos de estupro, em São Paulo, por exemplo, bateu recordes com uma média de 37 casos por dia. TRINTA E SETE mulheres sofrem abuso sexual POR DIA. Assustador, não?
Resolver o problema não é simples. É necessário mudar uma cultura ligada a interesses financeiros e de controle de massa. Uma cultura que prefere deixar as pessoas ignorantes, odiando umas as outras, para que não se importem com problemas grandes de interesse comum. Mas enxergar o problema e começar trabalhos para transformar a realidade é a saída.
No entanto, ao invés de mostrar que o estupro é errado e que estupradores serão punidos severamente, o governo de São Paulo resolveu criar uma cartilha para que a mulher se proteja. É claro, a vítima deve ser responsável para evitar seu abuso – que em grande parte dos casos é feito por pessoas conhecidas e do seu convívio. Quão maluco é tudo isso?
Imagine que você está atravessando a rua, na faixa e com o farol de pedestres verde, é atropelado. Jogado a uma distância assustadora, tem diversos ossos quebrados e sequelas para o resto da vida. As autoridades dizem, diretamente a você, enquanto você ainda sente as dores, ali, no chão, que o motorista que fez isso está errado, mas que você deveria ter prestado mais atenção antes de passar por ali. É assim que é tratada uma mulher vítima de estupro.
A tal cartilha terá ainda um perfil do homem que estupra, criado a partir de estudos. O que me soa bastante perigoso, já que você, homem correto, pode se parecer com um estuprador e passar a ser alvo de medo feminino.
Nós, mulheres, sabemos como nos proteger. Sabemos que andar por uma rua escura e sozinha não é aconselhado por especialistas em segurança. Mas quem vai nos buscar no ponto de ônibus depois da faculdade? Quem vai passar a noite toda, na balada, ao nosso lado, impedindo que babacas nos puxem pelo braço ou pelo cabelo? Devemos aprender a lutar para agredir quem fizer isso? Deixar nossos estudos, trabalhos e diversão de lado? Nos tornar violentas, agressivas e desconfiadas porque a sociedade prefere isso a tirar os privilégios que seus homens têm? Não é o que queremos.
Em uma sociedade igualitária homens e mulheres têm os mesmos direitos e deveres, as mesmas liberdades, o mesmo respeito. Isso a gente quer. A gente quer não ter medo. Queremos poder andar o caminho para casa pensando na vida e não no momento em que alguém vai aparecer do nada e nos assediar.
Nos últimos dias postei aqui na coluna uma pesquisa que diz que homens enxergam mulheres de biquini como objetos. Os comentários, assustadores como de costume, diziam que se a mulher está mostrando o corpo é assim mesmo que será vista, mas poucos se atentaram para a parte mais assustadora do texto: ele diz que quando certos homens veem a pele feminina passam a ignorar seus direitos e vontades, acreditando que ela é apenas um objeto para satisfazer seus desejos e fantasias. Essa é a base da cultura do estupro sendo inserida no cérebro das pessoas. A ideia de que suas vontades são superiores a vontade do outro. É aí que nasce o estuprador.
Quando falamos sobre esse assunto muita gente diz que é exagero, mas se formos ver o que acontece nas redes sociais, o espelho da nossa sociedade na internet, ficamos assustados. O Facebook, rede mais popular do mundo, tem passado por retaliações sem fim. Sua política de deletar conteúdo ofensivo ignora totalmente apologias ao estupro.
Na última semana um vídeo que mostra uma garota de 12 anos sendo estuprada por três adolescentes ficou na rede por um bom tempo antes que a enxurrada de e-mails conseguisse convencer a equipe de Zuckerberg o quão impróprio o ofensivo era aquilo.
Nesse meio tempo, pessoas de todo o mundo, compartilharam as imagens ofensivas com as quais têm sido bombardeadas diariamente, sem pedir. Os anúncios da rede colocam páginas que glorificam a violência contra a mulher ao lado de grandes empresas que lutam por seu bem-estar. As empresas já começaram a pressionar o Facebook para que imagens desse tipo sejam tiradas do ar o mais rápido possível e que a vista grossa sobre elas acabe.
Banalizar o discurso da violência é o mesmo que glorifica-lo. É mostrar que, no mundo real ou virtual, você não será punido ao violentar – sexualmente ou não – uma mulher. A liberdade de expressão não abre precedente para que o discurso de ódio seja aceito, eles são coisas bastante diferentes. Assim que sua liberdade passa a ofender e machucar outra pessoa, ela se torna crime.
Enquanto aceitarmos que a luta contra a violência seja desqualificada nos meios de comunicação, que as punições sejam em relação a vítima, que é cerceada de seus direitos, e que os projetos contra estupro e abuso sejam focados no comportamento das vítimas ao invés de educar e punir os culpados, estaremos apostando em uma sociedade em que o ódio é a moeda de troca aceita.
Nós precisamos de ações concretas e não pedaços de papel nos dizendo que as culpadas somos nós, por viver em uma sociedade hipersexualizada e que torna os desejos sexuais do outro mais importantes do que nossa vontade e direitos.

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terça-feira, 8 de novembro de 2011

O poder permanente de derrubar governos

O poder permanente de derrubar governos


Maria Inês Nassif (*) na CartaMaior


A corrupção do sistema político merece uma reflexão para além das manchetes dos jornais tradicionais. Em especial neste momento que o país vive, quando a nova democracia completou 26 anos e a política, que é a sua base de representação, se desgasta perante a opinião pública. Este é o exato momento em que os valores democráticos devem prevalecer sobre todas as discordâncias partidárias, pois chegou no limite de uma escolha: ou diagnostica e aperfeiçoa o sistema político, ou verá sucumbi-lo perante o descrédito dos cidadãos.

O país pós-redemocratização passou por um governo que foi um fracasso no combate à inflação, um primeiro presidente eleito pelo voto direto pós-ditadura apeado do poder por denúncias de corrupção, dois governos tucanos que, com uma política antiinflacionária exitosa, conseguiram colocar o país no trilho do neoliberalismo que já havia grassado o mundo, e por fim dois governos do PT, um partido de difícil assimilação por parcela da população. Nesse período, a mídia incorporou como poder próprio o julgamento e o sentenciamento moral, numa magnitude tal que vai contra qualquer bom senso.

Este é um assunto difícil porque pode ser facilmente interpretado como uma defesa da corrupção, e não é. Ou como questionamento à liberdade de imprensa, e está longe disso. O que se deve colocar na mesa, para discussão, é até onde vai legitimidade da mídia tradicional brasileira para exercer uma função fiscalizadora que invade áreas que não lhes são próprias. Existe um limite tênue entre o exercício da liberdade de imprensa na fiscalização da política e a usurpação do poder de outras instituições da República. 

Outra questão que preocupa muito é que a discussão emocional, fulanizada, mantida pelos jornais e revistas também como um recurso de marketing, têm como maior saldo manter o sistema político tal como é. É impossível uma discussão mais profunda nesses termos: a escandalização da política e a demonização de políticos trata-os como intrinsicamente corruptos, como pessoas de baixa moral que procuram na atividade política uma forma de enriquecimento privado. Ninguém se pergunta como os partidos sobrevivem mantidos por dinheiro privado e que tipo de concessão têm que fazer ao sistema. 

Desde Antonio Gramsci, o pensador comunista italiano que morreu na masmorra de Mussolini, a expressão “nenhuma informação é inocente” tem pontuado os estudos sobre o papel da imprensa na formulação de sensos comuns que ganham a hegemonia na sociedade. Gramsci já usava o termo “jornalismo marrom” para designar os surtos de pânico promovidos pela mídia, de forma a ganhar a guerra da opinião pública pelo medo. 

No Brasil atual, duas grandes crises de pânico foram alimentadas pela mídia tradicional brasileira no passado recente. Em 2002, nas eleições em que o PT seria vitorioso contra o candidato do governo FHC, a mídia claramente mediou a pressão dos mercados financeiros contra o candidato favorito, Luiz Inácio Lula da Silva. Tratava-se, no início, de fixar como senso comum a referência “ou José Serra [o candidato tucano] ou o caos”. 

Depois, a meta era obrigar Lula e o PT ao recuo programático, garantindo assim a abertura do mercado financeiro, recém-completada, para os capitais internacionais. Em 2005, na época do chamado “mensalão”, o discurso do caos foi redirecionado para a corrupção. Politicamente, era uma chance fantástica para a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a única alternativa para se contrapor a um líder carismático em popularidade crescente era tirar de seu partido, o PT, a bandeira da moralidade. A ofensiva da imprensa, nesse caso, não foi apenas mediadora de interesses. A mídia não apenas mediava, mas pautava a oposição e era pautada por ela, num processo de retroalimentação em que ela própria [a mídia] passou a suprir a fragilidade dos partidos oposicionistas. Ao longo desse período, tornou-se uma referência de poder político, paralelo ao instituído pelo voto. 

Eleita Dilma Rousseff, a oposição institucional declinou mais ainda, num país que historicamente voto e poder caminham juntos, e ao que tudo indica a mídia assumiu com mais vigor não apenas o papel de poder político, mas de bancada paralela. Dilma está se tornando uma máquina de demitir ministros. Nas primeiras demissões, a ofensiva da mídia deu a ela um pretexto para se livrar de aliados incômodos, nas complicadas negociações a que o Poder Executivo se vê obrigado em governos de coalizão num sistema partidário como o brasileiro. Caiu, todavia, numa armadilha: ao ceder ministros, está reforçando o poder paralelo da mídia; em vez de virar refém de partidos políticos que, de fato, têm deficiências orgânicas sérias, tornou-se refém da própria mídia. 

As ondas de pânico criadas em torno de casos de corrupção, desde Collor, têm servido mais a desqualificar a política do que propriamente moralizar a nossa democracia. Mais uma vez, volto à frase de Gramsci: não existe notícia inocente. O Brasil saído da ditadura já trazia, como herança, um sistema político com problemas que remontam à Colônia. O compadrio, o mandonismo e o coronelismo são a expressão clássica do que hoje se conhece por nepotismo, privatização da máquina pública e falha separação entre o público e o privado. A política tem sido constituída sobre essas bases e, depois de cada momento autoritário e a cada período de redemocratização no país, seus problemas se desnudam, soluções paliativas são dadas e a cultura fica. Por que fica? Porque é a fonte de poderes – poderes privados que podem se sobrepor ao poder público legitimamente constituído.

O sistema político é mantido por interesses privados, e é de interesse de gregos e troianos que assim permaneça. Segundo levantamento feito pela Comissão Especial da Câmara que analisa a reforma política, cerca de 360 deputados, em 513, foram eleitos porque fizeram as mais caras campanhas eleitorais de seus Estados. Com dinheiro privado. Em sã consciência, com quem eles têm compromissos? Eles apenas tiveram acesso aos instrumentos midiáticos e de marketing político cada vez mais sofisticados porque foram financiados pelo poder econômico. É o interesse privado quem define se o dinheiro doado aos candidatos e partidos é lícito ou ilícito.

O dinheiro do caixa dois passou a fazer parte desse sistema. Não existe nenhum partido, hoje, que consiga se financiar privadamente – como define a legislação brasileira – sem se envolver com o dinheiro das empresas; e são remotíssimas as chances de um político financiado pelo poder privado escapar de um caixa dois, porque normalmente é o caixa dois das empresas que está disponível. Num sistema eleitoral onde o dinheiro privado, lícito e ilícito, é o principal financiador das eleições, ocorre a primeira captura do sistema político pelo poder privado. E isso não acaba mais. 

Esse é o âmago de nosso sistema político. A democratização trouxe coisas fantásticas para a política brasileira, como o voto do analfabeto, a ampla liberdade de organização partidária e a garantia do voto. Mas falhou no aperfeiçoamento de um sistema que obrigatoriamente teria de ser revisto, no momento em que o poder do voto foi restabelecido pela Constituição de 1988.

Num sistema como esse, por qualquer lado que se mexa é possível desenrolar histórias da promiscuidade entre o poder público e o dinheiro privado. Por que isso não entra, pelo menos, em discussão? Acredito que a situação permaneça porque, ao fim e ao cabo, ela mantém o poder político sob o permanente poder de chantagem privado. De um lado, os financiadores de campanhas se apoderam de parcela de poder. De outro, um sistema imperfeito torna facilmente capturável o poder do voto também por aparelhos privados de ideologia, como a mídia. Como nenhuma notícia é inocente, a própria pauta leva a relações particulares entre políticos e o poder econômico, ou entre a máquina pública e o partido político. A guerra permanente entre um governo eleito que tem a oposição de uma mídia dominante é alimentada pelo sistema.

O apoderamento da imprensa é ainda maior. Se, de um lado, a pauta expressa seu imenso poder sobre a política brasileira, ela não cumpre o papel de apontar soluções para o problema. Não existe intenção de melhorá-lo, de atacar as verdadeiras causas da corrupção. Apesar da imensa caça às bruxas movida pela mídia contra os governos, em nenhum momento essa sucessão de escândalos, reais ou não, incluíram seriamente a opinião pública num debate sobre a razão pela qual um sistema inteiro é apropriado pelo poder privado, inclusive e principalmente porque não se questiona o direito de apropriação do poder público pelo poder privado. A mídia tradicional não fez um debate sério sobre financiamento de campanha; não dá a importância devida à lei do colarinho branco; colocou a CPMF, que poderia ser um importante instrumento contra o dinheiro ilícito que inclusive financia campanhas eleitorais, no rol da campanha contra uma pretensa carga insuportável de impostos que o brasileiro paga. 

Pode fazer isso por superficialidade no trato das informações, por falta de entendimento das causas da corrupção – mas qualquer boa intenção que porventura exista é anulada pelo fato de que é este o sistema que permite à imprensa capturar, para ela, parte do poder de instituições democráticas devidamente constituídas para isso.


(*) Texto apresentado no Seminário Internacional sobre a Corrupção, dia 7 de novembro de 2011, em Porto Alegre.