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terça-feira, 23 de setembro de 2014

A disputa pelo voto do 'irmão' evangélico no Rio

A disputa pelo voto do 'irmão' evangélico no Rio

Candidatos se desdobram para conquistar evangélicos, que representam quase um terço do eleitorado fluminense

Por Marsílea Gombata
Da Carta Capital

LogoEleicoes2014"Vai com Deus, irmão". “Obrigado, fica com Deus”. “Deus te ouça, nós vamos chegar lá”. “Vem aqui receber um beijo do bispo!". As frases poderiam ser parte do final de um culto religioso, mas têm um contexto bem específico: a campanha eleitoral que busca abocanhar 28,53% (4,69 milhões) dos eleitores do estado do Rio de Janeiro, percentual de evangélicos no terceiro maior colégio eleitoral do País.
Em uma manhã ensolarada de setembro, o candidato ao governo do estado pelo PRB, Marcelo Crivella, caminhou na feira da praça General Osório, em Ipanema, distribuiu DVDs com propostas, santinhos, sorrisos, fotos e um pedido: “A senhora não vai me trair com o Pezão, não, né?”. Provavelmente não. Fã do ex-senador que foi ministro da Pesca e cantor gospel, dona Maria da Penha Borges, 59 anos, é da Igreja Internacional da Graça de Deus. Decepcionada com o DVD de propostas distribuído pelo candidato, sobrinho do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, ela queria ouvir mensagens de fé e louvor na voz de Crivella. “É isso que o povo está precisando”, diz a moradora de Campo Grande, zona oeste do Rio, que trabalha como doméstica na elitista zona sul carioca.
Crivella, no entanto, não é o único candidato evangélico na disputa. Seu rival Anthony Garotinho (PR) também é protestante, o que leva alguns eleitores mais religiosos a ficarem indecisos sobre quem seguir nas urnas no dia 5 de outubro, primeiro turno da eleição. “Estava na dúvida entre Garotinho e Crivella, mas vejo o trabalho dele e gosto mais. Ele sabe o que faz”, afirma Marli Andrade, 60 anos, que trabalha como autônoma fazendo sabão em Bangu, onde vive. Ela conta fazer parte da Assembleia de Deus, mas jura de pé junto que seu credo não tem a ver com a opção política para este ano. “Não é por causa da igreja que vou votar no Crivella, é porque vejo muitos por aí que não fazem nada, principalmente na zona oeste, onde moro”.
Na conversa entre o candidato pelo PRB e os eleitores que passam pela praça, as duas primeiras perguntas – “Qual é o seu nome?” e “Onde você mora?” – vêm seguidas por uma espécie de bênção: “Vai com Deus, dona Eugênia” e “Obrigada, irmão”, como se quem passasse por ali esperasse um “pastor”, não um político. “Só tenho confiança em votar nele mesmo”, confessa o aposentado Joaquim Raimundo, 70 anos, que se apressou para conseguir um beijo do bispo Crivella para o neto. “Voto nele por ser um ficha limpa e também por ser da Universal, da qual faço parte há 20 anos”.
A escolha por uma figura conhecida religiosamente pesa mais dentre os evangélicos, segundo o cientista político Cesar Romero Jacob. De acordo com o professor da PUC-Rio, a lógica que seguem esses eleitores é distinta do jeito de se pensar política tradicionalmente. “O voto aqui não é na política. Os evangélicos não estão votando em questões como a autonomia do Banco Central, não está em questão a agenda política. É o princípio do ‘irmão vota em irmão’”.
Apesar da mensagem de fé que joga aos eleitores em potencial, Crivella nega que a religião influencie a política nos dias de hoje. “Hoje em dia não. A gente precisa realmente verificar um projeto, verificar a ficha do candidato. Essa coisa de irmão votar em irmão não pode ser desculpa para se eleger um irmão que muitas vezes não precisa ser eleito, mas sim de uma lição para não ser reeleito”, disse o ex-ministro, em aparente alusão ao rival Garotinho, da Igreja Presbiteriana.
Crivella acredita, no entanto, ser natural que seus eleitores esperem dele a palavra de Deus. “As pessoas me conhecem não há 15, mas há 30 anos como cantor gospel. É natural que quisessem me ver distribuindo CD de música de louvor, mas eu não posso nessa época”, explica o bispo que largou na corrida empatado com Garotinho com 25% das intenções de voto, mas agora luta para recuperar seis pontos percentuais perdidos em parte para o atual governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB).
Líder na disputa pelo governo do Rio de Janeiro, Garotinho também nega uma campanha eleitoral específica para angariar votos evangélicos. Segundo ele, a prática do “irmão vota em irmão” está em desuso dentre a maior parte dos evangélicos e, por isso, garante não fazer nenhuma ação especial. “Às vezes entregamos algum documento no qual passamos reafirmando nossas convicções para quem estiver nas igrejas, mas nada além disso”, afirma. O candidato classifica, inclusive, como prejudicial a tentativa de se misturar política e religião. “Eu defendo o Estado laico, essa é nossa bandeira. Misturar política e religião não serve à democracia. Atrapalha muito, aliás”.
Mas o discurso do ex-governador (1999-2003) e atual deputado federal, cuja trajetória tem início em Campos dos Goytacazes, contrasta com sua própria campanha. No início da corrida eleitoral, nove meses antes do pleito, o candidato começou a organizar um cadastro online para distribuir brindes aos fieis evangélicos no qual dizia: “Ficamos combinados assim: eu oro por você e você ora por mim”. Na peça, Garotinho se autodenominava como “intercessor” e prometia dar a cada inscrito um kit com livro, camiseta e carteirinha personalizada com a sua foto. O pacote trazia ainda uma carta de boas-vindas assinada pelo “irmão Garotinho”.
Radialista e ex-aliado do governador Luiz Fernando Pezão e de Sergio Cabral, Garotinho também mantinha um programa em emissoras AM no qual misturava orações e sorteio de presentes como geladeiras e máquinas de lavar. O programa de rádio e o cadastro de fieis eleitores foram vistos pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio como campanha antecipada e tornaram-se alvo de ação do Ministério Público, que exigiu o pagamento da multa de 5 mil reais diários caso a distribuição de brindes continuasse antes do prazo legal, três meses antes do primeiro turno.
Situação semelhante se passou com Crivella, que em junho foi impedido de distribuir brindes, como CDs e exemplares do jornal Folha Universal em cultos de sua igreja, correndo o risco de ter de pagar multa diária de 25 mil reais.
De acordo com o último censo do IBGE, com 4% de espíritas, 45,8% de católicos e 28,53% de evangélicos de um total de 16,46 milhões de habitantes, o Rio de Janeiro é um dos três estados, ao lado de Rondônia e Roraima, onde os seguidores do Vaticano não são maioria. Nele, a recém-chegada à corrida presidencial Marina Silva (PSB) tem cerca de 36% das intenções de voto, segundo o último Datafolha, contra 30% da presidenta Dilma Rousseff (PT). A capital possui atualmente 23,37% de evangélicos. O quadro inteiro é reflexo do aumento do número de evangélicos em todo o Brasil: em dez anos, o número de seguidores no Brasil cresceu de 6,8% em 2000 para 22,2% no ano de 2010.
As campanhas eleitorais de candidatos como Crivella e Garotinho, explica o professor de teoria política Antonio Carlos Alkmim, funciona em duas frentes diferentes. Quando o interlocutor não é evangélico, os políticos escondem o fator religião. Mas quando falam a esse eleitorado específico, buscam ressaltar essa característica ao máximo. “Existe uma preocupação em fazer essa distinção. Eles tratam a base evangélica de forma diferenciada”, explica, ao ressaltar que em alguns momentos o discurso evangélico chega a se sobrepor à apresentação das propostas. “É o ser evangélico que está falando em primeiro lugar”.
Autor do livro De Brizola a Cabral, de Collor a Dilma – A Geografia do Voto no Rio de Janeiro de 1982 a 2010, Alkmim explica ainda que enquanto Garotinho apresentou nas eleições passadas um melhor desempenho no interior do Rio de Janeiro, em especial no norte fluminense, onde fica Campos dos Goytacazes, Crivella foi melhor na capital e tem um eleitorado mais pulverizado nas outras regiões.
A disputa pelos “votos irmãos”, em geral, é tão específica e direcionada que os outros dois principais candidatos na disputa pelo Palácio Guanabara não evangélicos parecem não gastar muito tempo tentando angariar esses votos. “Há pastores que me respeitam, que poderiam votar em mim. Só que as circunstâncias dessas eleições com dois candidatos evangélicos mudaram meu foco: sei que de 100 evangélicos que converso, estou disputando dez votos”, conta o petista Lindberg Farias, senador e ex-prefeito de Nova Iguaçu, quarto colocado nas pesquisas, com 12% das intenções de voto. “Se o cara não é Garotinho, é Crivella. Se não é Crivella, é Garotinho. Acaba sobrando muito pouco para mim. Eu sempre fiz muita agenda visitando igrejas evangélicas, mas diminuí porque achei que fosse ser em vão”.
Segundo colocado nas pesquisas e tecnicamente empatado com Garotinho, o candidato à reeleição Pezão diz não crer em um voto segmentado dos evangélicos, mas se mostra satisfeito com o apoio de figuras como o presidenciável Pastor Everaldo (PSC) em sua coligação. “Tenho também muitos pastores evangélicos me apoiando, grandes pastores, como Abner Ferreira da Assembleia de Deus e Serafim de Souza da Ceader (Convenção Evangélica das Assembleias de Deus do estado do Rio de Janeiro). O Arolde de Oliveira, da Radio Melodia, radio evangélica mais forte do Rio, também me apoia”, diz.
Em seu discurso, Pezão afirma não ser “salutar” misturar política e religião, mas, como todo candidato hoje, não tem outra opção senão se render ao eleitorado evangélico. “Sempre faço eventos com eles. Temos uma ótima ligação”.
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quinta-feira, 6 de março de 2014

Alguma coisa está fora da ordem: 350 garis estavam em greve e 1.100 recebem aviso prévio?

Alguma coisa está fora da ordem: 350 garis estavam em greve e 1.100 recebem aviso prévio?

Garis decidem manter greve, mesmo com acordo assinado

Akemi NitaharaAgência Brasil

Após reunião que durou toda a tarde de hoje (5) com a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro (DPE-RJ), os cerca de 250 garis que aguardavam na frente do prédio da Companhia de Limpeza Urbana, na Tijuca, decidiram manter a greve deflagrada na sexta-feira (28). O grupo marcou para amanhã às 10h reunião no mesmo local.

Dez garis grevistas se reuniram com representantes da DPE-RJ, que fez a intermediação das negociações com a prefeitura. De acordo com Ivair Oliveira, um dos garis que participou da reunião, 1.100 trabalhadores receberam aviso de demissão e o processo de desligamento vai continuar se a greve não for interrompida.


“Nós brigamos lá dentro por todos os que receberam o comunicado de demissão, sem exceção. Vai sair um documento oficial regulamentando isso: os que receberam o comunicado de demissão não vão ser demitidos. Essa foi a nossa prioridade, porque eu, particularmente, não iria ficar satisfeito, ainda que a gente continuasse e tudo, se 1.100 famílias ficassem sem levar o seu pão para casa”, disse Oliveira.

Ele lembrou que o sindicato já assinou acordo coletivo da categoria e que, portanto, não há mais possibilidade de “lutar por aumento salarial no momento”. “Não há o amparo jurídico, nós conversamos com o defensor público, o defensor público viu, a gente viu, os advogados nossos estavam lá, não há amparo jurídico para a gente fazer essa negociação sem o sindicato, só que o sindicato já fez a besteira. Agora a gente vai decidir a categoria. Gari é que tem que decidir a situação de gari”.

O gari Samuel Teles, que estava na manifestação, acusou a Comlurb de perseguição aos grevistas. “Segundo a empresa, já estamos demitidos. Não só eu, como vários garis que estão sendo mandados embora sem nenhum tipo de justificativa, via texto, um texto até mal elaborado”. Ele mostrou a mensagem de texto recebida por vários trabalhadores, que diz: “Comlurb informa: compareça a [sic] sua gerência para tratar do seu desligamento”.

Edição: Denise Griesinger

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sábado, 25 de maio de 2013

Violência contra a mulher aumenta no Rio


Violência contra a mulher aumenta no Rio

Camila Nobrega
Do
Canal Ibase

O Rio de Janeiro tem assistido em choque às notícias sobre o aumento do número de casos de estupro na cidade. Por dia, a média foi de 16 casos, de janeiro a março deste ano, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). Mas, enquanto situações extremas chamam atenção para a atuação de criminosos anônimos na vida das vítimas, outra violência acaba encoberta. Dados do mesmo órgão apontam que metade dos agressores são pessoas de convívio próximo das mulheres, e 29,7% têm relações de parentesco com as vítimas. O problema vai muito além das agressões que ocorrem nas ruas.
Entre os casos mais recentes está o de uma estudante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que foi violentada no início deste mês por um colega de faculdade no estacionamento da instituição, localizada no Maracanã, na zona norte do Rio de Janeiro, durante uma festa de calouros da universidade. De acordo com depoimento dado pela vítima à Polícia Civil, o agressor a teria visto com uma mulher durante a festa e manifestado repúdio à situação, forçando-a a ter uma relação sexual com ele em seguida. A polícia ainda investiga o caso. Já a UERJ divulgou um comunicado oficial no site da instituição, manifestando repúdio ao ato e informando que abriu uma sindicância para apurar o ocorrido.
O objetivo das ações mais recentes de movimentos como o Fórum de Combate à Violência Contra as Mulheres é chamar atenção aos vários tipos de agressões comuns no município. Membros do grupo saíram às ruas do centro do Rio na semana passada e farão outros atos. O número de casos de abuso sexual notificados dobrou nos últimos três anos no município, como ressaltou Iara Mora, coordenadora de projetos na Casa da Mulher Trabalhadora (Camtra) e membro do fórum.
“Os números são provas de que as políticas públicas não estão dando conta do problema. Há uma legitimação da violência contra as mulheres na nossa sociedade”, afirma.
De acordo com o ISP, o estado do Rio de Janeiro teve, no primeiro trimestre de 2013, um aumento de 405 casos de estupro em relação ao mesmo período no ano de 2012, um crescimento de 36%. Para Iara, há uma falha grave na garantia dos direitos básicos da mulher, uma vez que apenas situações extremas, como estupros e feminicídios, causam repúdio em cidades brasileiras como o Rio.
“O estupro por desconhecidos é mais visibilizado, e mais fácil de ser denunciado. Só que mais da metade das mulheres são estupradas por amigos, familiares e parceiros. Muitas vivem situações de violência diariamente e só se dão conta quando as atitudes dos parceiros se transformam em agressão física grave. Algumas, no entanto, sequer percebem. Acham, por exemplo, que, se o namorado ou marido as força a fazer sexo, não é errado. Elas legitimam a noção de posse deles sobre o corpo delas”, analisa.
Entre os casos mais emblemáticos de estupros recentes na cidade do Rio, uma mulher de aproximadamente 30 anos foi violentada no dia 3 de maio durante um assalto a um ônibus da linha 369 (Bangu-Carioca), na avenida Brasil. No dia 20 de abril, uma jovem foi vítima de abuso sexual dentro de uma clínica de estética em Bonsucesso, na zona norte. Três dias antes uma menina de 14 anos havia sido vítima de abuso, na Praia do Leblon, na zona sul. O crime ocorreu no final da praia, quase na avenida Niemeyer, via expressa que liga o bairro a São Conrado, na mesma região. No dia 30 de março, jornais do mundo todo noticiaram o caso de uma turista que foi estuprada por três homens, durante seis horas em uma van que fazia o percurso Copacabana-Lapa.
As falhas na garantia dos direitos das mulheres em toda a América Latina foram tema de um seminário realizado no início de maio no México, que reuniu centenas de ativistas de toda a região. As participantes finalizaram um documento, apontando que a legislação não está sendo cumprida nos países latino-americanos e pedindo esforços urgentes no combate à violência contra a mulher.

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terça-feira, 16 de abril de 2013

Cultura de estupro: até nas salas de aula?

Cultura de estupro: até nas salas de aula?




Ontem fui pego de surpresa ao saber que minha prima de 16 anos, sempre muito tranquila e calma, havia sido suspensa da escola. O motivo: numa discussão em sala de aula sobre o estupro ocorrido contra uma turista dentro de uma van no Rio de Janeiro, ela se posicionou contrária ao professor que, após fazer piadas do tipo “Ela foi peso pesado! Aguentou três brutamontes!”, argumentou que a investigação para ser justa deveria considerar a roupa que a vítima vestia para ver se ela não “estava pedindo”. Minha prima disse que aquele era um comentário machista idiota.
E foi convidada a sair de sala.
O infeliz comentário do professor em sala de aula já seria preocupante pelo simples fato dele ser formador de conhecimento para centenas de jovens mentes em aprendizado. No entanto, o que mais preocupa é saber que a visão dele não é isolada, mas faz parte de uma forma ainda muito enraizada em nossa sociedade de modo geral: sugerir que a vítima é parcialmente ou totalmente culpada pelo estupro. O perigo desse pensamento machista é o seu efeito de revitimização, ou seja, encorajar a culparem a vítima e responsabilizá-la pelo estupro, ao invés de culparem o estuprador pelo seu ato criminoso. O ponto é: a vítima nunca é culpada pelo estupro, em hipótese alguma.
Embora não tenha sido esse o pensamento predominante no caso do estupro da estrangeira dentro da van, há outras formas igualmente perversas ao lidar com o episódio atreladas à maneira de se pensar a cidade e a segurança pública.
O primeiro diz respeito ao modo que alguns meios de comunicação repercutiram o caso, manchetes como “Estupro: imagem do Rio afetada” e “Ataque a turistas americanos dentro de van é revés em bom momento vivido pela cidade”. O estupro de uma mulher não é meramente um "revés" para a cidade, mas um ato de violência brutal e inadmissível que afeta antes de qualquer coisa a vida da mulher violentada. A preocupação central não deveria ser com a repercussão e impacto negativos sobre a imagem e turismo da cidade, mas sim com a segurança de todas as mulheres ao garantir seu direito de ir e vir dentro do espaço público, antes de tudo. Fica evidente a lógica predominante de se pensar o Rio de Janeiro enquanto cidade-mercadoria , num estágio tão extremo que até o estupro de uma mulher é visto apenas como um problema que prejudica a imagem do "produto" (o Rio de Janeiro) e sua "venda" (a atração de turistas).
Declarações oficiais do governo afirmaram recentemente que o estupro da jovem americana numa van foi uma “atrocidade”, mas que a violência contra a mulher não é uma prática comum no Brasil nem no Rio. De fato, constatar que o estupro é uma atrocidade é o mínimo de sensatez esperado, contudo, afirmar que as práticas violentas contra as mulheres brasileiras e cariocas são incomuns é perigosamente ilusório. A verdade é que é muito mais comum do que gostaríamos de admitir. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, apenas em 2012 foram registrados mais de 6 mil casos de estupro apenas no Rio de Janeiro, isso representa uma média de 16 estupros por dia. Embora o índice represente também uma vitória do crescimento do número de pessoas que passam a confiar cada vez mais na denúncia desse tipo de crime, ainda assim, seis mil mulheres violentadas dentro do Rio de Janeiro será sempre uma derrota social.
Para o poder público e parte da mídia, o problema foi o estupro ter ocorrido com uma turista num dos cartões postais da cidade, Copacabana, o que denigre a imagem da cidade internacionalmente. O perigo de não se reconhecer a violência estrutural contra a mulher é tornar invisíveis os estupros diários cometidos contra a parcela mais exposta da população carioca: mulheres, moradoras de áreas periféricas e de baixa renda. De alguma forma, as violências vivenciadas todos os dias contra essas mulheres não merecem a mesma atenção?
Não querer reconhecer a dura realidade da cultura de estupro em que o Rio está imerso em prol de salvaguardar a “boa imagem da cidade-produto”, é perpetuar a própria violência contra as mulheres ao negligenciar que as violações ocorrem e que deveriam, portanto, serem combatidas efetivamente. Negar a violência contra a mulher não faz com que ela deixe de existir, apenas permite que ela se reproduza em silêncios, lágrimas e traumas calados sem a espetacularização da mídia.
Há muito que ser feito ainda. Um bom primeiro passo é reconhecer e convidar duas alunas muito mais perigosas e problemáticas para fora da sala de aula carioca do que a minha prima: a cultura do estupro e a lógica da cidade-mercadoria do Rio de Janeiro.
Convidar não. Expulsar.
Matheus Bizarria

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O que move Sérgio Cabral contra os índios?

O que move Sérgio Cabral contra os índios?
Jornal do BrasilMarcelo Auler


A cena protagonizada no sábado (12) por policiais militares do Batalhão de Choque, fortemente armados e com uniformes típicos de confronto, cercando um prédio onde estavam indígenas munidos de arco e flecha, pode parecer bisonha em pleno século XXI, mas além do ridículo da situação, demonstra a maneira pouco democrática com que o governo do estado do Rio de Janeiro conduz a questão da reforma do Estádio do Maracanã.
Naquele estádio, em 16 de julho de 1950, o Brasil se viu derrotado na Copa do Mundo quando, na final, o uruguaio Alcides Ghiggia marcou o gol da virada que deu ao país vizinho seu segundo e último título de campeão mundial.  Anos mais tarde, de forma irônica, o jogador comentou a façanha destacando que “apenas três pessoas, com um único gesto, calaram um Maracanã com 200 mil pessoas: Frank Sinatra, o papa João Paulo II e eu”.
Isto apenas mostra que o Maracanã, ao longo dos seus 62 anos, já recebeu públicos variados. Na época em que suas arquibancadas eram corridas – sem cadeiras individuais – e que existia a famosa “geralzona”, onde o público – a maioria pobre, mas não apenas eles – assistia aos jogos em pé, ao redor do campo, o Estádio Mário Filho abrigou facilmente quantidade muito superior aos 100 mil torcedores.
O governador Sérgio Cabral Filho, vascaíno doente e descendente de um jornalista que além do samba é vidrado no futebol, certamente quando criança e jovem esteve em jogos que tenham atraído esta multidão de admiradores do esporte. Sempre em quantidade muito superior aos 76 mil espectadores que o estádio abrigará, por exigência da Fifa, na Copa do Mundo de 2014, após a reforma que está instalando cadeiras individuais nas antigas arquibancadas.
Um grande aparato policial foi usado para intimidar os índios, que ocupam a Aldeia Maracanã
Um grande aparato policial foi usado para intimidar os índios, que ocupam a Aldeia Maracanã
Uma reforma que foi decidida entre quatro paredes, sem a participação do público, nem nenhum tipo de consulta mais aberta a especialistas ou órgãos de classe. Prevaleceram os interesses da Fifa, da CBF, na época presidida por Ricardo Teixeira que, todos sabem, comandou a entidade movido por propósitos nem sempre muito claros, e pelos governantes do Rio, Sérgio Cabral à frente. Mas a reforma está sendo sustentada com dinheiro público, de bancos oficiais, ou seja, em última instância, pelos impostos que os torcedores – aqueles que não foram jamais ouvidos – recolhem.
Curiosamente, o projeto estipulado entre quatro paredes e sem a participação popular decidiu pela impossibilidade de convivência entre o estádio reformado e um prédio erguido naquela região muito antes de se pensar em ali se instalar um estádio de futebol.
Datado de 1862, portanto com mais de 150 anos, o prédio do antigo Museu do Índio não tem valor histórico apenas pela sua construção centenária, mas pelo que abrigou. Foi nele que o marechal Rondon inicialmente, depois com a ajuda do antropólogo Darcy Ribeiro e dos irmãos Villas Boas, traçou e conquistou para o país a política nacional de preservação dos indígenas. Foi ali, por exemplo, que eles juntos travaram a batalha em defesa do Parque Nacional do Xingu que, como o filme de mesmo nome acaba de mostrar a milhões de pessoas, tanto nas salas de cinema quanto pela Rede Globo, garantiu a sobrevivência de diversas nações indígenas. E ali se manteve uma tradição indígena, fazendo do prédio abrigar a Aldeia Maracanã, que se transformou em referência para os índios no Rio de Janeiro.
A convivência entre o prédio com 150 anos e o estádio com 62 anos sempre foi pacífica. Mesmo tendo abrigado algumas vezes até 200 mil pessoas, não há registro de que o antigo prédio tenha atrapalhado a hoje denominada “mobilidade urbana”. Estas duas centenas de milhares de pessoas entraram e saíram do estádio Mário Filho sem maiores pertubações, às vezes incomodadas apenas pelos congestionamentos causados por carros particulares transportando quantidade ínfima de passageiros.
Ora, se no passado por ali circularam sem maiores problemas duas centenas de milhares de pessoas, sejam torcedores, fiéis que foram ver o papa ou fãs de Frank Sinatra, por que motivos há de se alegar que o prédio atrapalhará a “mobilidade urbana” em jogos onde são esperados muito menos espectadores?
Fala-se da necessidade de construção de um grande estacionamento. Ou seja, mais uma vez as autoridades priorizam o transporte individual, quando na verdade, em nome da “mobilidade” e até da defesa do meio ambiente, deveriam se preocupar não em derrubar um prédio, que em nada atrapalha o ir e vir dos torcedores, mas sim criar corredores exclusivos de ônibus para que estes, ao lado dos trens da SuperVia e do Metrô garantam o escoamento do publico sem maiores congestionamentos.
Na verdade, toda esta mobilização do governo, inclusive utilizando soldados do Batalhão de Choque que vivenciaram o ridículo papel de cercarem uma aldeia cujos índios possuíam apenas arcos, flechas e, talvez, tacapes improvisados, leva a crer que o governo de Sérgio Cabral está sendo movido por outros interesses.
O que se percebe é a vontade de limpar a área para que a iniciativa privada possa explorar a região com estacionamentos que terão preços abusivos e shoppings onde o chamado mercado irá faturar em cima dos 76 mil torcedores esperados nos jogos da Copa do Mundo. Por detrás disto, consta, estariam também os interesses do megaempresário Eike Batista, aquele que emprestava aviãozinho para os passeios do senhor governador.
Por conta de interesses não dos mais nobres é que toda a história do velho e centenário prédio onde outrora se desenhou a política indigenista do país e, por isto, abrigou o Museu do Índio e tornou-se referência para as tribos indígenas, está sendo jogada no lixo. O pior é que tudo pode acontecer com a omissão ou mesmo a participação do Judiciário Federal fluminense, uma vez que partiu da presidente do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, Maria Helena Cisne, a decisão de suspender a liminar que impedia a remoção da aldeia indígena. Ainda há tempo de se evitar que se jogue um pedaço da História do Brasil na lata do lixo. Por enquanto, apenas a Defensoria Pública da União, alguns poucos políticos e movimentos sociais tentam evitar isto. Mas, quem sabe, outras entidades não despertarão do sono profundo no raiar desta segunda-feira, antes do governador promover nova cena dantesca, mandando fuzis e metralhadoras cercarem arcos, flechas, tacapes e parte da História do Brasil?

Globo leva um cala boca na Aldeia Maracanã: "O sensacionalismo dela é prejudicial, só fala mentira..."

Globo leva um cala boca na Aldeia Maracanã: "O sensacionalismo dela é prejudicial, só fala mentira..."

A cara de deboche a jornalista dá nojo, asco...



"Edição e publicação da rede Globo criminaliza o movimento reclassificando a importância do movimento.. os índios cobram explicação sobre a responsabilidade e veracidade da informação veiculada pela rede... usa a mentira, usa a violência para cobrir um crime maior que é a remoçao dos índios de seus terras!! sempre foi assim em 530 anos.. hoje esta aparecendo na luz do dia !!"



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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Não é fácil: Rio teve média de 335 mulheres vítimas de estupro por mês em 2011


Não é fácil: Rio teve média de 335 mulheres vítimas de estupro por mês em 2011


Agência Brasil
Rio de Janeiro – Entre as 4.871 queixas de estupro registradas no estado do Rio de Janeiro no ano passado, 82,6% das vítimas eram do sexo feminino. Desse total, 53,6% eram meninas de até 14 anos e 24,1% tinham até 9 anos. Os dados fazem parte do Dossiê Mulher, divulgado hoje (14) pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro (ISP), a partir das notificações da Polícia Civil de 2011.
O estudo apontou também um aumento de 7,2% no total de vítimas mulheres em relação ao ano anterior, mais 271 vítimas. Os registros de estupro ocorridos no estado no ano passado tiveram uma média de 335 mulheres vítimas desse tipo de crime, por mês.
Em 70,9% das notificações, o estupro aconteceu dentro da casa da vítima. Na metade dos casos (50,2%), a vítima conhecia o acusado e em 30,5%, elas tinham relação de parentesco com o estuprador (pais, padrastos, parentes).
O diretor-presidente do ISP, coronel Paulo Teixeira, disse ter esperança que os números apresentados gerem uma reflexão profunda, já que o fato desse tipo de violência ocorrer dentro dos domicílios ultrapassa a fronteira da polícia e exige mudanças também dentro da sociedade. “Precisamos pensar sobre que mudanças precisamos implementar para termos uma sociedade mais segura, não apenas no espaço público, mas também nas próprias casas e nas relações com as pessoas”, observou.
O dossiê aponta ainda que pouco mais de 10% dos registros foram feitos por mulheres que denunciaram seus companheiros ou ex-companheiros pelo crime. Para a coordenadora da pesquisa, major Cláudia Moraes, o aumento no número de notificações está relacionado à ampliação de redes de apoio às mulheres vítimas de violência, como os juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e as delegacias especializadas, bem como a uma maior conscientização por parte das vítimas.
“A existência de uma rede de apoio faz a mulher se sentir mais acolhida, mais encorajada a romper o silêncio. Da mesma forma, temos hoje campanhas educativas na mídia que insistem que violência contra mulher é crime; que o sexo não é uma obrigação do casamento ou da convivência.”
Cláudia Moraes lembrou que, com a mudança na Lei 12.015 de 2009, que incluiu o estupro de pessoas do sexo masculino, o número de registros desse tipo de crime praticado contra meninos também tem tido certa expressividade. Em 2010, o número de notificações para esse tipo de crime foi 15,6% do total e em 2011, 15,5%.
Para ela, os números, que chamou de alarmantes, servem também como alerta para as mães que, por terem que trabalhar, acabam não podendo participar mais ativamente da criação dos filhos. “Muito dessa violência é detectada por outras pessoas e a mãe, muitas vezes, trabalha fora, chega tarde em casa e a criança já está dormindo. Mas a criança deixa sinais, ela muda, dá sinais de depressão. Quando divulgamos esse número alto [de estupros], é importante que cada um olhe para sua casa e observe seus filhos”.
Sobre o perfil das vítimas de estupro do sexo feminino, foi observado que 37,3% eram brancas e 54,4% eram pardas ou pretas, 76% eram solteiras e 29,5% tinham entre 10 e 14 anos de idade. A maior incidência de vítimas de estupro do sexo feminino ocorreu na Baixada Fluminense na zona oeste.
O dossiê completo pode ser acessado no endereço no site do ISP.

domingo, 29 de julho de 2012

No Rio Antigo nós não éramos racistas. Será?

No Rio Antigo nós não éramos racistas. Será?
DoLadoLeLá
 


por Jorge Valente(*)

Aconteceu na muy leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Francisco e a mulher moravam num sobrado velho com as seis crianças. Ele, um ex-escravo, trabalhava na venda de um mascate em troca de uns parcos tostões. A mulher era ama-de-leite de uma família abastada de Laranjeiras. Os dois dividiam a casa com outras sete famílias, todas empregadas em ocupações tenebrosas: lacaios, carregadores de armazéns e tigres, como se chamavam na época os homens que transportavam e despejavam no mar as fezes e os dejetos da cidade.
Para aquela gente amontoada em construções antigas e subsistindo no fio da navalha, a vida já era difícil o basta nte. Mas ela não tardaria a piorar. Em algum dia de março de 1904, Francisco voltava da venda a pé até o centro porque não tinha dinheiro para pagar o bonde, e também porque se pedia dos passageiros rigor no traje e na compostura, uma exigência muito além das posses, dos modos, e do odor de Francisco.
De repente, ele se depara com homens da prefeitura cavucando a calçada com picaretas. Mais alguns passos, e outro buraco. E outro, e outro. Todas as pequenas ruas da cidade estão sendo esburacadas. Em alguns pontos, não se pode passar. Há barulho de explosões aqui e mais além. Ouve-se um tocar de cornetas e, em seguida, um prédio vem abaixo. As obras são anunciadas em placas que Francisco não sabe ler. Perto da Rua da Constituição, cavalariços impedem sua passagem. Do outro lado da calçada, a mulher e os filhos choram abraçados.

Ele tenta acudir, mas um soldado o impede de cruzar a rua. No meio do barulho, não entende os gritos da mulher, o desespero das crianças. Ouve um outro estrondo e então, assombrado, vira-se para trás e vê o prédio em que mora ir pelos ares. Uma nuvem de fumaça cobre a rua e se mistura ao tropel dos cavalos. Toda a sua vida miserável, suas economias, estão ali. O quartinho que a custo havia erguido com as próprias mãos para os meninos, o tanque para a mulher, e até uma cortina improvisada com folhas de bananeira para dar alguma privacidade às filhas adolescentes. Francisco não entende o porquê de tanta violência. E num assomo de revolta, investe contra um pelotão de cadetes. Esmurra dois ou três até ser contido, amarrado e amordaçado. Onde já se viu esse negro insolente, que ainda outro dia andava a ferros, estar agora a dar sopapos em oficiais da República? 

É imediatamente recolhido aos porões da prisão na Praça XV, e ali vai ficar por oito meses a pão e água, além dos castigos corporais impostos a um ato de tal gravidade. A mulher Inês acaba perdendo o ofício e passa a vagar com as crianças pelas ruas do Rio atrás de esmolas e restos de comida. A demolição do prédio que trouxe a desgraça para a família de Francisco havia sido decidida meses antes, em algum bistrô elegante de Paris. O prefeito Pereira Passos visitava a capital francesa e ficou impressionado com a beleza da cidade, cortada por ruas espaçosas, de comércio variado e sofisticado.
Decide então importar o desenho urbanístico para o Rio de Janeiro, naquela época já uma cidade de espantosos encantos geográficos, mas cercada por brejos, päntanos e habitada por uma população miserável, que, na visão da burguesia de antanho, procriava como ratos em pocilgas do centro da cidade. A solução do prefeito é botar tudo abaixo. 
Em pouco tempo, Pereira Passos manda demolir seiscentos prédios em mau estado de conservação, abrindo caminho para a construção de um corredor arejado, nos moldes das avenidas francesas. Depois de quase dois anos de obras, voilà: está pronta a Avenida Central, inaugurada com pompa e circunstância na presença do presidente Rodrigues Alves. 1800 metros de comprimento em linha reta, 35 de largura, dividida por canteiros de mudas de pau-brasil: um boulevard majestoso à altura da cidade que quer ser a Paris das Améri cas. Do outro lado da cidade, Francisco e Inês andam sem rumo, sem saber que a casa deles havia sido implodida pela Belle-Époque. Acabam chegando a Botafogo, atraídos pelos palacetes que florescem no bairro no início do século, com seus saraus luminosos, capazes de produzir sobras de comida em quantidade. 
Inês consegue se empregar como ajudante de cozinheira. Nunca chega a entrar num salão de baile. Às vezes, entre as frestas das portas, vislumbra saias rodadas varrendo o piso e rodopios de sobrecasacas ao som de uma valsa vienense. Imagina se um dia seus filhos terão a chance de entrar num lugar daqueles pela porta da frente. 
Francisco dorme na praia com as crianças e passa a procurar um paradeiro para a família. Acaba encontrando pouso num cortiço da Rua da Passagem, conhecido como Cabeça-de-Porco. Cerca de quatro mil pessoas se espalham pelos seus quartinhos fétidos, muitos alugados por lavadeiras, operários, e criminosos de toda espécie. 
O cortiço tem por proprietário o Conde D'eu, casado com a Princesa Izabel, que acabou com a escravidão no Brasil assinando a Lei Áurea. Não se sabe, até hoje, se ela ganhou alguma comissão para dar a penada que tiraria os escravos das senzalas e os empurraria para os cortiços - esse lucrativo negócio administrado pelo marido. Certo mesmo é que muitos ex-escravos vão parar ali. Um outro contingente de negros, em condição ainda mais miserável que a de Francisco, começa a subir os morros e a se instalar em barracos. É o início da favelização da cidade. 
Um dia, Francisco passa pela Avenida Central e se depara com um cenário suntuoso: charretezinhas disputam espaço com vitórias e tílburis, os charmosos antepassados dos nossos táxis. Os bondes, considerados um transporte popular, estão proibidos de trafegar por ali. Prédios imponentes ocupam o lugar dos antigos sobrados. Moças bonitas e vistosas passeiam de sombrinha e falam um idioma que Francisco não entende. Muitos anos vão se passar até que os filhos e os netos de Francisco tenham dinheiro para finalmente entrar nos bondes e depois nos ônibus.
A Avenida Central foi rebatizada. Hoje, se chama Avenida Rio Branco. Aqui e ali, guarda um pouco de pompa neoclássica em sua arquitetura, mas perdeu toda a circunstância do início do século. Durante o dia, é uma passarela de executivos, secretárias e office-boys. O trânsito caótico, barulhento e poluído abafou todos os vestígios de sotaque francês. Os bancos, edifícios comerciais e lojas de fast-food dominam a paisagem. 
Quase nada sobrou do Rio Antigo. Só uma sombra dele se projeta nas calçadas quando a noite cai: assim que as lojas fecham suas portas, um exército de mendigos começa a tomar posição debaixo das marquises. Às vezes, podem-se contar centenas deles. Homens, mulheres e crianças formam essa legião de miseráveis. Famílias inteiras vêm com trapos e caixas de papelão e vão montando suas paredes, janelas, portas, e até os tetos em noites de chuva. 
Para construir a Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, Pereira Passos expulsou gente como essa, a gentalha, na visão da classe dominante. Sobre suas casas demolidas, ergueu um Rio francês, buliçoso, cidade-luz abaixo da linha do Equador. Para muitos, foi o melhor prefeito que o Rio já teve, o homem que reinventou a cidade com um traçado moderno e o primeiro a enxergar sua vocação turística. Pereira Passos só não imaginava que os fantasmas daquela gente que ele enxotou de forma barulhenta viriam assombrar o centro da cidade, em silêncio, um século depois. 
Olhe com atenção e você vai ver: Francisco, Inês e as seis crianças estão ali. Chegam, se enfiam debaixo das caixas de papelão e dormem nas calçadas. Têm a mesma expressão sofrida, o mesmo andar
errante, a mesma sina desgraçada, o mesmo olhar suplicante. Todas as noites, estão ali para nos lembrar que é deles aquele lugar. Todas as noites, vêm reclamar a antiga moradia.



(*) Jorge Velente é jornalista e escritor

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Essa é a realidade da saúde pública, nada maravilhosa, no Rio de Janeiro

Essa é a realidade da saúde pública, nada maravilhosa, no Rio de Janeiro

Os médicos em nada lembram a médica que gritou de indignação, aqui


Esses preferiram deixar o hospital para denunciar o usuário, pai que estava com seu filho doente, na delegacia.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Menina de 12 anos é estuprada em ônibus na Zona Sul, diz polícia



Menina de 12 anos é estuprada em ônibus na Zona Sul do Rio de Janeiro
Rio -  Uma menina de 12 anos foi estuprada dentro de um ônibus da linha 162 (Glória-Leblon) que passava pela Rua Jardim Botânico, na Zona Sul, no início da tarde desta quarta-feira, segundo informações recebidas pela Polícia Civil. Nas imagens das câmeras de segurança, é possível ver que ele tem uma mancha no braço direito. 
Câmera de segurança flagra momento em que estuprador entra em ônibus | Foto: Divulgação
Câmera de segurança flagra momento em que estuprador entra em ônibus | Foto: Divulgação
De acordo com relatos à polícia, um suspeito entrou armado no coletivo e abordou a garota. Ele a chamou para sentar na parte traseira do veículo. Em seguida, o criminoso pediu para que a menor, que usava um uniforme escolar, retirasse a calça e praticou o abuso sexual. Logo após o crime, o homem fugiu, saindo correndo do veículo.
A menina tomou coquetel anti-HIV no hospital e passou por exame de corpo de delito. A polícia está tentando localizar o estuprador através das imagens. Ele é mulato e tem cerca de 1,60m, além do sinal no braço direito. O delegado titular da 15ª DP (Gávea), Fábio Barucke, pede que as pessoas que tiverem qualquer informação sobre esse homem entrem em contato com a delegacia pelo telefone 2332-2905 ou pelo Disque Denuncia (2253-1177).
Ainda de acordo com a polícia, além da vítima, mais duas pessoas estavam no coletivo, mas não perceberam nada. O motorista e as duas passageiras prestaram depoimento na 15ª DP (Gávea), onde o caso foi registrado.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Moradora da Rocinha que já conhece o “Choque de Paz” deixa recado para os "pacificadores"

Moradora da Rocinha que já conhece o “Choque de Paz” deixa recado para os "pacificadores"

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Homenagem da polícia carioca ao Dia das Crianças

Homenagem da polícia carioca ao Dia das Crianças






Policiais do Rio de Janeiro, com metralhadoras em punho, revistam perigosas pessoas durante uma batida no Complexo do Alemão. Eles estavam procurando o quê? Coquetel molotov feito com Toddynho contaminado?


No Blog Limpinho & Cheiroso



Vi no ComTextoLivre

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Rio de Janeiro: Evangélicos dizem "Constituição Não"



Rio de Janeiro: Evangélicos dizem "Constituição Não"

Evangélicos têm circulado no Rio com o seguinte adesivo nos carros, imitando a logo da Lei Seca: 


“Constituição não. Lei de Deus sim. Eu apoio.” 


O que eles querem dizer é... não sei.


Na Coluna do Ancelmo Gois

domingo, 18 de setembro de 2011

Caminhada em defesa da liberdade religiosa - Rio de janeiro. ( fotos )


Caminhada em defesa da liberdade religiosa - Rio de Janeiro. ( fotos )


Fotos do Paulo Tarso


Liberdade religiosa eu entendo como liberdade de escolha de religião e também de não ter religião.

























segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Crack: más soluções para terríveis problemas

Crack: más soluções para terríveis problemas


Método de internação compulsória, criado pela prefeitura do Rio para jovens usuários, enfrenta a resistência de entidades e conselhos regionais


Leandro Uchoas no Brasil de Fato

Para especialistas, o internato compulsório faz parte de uma política
higienista - Marcello Casal Jr/ABr

Há poucos anos, o crack era visto como uma especificidade paulistana. Imagens de crianças fumando eram assistidas, de longe, pelo país inteiro. A droga nunca chegava ao Rio de Janeiro. As explicações para isso são variadas, mas a mais crível é a de que as organizações criminosas não aceitavam a entrada do crack na cidade, pelo seu potencial de extermínio dos mais pobres. A partir de 2006 e 2007, começa a surgir a droga lentamente na cidade, em grande parte porque os novos “líderes” do tráfico de drogas passam a ser adolescentes muito jovens, violentos, sem os peculiares padrões éticos dos criminosos tradicionais.
O avanço de organizações paramilitares em regiões pobres da cidade – as milícias – que se aliam ao Terceiro Comando em algumas áreas, faz com que o Comando Vermelho (CV) perca espaço e seja escanteado para regiões mais pobres. Para sobreviver, o CV passa a comercializar o crack, que é mais barato, nessas regiões.
É a partir da metade de 2008 que a droga se torna preocupação dos cariocas. Em 2009, chega às classes média e alta, e começam a surgir matérias nos jornais, rádios e canais de televisão. Surgem campanhas de conscientização e a prefeitura é obrigada a agir. Em 2011, o consumo ainda segue uma trajetória crescente. No início do ano, uma nomeação chama a atenção dos movimentos sociais. Rodrigo Bethlem, ex-titular da Secretaria Municipal Ordem Pública (SMOP), considerado
o “xerife” do choque-de-ordem do prefeito do Rio Eduardo Paes, assume a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS). No período em que esteve à frente da SMOP, foi constantemente acusado de remover mendigos e camelôs de inúmeras áreas, em nome da “ordem”. Na época, a SMAS era uma pedra em seu sapato, por defender essas pessoas, muitas vezes removidas de forma violenta. Portanto, ficou claro para os movimentos de moradia o que significava a nomeação de Bethlem para a SMAS.
A partir do final de maio, as crianças usuárias de crack conheceram o método novo, lançado por Bethlem. Com o Protocolo do Serviço Especializado em Abordagem Social nº 20, ele lançava a internação compulsória, gerando muita polêmica. Os agentes da secretaria – homens muito fortes que lembram os funcionários da SMOP – tiram os menores de idade das cracolândias mesmo contra a sua vontade. Não são poucos os relatos de uso intensivo de força. Entidades de direitos humanos e os conselhos regionais de enfermagem, assistência social e psicologia logo se posicionaram radicalmente contra a medida. Também houve apoio da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, da Rede Rio Criança, do Fórum Rio DCA, do Cedeca, do Projeto Legal, e do Fórum de Saúde Mental. Entretanto, são muitos os defensores do método, uma vez que, como todos reconhecem, o crack é uma droga de sérios danos à saúde mental dos usuários, que passam a consumi-lo, não raro, de forma descontrolada e intensa.
“Nós nos juntamos contra a medida. O internato compulsório nunca será o melhor caminho. Para haver sucesso, é preciso haver adesão do usuário e da família. Essa política é higienista, vem de uma política de choque. Ninguém discorda que o crack é terrível, mas não é assim que se trata”, afirma Hilda Correia, da diretoria do Conselho Regional de Serviço Social. “A iniciativa não deveria ter se dado no campo da assistência social, mas no da saúde. Nem sequer houve articulação com a Secretaria de Saúde”, completa. Os conselhos, ongs e movimentos sociais fizeram um ato público no dia 25 de julho e lançaram um manifesto de repúdio à política da Secretaria.
Contradição
Segundo as organizações, o método contraria a legislação do país. A Lei 10.216 afirma que “a internação compulsória é determinada, de acordo com a legislação vigente, pelo juiz competente, que levará em conta as condições de segurança do estabelecimento, quanto à salvaguarda do paciente, dos demais internados e funcionários”. As organizações também afirmam que a política se contrapõe ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Entretanto, a medida da SMAS tem encontrado amplo apoio de autoridades da Justiça, a começar pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux. A internação compulsória foi definida em comum acordo com o Ministério Público estadual e a Vara de Infância e Juventude.
Ao comentar sobre a mobilização contrária à política, Rodrigo Bethlem é agressivo. “Essa gente vive fazendo demagogia há muito tempo. Queria ver se falariam o mesmo se fosse o filho deles fumando crack. Ou o poder público faz alguma coisa, ou essas crianças vão morrer. O governo deveria ser responsabilizado pela omissão histórica, e não por estar tomando medidas. É muito fácil fazer tese acadêmica com o filho dos outros”, diz. O secretário considera que a opinião pública está amplamente a favor da medida. Uma integrante do Conselho Regional de Psicologia que não quis se identificar reconhece. “A população está sendo, aos poucos, convencida pelos meios de comunicação de massa. Existe uma construção em curso, de que o crack é uma ‘epidemia’, algo a ser combatido com urgência. As pessoas estão desinformadas, e criam um anseio de resolver o problema a qualquer custo”, diz.
“Essa lógica é totalmente oposta à Política Nacional de Saúde Mental, e às políticas voltadas à população de rua. Nega diretrizes do ECA, que reivindicam direito à convivência familiar”, afirma. Para a psicóloga, esse modelo em implantação “é parte desse projeto de limpeza urbana em implantação no Rio de Janeiro. Não é exagero considerar que isso tem relação com esse processo que a cidade vem vivendo”. O Rio de Janeiro é sede das Olimpíadas de 2016 e da final da Copa do Mundo de 2014, além de uma série de megaeventos de diferente natureza, como o Rock in Rio, a Rio+20, a Copa das Confederações e o Encontro Mundial da Juventude Católica. Por isso, o Rio vive uma rede complexa de reformulações urbanas, consideradas elitistas. Um exemplo disso ocorreu nesta semana, quando a prefeitura limitou o horário de funcionamento das feiras de rua.