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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

....cobertura de novela estimula heróis e vilões no mensalão....


....cobertura de novela estimula heróis e vilões no mensalão....

Marcelo Semer* - Sem Juízo

Popularidade pode ser uma armadilha para o juiz

O ministro Joaquim Barbosa posou para fotos, foi aplaudido e deu autógrafos quando votou no primeiro turno das eleições. Ricardo Lewandowsky foi insultado por um mesário no segundo.

A cobertura midiática do julgamento do Mensalão pode até não ter tido, como muitos supunham ou desejavam, influência direta no processo eleitoral. Mas deixou marcas profundas na popularidade dos ministros.

A imprensa não se desincumbiu plenamente da tarefa de informar –inclusive quanto às divergências naturais entre os membros de turma julgadora. Em um julgamento como esse, inusitado seria mesmo a unanimidade.

A mídia vitaminou uma cobertura do tipo novela, dando ênfase à distinção de heróis e vilões. Amplificou bate-bocas e um tratamento seletivo dos erros e acertos dos ministros. Estimulou estereótipos que, ao final, pouco ajudaram a compreender a complexidade do caso e o papel de um juiz.

O dissabor provocado não se restringe apenas ao ministro revisor, ora alçado à condição de inimigo público número um.

É uma armadilha também ao próprio relator. A expectativa de um ministro herói, “popular”, não se sustenta ao longo do tempo. Nenhum juiz consegue coincidir todas as suas decisões com a “voz das ruas”. E, paradoxalmente, se assim o fizer, será um sinal preocupante.

É que a função do magistrado, especialmente na área criminal, tende a ser contramajoritária –muitas vezes suas decisões necessariamente desagradam.
Isso porque a democracia não se esgota na vontade da maioria –o que permitiria aos juízes julgar crimes com base em pesquisas de opinião. Mas vai além, para assegurar um pacote mínimo de garantias a quem não faz parte da maioria ou com ela entra em conflito.

Os direitos fundamentais são, na essência, limitações do poder do Estado, portanto, não raro direitos contra a própria sociedade. Não é possível, pois, interpretá-los sob a ótica da maioria.

Reproduzir a voz das ruas pode significar, em determinadas situações, distanciar-se dos limites próprios do estado de direito, que não são compreendidos ou submetidos ao crivo popular: a acusação certa, o juiz competente, a amplitude da defesa, a licitude da prova, a fundamentação da pena.

São matérias que escapam aos desígnios da sociedade, mas de análise compulsória pelos juízes.

Será salutar para as instituições se os brasileiros recobrarem sua confiança na justiça; mas desastroso se os juízes entenderem que o preço dessa legitimidade é agradar a imprensa ou a “opinião pública”.

Uma justiça mais próxima do povo tem muito pouco a ver, aliás, com a satisfação de um generalizado anseio repressivo.

A justiça é popular quando amplia seu acesso aos mais vulneráveis, transforma em realidade direitos que o constituinte reconheceu e ajuda a reduzir as enormes desigualdades da sociedade. Ou seja, temos um longo caminho pela frente.

* Juiz de Direito em São Paulo

terça-feira, 29 de maio de 2012

"É digno de um ministro, e ex-presidente do Supremo, vazar através da imprensa informações desse teor? Se é que são verdadeiras."

"É digno de um ministro, e ex-presidente do Supremo, vazar através da imprensa informações desse teor? Se é que são verdadeiras."


sábado, 12 de maio de 2012

Promiscuidade Público-Privada (ou Cachoeira de Evidências)

Promiscuidade Público-Privada (ou Cachoeira de Evidências)



Fico observando as revelações do caso "Cachoeira", desmoralizando defensores da moralidade, como se fosse possível haver moral nas relações de poder em nossa sociedade - reflexo da "civilização" ocidental -, totalmente dominada pelas grandes empresas e seus insaciáveis interesses. Financiamentos bilionários de campanhas, espaços na mídia, ocultação dos podres, trocas de favores com o dinheiro público, anistias fiscais (ou anulação de multas e dívidas por impostos), relações promíscuas e no escuro das coxias na macabra dança das marionetes políticas, enquanto a população morre nas filas dos hospitais, por erros médicos, falta de condições para o atendimento, extermínio disfarçado de "guerra ao tráfico" (que não existe, pelo simples fato dos verdadeiros donos do tráfico, empresários de grande porte com empresas legais para a lavagem das fortunas que o tráfico gera, serem também financiadores de campanhas e exaltados pela mídia como "cidadãos exemplares", decidindo políticas públicas para serem implantadas por seus financiados e evitando, no legislativo, a descriminalização que mataria a galinha dos ovos de ouro). Matam jovens - pobres, negros na maioria - nessa falsa "guerra", e idosos - para eliminar aposentadorias e pensões - na "saúde" pública, de forma grotesca, hedionda, perversa. É o "trabalho" de controle populacional, feito por um Estado criminoso, refém dos poderes econômico-financeiros desumanos.

Durante a cara militar da nossa permanente ditadura foi possível agir abertamente fora da lei, sem possibilidade de contestação ou interpelação judiciária, desmantelando violentamente, à força das armas, todas as organizações operárias, trabalhistas, camponesas e estudantis, ao mesmo tempo em que se destruía a capacidade de ensino da educação pública produzindo, desde então, gerações e gerações de analfabetos funcionais (aqueles que lêem com tanta dificuldade que não conseguem interpretar um texto, chegando a 70% da população, segundo as últimas pesquisas, em 2010). O selo de ouro dessa estratégia foi a expansão da mídia privada, a televisão à frente, no controle das comunicações. Estava pronto o cenário para encenar a peça "redemocratização", apresentada como um "conquista do povo brasileiro". Mentiras deslavadas, confirmadas pelos opositores ao regime, numa cegueira egocêntrica e burra, talvez bloqueados em sua visão por uma espécie de lealdade aos que caíram, na ilusão da luta armada.

Agora a mídia fará parecer que o caso Demóstenes/Cachoeira/Policarpo/Civita é pontual, que foi descoberta uma falcatrua dentro do sistema "democrático", por instituições "democráticas", e que tudo será "democraticamente" resolvido, com a punição aos culpados (que não conseguirem escapar da grossa malha jurídica). Alguns cães maiores serão sacrificados, em nome da manutenção do sistema. 

Isto não é um caso à parte, mas situação permanente. São grupos de grande poder econômico e predomínio na mídia privada - televisão principalmente, mas seguida das outras mídias, como se vê nesse caso o envolvimento da revista de "maior tiragem do mundo", o veículo mais reacionário, mentiroso, deturpador de realidades a favor do punhado mais rico da população, subalterno aos mega-empresários das corporações mundiais. Gigantescos vampiros do sangue público, contabilizam seus lucros e obrigam os "representantes do povo" a pagar as contas com o dinheiro dessa população espezinhada, em detrimento dos seus direitos mais básicos. 

O grupo revelado e em estudo para queda calculada é uma casquinha, uma ponta pequena de enorme iceberg submerso. Deve ruir sem afetar as raízes da corrupção endêmica, inerente ao sistema empresarista que se impôs desde o antigo capitalismo, mudando de nome, de roupa e de cara - agilidade que as esquerdas não têm, imobilizadas em sua rigidez ideológica e obrigadas a pasteurizações para compor suas instituições partidárias e já desmoralizadas na mentalidade popular, incapazes de mudanças substanciais e sem poder de convocação à luta, em sua arrogante pretensão de conduzir as massas. Não acredito em nenhum político que não denuncie o predomínio do poder econômico sobre o político, que não entregue os nomes das empresas e seus empresários que colocam a coisa pública a seu serviço, cada vez mais descaradamente.

Dois exemplos recentes demonstram bem a promiscuidade público-privada. A construção da represa de Belo Monte (de mentiras) teve oposição generalizada, dos povos originários, da população local, da prefeitura da cidade mais próxima (Altamira), da Organização dos Estados Americanos, da Comissão Internacional para Direitos Humanos, da ONU, de movimentos sociais os mais diversos. Nada adiantou, o governo brasileiro chegou ao cúmulo de responder à CIDH, da ONU, que "o Brasil" sabia muito bem cuidar de si, disparate vergonhoso. Por quê? Porque as construtoras milionárias interessadas e as indústrias beneficiárias da produção de energia a baixo custo são as mesmas que financiaram as campanhas eleitorais.  O caso do massacre de Pinheirinho, em São José dos Campos, é outra demonstração de a quem serve o poder dito "público". Terreno de empresa falida, que nunca pagou impostos, ocupado havia oito anos por uma população desatendida pelo Estado em seus direitos constitucionais, em bairro construído com esforço próprio, com ruas, postes, saneamento sem participação da prefeitura local, foi atacado violentamente pelas forças de segurança "pública", com cenas de barbárie, espancamentos e mortes, seguidas da estratégia municipal de expulsar as famílias da cidade, de maneira espúria e cruel. Surpresa? Não, são obviedades. Sobre esses dois exemplos há várias postagens neste blog (há infinitos outros exemplos, cotidianos, repetitivos - ontem mesmo foi atacada a ocupação Eliana Silva, em Belo Horizonte, de onde vieram as fotos abaixo), "Documentários sobre Belo Monte", "Pinheirinho - exposição de um sistema social", "Complementando Pinheirinho..." e "Relato de um defensor público de São José dos Camp...". 
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O documentário abaixo não é novidade, foi produzido pela BBC de Londres e exibido em 1993, chegando ao Brasil no ano seguinte. A emissora entrou na justiça e, pelo uso não autorizado da sua marca, conseguiu proibir sua exibição pública em todo território nacional. Achei interessante postar aqui, para quem ainda não conhece perceber parte fundamental da estratégia de controle e manipulação de corações e mentes, através da publicidade e das mensagens subliminares, das informações distorcidas de um pseudo-jornalismo mau caráter, na defesa dos interesses empresariais acima dos interesses públicos, transformando a vida, como disse Eduardo Galeano, num manicômio e num matadouro, para a esmagadora maioria da população. Isso deveria ser exibido e discutido nas salas de aula, nas associações de moradores, nos sindicatos, em cada quarteirão. Não é uma obra acabada, a construção nefasta é permanentemente retocada, reciclada, os cenários estão sempre se adaptando aos acontecimentos, mudando pra permanecer como é, um  predomínio desumano dos interesses empresariais sobre a sociedade, sobre a estrutura do falso poder político, o teatro das marionetes legitimando os crimes contra a humanidade. 

Se não é possível mudar o mundo em pouco tempo, é possível mudar a própria vida, percebendo os valores falsos implantados em nosso inconsciente e assumindo a construção de valores a partir da própria consciência, mais humanos, mas solidários, menos competitivos e egoístas como nos são impostos. A visão de mundo é direito e responsabilidade de cada um, mas é dificultado ao extremo pelo trabalho intenso e extenso de uma publicidade e propaganda que se utiliza da psicologia do inconsciente, do controle das comunicações e da criação deliberada de ignorância e superficialidade (com a sabotagem da educação e controle curricular). Vivemos num mundo de mentiras, é preciso desacreditá-lo para romper as correntes que nos prendem e transformam a sociedade nesse inferno de ameaças, cooptação e medo, necessários ao predomínio das empresas sobre os povos - ignorantizados, explorados, roubados, enganados, controlados, inferiorizados e reprimidos em qualquer manifestação de inconformidade. Mudando a nós mesmos, caçando a verdade hoje acessível, embora ocultada pelo estabelecimento, abandonando os valores falsos e determinando nossos comportamentos para além dos condicionamentos, contaminando as consciências à nossa volta, despertando para a realidade além das mentiras apresentadas, mudamos o mundo, em primeiro lugar, dando sentido à nossa própria existência, criando sabores e cheiros desconhecidos pelos "normais".

"Não é sinal de saúde ser bem ajustado numa sociedade tão profundamente doente". (Krisnamurti)





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domingo, 15 de abril de 2012

O leitor que se diverte com a leitura das entrelinhas não terá motivos para tédio: O discurso da imprensa

O leitor que se diverte com a leitura das entrelinhas não terá motivos para tédio: O discurso da imprensa 

Por Luciano Martins Costa 

Um exercício interessante para quem se interessa pela observação da mídia é analisar o seu discurso no contexto de cada conjunto de temas ao longo de um certo período de tempo. Esse olhar deve incluir, em blocos distintos, o conteúdo noticioso, os editoriais que refletem a opinião do veículo e, paralelamente aos editoriais, os textos dos articulistas fixos.
Também é conveniente definir um período que tenha algum significado, como, por exemplo, o tempo que se segue após um evento importante na política ou na economia.
Uma das primeiras constatações deixa claro que a mídia tradicional, de modo geral, pensa em bloco – como dizia, antigamente, o velho Pasquim. Tomando-se, por exemplo, como ponto inicial a posse da presidente Dilma Rousseff, pode-se observar que a mídia passou duas semanas especulando sobre o que seria o novo governo e, uma vez estabelecida a percepção de que não se trataria de uma continuação do governo anterior, mudou o tom dos comentários sobre política.
Ganhos sociais
Na análise dos valores subjacentes ao discurso presente em manchetes e títulos importantes, pode-se afirmar que a imprensa, como conjunto corporativo, buscava uma aproximação. Não apenas na escolha das palavras, mas principalmente na hierarquia das notícias, pode-se afirmar que a imprensa brasileira ensaiou uma fase de “paz e amor” com o governo, sem no entanto abdicar de apresentar, aqui e ali, suas preferências quanto a decisões futuras da presidente.
Uma vez fumado unilateralmente o cachimbo da paz, iniciou-se a fase da marcação de território, com o despejo de denúncias contra integrantes do governo, que conduziu à sucessão de mudanças no ministério. Interessante observar também que, uma vez concretizado o objetivo de afastar o acusado, cessavam as acusações.
O rescaldo geral dos escândalos é um amontoado de afirmações, declarações, conversas e papéis cuja validade como prova judicial ainda não foi testada. Claro que todos os casos podem levar um dia a condenações, mas a imprensa já não parece interessada na verdade.
Em todos esses eventos, o discurso presente na mídia tradicional foi ambivalente, no sentido em que atacava as entranhas do governo mas buscava preservar a presidente. Cunhou-se, então, a marca da faxina moral, com a qual se pretendia isolar a presidente de seu antecessor e padrinho político, fazendo com que a urgência de se livrar de auxiliares incômodos – tornados incômodos pela ação da imprensa – levasse a presidente da República a se descolar de seu grupo de correligionários e alianças.
A intenção subjacente no discurso era, claramente, quebrar no imaginário social os vínculos entre a criatura e seu criador, desfazendo o elo que dá uma integridade à estratégia do Estado e permite projetar o atual governo como parte de um processo que se iniciou em 2003.
Na mesma época, amadureciam estudos e pesquisas que consolidam os ganhos sociais e econômicos produzidos no período: o Brasil alcançou oficialmente o sexto lugar entre as maiores economias do mundo, manteve-se pouco suscetível à crise na Europa e às consequências da mudança de rumos na economia americana, e viu consolidar-se como força de produção de riqueza um contingente social que até poucos anos antes era tido unicamente como fator de custo.
Diversão garantida
Não havendo como demonizar a estratégia porque ela funcionou, beneficiando inclusive as empresas de comunicação, tratava-se de estabelecer um ponto de ruptura – e ele foi tentado no campo político.
A reação imediata da presidente, cortando na própria carne do governo à primeira suspeita de irregularidade, não alterou o discurso, que só começou a mudar quando ela rejeitou explicitamente a qualificação de “faxineira”.
A doença do ex-presidente Lula da Silva e as pesquisas de opinião revelando que a estratégia havia ajudado a construir uma imensa popularidade para sua sucessora minaram o objetivo implícito no discurso da imprensa. Ao mesmo tempo, a continuidade da percepção de bem-estar, com medidas que desfizeram as apostas da mídia num recrudescimento da inflação e a redução das taxas oficiais de juros, produziram uma aprovação recorde do governo.
Agora se apresenta aos observadores um cenário interessante, no qual se acusa um dos personagens prediletos da imprensa tradicional de ser na verdade um dos principais operadores do lobby do crime organizado em várias instâncias do poder.
Para assegurar alguma coerência, a imprensa precisa manter o discurso da correção política. Para preservar seu significado institucional, precisa abrigar as denúncias com o mesmo empenho que dedicou aos escândalos anteriores. E, principalmente, não poderá omitir os casos eventuais em que organizações da própria imprensa tenham sido apanhados negociando com bandidos.
O leitor que se diverte com a leitura das entrelinhas não terá motivos para tédio.

domingo, 8 de abril de 2012

Demóstenes


Demóstenes

Demóstenes, para ganhar uma cobertura extraordinária de jornais e revistas, seguiu a receita clássica: Falou o que  os outros queriam ouvir

Paulo Nogueira


A imprensa operou uma mágica em Demóstenes Torres: transformou rapidamente um político paroquial e inexpressivo numa personalidade nacional.
Demóstenes, para ganhar uma cobertura extraordinária de jornais e revistas, seguiu a receita clássica: falou o que os outros queriam ouvir. Basicamente, um discurso arquiconservador enfeitado por uma pregação moralista em que o governo era combatido pela ótica da corrupção.
Com isso, Demóstenes se tornou uma presença ubíqua, previsível e maçante na mídia. Ele se juntaria a um coral conservador do qual fazem parte articulistas como Merval Pereira, Ali Kamel, Marco Antonio Villa, Luiz Felipe Condé e Arnaldo Jabor. Todos eles falam, essencialmente, a mesma coisa, frases como que extraídas dos discursos de Ronald Reagan e Margaret Thatcher nos anos 1980. (Curioso que a nenhum deles ocorra fazer, já com a distância que vinte anos permitem, o balanço da obra que Reagan e Thatcher legaram aos Estados Unidos, ele, e ao Reino Unido, ela: declínio econômico acrescentado de uma elevação notável da desigualdade social. Cada um de seu lado do Atlântico, os dois criaram o que um economista americano chamou, num livro recente, de Nanny State ao contrário – Estados-Babás para os ricos.)
É vital que haja microfones para o pensamento conservador. Mas onde o contraponto para ajudar o leitor a formar opinião? Hoje, esse contraponto está praticamente confinado à internet no Brasil. Até por razões econômicas – o consumidor de notícias que não se sente representado é sinônimo de perda de circulação e de audiência – é imperioso para a indústria da mídia brasileira a retomada do equilíbrio perdido. O Deus Mercado, para usar uma expressão cara ao conservadorismo, demanda isso. Os leitores — eu incluído — ficarão felizes.
Demóstenes floresceu exatamente num ambiente de perda de pluralidade de idéias na mídia brasileira. Picaretas aparecem assim, porque a filtragem fica rala. Basta dizer coisas como as que Demóstenes dizia, e seu celular vai tocar, chamado por jornalistas que precisam de frases para preencher textos com idéias preestabelecidas. Das entrevistas telefônicas a convites para participar de programas na Globonews ou escrever colunas é um passo. (Numa rápida pesquisa que fiz, vi que Demóstenes tinha até uma coluna no blog de Ricardo Noblat, das Organizações Globo.)
Demóstenes pertencia claramente à categoria dos conservadores de conveniência. Espertalhões como ele sabem como atrair os holofotes, e se adaptam às circunstâncias. Se para conseguir espaço ele tivesse que adotar uma retórica de esquerda, com certeza Demóstenes andaria com um chaveiro de Marx no bolso e repetiria frases de Lenine. Homens como ele têm uma única ideologia: a do dinheiro.
Demóstenes usou a imprensa, com motivos pecuniários, para se promover. Foi usado por ela, por motivos ideológicos. E quem perdeu nisso foi o Brasil: é nociva para a democracia a crença de que todo político é corrupto. E é difícil fugir dessa conclusão ao ler a história de Demóstenes.
Há uma espécie de justiça poética no fato de que a notícia mais importante da política brasileira em muitos anos tenha nascido não da mídia — mas da Polícia Federal. Para a qual seguem aplausos de pé.
Clap, clap, clap.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Irritada, Marília Gabriela diz que internet não é imprensa

Irritada, Marília Gabriela diz que internet não é imprensa  


Marília Gabriela foi questionada pela repórter do Pânico sobre sua relação de trabalho com o Boni no passado. E pergunta à repórter: 


Marília:Você soube isso por onde?


Amanda:Pela imprensa.


Marília:Pela imprensa, não. Pela internet.
Amanda:Pela imprensa de internet.
Marília:Imprensa é o que imprime.


Amanda: Não posso terminar a pergunta?


Marília: Não. Porque você está procurando a sacanagenzinha para me pegar, para falar de um cara que eu adoro.


Amanda: Não quero que você fale mal de ninguém.


Marília: Você quer. Você não está querendo uma resposta simples. Você está querendo pegar uma pequena sacanagem. E eu não estou a fim de perder meu tempo.


Amanda: Você está brigando comigo?


Marília: Eu estou falando para você que não vou falar.
A jornalista que é referência no Brasil parou no tempo? A prensa é, de fato, o equipamento inventado no século 15 para imprimir livros e jornais. Mas reduzir a imprensa a um aparelho é démodé, Gabi!
Imprensa é uma instituição representada pelos diversos canais de comunicação. Os jornais, as revistas, o rádio, a televisão – onde você trabalha, inclusive – e, sim, a internet.
O jornalismo de internet, que vem crescendo vertiginosamente desde a segunda metade da década de 90, é muitas vezes a principal fonte de informações de uma parcela significativa da população brasileira - especialmente jovens. A moçada troca o papel pela tela, pelo mouse ou pelo tablet. Não é que tenha menos interesse em ler, mas os tempos são outros, Gabi.


Que desserviço, Marília Gabriela.
A partir dos 6:37s








Informações do Brasil247

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A droga da mídia

A droga da mídia


"Mais do que não se saber o que fazer com o crack, não se sabe falar dele"
Antonio Lancetti*


Com honrosas exceções, como a matéria de Eduardo Duarte Zanelato publicada pela revistaÉpoca, caderno São Paulo, no dia 27 de março passado e intitulada "Elas tiram as pedras do caminho, a rotina das agentes de saúde que trabalham na cracolândia para convencer os usuários de drogas a se tratarem da dependência", a mídia tem se dedicado a publicar matérias e programas televisivos sensacionalistas e irresponsáveis a respeito do crack.

Muitas equipes de reportagem acompanharam o trabalho de agentes de saúde, enfermeiros e médicos que conseguem romper o cerco que existe entre esses intocáveis e o resto da sociedade. Foram testemunhas da persistência desses trabalhadores do SUS, do conhecimento de histórias de pessoas com vidas difíceis, quando não escabrosas, que são cuidados, que pedem ajuda. Mas não deram uma linha a respeito.

Esses repórteres conheceram homens, mulheres, jovens e crianças que deram um curso inesperado a suas vidas, e estão sendo atendidos pelas equipes de saúde da família ou pelos Centros de Atenção Psicossocial - CAPS Álcool e Drogas e Infantil da Sé, mas preferem divulgar a ideia de que, se você fumar uma pedra de crack, nunca mais se livrará dela, que a pedra custa cinco reais e que por dois reais você pode adquirir outra destilada com querosene ou gasolina chamada oxi. E dá o endereço: Rua Dino Bueno com Helvetia ou seu entorno chamado "cracolândia paulistana".

Depois da carga midiática, a população flutuante que frequenta a região dos Campos Elíseos e adjacências aumentou significativamente. Se durante a semana há centenas de pessoas nas ruas usando crack, durante o fim de semana são milhares. É só conferir.

Em 1979, Gilles Deleuze produziu um texto luminoso que começa afirmando: "Está claro que não se sabe o que fazer com a droga (mesmo com os drogados), porém não se sabe melhor como falar dela" (Duas Questões, in SaúdeLoucura 3, Hucitec, São Paulo, 1991). Hoje, em 2011, também não sabemos o que fazer com a droga, temos muitas dificuldades para cuidar dos drogados e não sabemos, ou sabemos muito mal falar dela.

Quando alguém se candidata a tratar, cuidar ou, ilusoriamente, salvar essas pessoas, passa a fazer parte de um conjunto-droga: produção, distribuição, consumo, repressão, tratamento... Ser cuidador dessas pessoas requer adentrar em um território complexo, controverso e fascinante.

De que serve o consultório se eles não vão às consultas? Ou as unidades de saúde que abrem às 7 horas da manhã, se a vida nas bocadas invade a madrugada?

Em São Paulo, os profissionais do Sistema Único de Saúde conseguem se vincular com essas pessoas, baseados na práxis do cuidado, na posição ética de defensores da vida e de promotores de cidadania. Mas esses profissionais enfrentam inúmeros obstáculos.

Quanto custa conhecer a biografia de um "noia"? Conseguir que a pessoa tire seus documentos e adira ao tratamento de sua tuberculose, sífilis ou AIDS? Ainda mais quando chegam os guardas municipais, com seus famosos rapas e deixam essas pessoas sem documento e sem remédios. O afeto dos agentes de saúde colide com o gás de pimenta da GCM Guarda Civil Metropolitana, a truculência da Polícia Militar, a falta de vagas em abrigos, a ausência de locais atrativos para homens e mulheres como um dia foi o Boraceia.

Na edição 56 da revista Piauí, Roberto Pompeu de Toledo, em "Crianças do Crack", mostrou detalhes da vida de alguns jovens e algumas crianças e o impasse sistemático da metodologia do Serviço de Atenção Integral ao Dependente (SAID), hospital psiquiátrico conveniado com a Prefeitura de São Paulo e que importa um pacote de tratamento norte-americano.

Os meninos e meninas magistralmente descritos nessa matéria lá estão, em sua grande maioria graças ao vínculo de confiança conquistado pelos agentes de saúde, médicos e enfermeiros do Projeto Centro Legal e do Programa de Saúde da Família do Centro da Cidade de São Paulo. Porém, uma vez lá internados, nessa e em outras clínicas, eles perdem o contato com seus cuidadores. A metodologia centrada exclusivamente na internação hospitalar não se relaciona com os universos onde as pessoas vivem e por isso os processos terapêuticos ficam truncados.

É preciso repetir incansavelmente: não é possível enfrentar de modo simplificado problemas de tamanha complexidade.

Não é verdade que se você experimenta uma vez uma pedra de crack se tornará um viciado, essa ideia só funciona como alma do negócio.

Não é verdade que a internação seja "a solução" para o tratamento dos drogados, se assim fosse não haveria nas clínicas pessoas com 30, 40 ou 50 internações.

Também não é verdade que os verdadeiros toxicômanos mudem com qualquer metodologia clínica conhecida.

É preciso ter condições sociais, relacionais, biológicas e institucionais para se transformar em um verdadeiro toxicômano.

Mas cocaína e crack são absolutamente funcionais a uma sociedade que funciona por falta. O efeito fundamental dessas drogas é o da fissura, da falta de drogas e é disso que as pessoas se tornam adictos: da falta do produto e do produto que produz quimicamente falta.

E assim como a sociedade capitalista vive da produção de falta, a mídia vive da produção de notícia ruim. Os espectadores e leitores, transformados em voyeurs, consomem horas de TV e páginas de jornais e revistas.

Mas a formação do caráter do cuidador ensina ao mesmo tempo nunca cantar vitória e procurar os pontos e linhas de vida em qualquer experiência. Vemos que nem tudo está perdido. Enquanto termino de redigir estas linhas, leio na Folha de S.Paulo a entrevista de Paulina Duarte, Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas, sob o título "Falar que o País vive epidemia de crack é grande bobagem", no qual pode se apreciar serenidade e seriedade.

Mais além de começar a desmontar essas ideias alarmistas e que incitam ao consumo, a mídia poderia se questionar a respeito da eficácia de sua ação e divulgar com maior cuidado os resultados positivos do trabalho de tratamento dos CAPS - Álcool e Drogas, dos consultórios de rua, da equipes de redutores de danos, dos atendimentos de urgência em hospitais e pronto socorros, etc.

O trabalho das equipes de Saúde da Família do Centro da Cidade de São Paulo precisa ser estudado. Elas são a porta de entrada para um mundo quase impenetrável e se pudessem atuar de modo integrado, sem dúvida, teriam maior eficácia. Nunca esquecendo de que o problema das drogas não é de exclusiva competência da saúde.

As manobras e propagandas contra as drogas só promovem exclusão e incitação ao uso. E por outro lado, como afirmou um enfermeiro que atua na região, a cracolândia é o lugar mais democrático da cidade, ali qualquer um é aceito.

Divulgando cada passo positivo, valorizando o trabalho desses cuidadores, a mídia provavelmente não faria bons negócios, mas contribuiria para uma das mais preciosas tarefas da construção da democracia: a de tratar como cidadãos os nossos piores congêneres.


*Psicanalista, autor de Clínica Peripatética (Editora Hucitec). Morador do bairro Campos Elíseos, em São Paulo, próximo à cracolândia.


No SaúdeMental

sábado, 26 de novembro de 2011

Palmério Doria: “A bolinha se tornou mais importante que o Papa”

Sigo Palmério no twitter, @palmeriodoria, um jornalista que me faz ficar informada e ao mesmo tempo me diverte com sua maneira de escrever, sempre com bom humor e espirituoso. A entrevista com ele não poderia ser diferente, ele narra os fatos de maneira gostosa. Depois vou sair e comprar o livo, com certeza.

Palmério Doria: “A bolinha se tornou mais importante que o Papa”


“Esta eleição parece um túnel de trem-fantasma para a Dilma. A cada curva era uma cilada, uma armadilha, uma rasteira” | Foto: Arquivo Pessoal / Twitter
Felipe Prestes no Sul21
Uma bolinha de papel bate na cabeça de um presidenciável e o leva para o hospital. Depois, um telejornal diz que a bolinha não foi a causa do ferimento. Outro objeto teria atingido o candidato. As câmeras mostram. Um perito atesta. Na internet, blogueiros separam o vídeo frame a frame e dizem que não se enxerga objeto nenhum. Uma singela bolinha de papel teria mesmo motivado uma tomografia em José Serra. “A bolinha se tornou mais importante que o Papa. A grande personagem das eleições foi a bolinha”, afirma o jornalista Palmério Dória.
O episódio da bolinha de papel é o ponto de partida para a narrativa de Crime de Imprensa – o retrato de uma imprensa murdoquizada, lançamento de Dória e de Mylton Severiano, ambos jornalistas da velha guarda, com passagem por diversos veículos tanto da imprensa nanica, quanto pelos veículos das famílias que dominam a comunicação no pais. É sobre a cobertura destes últimos nas eleições de 2010 que trata o livro. “Esta eleição parece um túnel de trem-fantasma para a Dilma. A cada curva era uma cilada, uma armadilha, uma rasteira. Ela era seqüestradora, bandida, laranja, poste, ela era tudo”, conta Palmério.
A dupla não espera qualquer resenha nos jornais, mas espera, sim, que o livro seja bem vendida. Os dois já fizeram junto Honoráveis Bandidos, que conta a saga de José Sarney, e vendeu cerca de cem mil exemplares, mesmo com pouquíssima divulgação na grande imprensa. “O livro do Sarney também fala das relações da grande imprensa. Todos os grandes irmãos tinham ótimas relações com o Sarney, ele era, inclusive, colunista da Folha de São Paulo. É muito recente o rompimento dos grandes irmãos com o Sarney”, ressalta Palmério.
Sem papas na língua, o jornalista conversou por telefone com o Sul21 e não poupou nem o vice-presidente da República, Michel Temer. Ele revelou que é processado por diversas pessoas – entre elas, o ex-ministro da Agricultura, Wagner Rossi – e que já nem se defende mais na Justiça. “Não quero nem ser defendido. Abri mão de advogado, porque quero que me prendam. Eu sou fora da lei. Esses caras vão me prender? Agora eu quero ver”.
Nesta sexta-feira (25), o Crime de Imprensa foi lançado em uma banca da Avenida Paulista. A obra está apenas em bancas de São Paulo e também pode ser adquirida pela internet.


“Eu falo da imprensa que perdeu a eleição. Da imprensa que torce para que a crise internacional chegue ao Brasil”


Sul21 – O título do livro é Crime de Imprensa. A imprensa brasileira é criminosa? Por quê?
Palmério Dória – Eu falo da imprensa que perdeu a eleição. Da imprensa que torce para que a crise internacional chegue ao Brasil para jogar uma água fria na Dilma, e no Lula também. É uma imprensa que sabe que pode perder também em 2014 e está desesperada. Eu falo, na verdade, das quatro grandes famílias. Ela (imprensa) é criminosa, no final das contas, porque vem manipulando os prezados leitores e espectadores há décadas.
"Em 2002, O Estado de S. Paulo noticiou uma ida, que não houve, do Serra ao Tocantins. Ele sendo recebido em festa pelo prefeito, quando na verdade estava em São Paulo, no estúdio, gravando" | Foto: Giovanni Bello/UFSC
Sul21 – Quais são as quatro famílias?
Palmério Dória – Estamos falando dos grandes irmãos: os Civita, os Marinho, os Frias e nos meninos daí, filhotes menores, os Sirotsky, que se espalham aí no Sul Maravilha. São basicamente esses.
Sul21 – Os Mesquita foram poupados no livro?
Palmério Dória – Os Mesquita são uma família nascida para perder. Na única vez em que eles apoiaram o Getúlio, ele perdeu, na eleição antes da Revolução (de 30). Eles são pé-frios. A última que eles perderam foi agora. Apostaram brabo no Serra. Eles vêm perdendo todas. Quando apostaram, por exemplo, na Revolução (de 64), conspirando para o golpe, na sequência eles perderam. A ditadura é obra da Família Mesquita.
Sul21 – Mas o livro tem foco na cobertura da grande imprensa às eleições de 2010. O que levou você e o Mylton a escreverem um livro sobre isto?
Palmério Dória – Como sempre, o óbvio. Ninguém vai atrás do óbvio. Você fica pensando: “Todo mundo vai escrever um livro sobre as eleições de 2010”. E a regra é: ninguém faz o óbvio. Este é o primeiro livro sobre as eleições de 2010.
Sul21 – O que esta eleição e sua cobertura teve de especial?
Palmério Dória – É um comportamento padrão. A gente sabia que renderia um grande assunto, que os pequenos e grandes golpes aconteceriam. É inevitável. Aconteceram nas outras eleições presidenciais, por que não aconteceriam nesta? Em 2002, O Estado de São Paulo noticiou uma ida, que não houve, do Serra ao Tocantins. Ele sendo recebido em festa pelo prefeito, com o povo na rua, quando na verdade estava em São Paulo, no estúdio, gravando. Então, eles são capazes de tudo. Evidente que o filme iria se repetir em 2010. 


“No caso deles (imprensa), o crime não compensa. Eles perderam. E vão perder de novo na próxima eleição”


Sul21 – Mas a eleição de 2010 teve alguns episódios peculiares. Quais vocês destacam no livro?
Palmério Dória – O episódio da bolinha realmente eu nunca vi… A bolinha se tornou mais importante que o Papa, que as grandes corporações, que a própria imprensa. A grande personagem das eleições foi a bolinha. A narrativa parte deste episódio da bolinha e vai em frente. Esta eleição parece um túnel de trem-fantasma para a Dilma. A cada curva era uma cilada, uma armadilha, uma rasteira. Ela era seqüestradora, bandida, laranja, poste, ela era tudo. Mas eu destacaria o episódio da bolinha como o mais espetacular. Foi onde ficou configurada esta manipulação toda, com o perito Molina na Globo falando do evento bolinha, do evento fita crepe, tentando transformar o episódio da bolinha em um atentado.
Sul21 – O perito (Ricardo) Molina comenta de tudo. Ele entra no livro de forma mais detalhada?
Palmério Dória – Claro que entra. Ele se presta para qualquer papel. Ele não tem noção do ridículo. O ridículo da vida para ele é pouco, ele entra em qualquer cascata. Está aí para o que der e vier. Mas também tem médicos, um cirurgião, gente que trabalhou para o Cesar Maia. O médico que fez a tomografia que ninguém viu até agora.
Palmério Dória diz que a grande imprensa perdeu muito com a derrota de José Serra: "imagine os negócios que eles iam fazer" | Foto: Giovanni Bello/UFSC
Sul21 – O livro, segundo você disse, fala da imprensa que perdeu. Pode se dizer então que o crime não compensa?
Palmério Dória – Você vê, por exemplo, este caso da Chevron. A gente vê como a imprensa não está cobrindo este episódio. Eles têm helicópteros, eles cobrem ocupação da Rocinha. Não fazem esta história da Chevron-Texaco, que vai enlamear o litoral carioca e paulista neste verão, vai matar a fauna marinha e tudo mais. Eles não fazem porque a Chevron é a patroa, e é a patroa do Serra. Está nos documentos do Wikileaks que o Serra disse que ia rever o pré-sal se ganhasse. No caso deles, o crime não compensa. Eles perderam. E vão perder de novo na próxima eleição. Como diz o Mino Carta na epígrafe do livro: na maioria dos casos a mídia, hoje em dia, é ponta de lança para grandes negócios. Neste sentido, eles perderam mais ainda. Imagine os negócios que eles iam fazer a partir de Serra no poder?


“Este livro não trata de corrupção, mas da maneira como a imprensa cobre a corrupção”


Sul21 – Como você está vendo estas quedas sucessivas de ministros, que às vezes até parece uma jogada ensaiada entre Dilma e Veja e outros veículos?
Palmério Dória – Um cineasta aí do Sul disse que estava para ver um movimento destes de direita, uma ditadura que não tenha se implantado em nome do combate à corrupção. Eu também estou para ver. Este livro não trata de corrupção, mas da maneira como a imprensa cobre a corrupção. Eu gostaria que a imprensa agora colocasse 1% de seu exército para cobrir os roubos no metrô paulistanos. Todas as linhas são superfaturadas. Neste momento o escândalo é da linha lilás. Se a imprensa usasse este poder de fogo permanente para cercar as malfeitorias tucanas não restaria nada. Se essa mídia usasse seu esforço, digamos, para levantar a vida de um Tasso Jereissati, que tem uma holding chamada Ceará, ele é dono do Ceará. Se ela levantasse agora a vida, os negócios secretos, de Aécio e de sua irmãzinha Andréa por trás de uma rádio chamada Arco-Íris. Quem banca os carros de luxo e os jatinhos de Aécio Neves? Eu não vejo este interesse da imprensa em bombardear diariamente. E não há quem segure um fogo cruzado destes. Não livramos a cara de ninguém, até porque não tenho vínculo partidário nenhum. O único sufixo “ista” que se aplica para mim e para o Mylton é jornalista. O que a gente discute é o instituto de dois pesos e duas medidas.
Sul21 – Mas como você vê a relação entre Dilma e a imprensa passada a eleição?
Palmério Dória – Eles apostavam que ela não iria segurar os fisiológicos do PMDB. Ela segurou, os fisiológicos estão ali quietinhos. Nestas crises sucessivas, eles apostaram o tempo todo em revoltas das bancadas, na quebra da governabilidade – incentivando até. Esta governabilidade quando foi exercida pelo FHC não era tão contestada. Então, ela está administrando muito bem. Está no fio da navalha, mas administrando muito bem esta questão.
Sul21 – O livro fala em imprensa “murdoquizada”. No que as práticas da grande imprensa brasileira se assemelham às dos veículos de Murdoch?
Palmério Dória – A gente viu outro dia um repórter da Veja invadir o hotel em que estava José Dirceu, tentar invadir o quarto dele, instalar câmeras. Todos os métodos que o bilionário australiano que domina a imprensa nos EUA e na Inglaterra usou. O que você acha do grampo sem áudio que a Veja montou naquela operação, que desarticulou todo o esquema anticorrupção da Polícia Federal?
Sul21 – Que ocasião foi esta?
Palmério Dória – Foi o grampo que originou a queda do (Paulo) Lacerda e de todo um grupo de inteligência (à frente da ABIN, Lacerda teria grampeado o ministro do STF. O áudio nunca apareceu). Aquilo desarticulou completamente todo um trabalho que vinha sendo feito contra a corrupção. Eles não estão interessados em combater a corrupção, estão interessados em derrubar governos. Enfim, são dois exemplos. Podemos citar uma série de outros. Mas assim age o Murdoch lá e age esta imprensa, estes grandes irmãos, aqui.

“O que este menino fez no caso do José Dirceu é o trabalho sujo. Hoje em dia, esses meninos entram alegremente nesse tipo de coisa”


Sul21 – O que escreve Lima Barreto sobre a imprensa da época dele e que vale tanto para o nosso tempo que acabou sendo publicado em Crime de Imprensa?
Palmério Dória – É um texto de Recordações do Escrivão Isaias Caminha. Ele começa assim: “A imprensa, que quadrilha. Fiquem sabendo vocês que o se o Barba Roxa ressuscitasse agora, com os nossos velozes cruzadores e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão a sua plena atividade se se fizesse jornalista”. Ele pega na verdade as grandes famílias da época, que há cem anos já dominavam a imprensa. Hoje em dia, temos pelo menos uma esperança: a internet.
Sul21 – A internet ajudou muito…
Palmério Dória – Os dois lados. Aquela campanha das trevas, do aborto, foi incentivada pela internet. Mas a internet também foi decisiva para a vitória da Dilma. As forças obscuras, que levaram o aborto para o centro da discussão política, ganharam no primeiro turno. As pessoas falam da queda da Erenice. O próprio João Santana veio com esta lorota de que foi a Erenice que garantiu o 2º turno. Não foi, não. Foram o aborto, os valores; foi Dom Luiz Gonzaga, o Torquemada de Guarulhos; o TFP, a Opus Dei. Depois, a internet, que é uma gráfica que você tem hoje em sua casa, de certa maneira ajudou a Dilma a ganhar.




Jornalista lamenta o que é feito com jovens repórteres nas redações de hoje em dia: "jogam a garotada para se cobrir de cagalhões. Não se faz isto com garoto" | Foto: Jair Bertolucci/TV Cultura
Sul21 – Você o Mylton Severiano são jornalistas experientes. A gente tem impressão às vezes que o jornalista atualmente é mais subserviente aos interesses do patrão. É verdade ou é só impressão?
Palmério Dória – O que este menino fez no caso do José Dirceu é o trabalho sujo. Nós tínhamos outrora nas grandes redações pessoas especializadas neste papel. A gente sabia: “Fulano de Tal”. Hoje em dia, estes meninos entram alegremente neste tipo de coisa. Tínhamos até certa ternura por quem metia a mão na merda, coisa que nós não teríamos coragem de fazer. Esta garotada faz alegremente isto. Por exemplo: meninos que saem destes cursos de trainee e vão direto fazer uma capa na própria Veja demonizando o MST.
Sul21 – É como se fosse um batismo de fogo?
Palmério Dória – É um batismo de fogo. Jogam a garotada para se cobrir de cagalhões. Não se faz isto com garoto. Precisa respeitar no mínimo a garotada. Então, a meninada vai achando que vai crescer bonito e topa qualquer parada.
Sul21 – O bloco de esquerda que hoje está no governo federal não teme demais a imprensa ao não enfrentar, por exemplo, o monopólio das comunicações, que a Constituição não permite?
Palmério Dória – Evidente que sim. O Lula se pela de medo. A Dilma se pela de medo. Eles não aprendem. São incapazes de fazer aqui o que a Cristina Kirchner está fazendo. Está encarando esses caras, mandando o cacete. Aqui, participam de todas as solenidades, aniversário da Folha e tudo o mais. E a Dilma ainda recebe uma cacetada da Danuza Leão porque se retirou antes de terminar o concerto. Mas de qualquer maneira, vão, rendem homenagens e não tomam nenhuma medida para uma palavra bem simples: democratização da mídia, que é a única saída para isto que a gente está conversando.
Sul21 – Como você escreveu também Honoráveis Bandidos, vou fazer uma provocação: o governo tem mais medo da imprensa ou do Sarney?
Palmério Dória – Está diminuindo. Você veja que o Sarney não foi à solenidade da Comissão da Verdade. É um bom sinal. Quem me chamou atenção para este detalhe foi o Luiz Claudio Cunha, que escreveu uma das melhores coisas que eu li nos últimos tempos. O nosso projeto é o mesmo: fazer farinha destes caras, que nem broa. O livro do Sarney também fala das relações da grande imprensa. Todos os grandes irmãos tinham ótimas relações com o Sarney, ele era, inclusive, colunista da Folha de São Paulo. É muito recente o rompimento dos grandes irmãos com o Sarney. Eles adorariam e sabem que o Sarney estaria do lado do Serra, como esteve com todos os governos.
Sul21 – O Ministério de Minas e Energia ninguém tira dele.
Palmério Dória – Em um eventual Governo Serra estaria nas mãos do mesmo Lobão, que era um rato da ditadura. Imagine se, dentro de um projeto de direita, o Sarney não estaria, se o Lobão não estaria. São sapões que têm que ser engolidos e estão sendo engolidos.

“Abri mão de advogado, porque quero que me prendam. Eu sou fora da lei. Esses caras vão me prender?”


Sul21 – Existe a possibilidade política de um governo romper com Sarney ou ainda é inviável para qualquer presidente?
Palmério Dória – Tem se provado que é inviável. Está dito em Honoráveis Bandidos que sem o apoio dele cai o sistema. Esta quadrilha está lá em Honoráveis Bandidos: Michel Temer, Wagner Rossi – que abriu um processo contra mim no valor de R$ 600 mil – o Eduardo Cunha, esses bandidos todos estão lá. E está dito também que a imprensa compactuava com o Sarney. Por isto este livro não teve nenhuma resenha. O papel desta imprensa criminosa já estava contado.
Palmério Dória diz que abriu mão de advogado nos processos contra ele: "o que é que eu vou fazer? Vou à falência para me defender?" | Foto: Arquivo Pessoal / Twitter
Sul21 – Como está transcorrendo este processo de Rossi contra você?
Palmério Dória – Não tenho a menor ideia, vou lhe explicar por que. Não tenho no c… o que periquito voa. Eles podem pedir R$ 1 milhão. Não quero nem ser defendido, abri mão de advogado, porque quero que me prendam. Eu sou fora da lei. Esses caras vão me prender? Agora eu quero ver. Tem uma série de processos dos quais abri mão. Tem o filho do Mario Covas, o Zuzinha; tem a viúva do Dante de Oliveira, que se associou com o crime organizado no Mato Grosso; tem juiz. O que é que eu vou fazer? Vou à falência para me defender? Eles quebram você economicamente jogando esses processos para Brasília, para São Luis, não sei para onde.
Sul21 – As editoras tiveram um pouco de medo de publicar Crime de Imprensa.
Palmério Dória – Não tiveram um pouco de medo, fugiram de mim como o diabo da cruz. Nós estávamos a ponto de publicar este livro virtualmente, porque ninguém topava. Todo mundo saiu da área. Alguns não quiseram conversa, outros sentaram para conversar. Amigos fugiram porque tinham contratos com o governo e se tivessem um processo iam se estrepar. Isto faz parte do jogo. Mas encontramos o pessoal da Plena Editorial que encarou. O livro não está nas livrarias, porque seria inviável economicamente. Será lançado em uma banca de jornal em plena Avenida Paulista.
Sul21 – O plano é não ter nas livrarias?
Palmério Dória – O plano é ter em livrarias. Mas, por exemplo, divulgação zero. A gente diz no final do livro: “Leia Crime de Imprensa, um livro sobre o qual você não verá nenhuma resenha nem menção alguma na grande mídia”. Mas não é reclamando, não. A gente sabe que Honoráveis Bandidos, um livro de jornalismo político e história do Brasil, ficou 35 semanas entre os mais vendidos, apesar deles. E eles não podiam de dar nas suas listas de mais vendidos.