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quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

19 dados mostram por que é preciso falar sobre violência contra a mulher no Brasil

19 dados mostram por que é preciso falar sobre violência contra a mulher no Brasil

Andréa Martinelli - Brasil Post

VIOLNCIA CONTRA A MULHER

Não é novidade: três em cada quatro mulheres jovens já foram assediadas ouagredidas por companheiros no Brasil. A informação integra a nova pesquisa divulgada nesta quarta-feira (3), pelo Instituto Data Popular, sobre violência contra a mulher, e divulgada no fórum Fale sem Medo, em parceria com o Instituto Avon.
A pesquisa entrevistou 2.046 pessoas, entre 16 e 24 anos — sendo 1.029 mulheres e 1.017 homens — das cinco regiões do País e, por isso, tem como foco a visão dos jovens sobre o assunto. Eles se manifestaram espontaneamente sobre casos de violência, assédio e ameaça nos relacionamentos. Cerca de 96% dos entrevistados afirmam viver em uma sociedade machista.
Mas, apesar de reconhecerem que o Brasil é um país machista, a maioria ainda acredita e reforça comportamentos que reprimem as mulheres e as colocam em posição de desigualdade.
"O jovem não admite o ambiente que ele vê em casa, interfere, protege, mas, ao mesmo tempo, está executando as mesmas posições, com mais controle e poder sobre a mulher", afirmou Lírio Cipriani, sociólogo e diretor executivo do Instituto Avon.
Eis os números que comprovam...
Entre os homens...
66% afirmam que praticaram violência contra a parceira.
Segundo o levantamento...
O índice elevado de jovens que já foram atores ou vítimas de agressões tem relação com a família. 
A maioria...
já presenciou casos de violência entre os pais.
43% dos entrevistados...
já presenciaram a mãe ser agredida pelo pai e quase a metade saiu em defesa da mãe.
A pesquisa revela...
que parte dos casos violentos nos relacionamentos entre jovens é uma herança familiar.
Os homens que presenciaram violência em casa...
reproduzem mais atitudes agressivas.
segundo os pesquisadores...
os jovens associam violência contra a mulher apenas à agressão física.
O número de agressões relatadas aumenta quando...
os entrevistados são apresentados aos tipos de violência pelos pesquisadores. 
Invasão de privacidade...
xingamento, controle da relação, humilhação e agressão física são as ações mais comuns enfrentadas pelas mulheres. 
64% dos que tiveram a mãe violentada...
repetiram os mesmos atos. 
Além disso, 78% delas...
já sofreram assédio em locais públicos, como cantadas agressivas em festas e baladas, toques físicos sem consentimento e beijos à força. 
Quando questionados sobre a Lei Maria da Penha...
Que aumentou o rigor das punições aos homens que cometem agressões contra mulheres, 96% se mostraram a favor da medida. 
A mesma proporção considera que a sociedade brasileira...
é machista — 96%! Boa parte dos entrevistados, no entanto, concorda ou acha correto atos que "diminuem" as mulheres.
Para os jovens a menina deve...
ter a primeira relação sexual em namoro sério. 
42% dos homens e 41% das mulheres entendem...
que elas devem ficar com poucos homens. Eles ainda afirmam que não namoram meninas que têm vida sexual muito ativa.
9 % das mulheres...
contam que já foram obrigadas a fazer sexo quando não estavam com vontade.
37% das entrevistadas dizem...
que já tiveram relação sexual sem camisinha por insistência do parceiro.
15% das jovens dizem...
que foram obrigadas a revelar para os namorados suas senhas de e-mail e Facebook
30% dos homens dizem que a mulher...
que usa decote e saia curta está se oferecendo. 20% das mulheres concordam com essa afirmação.

(Com informações do Estadão Conteúdo)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Violência contra a mulher = crime de tortura

Violência contra a mulher = crime de tortura


Senado aprova projetos que tratam de violência contra a mulher

Mariana Jungmann
Repórter da Agência Brasil
Brasília - Quatro projetos de lei que resultaram da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Violência contra a Mulher foram aprovados hoje (29) no plenário do Senado. As proposições visam a aumentar a rede de proteção às mulheres e o rigor na punição aos agressores. Os projetos seguem agora para a Câmara.
Um dos projetos aprovados é o que tipifica como tortura “a submissão de alguém à situação de violência doméstica e familiar, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental como forma de exercer domínio”.
Na parte de proteção às vítimas de violência de gênero, foi aprovado projeto que concede às mulheres benefício temporário da Previdência Social como forma de auxílio decorrente de risco social provocado por violência doméstica. E o que impõe maior celeridade na análise de pedidos de prisão preventiva contra agressores, de modo a evitar o agravamento da violência.
Além desses, foi aprovado projeto que estabelece que devem ser criados e organizados serviços públicos específicos, no Sistema Único de Saúde (SUS), para atendimento a mulheres e vítimas de violência doméstica em geral.
A CPI da Violência contra a Mulher gerou ainda outros projetos de lei que ainda estão tramitando no Senado. O relatório final da comissão foi entregue à presidenta Dilma Rousseff em sua última visita ao Congresso, na terça-feira (27).

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domingo, 25 de agosto de 2013

Violência contra a mulher: o perigo em casa

Violência contra a mulher: o perigo em casa


A socióloga Fátima Pacheco Jordão fala sobre estudo inédito que revela percepção de que mulheres sofrem mais violência no lar do que em espaços públicos

Patrícia Benvenuti - Brasil de Fato
Para muitas mulheres, o lar não representa segurança nem conforto. Significa, em vez disso, medo e a possibilidade de violências. Uma das questões mais graves para as mulheres, a violência doméstica foi tema de uma pesquisa inédita realizada este ano. 
De acordo com o estudo “Percepção da Sociedade sobre Violência e Assassinatos de Mulheres”, feito pelo Data Popular e pelo Instituto Patrícia Galvão, sete em cada dez entrevistados consideram que as brasileiras sofrem mais violência dentro de casa do que em espaços públicos. 
A pesquisa, que ouviu 1,5 mil homens e mulheres em cem municípios, revelou que 54% dos entrevistados conhecem uma mulher que foi agredida pelo companheiro e 56% conhecem um homem que já agrediu a parceira. 
Já 57% acreditam que, apesar de atualmente haver mais punição para os agressores e assassinos, a forma como a Justiça pune não reduz a violência contra a mulher. 
Um dos aspectos mais preocupantes da pesquisa, de acordo com a socióloga Fátima Pacheco Jordão, conselheira do Instituto Patrícia Galvão, é o medo de represálias em caso de denúncia. Para 85% dos entrevistados, as mulheres que denunciam seus maridos correm mais risco de serem assassinadas. “Não é apenas uma ameaça do mais forte em relação ao mais fraco, é uma ameaça extrema”, afirma. 
A pesquisa foi lançada em agosto, mês em que se completaram sete anos da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), que prevê medidas de proteção à mulher vítima de violência. Sobre a lei, o estudo revelou que 98% conhecem a Lei Maria da Penha. Entretanto, 32% afirmam terem apenas ouvido falar da lei, sem conhecer detalhes da legislação. 
Para Fátima, o índice é preocupante e evidencia uma falha do Estado. “É responsabilidade do Estado, dos governos federal, estaduais e municipais darem transparência a essa lei. Não adianta ter lei se ela não é exercitada”, ressalta. Em entrevista ao Brasil de Fato, a socióloga repercute os resultados da pesquisa e os desafios para pôr fim à violência doméstica no país. 
Brasil de Fato – Quais as principais conclusões desse estudo, na sua opinião? 
Fátima Pacheco Jordão – Já foram feitas muitas pesquisas mostrando a preocupação da população com a violência. Esse estudo retoma esse panorama com uma diferença: mostra uma contundência do fenômeno de agressão contra as mulheres. Para se ter uma ideia, a questão do homicídio e da morte é vista como uma consequência quase provável dentre as mulheres que passam a denunciar. 
Essa pesquisa escancara um quadro muito preocupante: mais da metade das pessoas, homens e mulheres, conhecem mulheres agredidas e homens agressores, portanto a incidência do fenômeno é muito alta. Além disso, a pesquisa mostra que essa violência, percebida pelos entrevistados, atinge a todas as camadas da população, tanto as mais ricas como as mais pobres, famílias com chefes mais ou menos escolarizados. 
Em consequência disso, desse quadro de uma epidemia de violência contra as mulheres, há a percepção de que o Estado, sobretudo a Justiça, não tem estado à altura para coibir. As denúncias têm aumentado, é verdade que as mulheres estão mais autônomas e mais confiantes em denunciar, mas a resposta do Estado é mínima. Você vê que delegacias da mulher, que são consideradas a porta mais utilizada, lembrada e conhecida por 90% das pessoas, no Brasil inteiro existem 500. A grande maioria, dois terços delas, no estado de São Paulo, onde foram criadas na década de 1980. E nem sempre ou quase nunca as delegacias são bem equipadas. 
A Lei Maria da Penha prevê serviços de apoio, psicológico e jurídico, que acolham de uma maneira mais detalhada as necessidades das mulheres. Portanto, você percebe que as mulheres estão bastante desamparadas. Apesar de, nos últimos anos, [terem sido criados] equipamentos como telefones de assistência governamental e de as legislações terem melhorado muito, isso não chegou para sustar o fenômeno. 
O que mais chamou a atenção dos pesquisadores? 
O mais surpreendente é a questão dos homicídios, o medo da mulher de ser assassinada, ou seja, existe uma lógica de apreensão no sentido de que elas se sentem aterrorizadas. Não é apenas uma ameaça do mais forte em relação ao mais fraco, é uma ameaça extrema. Naturalizou-se essa ideia de que ela [mulher] pode ser assassinada. A pesquisa pode ser sintetizada em que as mulheres têm medo de morrer e vergonha de declarar, o que põe a violência contra a mulher em um patamar mais complexo, mais complicado, mais sério e que perdura mais. Não é mais percebido como incidente de passagem, uma coisa que ocorre no processo doméstico, do casamento ou da relação entre as pessoas. É uma coisa que se exercita sob o domínio do medo. 
Como você avalia o grau de consciência da sociedade hoje em relação à violência de gênero? 
Houve um avanço nos últimos anos, obviamente, e a questão dessa violência mais doméstica tem a ver justamente com esses avanços. A mulher saiu de casa, entrou no mercado de trabalho, está mais aberta, se relacionando com a sociedade, e a sociedade de uma maneira geral evoluiu para uma posição de demanda por mais equidade, igualdade em todos os aspectos, social, salarial, escolar etc. É sempre importante lembrar que os aspectos da escolaridade e da educação são dos mais equânimes da cultura brasileira. Há tantos analfabetos homens e mulheres. 
No conjunto de anos estudados, as mulheres estudam mais do que os homens, a diferença salarial, que ainda existe entre homens e mulheres, vem diminuindo. São aspectos sociais e culturais que mostram uma forte evolução das mulheres. 
De acordo com a pesquisa apenas 2% dos entrevistados nunca ouviram falar da Lei Maria da Penha. Entretanto, para 32% a lei é conhecida, mas sem qualquer tipo de detalhamento. Esse desconhecimento, na sua avaliação, prejudica a aplicação da lei? 
Ela é muito conhecida como nome de lei, porém as especificações dela são pouco conhecidas porque a própria lei tem sido aperfeiçoada e nós achamos que essa também é uma falha do Estado. É responsabilidade do Estado, dos governos federal, estaduais e municipais darem transparência a essa lei. Não adianta ter lei se ela não é exercitada. A conquista da denúncia não basta. A denúncia tem que ser qualificada. 
A mulher tem que saber que envolve um processo e que nem sempre ela pode recuar. Tem vários aspectos que é necessário que ela conheça, e o conhecimento maior da Lei Maria da Penha é um dos fatores que, para nós, pode inibir essa barbárie. 
Quais motivos levam a mulher a não denunciar? 
Elas têm basicamente medo de serem assassinadas e de serem ainda mais brutalizadas. Elas têm vergonha de, socialmente, perceberem que estão sendo agredidas e humilhadas. Além de outras questões ligadas ao cuidado com os filhos, dependência econômica em relação ao marido. Esse é um fator forte que inibe as mulheres, os filhos. Sabemos, por meio de outras pesquisas, que quando há atritos ou problemas nas famílias e elas se rompem, são as mulheres que ficam com as crianças. Essa relação mais forte e essa responsabilidade têm a ver com as mulheres. 
Além, disso há o fator psicológico da reincidência, em que depois da agressão a maioria dos homens pede desculpas, atribui a um fator externo, sobretudo bebida. As mulheres vão reiterando isso e se forma um círculo vicioso do qual elas não conseguem sair. 
A que se pode atribuir a continuidade da violência contra a mulher no Brasil? 
Basicamente é uma questão cultural. Há dois lados, de um está uma cultura patriarcal, machista, que está em xeque, e obviamente de outro, o avanço das mulheres em termos sociais e culturais, maior escolaridade, maior autonomia econômica, maior denúncia, ou seja, são todos aspectos ligados à cultura. A cultura machista fazia com que, anos atrás esse assunto fosse colocado debaixo do tapete. Uma violência que era vista no passado como uma violência doméstica, uma coisa entre marido e mulher. Mais ainda, se dizia ‘nesse cenário não se pode meter a colher porque é uma coisa privada’. 
Agora a sociedade tem noção de que essa é uma questão grave, ou seja, no conjunto da percepção de todas as violências da sociedade, a violência contra a mulher é um aspecto predominante para homens e mulheres. 
Como vocês avaliam a cobertura da imprensa em casos de crime contra as mulheres? Há alguns anos os noticiários abordaram fortemente o caso de Eliza Samúdio, ex-companheira do goleiro bruno Fernandes, e com frequência episódios do tipo são divulgados. 
Sim, e dos mais macabros possíveis. Na semana passada, teve um marido que assassinou e emparedou a mulher no muro da casa [caso ocorrido em São Paulo no início de agosto]. Essa questão é muito importante porque a mídia tem dado cada vez mais informações sobre isso, as mortes das mulheres são apontadas nessa direção – marido, namorado –, há casos famosos como esse do Bruno. 
No entanto, a mídia tende a definir esses casos como desvios de rota de homens ou malucos ou ciumentos ou paranoicos, e na verdade é um fenômeno social, que tem a ver com o machismo, com uma sociedade patriarcal e desigual em relação a gênero. A mídia divulga os casos, particulariza e não dá o passo a frente que é explicar o porquê. E muitas vezes, se fossem aprofundadas as razões, poderia ficar mais claro para a sociedade que essa mulher foi desamparada, não teve apoio de família, de vizinhos, da segurança pública. 
A partir do resultado da pesquisa o que o Instituto recomenda como ações prioritárias não só para os governos mas para a sociedade em geral? 
Estamos lutando por melhores e mais equipamentos de apoio às mulheres. Se esses equipamentos se multiplicarem, se as 500 delegacias passarem a ser 5 mil, e assim por diante, mais casas de assistência específica à mulher, coisa que está acontecendo em um ritmo aquém do necessário, isso em si vai apoiar as mulheres. E vai ajudar a sociedade a ver outro referencial para esse problema, que é cultural, além dos problemas pontuais de cada família, de cada mulher e de cada homem.

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terça-feira, 20 de agosto de 2013

Crime de feminicídio poderá ser incluído no Código Penal

Crime de feminicídio poderá ser incluído no Código Penal


O Código Penal (Decreto-Lei nº 2.848/1940) poderá contar com mais uma forma qualificada de homicídio: o feminicídio. A pena sugerida para o crime – conceituado como “forma extrema de violência de gênero que resulta na morte da mulher” – é de reclusão de 12 a 30 anos.
A tipificação especial para o delito foi recomendada pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da Violência contra a Mulher e está prevista no projeto de lei do Senado ( PLS 292/2013 ), proposto no relatório final da CPI. O projeto também deixa claro que a aplicação da pena do feminicídio não elimina punições por demais crimes a ele associados, como estupro.
Circunstâncias
O PLS 292/2013 estabelece três circunstâncias para caracterizar o feminicídio, passíveis de ocorrer de forma isolada ou cumulativamente. Em primeiro lugar, a relação íntima de afeto ou parentesco – por afinidade ou consaguinidade – entre vítima e agressor, seja no presente ou no passado. Outra hipótese é a prática de qualquer tipo de violência sexual contra a vítima, antes ou após sua morte. Por fim, a mutilação ou desfiguração da vítima, antes ou após sua morte.
Ao justificar a proposta, a CPMI registrou o assassinato de 43,7 mil mulheres no país entre 2000 e 2010, 41% delas mortas em suas próprias casas, muitas por companheiros ou ex-companheiros. O aumento de 2,3 para 4,6 assassinatos por 100 mil mulheres entre 1980 e 2010 colocou o Brasil na sétima posição mundial de assassinatos de mulheres.
Impunidade
Relatada pela senadora Ana Rita (PT-ES), a CPMI também avaliou a aprovação da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) como um ponto de partida, e não de chegada, no combate à violência contra a mulher. Daí a defesa da inclusão do feminicídio no Código Penal, em sintonia com recomendação recente da Organização das Nações Unidos (ONU).
“A importância de tipificar o feminicídio é reconhecer, na forma da lei, que mulheres estão sendo mortas pela razão de serem mulheres, expondo a fratura da desigualdade de gênero que persiste em nossa sociedade, e é social, por combater a impunidade, evitando que feminicidas sejam beneficiados por interpretações jurídicas anacrônica e moralmente inaceitáveis, como o de terem cometido “crime passional”, como é observado na justificação do PLS 292/2013.
Agência Senado

domingo, 11 de agosto de 2013

Iniciativas municipais auxiliam no combate à violência contra a mulher

Iniciativas municipais auxiliam no combate à violência contra a mulher

Agência Brasil


Sete anos após o surgimento da Lei Maria da Penha, que prevê medidas de proteção à mulher vítima de violência, iniciativas municipais surgem no Brasil para reprimir os agressores. O botão do pânico, em Vitória (ES), e a tornozeleira eletrônica, em Belo Horizonte (MG), aparecem como ideias bem-sucedidas e que podem ser aplicadas em outros estados.

A tornozeleira já vinha sendo usada em Minas Gerais para outros casos. No entanto, passou a ser usada por agressores de mulheres desde março, com sucesso. O programa, que começou com 37 pessoas, cresceu e já monitorou 329 agressores e vítimas em cinco meses. Atualmente, 219 homens usam o dispositivo, semelhante a um relógio de pulso, preso à perna.

O aparelho determina seu campo de exclusão, evitando aproximação da mulher, que carrega um outro dispositivo na bolsa. Caso haja aproximação indevida, os dois aparelhos emitem um sinal, também replicado na central de monitoramento, que aciona a polícia. A iniciativa se expandiu para a região metropolitana de Belo Horizonte e, de acordo com a Secretaria de Defesa Social de Minas Gerais, chegará ao interior do estado gradualmente.

Na capital capixaba, o botão do pânico já é considerado um sucesso. Utilizado desde maio, trata-se de um dispositivo que a mulher leva consigo e aciona caso sinta-se ameaçada pelo ex-companheiro. Quando utilizado pela mulher, o dispositivo emite um sinal às viaturas especializadas no combate à violência doméstica. Cada agente possui um smartphone que logo após receber o sinal mostra fotos da mulher em situação de risco e do agressor. O aparelho também grava o áudio do que se passa no ambiente. Quatro homens já foram apreendidos com auxílio do aparelho. O último deles, na madrugada desta sexta-feira (9/8), era filho da vítima.

De acordo com a coordenadora estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar do TJ-ES (Tribunal de Justiça do Espírito Santo), juíza Hermínia Maria Azoury, a resposta das mulheres tem sido bastante positiva. Uma delas diz sentir-se “usando colete à prova de balas”. Outra, ainda, tinha um pequeno restaurante, com o qual sustentava a família. As agressões quase diárias a fizeram fechar o estabelecimento. Porém, com o botão do pânico em mãos, conseguiu reabrir o negócio com mais segurança.

Para a juíza, a iniciativa surgiu para corrigir falhas na Lei 11.340/06, a Lei Maria da Penha. “Apesar de ser muito boa, uma das melhores do mundo, a lei não fala como deve ser feita a fiscalização das medidas protetivas. A juíza não está lá pra ver, nem o promotor e nem a polícia. E a única forma que encontramos [de fiscalizar o cumprimento das medidas] foi essa."

Ao explicar que o botão do pânico poderá ser estendido para outras cidades, a juíza Hermínia disse que “vários tribunais têm nos ligado para saber do projeto e a representante de um outro estado já veio ver como funcionava”.

Na abertura da 7ª Jornada Lei Maria da Penha, promovida pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), a titular da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública), Regina Miki, anunciou que o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública está sendo desenvolvido. Segundo ela, o sistema vai auxiliar na prevenção e responsabilização dos agressores, uma vez que serão reunidos dados de diversos tipos de crimes, inclusive violência doméstica e contra a mulher.

Essas iniciativas vêm em boa hora. Em dados divulgados pelo CNJ, foram registrados 91.886 assassinatos de mulheres entre 1980 e 2010. No estudo O Poder Judiciário na aplicação da Lei Maria da Penha, também do CNJ, consta que, apenas em 2009, foram registrados 70.285 atendimentos de mulheres vítimas de violência na rede do SUS (Sistema Único de Saúde). O estudo destaca ainda que o número de agressões tende a ser muito maior, uma vez que os casos registrados são aqueles graves o suficiente para demandar atendimento médico.


Última Instância

sábado, 25 de maio de 2013

Violência contra a mulher aumenta no Rio


Violência contra a mulher aumenta no Rio

Camila Nobrega
Do
Canal Ibase

O Rio de Janeiro tem assistido em choque às notícias sobre o aumento do número de casos de estupro na cidade. Por dia, a média foi de 16 casos, de janeiro a março deste ano, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). Mas, enquanto situações extremas chamam atenção para a atuação de criminosos anônimos na vida das vítimas, outra violência acaba encoberta. Dados do mesmo órgão apontam que metade dos agressores são pessoas de convívio próximo das mulheres, e 29,7% têm relações de parentesco com as vítimas. O problema vai muito além das agressões que ocorrem nas ruas.
Entre os casos mais recentes está o de uma estudante da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), que foi violentada no início deste mês por um colega de faculdade no estacionamento da instituição, localizada no Maracanã, na zona norte do Rio de Janeiro, durante uma festa de calouros da universidade. De acordo com depoimento dado pela vítima à Polícia Civil, o agressor a teria visto com uma mulher durante a festa e manifestado repúdio à situação, forçando-a a ter uma relação sexual com ele em seguida. A polícia ainda investiga o caso. Já a UERJ divulgou um comunicado oficial no site da instituição, manifestando repúdio ao ato e informando que abriu uma sindicância para apurar o ocorrido.
O objetivo das ações mais recentes de movimentos como o Fórum de Combate à Violência Contra as Mulheres é chamar atenção aos vários tipos de agressões comuns no município. Membros do grupo saíram às ruas do centro do Rio na semana passada e farão outros atos. O número de casos de abuso sexual notificados dobrou nos últimos três anos no município, como ressaltou Iara Mora, coordenadora de projetos na Casa da Mulher Trabalhadora (Camtra) e membro do fórum.
“Os números são provas de que as políticas públicas não estão dando conta do problema. Há uma legitimação da violência contra as mulheres na nossa sociedade”, afirma.
De acordo com o ISP, o estado do Rio de Janeiro teve, no primeiro trimestre de 2013, um aumento de 405 casos de estupro em relação ao mesmo período no ano de 2012, um crescimento de 36%. Para Iara, há uma falha grave na garantia dos direitos básicos da mulher, uma vez que apenas situações extremas, como estupros e feminicídios, causam repúdio em cidades brasileiras como o Rio.
“O estupro por desconhecidos é mais visibilizado, e mais fácil de ser denunciado. Só que mais da metade das mulheres são estupradas por amigos, familiares e parceiros. Muitas vivem situações de violência diariamente e só se dão conta quando as atitudes dos parceiros se transformam em agressão física grave. Algumas, no entanto, sequer percebem. Acham, por exemplo, que, se o namorado ou marido as força a fazer sexo, não é errado. Elas legitimam a noção de posse deles sobre o corpo delas”, analisa.
Entre os casos mais emblemáticos de estupros recentes na cidade do Rio, uma mulher de aproximadamente 30 anos foi violentada no dia 3 de maio durante um assalto a um ônibus da linha 369 (Bangu-Carioca), na avenida Brasil. No dia 20 de abril, uma jovem foi vítima de abuso sexual dentro de uma clínica de estética em Bonsucesso, na zona norte. Três dias antes uma menina de 14 anos havia sido vítima de abuso, na Praia do Leblon, na zona sul. O crime ocorreu no final da praia, quase na avenida Niemeyer, via expressa que liga o bairro a São Conrado, na mesma região. No dia 30 de março, jornais do mundo todo noticiaram o caso de uma turista que foi estuprada por três homens, durante seis horas em uma van que fazia o percurso Copacabana-Lapa.
As falhas na garantia dos direitos das mulheres em toda a América Latina foram tema de um seminário realizado no início de maio no México, que reuniu centenas de ativistas de toda a região. As participantes finalizaram um documento, apontando que a legislação não está sendo cumprida nos países latino-americanos e pedindo esforços urgentes no combate à violência contra a mulher.

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segunda-feira, 4 de março de 2013

A ONU alerta:O Brasil, apesar de leis avançadas, é um dos países com maior índice de violência: Mulheres sob ataque

ONU alerta - O Brasil, apesar de leis avançadas, é um dos países com maior índice de violência: Mulheres sob ataque
A ONU alerta: em todo o mundo, sete em cada dez mulheres serão vítimas de agressões ao longo da vida. O Brasil, apesar de leis avançadas, é um dos países com maior índice de violência
Laura Daudén
C.M. tinha apenas 4 anos quando começou a cozinhar para os seis irmãos. Precisava subir em um caixote para mexer no fogão à lenha que dividia o espaço do pequeno cômodo com uma cama e um berço. Toda a tarefa da casa era feita com o máximo de cuidado: qualquer ruído poderia interromper o sono do pai, que trabalhava de madrugada e descansava durante o dia. “Eu morria de medo. Se ele acordasse, vinha atrás de mim”, afirma ela, hoje com 45 anos. C.M. sofreu uma década de abusos quase diários e guardou as duras memórias desse período até o ano passado, quando decidiu revelar sua história à família. Uma de suas filhas também foi vítima de um estupro por parte de um primo, aos 15 anos. “Parece que a coisa continua, como em um ciclo”, diz. Ela não está errada. Em uma mensagem de suporte aos protestos contra a violência de gênero que aconteceram no dia 14 de fevereiro em mais de 200 países – uma campanha que ficou conhecida como “1 Bilhão Que Se Ergue” –, o secretário-geral das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, qualificou o problema como uma “pandemia”. Segundo a ONU, sete em cada dez mulheres no mundo passarão por algum tipo de violência física ou sexual ao longo da vida. Na segunda-feira 4, a organização se reúne em sua sede em Nova York numa conferência de dez dias sobre o tema. Essa situação alarmante e vergonhosa mostra como é difícil mudar as relações de poder que há séculos organizam as sociedades ao redor do mundo.
“A violência contra a mulher deriva da ideologia patriarcal”, afirma Maria Amélia Teles, fundadora da União de Mulheres de São Paulo. “Aprendemos que os homens têm direito sobre a vida e a morte. Esse é um dos pilares mais cruciais da sociedade e dá origem a todas as outras violências.” Parece uma afirmação antiquada, diante das nem tão recentes conquistas da mulher, mas que revela uma desconcertante contemporaneidade, como a declaração da procuradora aposentada do Ministério Público de São Paulo, Luiza Eluf: “Isso faz parte de um sistema de dominação violentíssimo. É o tipo de escravidão mais perverso que já existiu na humanidade.”
Por estar tão arraigado e disseminado, irrestrito a fronteiras, raças ou classes sociais, governos e organizações têm encontrado dificuldade para lidar com o problema. “Nós estamos tentando reverter essa tendência, mas é muito difícil porque não se trata apenas de leis, mas de práticas, do funcionamento das famílias”, afirma Rebecca Tavares, representante da ONU Mulheres no Brasil. Sem sucumbir ao pessimismo, ela lembra que os países escandinavos conseguiram melhorar seus índices de violência apostando na inclusão das mulheres nas instâncias de poder, na participação dos homens nas tarefas domésticas e na garantia da independência financeira feminina.
Isso mostra que, apesar de todas as conquistas ao longo do século XX, ainda faz muito sentido sair às ruas e empunhar as velhas bandeiras dos movimentos feministas – e é o que muitas mulheres têm feito. Em dezembro de 2012, multidões tomaram cidades da Índia para protestar contra o estupro coletivo que resultou na morte de uma jovem estudante e reivindicar penas mais duras para os agressores. Protestos da mesma ordem se repetiram na África do Sul depois do estupro coletivo de Anene Booysen, de 17 anos. Lá, há três semanas, manifestações em frente ao Tribunal de Pretória marcaram as primeiras audiências do processo a que o atleta Oscar Pistorius responde por assassinato premeditado de sua namorada. Aqui no Brasil, no começo de fevereiro, organizações como a Marcha Mundial das Mulheres se postaram diante do Fórum Edgar Mendes Quintela, na cidade de Ruy Barbosa, na Bahia, para pedir justiça a duas meninas de 16 anos que acusam de estupro nove membros da banda de pagode New Hit (as audiências de instrução foram suspensas até o início de setembro). Para Melissa de Miranda, uma das organizadoras da campanha “1 Bilhão Que Se Ergue” no Brasil, essas manifestações espontâneas mostram que “há uma demanda por movimentos mais abertos” de defesa dos direitos das mulheres – as redes virtuais são um exemplo.
Além das mobilizações coletivas, mulheres vítimas de violência estão abrindo, sozinhas, novas frentes de debate a partir de suas experiências. É o caso da gaúcha Paula Berlowitz, 34 anos, que idealizou o blog Marchadasvadias.org e o site Cromossomo X, com notícias relacionadas aos direitos das mulheres. Ela foi vítima de violência doméstica por 12 anos. “É irônico porque eu sempre fui muito consciente, achava que nunca aconteceria comigo”, diz. O estalo que fez Paula buscar ajuda veio depois de muitas agressões físicas e sexuais do então marido. Ela saiu de casa com os três filhos e denunciou o ex, que foi preso em flagrante, mas pagou fiança e foi liberado no dia seguinte, em mais um caso que mostra a dificuldade em punir o agressor e proteger a vítima.
Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) de dezembro de 2011, mais de 26 mil prisões em flagrante e quatro mil prisões preventivas já foram feitas a partir da execução da Lei Maria da Penha, que é referência no mundo no combate à violência contra a mulher (leia mais na pág. 51). Apesar de expressivos, os números não refletem a percepção de muitas mulheres de que a Justiça é um dos principais gargalos para o fim da violência. “Em alguns lugares do País, a Defensoria não funciona e o Ministério Público não tem versão atualizada da legislação e dá prioridade à conciliação, não à denúncia. Em outros, as delegacias não funcionam e não possuem pessoal qualificado”, afirma a senadora Ana Rita (PT-ES), relatora da CPMI da Violência Contra as Mulheres. Ela tenta entender por que o Brasil, apesar da legislação avançada, ainda tem índices tão altos de violência. O relatório da comissão será publicado daqui a duas semanas, pouco depois do lançamento, em 8 de março, Dia Internacional da Mulher, do pacote de medidas para as mulheres da presidenta Dilma Rousseff.
Outra falha na aplicação da Lei Maria da Penha foi identificada pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo, Estado que lidera o ranking de homicídios femininos. Percebendo o aumento no número de agressores que violavam as medidas protetivas, o tribunal criou um dispositivo que funciona como um “botão do pânico” para as mulheres que se sentirem ameaçadas. O projeto-piloto, inédito no mundo, começa agora. Um aparelho assim teria sido de grande utilidade para a vendedora Deise Brito Cornélio, 33 anos, que chegou a fazer oito boletins de ocorrência denunciando as agressões, os estupros, o cárcere privado e as ameaças que sofria do ex-marido, com quem viveu por seis anos. Apesar da gravidade das acusações, ela só conseguiu a prisão do agressor depois de ludibriá-lo e convencê-lo a ir com ela até o Fórum de Justiça, onde provou seu desrespeito às medidas protetivas.

Hoje, apesar de seguir escondida do ex-marido (ele deixou a prisão há quatro semanas), Deise tenta reconstruir a vida. Ela permaneceu quatro meses no abrigo Bianca Consoli, de endereço sigiloso, mantido pela recém-criada Secretaria Especial de Políticas Para as Mulheres (SEPPM), da Prefeitura de São Paulo. Na casa, que tem espaço para cinco mulheres com seus filhos, ela recebeu atendimento psicológico, orientação jurídica e foi incluída nos programas assistenciais do governo. Segundo a secretária Denise Motta Dau, da SEPPM, a cidade já tem dois centros de referência além da casa, mas a demanda exige que mais um abrigo seja construído. Ela entende, no entanto, que, se os demais recursos e programas forem aplicados corretamente, a institucionalização da mulher vítima de violência só acontecerá em último caso. “Ajuda bastante se tivermos uma política de Estado”, afirma, ressaltando a importância de integrar os serviços de assistência social, justiça e saúde.
A opinião é compartilhada por Branca Paperetti, que coordena o centro de referência Eliane de Grammont, na capital paulista. “Não é uma resposta única que vai devolver à mulher as pontes que ela tinha com o mundo. Por isso é necessário que haja um processo, não uma ação isolada.” A assistência, no entanto, ainda está longe de grande parte das vítimas, em especial daquelas que passaram por violência sexual na infância e só depois de muitos anos conseguiram buscar ajuda. Foi o que aconteceu com Bya Albuquerque, 45 anos, fundadora do grupo “Filhas do Silêncio” em Ribeirão Preto, São Paulo. Ela foi violentada pelo pai entre os 2 e os 26 anos e hoje sofre de insônia, crises de depressão e distúrbio alimentar. “Todas nós que sofremos violência na infância estamos agora enfrentando uma violência emocional sem encontrar nenhum tipo de ajuda”, diz. “As mulheres que estavam ameaçadas no momento das agressões e não revelaram o problema antes – e poucas coisas são tão difíceis de revelar como o abuso sexual – precisam ter a oportunidade de falar agora”, afirma Jefferson Drezett, coordenador do projeto “Bem Me Quer” do hospital Pérola Byington, em São Paulo, criado em 1996 para atender mulheres e crianças vítimas de violência sexual e garantir o direito de aborto previsto na Constituição. “É obrigação do País oferecer políticas públicas para essas mulheres que falhamos em proteger.” Entre 2000 e 2012, o número de pacientes atendidas pelo projeto cresceu 137%, chegando a 2.875.

“Todo mundo me pergunta por que eu não falei nada”, diz a escritora cearense Helena Damasceno, 39 anos, que foi abusada pelo tio dos 5 aos 20 anos. “Eu passava uma semana inteira sem tomar banho, sem trocar de roupa. Essa era minha forma de gritar para a minha família, de conectar o que estava dentro e o que estava fora. Eu falava com o corpo, mas ninguém entendia.” Hoje, depois de transformar sua história no livro “Pele de Cristal”, Helena ministra cursos e palestras sobre o assunto por todo o Nordeste. A professora Márcia Longo, 45 anos, que vive na cidade paulista de Araras, passou por situação semelhante. Ela foi abusada pelo pai entre os 4 e os 11 anos e também pelo irmão mais velho entre os 10 e os 11. Depois de assumir a história de abuso, Márcia transformou o sofrimento em ação: como educadora, verificou a necessidade de informar professores, diretores, pais e alunos sobre como lidar com a violência sexual e criou o projeto “Nem Com Uma Flor”, que visa a promover debates sobre o assunto na rede municipal de ensino. O trabalho começará a ser implantado em março. “A criança precisa saber que a culpa não é dela. Se aos meus 10 anos tivesse ouvido isso, minha vida teria sido totalmente diferente”, diz.
Iniciativas como essas, que tentam derrubar a ideia de que a vítima é responsável pela agressão, têm sido fundamentais para romper o ciclo de violência e dominação. Para Sônia Coelho, da organização feminista Sempre Viva, o preconceito faz com que a vida, o corpo e o modo de pensar das mulheres sejam controlados o tempo todo. “Estamos condicionadas a pensar na roupa que vestimos, por onde caminhamos, se o ônibus vai estar cheio. Isso sustenta nossa subordinação.” Foi justamente para tornar esse problema visível que a britânica Laura Bates criou o projeto “Every Day Sexism” (o sexismo de todos os dias), em que estimula as vítimas a denunciar através da internet os assédios que sofrem na rua, em casa e no trabalho. “Estamos acostumadas a achar que o assédio é intrínseco à condição de mulher”, diz. Em apenas dez meses, mais de 20 mil pessoas usaram o site para contar suas histórias no Reino Unido (o projeto será ampliado para outros países dentro de algumas semanas).

SOLIDÁRIO
Cauã Reymond posa para uma campanha do Banco Mundial que
desfaz a ideia de que a Lei Maria da Penha é contra os homens
Esse aumento expressivo no número de vítimas que denunciam seus agressores tem sido fundamental para identificar a extensão da epidemia e, consequentemente, criar políticas adequadas para combatê-la. Aqui no Brasil não é diferente: entre 2011 e 2012 houve um crescimento de 13% nas ligações ao Disque 180 da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, que repassou mais de R$ 40 milhões para os Estados e municípios no ano passado. “A Lei Maria da Penha mostra para as mulheres que o Estado as acolhe, que elas podem denunciar. Assim, essa lamentável violência passa a ser visível”, afirma a ministra Eleonora Menecucci.
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Vi Combate ao Racismo Ambiental.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A violência histórica e atual contra a mulher no país

A violência histórica e atual contra a mulher no país

Brasil é um dos países com maior incidência de assassinatos de mulheres. Cultura de opressão sobre a mulher está marcada em todas as esferas

Pedro Carrano - Brasil de Fato

   
   
Brasil é um dos países com mais incidência de assassinatos de mulheres
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

O caso de estupro sofrido por uma trabalhadora de enfermagem, quando três homens invadiram sua residência e a violentaram, sob mando do ex-marido, chocou a opinião pública paranaense. A mídia deu amplo destaque ao fato, ocorrido em novembro de 2012, mas divulgado apenas agora. O caso deixou exposta a falta de condições de denúncia para crimes como este. A enfermeira não conseguiu fazer a denúncia na Delegacia da Mulher, tendo uma resposta apenas na Delegacia de Furtos e Roubos. Antes disso ainda teve que passar por um distrito policial local.
O caso abre o debate para uma série de dados sistematizados sobre o grande número de casos de violência de gênero e violência sexual contra a mulher. O estado do Paraná é o terceiro estado do país com maior incidência de atos de violência. São 6,3 homicídios a cada 100 mil mulheres. O estado do Espírito Santo, com taxa de 9,4 homicídios em cada 100 mil mulheres, mais que duplica a média nacional e quase quadruplica a taxa do Piauí, o estado que apresenta o menor índice do país. Os dados fazem parte do Mapa da Violência contra a Mulher, levantado pelo Instituto Sangari.
Ainda assim, o debate é marcado pela parcialidade e sensacionalismo midiático. Quando, na direção oposta, especialistas na questão de gênero e luta das mulheres apontam que a opressão histórica e a cultura patriarcal arraigadas na sociedade fazem do continente latino-americano local de inúmeras violações. Heliana Hemetério dos Santos, integrante da Rede de Mulheres Negras (PR) defende que, de modo geral, no caso brasileiro, não é possível descartar os elementos culturais e históricos para análise de tal situação. Acredita que a violência doméstica e o machismo partem de uma educação que não condena tais práticas. “É uma tradição em nossa cultura, na qual bater na mulher nunca foi vergonhoso. O Estado brasileiro anda de mãos dadas com esta concepção”, denuncia.
A violência, de acordo com a militante, também é elevada entre a população feminina negra. “Houve aumento da violência no caso da mulher negra? Não. Na realidade, nós sempre estivemos no topo das estatísticas. Sempre as mais violentadas dentro e fora de casa, numa situação histórica e permanente”, denuncia.
Os números comprovam uma realidade violenta, não desvelada por completo. Os casos conhecidos como “femicídio”, de acordo com informações do Instituto Sangari, não são devidamente registrados. Ou estão encobertos sob a forma de outras ocorrências. O femicídio “é um termo político que caracteriza o homicídio de mulheres pelo fato de serem mulheres, baseado numa discriminação de gênero, em meio a formas de dominação, exercício de poder e controle sobre elas”, explica Jackeline Florêncio, secretária executiva da Plataforma Dhesca Brasil e integrante do coletivo das Promotoras Legais Populares de Curitiba. “O femicídio tem sido subnotificado. Não são anotadas devidamente as circunstâncias da morte violenta da mulher quando essa se dá no âmbito das relações de homens e mulheres sob a perspectiva de gênero. Hoje não podemos fazer uma estimativa de quantos femicídios são cometidos contra as mulheres”, reconhece texto de Maria Amélia Teles, em uma publicação das Promotoras Legais Populares de São Paulo.
Números
   
   
Taxas de homicídio de mulheres (em 100 mil) por
unidade federativa
A realidade nacional, comparada a outros países, também é preocupante. O Mapa da Violência contra a Mulher, elaborado pelo Instituto Sangari, aponta que o Brasil é o sétimo país no mundo em número de homicídios de mulheres. Entre 1980 e 2010, foram assassinadas 92 mil mulheres no Brasil, sendo que quase metade dos assassinatos (41%) ocorreu na sua residência. De acordo ainda com o Instituto Sangari, de 1997 a 2007, 41532 mulheres morreram vítimas de homicídios.
“O Estado brasileiro tem sido ineficiente no dever de devida diligência e na aplicação de políticas e medidas destinadas a prevenir, punir e erradicar esse tipo de violência”, critica Jackeline Florêncio.
Especialistas no tema criticam a construção social que destina a mulher ao âmbito do espaço privado, ao passo que o espaço público seria uma construção destinada aos homens. Entre os homens, só 14,7% homicídios aconteceram na residência ou habitação. Já entre as mulheres, essa proporção eleva-se para 40%, de acordo com o mesmo Mapa de Violência.
“A violência está de mãos dadas com o poder patriarcal, com a educação machista. O racismo e a violência contra a mulher são estruturantes. Precisamos de formação para termos as respostas de fato que precisamos”, comenta Heliana.
Em 1994, na cidade de Belém do Pará, foi firmada a Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, conhecida como Convenção de Belém do Pará. O princípio da convenção definia que a violência contra a mulher se dava como qualquer ação ou conduta, baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto no âmbito público como no privado. Anos antes, em 1979, a Convenção sobre Eliminação de toda forma de discriminação contra a Mulher (Cedaw) da ONU, é um dos primeiros marcos de condenação a estas práticas.
Essas medidas responderam, à época, pelas reivindicações dos movimentos de mulheres. Responderam, de outro lado, pela pressão de organismos como o Banco Mundial, que enxerga a inserção das mulheres com maior velocidade no mundo do trabalho uma condição de lucratividade na ótica neoliberal. “Houve uma luta muito intensa do movimento feminista e de mulheres das Américas para caracterizar e definir formalmente a violência numa região (principalmente a América Latina) tão encharcada pelo sangue feminino”, descreve Jackeline Florêncio.
Na América Latina, a situação está presente em vários países. Segundo o Mapa da Violência 2012, o Brasil, sétimo país com maior incidência de homicídios, perde apenas países como El Salvador, Trinidad e Tobago, Guatemala, Colômbia e Belize. “Na Colômbia, paramilitares, guerrilha e exército otimizam estupros como arma de guerra, no saque às comunidades”, afirma Jackeline Florêncio. Na América Central, México e Guatemala, os índices de femicídio estão entre os mais altos do planeta.
O Mapa da Violência aponta ainda que o Brasil perde para países da América Latina, como a Argentina, em 35º, o Uruguai, em 38º, e o México, em 42º. A lista é liderada pela Austrália, seguida de países europeus como a Noruega, Suécia, Finlândia, Holanda e Alemanha, além da Nova Zelândia e o Canadá. Os EUA ficam na 30ª posição no que se refere a este tipo de abuso.
   
   Reprodução de cartaz para seminário sobre feminismo, gênero e classe
Bandeiras de luta
Há uma série de lutas encampadas melo movimento de mulheres para prevenir a condição atual de violência e opressão. Uma grande lacuna se refere à falta de condição de denúncia e atendimento à mulher vítima de agressão. Heliana Hemetério dos Santos enumera a falta de delegacias da mulher, com estrutura para atendimento, viaturas e profissionais. As delegacias abrem apenas durante horário comercial, e os juizados não são instalados. Afirma também que é importante as secretarias de Educação estaduais adotarem uma política de discussão de gênero no interior das escolas. Outra pauta é a luta por casas de abrigo para mulheres vítimas de violência, algo estipulado por Lei.