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terça-feira, 26 de junho de 2012

"Onde mães podem abandonar filhos indesejados": Rodas de bebês rejeitados ressurgem na Europa



"Onde mães podem abandonar filhos indesejados": Rodas de bebês rejeitados ressurgem na Europa


Placa em alemão aponta para local onde mães podem abandonar filhos indesejados.
Um sistema comum na Idade Média para abandonar filhos indesejados ressurgiu com força na Europa nos últimos dez anos, mas com nova roupagem.
Diferente das rodas de bebês rejeitados de outros séculos, o equipamento moderno difere dos cilindros de madeira instalados em paredes de conventos ou igrejas medievais.
Nos equipamentos antigos os bebês indesejados eram depositados pela parte de fora e depois girados para dentro dos estabelecimentos.
Embora tenha a mesma finalidade, o novo sistema consiste em uma espécie de berço aquecido, monitorado por enfermeiras e disposto em locais próximos a hospitais com fácil acesso da população.
A prática, entretanto, continua sendo duramente criticada pela ONU, uma vez que violaria os direitos das crianças.
Em Berlim, por exemplo, uma placa localizada ao final de uma rua de um bairro tranquilo chama atenção de moradores e visitantes, apontando para um caminho entre as árvores.
Na placa, lê-se a seguinte mensagem “Babywiege” (berço).
No final deste caminho, há uma escotilha de aço com uma alça. Dentro dela, uma espécie de berço, com cobertores para acomodar o recém-nascido, possivelmente indesejado pela família.
O local é seguro e a temperatura ideal para um bebê. Há também uma carta deixada pelos responsáveis pela instalação do berço, caso o depositante se arrependa de sua decisão e queira a criança de volta.
Duas vezes por ano, alguém – possivelmente uma mulher – percorre tal trajeto até os fundos do Hospital Walfriede.
Para fontes ligadas ao tema, trata-se, normalmente, de um caminho sem volta. A criança indesejada crescerá sem nunca conhecer a mãe.
O processo é anônimo, ou seja, não se conhece a identidade do depositante, por mais que tal prática seja mais comum entre as mães.
Mas é justamente este argumento – o de confidencialidade – que é criticado por quem condena a iniciativa.
Crítica
Críticos afirmam que a roda pode ser usada por pais inescrupulosos ou até cafetões para pressionar as mães a abandonar seus bebês.
“Estudos na Hungria mostram que não são necessariamente as mães que depositam seus filhos nessas caixas, mas, por outro lado, parentes, cafetões, padrastos e até mesmo os pais biológicos”, disse em entrevista à BBC Kevin Browne, da Universidade de Nottingham.
Funcionamento da “roda” moderna é similar à medieval; bebê é depositado dentro da escotilha.
“Como o processo é realizado no anonimato e não inclui qualquer aconselhamento psicológico à mãe, cria um precedente perigoso tanto para a mulher como para a criança”, acrescentou.
Para o estudioso, ao facilitar o processo de abandono de um bebê, as mães ficam menos suscetíveis a receber a ajuda necessária em uma situação de grande trauma emocional e, até mesmo, de risco para sua saúde.
Não há consenso, contudo, sobre o argumento levantado por Browne. Partidários da medida afirmam que estão oferecendo a mães desesperadas uma maneira segura de abandonar filhos indesejados.
Recentemente, uma mãe alemã foi condenada por atirar seu filho recém-nascido da janela do quinto andar de um edifício.
Crescimento
Situações como essa impulsionaram a prática da “roda” moderna na Europa Central e Oriental, desde os países bálticos, passando por Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria, República Tcheca até a Romênia.
A lei de alguns desses países encoraja o sistema. Na Hungria, por exemplo, a legislação foi alterada para permitir que a iniciativa fosse considerada legal, nos mesmos padrões da adoção, enquanto que o abandono de um recém-nascido continua sendo considerado crime.
Kevin Browne, da Universidade de Nothingham, acredita que a tendência de crescimento é maior em países com passado comunista ou majoritariamente católicos, onde o estigma da mãe solteira ainda é muito forte.
Caixas para o abandono de bebês por país
Alemanha – 99
Polônia – 45
República Tcheca – 44
Hungria – 26
Eslováquia – 16
Lituânia – 8
Itália – 8*
Bélgica – 1
Holanda – 1**
Suíça – 1
Vaticano – 1
Canadá – 1
Malásia – 1
*aproximadamente
**previsão
Fonte: Comitê dos Direitos das Crianças das Nações Unidas
Para Gabriele Stangl, do Hospital Waldfriede em Berlim, que recebe dezenas de recém-nascidos por ano, a prática moderna da “roda” salva vidas, e, diferentemente do que pensa Browne, também aumenta os direitos das crianças.
Segundo ela, o sistema conta com todas as facilidades de uma maternidade comum. Uma vez que o bebê é depositado no berço improvisado, um alarme soa e uma equipe de médicos chega para checar o estado de saúde do recém-nascido.
A criança, então, é tratada no hospital e nutrida até ser encaminhada ao sistema legal de adoção. Neste período inicial, as mães têm o direito de buscarem de volta seus filhos caso se arrependam. Porém, uma vez feita a adoção, não há mais recurso.
Arrependimento
Não são raros os casos das mães que decidem voltar atrás em sua decisão. Uma delas contou à BBC que, como engravidou muito jovem e não tinha o apoio do pai da criança, ficou em estado de choque após o nascimento e decidiu colocar o filho na “roda”. Ela, entretanto, se arrependeu uma semana depois.
Em uma única “roda” em Hamburgo, no norte da Alemanha, 42 bebês foram abandonados na última década. Desse montante, 17 mães contataram os organizadores e 14 buscaram de volta seus filhos.
“Em 1999, cinco bebês foram abandonados na cidade e três deles morreram”, disse Steffanie Wolpert, uma das fundadoras do sistema de Hamburgo. “Então, nós pensamos em um jeito de contornar essa situação e permitir a sobrevivência dessas crianças”, acrescentou.
Mas os críticos, como o Comitê das Nações Unidas para os Direitos das Crianças, não estão convencidos dos benefícios do sistema. Eles alegam que a iniciativa é um retrocesso às práticas medievais.
Segundo Maria Herczog, uma psicóloga infantil que integra o comitê, uma alternativa mais eficiente à “roda” moderna seria entender e ajudar as mães em circunstâncias difíceis.
“Essa prática envia uma mensagem errada às mulheres de que têm o direito de continuar escondendo a gravidez, dando a luz em circunstâncias pouco conhecidas e abandonando seus bebês”, disse Herczog.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Jovens voltam a fazer história

Jovens voltam a fazer história



Mário Augusto Jakobskind


Em meio a crise que assola a Europa, da Grécia a Espanha, passando por Portugal e Irlanda, os jovens, também no continente americano, saem as ruas para manifestar o desagrado com a austeridade pregada por governos de seus paises.
Até a mídia de mercado teve de se curvar diante da realidade, ou seja, noticiar as movimentações que se espalham pelo mundo. Jovens no Canadá, na Espanha,  nos Estados Unidos e no Chile estão dando o recado, apesar da (não) resposta dos respectivos governos, que reprimem com violência os manifestantes.
O Chile, no continente latinoamericano, vale um capítulo a parte. Da ditadura à democracia formal que desembocou na Concertación e mais recentemente em Sebastian Piñera, o Chile até hoje vem sendo considerado pelos defensores do neoliberalismo como um exemplo a ser seguido. Fernando Henrique Cardoso que o diga.
Mas quando eles apresentam as análises sobre o país andino omitem o principal, ou seja, quem detém o poder econômico. Omitem também as condições de vida em que se encontra a maioria dos chilenos.
Pouco se noticia aqui no Brasil que a distribuição de riqueza contempla cinco grupos econômicos, sendo um deles o dos Piñeras, que tem como  integrante um adepto da ditadura de Pinochet, hoje na Presidência da República.
Segundo dados oficiais, as cinco famílias detêm 50 bilhões de dólares das riquezas chilenas, o equivalente a  20% do produto interno bruto. .
Tanto Piñera como os anteriores governos da Concertación administraram o  Chile sempre de forma a não contrariar os interesses dos cinco, Sebastian Piñera nem se fala. Na prática legisla até em causa própria.
Nestas circunstâncias, os jovens, que por sinal nem eram nascidos na época da ditadura que Piñera apoiou e participou, saem as ruas para dizer basta. Motivos não faltam, como, por exemplo, exigir que o ensino não continue sendo na base dos shopings centers que se transformaram  os estabelecimentos de ensino no Chile.
Para se ter uma ideia de como anda o setor educacional, vale uma comparação. No ano passado, a indústria mineira, portanto os barões do setor, obtiveram benefício de 35 bilhões de dólares, o que, segundo o economista Marcel Claude, representa três vezes mais o orçamento na área educacional e ainda 12 vezes mais do que os subsídios para o setor de moradia.
E aí, diante dos protestos que se irradiaram para vários setores sociais, Piñera decidiu conceder migalhas para o setor educacional e assim sucessivamente. Os jovens recusaram a oferta que o governo Piñera imaginava seria acatado.
Trocando em miúdos, o que acontece no Chile com seus desequilibrios cada vez mais acentuados e políticas econômicas que contemplam os ricos, vem desde a época da ditadura. Deram uma maquiada, até porque a ditadura ao estilo sangrento como no período Pinochet ficou superada para o capital.
Em essência, os benefícios econômicos do setor continuaram como antes. Os defensores do modelo, de Fernando Henrique Cardoso a colunistas de sempre, apresentavam (continuam a apresentar) como justificativa para o apoio o falso argumento de que os gigantescos complexos econômicos eram responsáveis por empregos. Mentira, porque esses gigantes oferecem a nível nacional apenas 20% dos empregos. A maioria, aí sim,  da oferta vem da pequena e média empresa. 
E como se tudo isso não bastasse, vale assinalar também que os lucros dos cinco grandes no Chile se devem sobretudo ao arrocho salarial.
Guardando-se as especificidades de cada país, as políticas de austeridades defendidas pelo Fundo Monetário Internacional estão sendo aplicadas não só no Chile como em países da Europa onde, sob o pretexto de sair da crise, o capital financeiro é contemplado em detrimento dos assalariados. Angela Merckel que o diga.
Por falar em jovens, os destas bandas estdão dando o ar de sua graça. Os integrantes do Levante Popular da Juventude, como os chillenos, não eram nascidos na época da ditadura, mas isso não impede de hoje sairem as ruas e promoverem o esculacho na porta da residência de torturadores e assassinos da época da ditadura ainda vivos. Muitos vizinhos que desconheciam o fato ficaram sabendo.
No mais, os jornalistas autores do livro reportagem Memórias de uma guerra suja garantem que conhecem pelo menos mais seis delegados do gênero Claudio Guerra, de quem colheram o depoimento, Ou seja, Marcelo Netto e Rogério Medeiros garantem que outros agentes do Estado terrorista de pós-64 poderão fazer revelações importantes para a Comissão da Verdade, ajudando assim o Brasiol passar a limpo uma página infeliz de sua história.
Em suma: quando os jovens se manfestam é sinal que o país está vivo, Felizmente a paz dos cemitérios propugnada pelos que tomaram o poder a força em abril de 64 não tem mais guarita aqui e nos demais países do Cone Sul.

Em tempo: a idolatrada BBC cometeu uma tremenda gafe recentemente. Colcou no canal e no site uma imagem de 2003 correspondente ao Iraque como se fosse hoje na Síria. O autor da foto, o repórter fotográfico Di Lauro da agência de fotografías Getty Images  reconheceu o seu trabalho feito por ocasião da invasão e posterior ocupação do Iraque por forças militares estadunidenses.
A BBC teve de pedir desculpas pela mancada que talvez continuasse se o próprio autor da foto não reclamasse. Se tal fato aconteceu na BBC imaginem o que pode estar acontecendo em outros canais sem a credibilidade da emissora britânica.

No Direto da Direção
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terça-feira, 3 de abril de 2012

Europa: até a prostituição em crise

Europa: até a prostituição em crise


Empobrecimento no Leste multiplica casos de tráfico de mulheres, levando violência até a países onde profissão foi regulamentada, como Holanda
Por Antonio Barbosa Filho*, de Amsterdã
Em pelo menos nove países da Europa a prostituição é legalizada, e as profissionais do sexo têm direitos trabalhistas, tratamento médico preventivo e proteção contra a exploração por gigolôs. Nem sempre tudo que está nas leis é obedecido, mas o fato é que em países como a Holanda a criminalidade que cerca a prostituição em outras partes do mundo é bastante reduzida.
A relativa tranquilidade do chamado Red Light District (Bairro da Luz Vermelha), onde encontram-se dezenas de bordéis e centenas das famosas vitrinas onde as prostitutas se exibem e tentam atrair seus clientes, está sendo abalada nos últimos dois anos pela crise econômica que atinge a Europa. Segundo as autoridades, aumenta a presença do crime organizado no tráfico de mulheres que buscam fugir dos países mais pobres (especialmente os da antiga União Soviética, como Moldova, Ucrânia, Belorússia, Romênia, Bulgária, República Tcheca e outros). Trazidas para os países mais adiantados, como a Holanda, Alemanha, Bélgica, Inglaterra e França, além da Escandinávia, muitas delas são escravizadas através de dívidas que são obrigadas a assumir, ou da violência pura e simples. Muitas vezes, elas passam antes por um “estágio” em países intermediários como a Macedônia (parte da antiga Iugoslávia), onde sofrem torturas e humilhações para ficarem “dóceis” aos seus “donos”.
É impossível verificar os números envolvidos no tráfico de mulheres e nas redes de prostituição, mas a polícia calcula que entre 200 mil e 400 mil mulheres e garotas sejam retiradas anualmente dos países do Leste, e pelo menos a metade delas acaba sendo prostituída no Oeste – um quarto iria para os Estados Unidos. Organizações de direitos humanos e combate à escravidão lutam para que as polícias dos vários países ajam, mas a corrupção neste setor é grande. O chefe de polícia encarregado de combater este crime em Velesta, na Moldova, Vitalie Curarari, por exemplo, chega a culpar as próprias mulheres: “Cinquenta por cento de nossas mulheres vão para o estrangeiro procurar outros homens e depois voltam apenas para se divorciarem de seus maridos”… Ele também culpa a imprensa por fazer “sensacionalismo” ao denunciar as máfias do tráfico humano e as crueldades praticadas contra mulheres prostituídas.
A situação econômica influencia na prostituição de várias maneiras.
Em primeiro lugar, força mulheres dos países pobres a aceitarem convites ou atenderem a anúncios oferecendo empregos em países distantes. Há casos, por exemplo, de jovens que pensavam estar embarcando para um emprego de garçonete na Itália, mas depois de entregarem seus passaportes ao “agente de empregos” foram embarcadas para outros países, presas nos fundos de prostíbulos, espancadas e obrigadas a praticarem serviços sexuais sob ameaça e em troca de comida.
Também muitas jovens estudantes nas principais cidades de toda a Europa, diante dos elevados preços das escolas (os governos cortam gastos com Educação como parte de seus “ajustes fiscais e orçamentários”), dos aluguéis e demais despesas, acabam recorrendo à prostituição através de agências de acompanhantes. Este trabalho lhes permite horários flexíveis, boa remuneração, e visitas a hotéis e restaurantes que uma estudantes jamais poderia frequentar.
Já no Bairro da Luz Vermelha, em Amsterdã, as prostitutas reclamam que o volume de clientes tem diminuído, e que eles passaram a pechinchar muito mais pelos serviços. Fora desta área organizada e mais protegida, há muitas mulheres se prostituindo por valores mínimos, como no Theemsweg, uma área do tamanho de um campo de futebol, onde a Prefeitura instalou vários pontos de ônibus. As mulheres se abrigam neles, e os carros as apanham para uma relação rápida, dentro dos automóveis mesmo. Um policial nos informa que ali 70% das mulheres estão no país ilegalmente, e a maioria veio dos países do Leste europeu.
Tudo isso vem preocupando as autoridades holandesas, que legalizaram a prostituição no ano 2000 para evitar a superexploração, a prostituição de menores, a violência dos gigolôs, e a disseminação das drogas neste meio. A legalização funcionou razoavelmente por vários anos, mas nada fica imune diante da grave crise do capitalismo que atinge profissionais de todas as áreas – inclusive as que comercializam o sexo.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Quando os europeus cantavam de galo

Quando os europeus cantavam de galo
crise-na-europapor Álvaro Domingos
A directora-geral do FMI, Christine Lagarde, lançou um apelo lancinante: o mundo tem que ajudar a Europa a sair da crise! E a única maneira de conseguir esse piedoso acto é atirar com montões de dinheiro para cima das dívidas soberanas dos países da União Europeia. O Presidente da Rússia já disse que vai dar para esse peditório. Pequim não só ameaçou como cumpriu e inunda a Zona Euro de fundos. O Brasil também foi convidado a abrir os cordões à bolsa, mas Dilma Rousseff, para já, ainda não decidiu se há-de ajudar os europeus a beber champanhe e a debicar caviar ou continuar a garantir ao bom povo brasileiro a sua dose diária de arroz com feijão.
A crise das dívidas soberanas na Europa e de uma maneira geral no chamado mundo ocidental deixa-me mergulhado na perplexidade. Já tenho idade suficiente para não acreditar no Pai Natal, ainda que, por vezes, tenha recaídas. Por isso sei que ninguém dá nada a ninguém. Também sei que entre os que recebem e que um dia hão-de pagar de qualquer maneira, há os mal-agradecidos e os que reagem aos credores com falta de humildade e sem subserviência. E finalmente há os que não pagam, nem por um decreto.
Os europeus andaram anos a abandalhar (este é o termo mais brando) os políticos africanos porque eram uns desgovernados, faziam dívidas astronómicas, desbaratavam os dinheiros públicos deixando os seus povos na miséria. Os mais radicais propunham cortes de crédito e castigos infernais para os países africanos endividados. Para os políticos, no mínimo, exigiam a prisão.
Agora vejo os países africanos como sempre vi. Sem infra-estruturas que lhes permitam voar por cima da crise, sem massa crítica, sem universidades de elevada qualidade, sem quadros técnicos qualificados, sem capacidade para transformar as matérias-primas de que dispõem em abundância. Mas sei que este quadro não é uma fatalidade. É filho dilecto das relações do colonialismo, que é só o mais hediondo crime que alguma vez foi cometido contra a Humanidade. Apesar de terem deixado África nas mãos da globalização, entregue à sua sorte, os europeus ainda reclamam que os políticos africanos façam milagres e produzam em fábricas que nunca existiram, usem as redes viárias que ninguém construiu, explorem as pescas sem meios nem técnicas, os minérios sem tecnologias nem técnicos. Querem que os africanos façam aquilo que eles não conseguem fazer com altíssimas tecnologias, economistas e gestores premiados com o Nobel, engenheiros sábios, médicos que fazem milagres, hospitais com equipamentos que nós nem sonhamos que existem.
Os europeus condenaram à fogueira centenas de políticos africanos porque não conseguiam fazer crescer os seus países por falta de quadros e de dinheiro. Para eles era tudo uma questão de corrupção. Hoje, mesmo com todas as maravilhas do progresso nas mãos, com empréstimos de milhares de milhões, a única coisa que conseguem é aumentar as dívidas soberanas, lançar milhões de trabalhadores no desemprego e na miséria absoluta.
Não vou cometer a indelicadeza de lhes chamar corruptos, agora que estão na mó de baixo. Mas são, no mínimo, incompetentes. Tantos estudos, tantas técnicas, tantas qualificações de alta gestão e altíssima direcção, afinal de pouco lhes servem. A dívida soberana dos EUA dava para pagar 100 vezes as dívidas todas dos países africanos. A do Japão, igualmente. A Itália tem que pagar em Março 300 mil milhões de euros! Não precisamos de uma calculadora para perceber que esse montão de dinheiro deixava África inteira sem dívidas.
Os europeus estão endividados mas a perspectiva de curto prazo é acrescentarem às dívidas níveis de desemprego humilhantes e a pobreza extrema. Tinham tudo para ser felizes e estão deprimidos. Estudaram tanto, aprenderam tantos truques económicos e financeiros, fizeram fábricas tão robotizadas, criam tantos sistemas informáticos, construíram tantas auto-estradas da informação e agora caíram na valeta das dívidas soberanas, pobres como os mais pobres.
Os países não acabam nunca nem podem fechar as portas. Têm de aguentar os dias maus, os dias bons e os dias de glória. Angola está a passar dos dias bons para tempos gloriosos. Afinal os nossos políticos, os nossos dirigentes, os que nos conduziram na guerra que nos impuseram e nos guiam na paz, são mesmo muito bons. Mesmo nos anos mais difíceis nunca perderam a cabeça nem puseram em causa a nossa soberania, com dívidas tão grandes que até se perdem de vista. Quem canta de galo, um qualquer dia acaba por piar baixinho.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

É preciso salvar o capitalismo dos capitalistas

É preciso salvar o capitalismo dos capitalistas

Paulo Moreira Leite


Deve ser duro ocupar Wall Street. O cara sái de casa, apanha da polícia, pode ser preso e, quando abre o jornal, é obrigado a ler que o protesto é bonito mas ele não apresentou uma saída para a crise. Piada.

Também é muita hipocrisia, vamos combinar. Os protestos da Europa e dos Estados Unidos falam como as passeatas falam: com cartazes, palavras-de-ordem, formulas
simplificadas. A rua é assim.

Mas quem sabe ler e ouvir já percebeu que eles não colocam problemas que se
resolvem numa conversinha de gabinete nem num estalo acadêmico. Não por
culpa dos manifestantes mas em função do caráter profundo da crise dos países
desenvolvidos.

Os problemas da economia exigem visão ampla e respostas dramáticas. Cobram,
acima de tudo, coragem política. Poucas pessoas se atrevem a olhar para elas.

No plano da teoria, Nouriel Roubini anda dizendo que a crise mostra que Karl Marx,
aquele que queria acabar com o capitalismo, “estava certo.” Roubini não é nenhum
revolucionário. É um consultor que caro para dar conselhos para grandes investidores que não querem perder um centavo com sugestões erradas.

Pois este sujeito afirma que o pai do comunismo tem mais a ensinar do que nossos sábios de visão convencional e fórmulas prontas. Deveria dar o que pensar, concorda?

O megainvestidor George Soros tem uma idéia que faz sentido. Ele chegou a conclusão de que os governos dos países desenvolvidos devem assumir a gestão do sistema financeiro, capitalizar instituições quebradas e reanimar a economia.  Isso quer dizer: afastar os capitalistas para salvar o capitalismo. É uma medida mais dura do que se fez em 2008 mas tem sua razão de ser. A situação exige medidas de salvação nacional — ou global.

A América do Norte e o Velho Mundo estão naufragando. Seus trabalhadores não
tem mais emprego, o seguro-desemprego está sendo reduzido, as aposentadorias
serão diminuídas. O mais grave é que todos sabem que não há nenhuma luz no fim
de tanto sacrifício. Só mais pesadelo e falta de perspectiva.

Sem estimulo ao consumo, não haverá retorno do crescimento, sem isso não
haverá criação de empregos nem receitas para pagar direitos históricos, como
saúde pública, escolas, aposentadorias.

As idéias estão aí. Os ativistas estão fazendo sua parte. Já deixaram claro o que
desejam e o que não desejam. Quem precisa oferecer propostas é quem assumiu
essa responsabilidade, pediu voto nas urnas e se apresenta como responsável
pelo destinos de seus povos. A crise tem origem na economia mas se tornou
política. Está na hora da resposta.



Na  Época

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Reflexões de Fidel - Relatório do Conselho de Estado Chinês e os direitos humanos

Reflexões de Fidel - Relatório do Conselho de Estado Chinês e os direitos humanos

 Aqui

Eu li muitos livros e materiais para cumprir a minha promessa de continuar a reflexão sobre a Batalha de Giron, quando eu tive um novo olhar sobre as notícias de ontem, que são abundantes, como de costume. Montanhas podem se acumular em qualquer semana, desde o terremoto no Japão, o triunfo de Ollanta Humala no Keiko, filha de Alberto Fujimori, ex-presidente do Peru.
O Peru é um grande exportador de prata, cobre, zinco, estanho e outros minerais, possui grandes depósitos de urânio que poderosas empresas multinacionais procuram explorar.O urânio enriquecido para fora é a arma mais terrível na história humana, e combustível de usinas nucleares, apesar dos alertas de ambientalistas, foram construídas em ritmo acelerado nos os EUA, Europa e Japão.
Seria injusto, é claro, a culpa é do Peru. Os peruanos criaram o capitalismo, colonialismo e do imperialismo. Também não se pode culpar o povo americano, que também é uma vítima do sistema que gerou os políticos mais irresponsável que o mundo já conheceu.
Em 08 de abril os “mestres do mundo” divulgaram seu relatório anual sobre as violações dos "direitos humanos", o que levou a uma análise precisa sobre o web site Rebelión, assinado pelo cubano Manuel E. Yepe, com base na resposta do Conselho de Estado da China, listando fatos que demonstram a situação dramática dos direitos humanos nos Estados Unidos.
"... Os Estados Unidos é o país onde mais há ataque aos direitos humanos, tanto no país,como em todo o mundo e é uma das nações que menos garante a vida, propriedade e segurança pessoal dos seus habitantes.
"A cada ano, uma em cada cinco pessoas é vítima de um crime, as mais altas taxas do mundo.Segundo estatísticas oficiais, as pessoas com idade acima de 12, foram 4,3 milhões atos violentos.
"A criminalidade tem crescido de forma alarmante nas quatro maiores cidades (Filadélfia, Chicago, Los Angeles e Nova York) e registrou um aumento significativo face ao ano anterior em outras grandes cidades (St. Louis e Detroit).
"A Suprema Corte determinou que a posse de armas para defesa pessoal é um direito constitucional que não pode ser ignorado pelos governos estaduais. Noventa dos 300 milhões de pessoas no país tem 200 milhões de armas de fogo.
"Nacionalmente houve 12.000 homicídios causados ​​por armas de fogo, enquanto 47 por cento dos roubos foram cometidos com armas de fogo.
"Na Sombra da seção de" atividades terroristas "do Patriot Act, a tortura e a violência  extrema para extrair confissões dos suspeitos são comuns. Condenações injustas são evidentes na 266 pessoas, 17 delas já estão no corredor da morte que foram conseguidas por meio de testes de DNA.
"Os advogados de Washington de liberdade na Internet para fazer a Net um importante instrumento de pressão diplomática e da hegemonia, mas impõe restrições rígidas sobre ciberespaço em seu próprio território, e pretende estabelecer uma vedação legal para lidar com o desafio Wikileaks e vazamentos.
"Com uma taxa de desemprego elevada, a proporção de americanos que vivem na pobreza atingiram um nível recorde. Uma em cada oito pessoas participaram no ano passado no programa do vale-refeição.
"O número de famílias alojadas em centros de desabrigados aumentou 7 por cento e as famílias tiveram que ficar mais tempo em abrigos. Os crimes violentos contra as famílias desabrigadas estão em constante crescimento.
"A discriminação racial permeia todos os aspectos da vida social. Os grupos minoritários são discriminados em seus empregos tratados indignamente e não são considerados para promoções, benefícios ou processo de seleção de emprego. Um terço dos negros eram discriminados no seu local de trabalho, mas apenas 16% se atreveu a reclamar.
"A taxa de desemprego para os brancos é de 16,2%, entre os hispânicos e os asiáticos e 22% entre os negros é 33%. Africano-americanos e latinos representam 41 por cento da população prisional. A taxa de Africano americanos servindo uma sentença de vida é 11 vezes maior do que os brancos.
"90 por cento das mulheres foram vítimas de discriminação sexual de qualquer tipo em seu local de trabalho. Vinte milhões de mulheres são vítimas de estupro, cerca de 60.000 prisioneiros foram condenados por assalto assalto ou violência sexual. Um quinto dos estudantes universitários são vítimas de violência sexual e 60 por cento dos estupros ocorrem no campus nos dormitórios feminino.
"Nove em cada dez estudantes, gays, bissexuais ou transexuais sofrem assédio na escola.
"O relatório dedica um capítulo para recordar as violações de direitos humanos que é responsável pelo governo dos EUA fora de suas fronteiras. As guerras no Iraque e no Afeganistão, liderada pelos os EUA, têm causado enormes quantidades de vítimas entre a população civil nesses países.
"'Terrorismo' em Ações dos EUA incluem escândalos graves de abuso de prisioneiros, a detenção indefinida sem acusações nem julgamento em centros de detenção, como Guantánamo e outros lugares, criada para interrogar os chamados" detentos de alto valor alto " aplicável quando o pior tortura.
"Documento chinês também lembra que os EUA violaram o direito de existir e de se desenvolver para o povo cubano, não respeita o mundo como expressa a Assembléia Geral da ONU por 19 anos consecutivos" A necessidade de acabar com o econômico, comercial e embargo financeiro contra Cuba ".
"Os Estados Unidos não ratificaram as convenções internacionais sobre direitos humanos e ao Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres, a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e a Convenção sobre os Direitos da Criança.
"Os dados fornecem apresentados pelo governo chinês mostram que a história infeliz dos EUA, e rejeita como" juiz dos direitos humanos no mundo. "Sua "diplomacia dos direitos humanos" é pura hipocrisia dos critérios duplos para servir os seus interesses estratégicos imperial. O governo chinês aconselhou o governo dos EUA a tomar medidas concretas para melhorar a sua própria situação dos direitos humanos, para rever e corrigir as suas atividades nesta área e parar com seus atos hegemônicos na utilização de direitos humanos para interferir nos assuntos internos de outros países A importância desta análise, acreditamos, é que essa denúncia é feita em um documento assinado por por uma estatal chinesa, um país de 1 341 milhões de cidadãos, que tem 2 trilhões de dólares em reservas de moeda, que sem a cooperação do império pode desmoronar.Pareceu-me importante que o nosso povo soubesse dos detalhes precisos contidos no documento do Conselho de Estado Chinês.
Se Cuba dissesse que temos mais de 50 anos de denúncia dos hipócritas,talvez seria seria irrelevante.
Marti disse 116 anos atrás, em 1895: "... o caminho a ser fechada, e com o nosso sangue que estamos cegos, a anexação dos povos de nossa América, do Norte e brutal que nos despreza ..."
"Vivi no monstro, e conheço suas entranhas".
Fidel Castro Ruz