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sábado, 1 de junho de 2013

O problema do discurso de ódio do Facebook

O problema do discurso de ódio do Facebook

Observatório da Imprensa

Tradução de Jô Amado, edição de Larriza Thurler. Informações de Mary Elizabeth Williams [“Facebook’s hate speech problem”, Salon, 21/5/13]

Quando três adolescentes da região de Chicago foram acusados, no último fim de semana, de estuprar uma menina de 12 anos – e em seguida postar um vídeo da agressão em suas páginas no Facebook – era uma história tão revoltante quanto plausível. Afinal, você não tem que procurar muito no Facebook para encontrar imagens de mulheres sendo humilhadas ou de grupos que se dedicam a rir da violência contra as mulheres. Mas uma ousada carta aberta ao Facebook, divulgada na terça-feira (21/5), espera mudar isso.
Na carta, Jaclyn Friedman, da entidade Women, Action, & the Media, a escritora Soraya Chemaly e a idealizadora do projeto Everyday Sexism, Laura Bates, e dúzias de outras ativistas e grupos exigem do Facebook que “reconheça o discurso que banaliza ou glorifica a violência contra meninas e mulheres como um discurso de ódio” e que treine seus moderadores para o reconhecerem e removerem. Pede aos usuários do Facebook que “contatem anunciantes cujos anúncios foram publicados ao lado do conteúdo que visa às mulheres pela violência”. É um pedido feito com frequência, mas pode ser que desta vez seja ouvido.
Em apenas nove anos, o Facebook tornou-se parte do cotidiano das vidas de milhões de pessoas. Não há dúvida de que tem uma quantidade assombrosa de conteúdo que se propaga a um ritmo que é impossível acompanhar. O trabalho de moderar comunidades online é um dos mais difíceis e ingratos do universo e as falsificações e adulterações são inúmeras e infatigáveis. Ainda assim, o histórico do Facebook é espantoso.
Mulher é estuprada por gangue
Normalmente, o Facebook trata as mulheres que divulgam imagens de si próprias dando de mamar como, nas palavras da educadora Emma Kwasnica, “pornógrafas”, removendo as fotografias. Apaga as fotos desobreviventes de câncer de mama. Somente quando são desafiados direta e publicamente – ou simplesmente quando os moderadores não compreendem – essas imagens, que nada têm de pornográfico, sobrevivem. No entanto, uma busca fácil irá produzir numa fan page de “saia para cima” a imagem de uma moça que nitidamente deixou sua calcinha em casa. Um rápido exame de uns poucos grupos que existem encontrará inúmeras referências humorísticas a vadias e ao que um punho cerrado pode fazer para endireitá-las.
Muito mais inquietantes, no entanto, são as inúmeras imagens pró-estupro e agressão que aparecem por todo o Facebook – muitas vezes ao lado de anúncios inócuos de livros de áudio e empresas aéreas. Tais como a imagem de uma mulher, em cima de uma pilha de lixo e em baixo de um lance de escadas, com a mensagem “Da próxima vez, não fique grávida” ao lado de um anúncio do Pringles. É por isso que alertar os anunciantes para o contexto em que suas mensagens aparecem é tão crucial. Talvez Pringles não queira ser o aperitivo oficial de cidadãos que jogam mulheres grávidas escada abaixo. Talvez a Duracell não queira carregar o aparelho de gente que “mata putas como você”. Um meme #Fbrape divulgado no Twitter na terça-feira já inspirou um dilúvio de tuítes e algumas possíveis ações prometedoras. Zipcar, por exemplo, prometeu Não perdoamos o discurso de ódio contra as mulheres. Estamos verificando isto imediatamente.”
Mas o problema é mais profundo que as piadas e imagens sobre estupro e violência, passando para o reino do estupro e violência concretos. Soraya Chemaly, uma das autoras do projeto, disse na terça-feira que no outono passado uma leitora entrou em contato com ela via Facebook e disse-lhe que investigasse algo que encontrara ali postado. “Ela disse que já havia comunicado várias vezes e que a coisa já vinha há bastante tempo”, disse ela. Era um vídeo, de quase sete minutos, de uma mulher que caminhava pela calçada e que é agarrada e estuprada por uma gangue. “Estava no ar há 24 dias e tinha sido visto centenas de vezes”, disse Soraya Chemaly. “É incompreensível como é que pode ter ficado no ar durante tanto tempo.” (Soraya Chemaly também tomou providências e o vídeo foi rapidamente removido.)
Liberdade de expressão não é discurso de ódio
Como destaca Soraya Chemaly, é a seletividade aparentemente aleatória da aplicação do Facebook que irrita. “Tiraram a pintura de John Currin de Bea Arthur e deixam esta porcaria”, diz ela. No meio tempo, “eles criam um ambiente onde o estupro é divertido, onde se pode ter vaidade em fazê-lo”. Um ambiente onde, segundo documentos judiciais, é alarmantemente fácil colocar um vídeo do abuso sexual de uma menina de 12 anos.
As corporações têm algumas obrigações. Liberdade de expressão não é discurso de ódio. Liberdade de expressão nada tem de semelhante com um grupo chamado Estuprando Violentamente Sua Amiga Só pra Diversão. E um ambiente hostil e violento torna o conceito construído em torno da palavra “amigo” apenas uma piada cruel e estúpida. Ou como destacou alguém num comentário à carta, “no Facebook, o ódio por uma minoria religiosa ou étnica leva você a ser banido, mas o ódio por metade da humanidade leva você a ser ‘curtido’”.

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sábado, 23 de junho de 2012

Presidenta Dilma: " Não tenho qualquer sentimento. Nem ódio, nem vingança. Tampouco perdão"

Presidenta Dilma: " Não tenho qualquer sentimento. Nem ódio, nem vingança. Tampouco perdão"


Presidente comenta reportagens do EM sobre a tortura a que foi submetida durante a ditadura e afirma que todos têm o compromisso de não deixar jamais isso acontecer 


Denise Rothenburg e Gabriel Mascarenhas




"Vingar, ou se magoar, ou odiar é ficar dependente de quem você quer vingar, magoar ou odiar. Isso não é um bom sentimento para ninguém" - Presidente comenta reportagens do EM sobre a tortura a que foi submetida durante a ditadura e afirma que todos têm o compromisso de não deixar jamais isso acontecer"


Rio de Janeiro – Ao comentar a reportagem do Estado de Minas sobre a tortura que sofreu em Juiz de Fora (MG) no período da ditadura militar, a presidente Dilma Rousseff aproveitou para pregar o fim da tortura policial ainda existente no Brasil: “Venho dando depoimentos ao longo da minha vida. Alguns te asseguro muito difíceis. E este país evoluiu muito. E tem que evoluir mais, porque os depoimentos difíceis têm que ser eliminados em todas as esferas, inclusive na atividade da polícia, em geral”, disse a presidente.

A defesa abriu uma longa declaração de Dilma sobre a tortura e o depoimento ao Conselho de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), publicado no domingo com exclusividade pelo EM. Ao falar desse assunto, a maneira incisiva com que ela se pronuncia sobre vários temas dá lugar à emoção e a um tom mais pessoal: “Eu acredito, vou te dizer assim com sinceridade: eu entendo o interesse de vocês, sou presidente e, afinal de contas, vocês quererem saber o que aconteceu comigo. É um interesse legítimo. Agora, em geral, posso lhes dizer o seguinte: algumas das figuras que me torturaram não tinham nomes verdadeiros. Há, vamos dizer, elocubrações”, disse a presidente.

Nesse momento, ela passa a falar o que quer ver como foco ao longo do período em que o país conviverá com a Comissão da Verdade. “A questão não é o torturador. É a tortura. O torturador é um agente, mesmo ele tendo a sua responsabilidade reconhecida depois do que aconteceu no julgamento dos que estiveram em Nuremberg”, disse Dilma referindo-se ao tribunal que condenou nazistas depois da Segunda Guerra Mundial. Lá foi aprovado que, mesmo cumprindo ordens, o torturador é responsável. 

Dilma disse, porém, não achar que o torturador seja o problema. “O problema é em que condições a tortura é estabelecida e operada. E isso todos sabemos em que condições foi. Ninguém aqui desconhece o que aconteceu neste país num determinado período de sua história. E todos nós, eu tenho certeza, que estamos aqui nesta sala, temos o compromisso de não deixar jamais isso acontecer”, afirmou.

Foi o momento mais pessoal da entrevista, em que o estereótipo da Dilma durona se esvai. “E eu te digo: com o passar dos anos, uma das melhores coisas que me aconteceram foi não me fixar nas pessoas (nos torturadores), nem ter por elas qualquer sentimento. Como eu disse no meu discurso, nem ódio, nem vingança, nem tampouco perdão. Não há sentimento que se justifique contra esse tipo de ato. Há a frieza da razão. E a frieza da razão é não esquecer e, por isso, nós criamos a Comissão da Verdade”, comentou. “Se vingar, ou se magoar, ou odiar é ficar dependente de quem você quer vingar, magoar ou odiar. Isso não é um bom sentimento para ninguém”, reforçou a presidente.

Nesse momento, entretanto, ela recupera mais a formalidade e se refere à Comissão da Verdade como o fórum que tem como missão “virar a página deste país”. E, assim, inspirada na Grécia, tão em voga por conta da crise econômica, ela concluiu: “Na Grécia, vivemos na época da Grécia, se não me engano, aletheia, verdade, é o contrário de lethe, esquecimento. A verdade é esta: não se esquece, mas não se esquece do ponto de vista histórico e não do ponto de vista individual”. 



Para ler a íntegra, AQUI

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O altar da intolerância

O altar da intolerância


A onda de violência contra LGBTs no país inteiro tem aumentado seu volume e intensidade, mostrando que há um ódio quase que fora de controle e feito vítimas, inclusive, heterossexuais


Manifestação repudia ato contra aprovação da lei que pune homofobia
É preciso estabelecer o confronto político-cultural diante dessa cruzada homofóbica
Foto: Fabio Pozzebom/ABr



Vivemos sob clima pesado
Não creio possamos tratar isso como algo de somenos importância. E nem creio devamos subestimar isso do ponto de vista da cultura e da política. Digo que existe um caldo de cultura atrás disso. O caldo de cultura da intolerância, a tentativa sempre de descartar todos os que não estejam enquadrados nos códigos conservadores da normalidade. O clima é tão pesado que um pai e um filho foram agredidos porque estavam abraçados em público. A agressão decepou a orelha do cidadão. Claro, foram agredidos porque havia a certeza de que eram homossexuais. O pai esperava a namorada, e enquanto isso demonstrava o carinho pelo filho.
Deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) em manifestação contra a lei que pune homofobiaFoto: Fabio Pozzebom/ABr

É um clima tão pesado que espectros da área militar, investidos de mandato parlamentar, se dão ao direito de agredir de maneira chula os homossexuais, sem que nada aconteça. O Parlamento também faz ouvidos de mercador, e resiste à possibilidade de criminalizar a homofobia, e essa resistência perpassa vários partidos, até mesmo parcelas de alguns considerados de esquerda. Pesado de tal forma, que jovens, que tenham aparência de homossexuais, são agredidos a golpes de pau nas ruas, sem quê nem pra quê, sem que encontrem explicações para isso, sequer razoáveis, salvo o fato de terem, se tiverem, orientação sexual diversa da considerada normal. E numa proporção assustadora, muitos são mortos, assassinados pura e simplesmente, não raramente com requintes de crueldade.
Cabe dizer que há um sentimento homofóbico na sociedade. Não podemos ignorar isso. O sentimento integra o cardápio de valores de nossa sociedade.  Pesquisa realizada em 2009, pela Fundação Perseu Abramo em parceria com a fundação alemã Rosa Luxemburg Stiftung, indicou que a população brasileira acredita que existe preconceito contra travestis (93%), contra transexuais (91%), contra gays (92%), contra lésbicas (92%), contra bissexuais (90%). A maioria, no entanto, atribui o preconceito aos outros, não a si própria, curiosamente. Pela sucessão de agressões recentes, não parece que o problema seja dos outros.
E de onde viria esse sentimento? Quem sabe, de heranças ancestrais, cujas raízes podem estar fincadas no pior que exista da tradição religiosa. Ou então viria de estímulos histórico-culturais mais recentes, provenientes de um caldo de cultura que vem do nazifascismo e que tem se firmado especialmente na Europa dos últimos tempos.
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