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domingo, 10 de junho de 2012

Carta aberta ao Senhor Antonio Grassi, digníssimo Presidente da Funarte.

Recebi via email
Carta aberta ao Senhor Antonio Grassi, digníssimo Presidente da Funarte.

Depois de quinze dias passados perplexos, mas suficientes para uma profunda e dolorida reflexão, sem o fígado mas com a razão, consciente e sem rancores infantis, decido escrever - ou melhor PROTESTAR  sobre - algo que pela ausência de sentido e com o tremor nas mãos e no corpo de quem passou e sentiu na prática teatral o período negro da recente história do Brasil -  a BLINDAGEM DOS EDITAIS DA  FUNARTE.

O que se passa Sr. Antonio Grassi?

Não sei se é necessário lembrá-lo que a cadeira em que senta - o senhor, a ministra e seus séquitos - certamente é o assento que mais deveria representar os ideais de liberdade (por que não libertinagem), democracia, igualdade, provocação (com e sem causa), sem se esquecer da palavra guinada ao seu valor real pela nossa presidenta: TRANSPARÊNCIA. O senhor habita o Ministério da Cultura do Brasil!

Infelizmente o senhor não se dá conta disso.

O senhor num surto anti-democrático, próprio dos ditadores que ajudamos a sair de cena pelo protesto, pelo grito, pela nossa arte, corre o mesmo risco, apoiado que está numa legislação velha e canhestra. Exceto se as corporações que o senhor politicamente “brinda” fizerem vistas grossas desta sanha autoritária que o tomou. Será lembrado como o ex-artista que de uma canetada “blindou” a Funarte.

Mas, Sr. Antonio Grassi, blindou por quê?

Blindamos algo, quando há uma ameaça. Quando corremos o risco de perder um patrimônio que tanto lutamos para ter é evidente que iremos protegê-lo de uma estranha ameaça. E na maioria das vezes, diante do perigo, escondemos este patrimônio.

Mas a Funarte tem medo do que? A Funarte quer esconder o que?

Ai é que mora a filosofia.

Medo de questionamentos? Mas se é essa a nossa tarefa, como artistas!!
Medo de revelar os projetos? Mas se é dessa revelação que podemos dar o salto de qualidade que ansiamos!!

Medo de expor as comissões julgadoras? A não ser que elas de fato não nos representem!!!

Medo do que Senhor Presidente?

Esta cadeira na qual se ocupa tem preço: o preço de dialogar com todos, inclusive com aqueles pares que se recusam a fazer parte do corporativismo estreito vestido com o cabresto que o impede de olhar para os lados. Do corporativismo de um só olho, incapaz de aceitar a diversidade.

Por favor, Senhor Antonio Grassi, inútil delegar aos distintos advogados do setor jurídico as explicações que somente o senhor seria capaz de nos dar. Se é que ainda podemos chamá-lo de artista.

Carlos Palma
Ator, cenógrafo, dramaturgo e produtor. 
Integrante do Núcleo Arte Ciência no Palco, filiado a Cooperativa Paulista de Teatro.

TEXTO DA PORTARIA
O PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES (Funarte), no
uso das atribuições que lhe confere o inciso V do artigo 14 do
Estatuto aprovado pelo Decreto nº. 5.037 de 07/04/2004 publicado
no DOU de 08/04/2004, torna público que, de acordo com o Art.23
inciso VI da Lei de Acesso à Informação (Lei 12.5527, de 18 de
novembro de 2011) (*), a Funarte classifica como RESERVADAS as
informações relativas a seus editais de fomento às artes, que se
referem a: 1) Conteúdo dos projetos não contemplados nos editais de
fomento; 2) Conteúdo dos projetos contemplados nos editais de fomento até a sua execução (consoante artigo 216, III c/c 216 § 1º, da Constituição Federal). Também se inserem nesta classificação: 3)
Parecer sobre pedidos de recurso de projetos não habilitados na seleção dos editais de fomento, uma vez que não se caracterizam como informação de interesse público, ficando no entanto disponível ao diretamente interessado na decisão

Núcleo Arte Ciência no Palco
da Cooperativa Paulista de Teatro
55 11 3081-8865 | 3068-0557

domingo, 22 de abril de 2012

Cultura - O dever de casa que o PT não fez

Cultura - O dever de casa que o PT não fez

Por Carlos Henrique Machado Freitas
JUROS: A LIÇÃO QUE FICA
A rendição dos bancos ao novo ciclo de queda dos juros marca um divisor na forma de se fazer política econômica no país. Quebrou-se um lacre político. Rompeu-se uma parede hegemônica ardilosamente defendida durante décadas com argumentos supostamente técnicos. Em uma semana, o que era uma impossibilidade esférica, condicionada ao atendimento de uma soberba lista de 20 ‘…contrapartidas’ comunicadas a Brasília com rara deselegância pelo presidente do sindicato dos bancos (Febraban) , Murilo Portugal, reverteu-se em adesão maciça ao corte das taxas. Como se deu a transmutação da inflexibilidade em cordura? O governo e os partidos progressistas não devem temer a resposta que os fatos comunicam: o Estado brasileiro, apesar de tudo, ainda tem poder político e instrumental para reordenar a economia. A maior lição desse episódio é que ele vale também para outras esferas e desafios. (Carta Maior; Sábado/21/04/2012)
Não há dúvida de que o tempo da tirania do dinheiro está vivendo um período histórico no Brasil de fim da permissividade, como deixa claro este trecho de um artigo publicado ontem na Carta Maior. Isso, no entanto, para o governo Dilma que faz justiça a recordes e recordes de aprovação, não significa que a permissividade do comportamento dos atores hegemônicos da cultura aja em contrapartida à política central do governo Dilma, já que o aprofundamento da situação de crise no MinC permanece aquecendo a temperatura com tendência clara a explodir a panela de pressão.
Ocorre que o governo tem olhado para o Ministério da Cultura como se ele fosse uma fração do território político sem importância, incapaz de produzir uma imagem negativa diante dos resultados positivos do próprio governo. Lógico que não existe uma concorrência, mas também é lógico que existe uma verdade potencial de descontrole dos espíiritos da própria militância petista e dos milhões de brasileiros envolvidos com a cultura contra essa presteza larga e cínica que o Ministério da Cultura vem processando para dar exclusividade aos interesses dos atores hegemônicos.
E se essa gestão que desde o início está em crise, a construção desse sistema exige de nós novas reflexões já que o processo está sendo tocado pelo MinC de forma relativamente autônoma, o que desaparece por completo a participação do PT, considerado o chefe da pasta.
Na realidade, e esta crítica que faço tem sido recorrente, o que se revela no bojo da crise, é que o PT não tem política para a cultura. Longe da pretensão de originalidade desta afirmação, já que muitos falaram e com argumentos bem claros sobre a defasagem do partido, só posso grifar que essa lacuna é um fenômeno nacional do PT, melhor dizendo, é uma manifestação particular do partido que em diferentes lugares, municípios e estados e, mesmo em seu corpo parlamentar, a ausência de um projeto cultural é gritante.
Vamos sim comemorar todos os avanços que tivemos com o governo do PT, agora, sob o comando de Dilma, mas também vamos imaginar a realização de um sonho da militância do partido com um projeto que não seja o amontoado de guinchos do MinC, por falta de uma partitura, de um arranjo harmônico e, sobretudo de um maestro que não tenha vindo emprestado do PSDB, como é o caso de Grassi, que jogou Ana de Hollanda, que não é do PT, mas caiu de paraquedas indicada pelo biruta Antonio Grassi, soprado pelos ventos das oligarquias.
Seja como for, toda essa pobreza residual ou mesmo sazonal foi produzida sobretudo pela falta de um debate, de uma plenária capaz de uma produção científica dentro do PT que faça jus a uma política pública de Estado no sentido da cultura como elemento de sociabilização e não como esteio de monopólios que hoje estão sendo representados pelo comando do Ministério da Cultura que causam revolta até mesmo em seus servidores a ponto de se manifestarem publicamente em documento contra essa gestão que vive de um emaranhado de interesses escusos com o que existe de mais irracional em política pública no Brasil.
Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.” (Antonio Cândido).
Carlos Henrique Machado Freitas é músico, compositor e bandolinista.