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terça-feira, 16 de abril de 2013

Cultura de estupro: até nas salas de aula?

Cultura de estupro: até nas salas de aula?




Ontem fui pego de surpresa ao saber que minha prima de 16 anos, sempre muito tranquila e calma, havia sido suspensa da escola. O motivo: numa discussão em sala de aula sobre o estupro ocorrido contra uma turista dentro de uma van no Rio de Janeiro, ela se posicionou contrária ao professor que, após fazer piadas do tipo “Ela foi peso pesado! Aguentou três brutamontes!”, argumentou que a investigação para ser justa deveria considerar a roupa que a vítima vestia para ver se ela não “estava pedindo”. Minha prima disse que aquele era um comentário machista idiota.
E foi convidada a sair de sala.
O infeliz comentário do professor em sala de aula já seria preocupante pelo simples fato dele ser formador de conhecimento para centenas de jovens mentes em aprendizado. No entanto, o que mais preocupa é saber que a visão dele não é isolada, mas faz parte de uma forma ainda muito enraizada em nossa sociedade de modo geral: sugerir que a vítima é parcialmente ou totalmente culpada pelo estupro. O perigo desse pensamento machista é o seu efeito de revitimização, ou seja, encorajar a culparem a vítima e responsabilizá-la pelo estupro, ao invés de culparem o estuprador pelo seu ato criminoso. O ponto é: a vítima nunca é culpada pelo estupro, em hipótese alguma.
Embora não tenha sido esse o pensamento predominante no caso do estupro da estrangeira dentro da van, há outras formas igualmente perversas ao lidar com o episódio atreladas à maneira de se pensar a cidade e a segurança pública.
O primeiro diz respeito ao modo que alguns meios de comunicação repercutiram o caso, manchetes como “Estupro: imagem do Rio afetada” e “Ataque a turistas americanos dentro de van é revés em bom momento vivido pela cidade”. O estupro de uma mulher não é meramente um "revés" para a cidade, mas um ato de violência brutal e inadmissível que afeta antes de qualquer coisa a vida da mulher violentada. A preocupação central não deveria ser com a repercussão e impacto negativos sobre a imagem e turismo da cidade, mas sim com a segurança de todas as mulheres ao garantir seu direito de ir e vir dentro do espaço público, antes de tudo. Fica evidente a lógica predominante de se pensar o Rio de Janeiro enquanto cidade-mercadoria , num estágio tão extremo que até o estupro de uma mulher é visto apenas como um problema que prejudica a imagem do "produto" (o Rio de Janeiro) e sua "venda" (a atração de turistas).
Declarações oficiais do governo afirmaram recentemente que o estupro da jovem americana numa van foi uma “atrocidade”, mas que a violência contra a mulher não é uma prática comum no Brasil nem no Rio. De fato, constatar que o estupro é uma atrocidade é o mínimo de sensatez esperado, contudo, afirmar que as práticas violentas contra as mulheres brasileiras e cariocas são incomuns é perigosamente ilusório. A verdade é que é muito mais comum do que gostaríamos de admitir. De acordo com o Instituto de Segurança Pública, apenas em 2012 foram registrados mais de 6 mil casos de estupro apenas no Rio de Janeiro, isso representa uma média de 16 estupros por dia. Embora o índice represente também uma vitória do crescimento do número de pessoas que passam a confiar cada vez mais na denúncia desse tipo de crime, ainda assim, seis mil mulheres violentadas dentro do Rio de Janeiro será sempre uma derrota social.
Para o poder público e parte da mídia, o problema foi o estupro ter ocorrido com uma turista num dos cartões postais da cidade, Copacabana, o que denigre a imagem da cidade internacionalmente. O perigo de não se reconhecer a violência estrutural contra a mulher é tornar invisíveis os estupros diários cometidos contra a parcela mais exposta da população carioca: mulheres, moradoras de áreas periféricas e de baixa renda. De alguma forma, as violências vivenciadas todos os dias contra essas mulheres não merecem a mesma atenção?
Não querer reconhecer a dura realidade da cultura de estupro em que o Rio está imerso em prol de salvaguardar a “boa imagem da cidade-produto”, é perpetuar a própria violência contra as mulheres ao negligenciar que as violações ocorrem e que deveriam, portanto, serem combatidas efetivamente. Negar a violência contra a mulher não faz com que ela deixe de existir, apenas permite que ela se reproduza em silêncios, lágrimas e traumas calados sem a espetacularização da mídia.
Há muito que ser feito ainda. Um bom primeiro passo é reconhecer e convidar duas alunas muito mais perigosas e problemáticas para fora da sala de aula carioca do que a minha prima: a cultura do estupro e a lógica da cidade-mercadoria do Rio de Janeiro.
Convidar não. Expulsar.
Matheus Bizarria

domingo, 22 de abril de 2012

Cultura - O dever de casa que o PT não fez

Cultura - O dever de casa que o PT não fez

Por Carlos Henrique Machado Freitas
JUROS: A LIÇÃO QUE FICA
A rendição dos bancos ao novo ciclo de queda dos juros marca um divisor na forma de se fazer política econômica no país. Quebrou-se um lacre político. Rompeu-se uma parede hegemônica ardilosamente defendida durante décadas com argumentos supostamente técnicos. Em uma semana, o que era uma impossibilidade esférica, condicionada ao atendimento de uma soberba lista de 20 ‘…contrapartidas’ comunicadas a Brasília com rara deselegância pelo presidente do sindicato dos bancos (Febraban) , Murilo Portugal, reverteu-se em adesão maciça ao corte das taxas. Como se deu a transmutação da inflexibilidade em cordura? O governo e os partidos progressistas não devem temer a resposta que os fatos comunicam: o Estado brasileiro, apesar de tudo, ainda tem poder político e instrumental para reordenar a economia. A maior lição desse episódio é que ele vale também para outras esferas e desafios. (Carta Maior; Sábado/21/04/2012)
Não há dúvida de que o tempo da tirania do dinheiro está vivendo um período histórico no Brasil de fim da permissividade, como deixa claro este trecho de um artigo publicado ontem na Carta Maior. Isso, no entanto, para o governo Dilma que faz justiça a recordes e recordes de aprovação, não significa que a permissividade do comportamento dos atores hegemônicos da cultura aja em contrapartida à política central do governo Dilma, já que o aprofundamento da situação de crise no MinC permanece aquecendo a temperatura com tendência clara a explodir a panela de pressão.
Ocorre que o governo tem olhado para o Ministério da Cultura como se ele fosse uma fração do território político sem importância, incapaz de produzir uma imagem negativa diante dos resultados positivos do próprio governo. Lógico que não existe uma concorrência, mas também é lógico que existe uma verdade potencial de descontrole dos espíiritos da própria militância petista e dos milhões de brasileiros envolvidos com a cultura contra essa presteza larga e cínica que o Ministério da Cultura vem processando para dar exclusividade aos interesses dos atores hegemônicos.
E se essa gestão que desde o início está em crise, a construção desse sistema exige de nós novas reflexões já que o processo está sendo tocado pelo MinC de forma relativamente autônoma, o que desaparece por completo a participação do PT, considerado o chefe da pasta.
Na realidade, e esta crítica que faço tem sido recorrente, o que se revela no bojo da crise, é que o PT não tem política para a cultura. Longe da pretensão de originalidade desta afirmação, já que muitos falaram e com argumentos bem claros sobre a defasagem do partido, só posso grifar que essa lacuna é um fenômeno nacional do PT, melhor dizendo, é uma manifestação particular do partido que em diferentes lugares, municípios e estados e, mesmo em seu corpo parlamentar, a ausência de um projeto cultural é gritante.
Vamos sim comemorar todos os avanços que tivemos com o governo do PT, agora, sob o comando de Dilma, mas também vamos imaginar a realização de um sonho da militância do partido com um projeto que não seja o amontoado de guinchos do MinC, por falta de uma partitura, de um arranjo harmônico e, sobretudo de um maestro que não tenha vindo emprestado do PSDB, como é o caso de Grassi, que jogou Ana de Hollanda, que não é do PT, mas caiu de paraquedas indicada pelo biruta Antonio Grassi, soprado pelos ventos das oligarquias.
Seja como for, toda essa pobreza residual ou mesmo sazonal foi produzida sobretudo pela falta de um debate, de uma plenária capaz de uma produção científica dentro do PT que faça jus a uma política pública de Estado no sentido da cultura como elemento de sociabilização e não como esteio de monopólios que hoje estão sendo representados pelo comando do Ministério da Cultura que causam revolta até mesmo em seus servidores a ponto de se manifestarem publicamente em documento contra essa gestão que vive de um emaranhado de interesses escusos com o que existe de mais irracional em política pública no Brasil.
Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida.” (Antonio Cândido).
Carlos Henrique Machado Freitas é músico, compositor e bandolinista.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O encantamento da diferença

O encantamento da diferença

Por racismoambiental




Dênis Petuco (no Facebook):
“O estranhamento diante da diferença não precisa ser vivido na forma do racismo; é possivel vivê-lo como ENCANTAMENTO! E que não nos esqueçamos: o preconceito – ou sua negação – são aprendidos na cultura”.

domingo, 4 de setembro de 2011

"As pessoas estão ficando muito caretas, muito mais caretas do que já fomos", Ney Matogrosso

"As pessoas estão ficando muito caretas, muito mais caretas do que já fomos", Ney Matogrosso



quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Lula fez muito pela cultura.


MANIFESTO AO GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO

Por Iremar Melo

O candidato a presidência da república pelo PSDB, José Serra numa atividade política exagerou ao dizer : “se eleito, triplicarei o orçamento do Ministério da Cultura”. Ele destacou que, durante sua passagem pelo governo paulista, multiplicou por três o orçamento da pasta e que hoje a Secretaria de Cultura do Estado tem orçamento maior que o federal. Vamos lá.

A Secretaria de Cultura do estado de São Paulo está lá, jogada as traças com parcos investimentos financeiros. O Conselho Estadual de Cultura ninguém sabe o que acontece. O PROAC-ICMS, importante instrumento de multiplicação e democratização da cultura está desativado.

O PROAC está fora do ar por algum tempo. Alguns programas foram "desativados". A Secretaria de Cultura desde a época da Sra. Claudia Costin andou aos trancos e barrancos. Não contribuiu expressivamente. Além disso, desmantelou o Conselho Estadual de Cultura.

Mais para frente o governador, do estado de São Paulo José Serra, segundo o jornal O Estado de São Paulo 31/05/2007, extinguiu as treze delegacias regionais de cultura que abrangia os quatrocentos municípios dentro do estado de São Paulo. Vai ver que era por causa da quantidade de delegacias que representavam na sua totalidade o treze. Informação de desativação foi veiculada no mesmo jornal que publicou em seu editorial do dia 25/09/2010 em Notas e Informações apoio ao candidato José Serra, refutando assim a tendência partidarista de jornais discutida em toda mídia e criticada pelo presidente da república.

Quando o governo federal em 2005/06 lançou a 1ª Conferência Nacional de Cultura, o governo do estado de São Paulo nada fez para que os municípios participassem dessa importante ação promovida pelo governo LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA na figura do Ministro Gil na época. Vale lembrar que o orçamento da cultura no governo federal saltou de R$ 287 milhões, em 2003, para R$ 2,2 bilhões, em 2010. A renúncia fiscal saiu de R$ 400 milhões para mais de R$ 1 bilhão. O governo federal abriu outros editais.

A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo deveria se preocupar em agilizar suas questões culturais e seus programas.

O PROAC-ICMS está suspenso por falta de verba. Daí o governo do estado de São Paulo resolveu paralisar o Programa de Ação Cultural. Está lá no site para quem quiser ver. A verdade é que faltou projeção financeira para posteriores eventualidades. Faltou planejamento orçamentário, articulação entre secretarias de Cultura, de Planejamento, de Finanças entre outras secretarias.

O governador do estado de São Paulo deveria se preocupar em melhorar sua Secretaria de Cultura, aumentar a verba da cultura, bem como voltar com as Delegacias Regionais de Cultura e parar de colocar cabos eleitorais do partido para gerirem esses importantes órgãos públicos.

A revolução precisa ser feita lá na Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo. Lá que deve ser feita uma revolução.

O PAC- na época, agora PROAC, saiu de uma mobilização do Conselho de Entidade Cultural, onde estávamos há mais de três anos lutando para um fundo estadual de cultura, que ao que parece resultou no PAC/PROAC. Com muito custo, as associações e entidades do setor cultural penaram para que isso acontecesse.

Foram feitas várias pressões, idas e vindas na assembléia legislativa do estado de São Paulo para que a coisa
caminhasse.

Houve uma grande mobilização e articulação para que o estado de São Paulo tivesse algo decente. Ainda assim o PROAC-SP anda capengando por falta de recursos financeiros. Os programas onde participam profissionais, têm que ficar esperando sentados para receberem seus parcos cachês e às vezes atrasados. O programa de cultura do estado de São Paulo deixa a desejar. Não existe debate político nesse governo. Não alcança aos pelos menos 645 municípios do estado de São Paulo. Claro, é difícil trabalhar com esse número, mas pelo menos trabalhar com algo expressivo.

A Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo está fincada, sediada, estabilizada no coração de São Paulo, um dos estados mais ricos do Brasil e 1ª economia da América Latina e anda sem recursos expressivos para pagar profissionais, aumentar cachês, aumentar verba de programas, contratar mais profissionais, criar programas com bons investimentos, abrir edital para contratar mais servidores, pagar bem os servidores e renovar projetos aumentado valores.

Caro governador do estado de São Paulo e futuro governador, use de suas atribuições e comece a limpar a casa.

Contrate, faça substituições, nomeie, cobre resultados, aumente a verba da cultura do estado de São Paulo.

Mostre trabalho. Queremos investimento na Cultura do Estado de São Paulo.
Vamos torcer para que o próximo governador do estado de São Paulo trabalhe de verdade para a cultura.

Iremar Melo- Diretor de Teatro, Produtor Cultural, Observador Cultural e Pesquisador Teatral. Trabalha na área há 20 anos.