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quarta-feira, 13 de junho de 2012

Jornalismo para ignorantes: O caso do empresário esquartejado


Jornalismo para ignorantes: O caso do empresário esquartejado


A morte do empresário Mario Matsunaga foi, ao que tudo indica, rapidamente esclarecida logo depois que sua mulher foi presa e confessou a autoria do crime. Certo noticiário tenderá agora a revolver os mistérios da alma humana ao explorar detalhes mórbidos do episódio: afinal não é um crime qualquer, é um crime passional em que a mulher não apenas mata, mas esquarteja o marido após aguardar o tempo suficiente para que os cortes não provocassem tanta sangueira, enquanto sua filhinha de 1 ano dormia alheia a tudo, e na manhã seguinte sai para se desvencilhar do corpo despedaçado distribuído em três malas de viagem.
Há mais detalhes típicos de folhetins: a mulher havia sido garota de programa e encontrara o futuro marido nesses contatos via internet, era extremamente ciumenta e havia posto um detetive atrás dele para comprovar um caso extraconjugal; a mãe está se tratando de um câncer e não compreende o comportamento da filha.
Intimidades de família, segredos de alcova, cenas exclusivas da traição, tudo isso garante audiência ao gosto do voyeurismo do público e fornece farto material para os programas de sempre, com o convite a “especialistas” também sempre dispostos a opinar sobre motivações e mesmo sobre a maneira pela qual as “mentes assassinas”, que rendem óbvios best-sellers, costumam agir.
Mas isso é o que menos importa.
A descoberta do arsenal
Durante a reconstituição do crime, uma descoberta particularmente chocante foi noticiada como se fosse a coisa mais banal do mundo: o arsenal encontrado pela polícia no apartamento do empresário. Trinta armas, entre as quais fuzis e submetralhadoras, e caixas de munição com cerca de 10 mil projéteis.
Não se informou quanto tempo a polícia teve entre esse achado e a investigação que permitiria ao delegado afirmar, categoricamente, que as armas estavam “todas legalizadas, todas regulamentadas e todas autorizadas para uso de colecionador”. O fato mereceu apenas registro nos jornais.
Colecionadores têm entre si esse traço comum da obsessão por determinado objeto, conforme não apenas o gosto mas a condição financeira: podem ser latinhas ou rótulos de cerveja, camisas de times de futebol, soldadinhos de chumbo, selos, livros raros, obras de arte. Ou mesmo armas, mas nesse caso imaginamos sempre – talvez ingenuamente – o fascínio por exemplares antigos, que marcaram época, desde garruchas e mosquetões até modelos utilizados em guerras, mas já fora de circulação. Tudo para ser classificado e guardado com apuro em armários envidraçados, para exibir orgulhosamente aos amigos.
Coisa de colecionador?
De repente, somos surpreendidos com a descoberta do arsenal – parte do qual de “uso restrito das Forças Armadas”, como noticiou a Folha de S.Paulo na sexta-feira (8/6) – e a justificativa do delegado. A quem aparentemente estranhou, ele respondeu: “Ele [o empresário morto] era atirador, ele gostava. É um hobby. Se você pegar, outros colecionadores devem ter muito mais que isso”.
Que uso um colecionador de armas está autorizado a fazer de sua coleção? Onde se pode imaginar que um atirador vá praticar suas habilidades com uma submetralhadora? Colecionadores podem colecionar armas de uso exclusivo das Forças Armadas? Podem colecionar também munição? Dez mil projéteis não serão um número excessivo, em qualquer caso?
Salvo engano, a única reportagem que se deteve minimamente sobre essa história foi a do Jornal Nacionalde sábado (9/6), ainda assim centrada no alerta para o número excessivo de armas – quase 155 mil – legalmente nas mãos de “colecionadores, atiradores esportivos ou caçadores”. Nenhum questionamento sobre o que faria este empresário com tão variado material em casa.
Perguntas que faltaram
Na edição de sexta-feira (8), a Folha de S.Paulo reproduziu reportagem do Agora informando que o empresário havia transformado um dos banheiros do imóvel em “cofre” onde estocava o arsenal. Ao mesmo tempo, dizia que “parte das carabinas, fuzis, submetralhadoras e outras pistolas estava espalhada por outros cômodos do apartamento de quase 300 m² do casal”, porque o empresário “temia um arrastão no prédio onde morava”.
Portanto, as armas seriam utilizadas em caso de assalto. Por isso, aliás, ele e a mulher haviam feito curso de tiro, seriam exímios atiradores.
Podemos imaginar então a cena de um ataque ao apartamento duplex naquele belo condomínio vertical paulistano e o casal de colecionadores se movimentando cinematograficamente de um lado para outro, manuseando alternadamente as 30 armas e despejando seus 10 mil projéteis contra os malfeitores, no melhor estilo dos filmes de gângster. Dois contra uma cidade inteira?
Não caberia perguntar, afinal, o que tanto temia o empresário? Que interesses, atividades e relações poderia ter além de seu trabalho como diretor-executivo de uma fábrica de alimentos, aliás negociada com uma poderosa multinacional americana justamente na semana em que ele, já morto, era dado como desaparecido?
Fantástico de domingo (10/6) fez ampla reportagem centrada na mulher que confessou o crime, e tratou também dos hábitos do casal. Ficamos sabendo que o empresário também era amante de vinhos, tinha essa outra “coleção” e pretendia investir no negócio.
Sobre armas, apenas o registro já conhecido, além da surpresa de uma das empregadas, entrevistada sem ser identificada, diante da descoberta de uma pálida amostra do que havia no apartamento, durante uma limpeza.
Contra a ignorância
Jornalismo, por definição, é feito para ignorantes. Não se trata, como pode parecer a princípio, de uma frase de efeito: ignoramos os fatos que ocorrem fora de nosso círculo de relações, ainda que este círculo tenha sido ampliado com a disseminação do acesso à tecnologia digital. Por isso precisamos do jornalismo: para que nos dê informação confiável.
Por isso repórteres precisam se colocar no lugar do público ignorante e fazer as perguntas que possam esclarecê-lo, e não dar de barato que tudo se resolve com as declarações das fontes, sobretudo quando elas são evidentemente insuficientes para a compreensão dos fatos.
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[Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora dePensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)]
No Observatório da Imprensa
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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Veja, como o crime organizado faz jornalismo

Veja, como o crime organizado faz jornalismo

A aliança da revista Veja com o crime organizado rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos


Editorial da edição 480 do Brasil de Fato

A Operação Monte Carlo, desencadeada pela Policia Federal (PF) para desbaratar a quadrilha comandada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, já é merecedora de um mérito: publicizou o conluio de setores da grande mídia com o crime organizado para alcançar objetivos econômicos e políticos.
As investigações da PF, com informações documentadas e já amplamente divulgadas, atestam que o bicheiro utilizava a revista Veja, do grupo Abril, para disseminar perseguições políticas, promover suas atividades econômicas ilegais, chantagear, corromper e arregimentar agentes públicos. A revista se prestava a esse esquema de coação e chantagem do bicheiro.
Em troca, a revista da família Civita recebia do contraventor informações, gravações e materiais – na maioria das vezes obtidas de formas criminosas – que alimentavam as páginas da publicação, para destilar seu ódio e preconceito contra seus adversários políticos, principalmente os do campo do PT.
A aliança da revista Veja com o crime organizado rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos – os contratos da construtora Delta com governos estaduais precisam ser profundamente investigados – e se constituíram em instrumento de pressão e amedrontamento de autoridades públicas. Dessa forma, consolidaram um esquema criminoso, milionário, com ramificações privadas e públicas, nas três esferas da República.
O conluio, mais do que reportagens jornalísticas, rendia conspirações políticas e econômicas.
O acinte à democracia do país alcançou ao nível de planejar a desestabilização e queda do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. Enquanto Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes (ex-Dem) gargalhavam por fogo no país, a revista projetava o senador como o prócer da moralidade pública, com perspectivas de vir a ser candidato à presidência da República. Era o crime organizado, com a participação do Grupo Abril, tramando desestabilizar governos e tomar conta da máquina estatal.
No entanto, a revista Veja era pequena e insignificante para os objetivos que o conluio se propunha alcançar. Precisava de ajuda. Os telejornais da Rede Globo se prestaram a dar a ajudava de que necessitavam. Com sua peculiar e esculachada crítica, o jornalista Paulo Henrique Amorim sintetiza a mútua ajuda que se estabeleceu: “o Jornal Nacional não tem produção própria. A revista Veja não tem repercussão nacional. O crime organizado se organiza na Veja e se expande no Jornal Nacional”. Em um jornalismo sem ética, sem compromisso com a verdade e interesses públicos, que se dane a verdade factual. O que interessa, para esse tipo de jornalismo, é a versão dos fatos que atendam aos interesses dos que mantém o monopólio da informação.
Sempre que é questionada por praticar esse tipo de jornalismo, a mídia se defende afirmando que tem a capacidade de se autorregulamentar. O conluio Veja-crime organizado sepultou essa tese. Até esse momento impera o silencio da mídia burguesa sobre os vínculos da revista com a organização criminosa do bicheiro.
O jornalista Jânio de Freitas, um dos mais renomados colunistas da Folha, fez uma detalhada radiografia da organização montada pelo contraventor e suas extensas ramificações. Não disse uma única palavra das suas ramificações com a mídia. Mais do que escreveu, a sabuja lacuna do seu artigo evidenciou o medo que impera entre o patronato da grande mídia e a capacidade desse lamaçal engolir, inclusive, jornalistas decentes.
Ao pacto de não noticiar a promiscuidade do grupo Abril com o crime organizado juntam-se, agora que a CPMI está instalada, os esforços para evitar que os que se beneficiaram com a organização criminosa do Carlinhos Cachoeira sejam convocados a dar explicações no Congresso Nacional e para sociedade.
O deputado federal Miro Teixeira (PDT/RJ) articula um pretexto jurídico para impedir a convocação de jornalistas e proprietários das empresas de comunicação envolvidas nas atividades criminosas do bicheiro.
Um dos mais altos executivos do grupo Abril já perambulou pelos corredores e gabinetes do Congresso numa tentativa de evitar que seu patrão, Robert Civita, tenha que prestar esclarecimentos na CPMI. A Globo, fato noticiado, enviou um mensageiro para informar (ou seria ameaçar?) o Palácio do Planalto: se o empresário Robert Civita for convocado pela CPMI, os meios de comunicação declaram uma guerra sem limites contra o governo.
É de lamentar que a Rede Globo não tenha a coragem de publicar essa posição política nos editoriais dos seus jornais e divulgá-la em seus telejornais.
Caso os parlamentares da CPMI se rendam às pressões dos grupos empresariais da mídia, estarão sendo coniventes com práticas criminosas e institucionalizado duas categorias de cidadãos nesse país: os que podem ser convocados para depor numa CPMI e os que não devem ser convocados.
Há um enorme volume de informações e provas que atestam que setores da mídia estão envolvidos com atividades de organizações criminosas e que atentaram contra a democracia do nosso país. É inadmissível que os que participaram ativamente na organização criminosa, e dela se beneficiaram, não sentem no banco dos réus alegando, unicamente, a condição de serem patrões.
O Congresso Nacional instalou, atendendo os anseios da sociedade, uma CPMI para investigar as atividades do crime organizado com suas ramificações na mídia e nas três esferas da estrutura do Estado. Os parlamentares que compõe essa CPMI tem a responsabilidade de não frustrar a sociedade, apurar os fatos com profundidade e criar as condições para que seus responsáveis prestem contas à justiça, além de legar ao país uma legislação que, ao menos, iniba essa prática de jornalismo associado com o crime organizado. A Lei dos Meios de Comunicação é cada vez mais necessária e inadiável.


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quarta-feira, 25 de abril de 2012

Grandes Momentos Do Jornalismo: O que um jornalista no Banheiro mandou dizer ao dono do jornal

Grandes Momentos Do Jornalismo: O que um jornalista no Banheiro mandou dizer ao dono do jornal

Paulo Nogueira

Lorde Beaverbrooks

Lorde Beaverbrook foi o maior barão da imprensa da Inglaterra na primeira metade do século 20. Foi a era de ouro dos jornais – que não enfrentavam ainda a concorrência da televisão e do rádio. Nascido no Canadá, ele se mudou para Londres em 1904. Era jovem, mas já fizera fortuna no ramo dos seguros por conta de sua extraordinária capacidade de gerar dinheiro.
Depois da Primeira Guerra Mundial, Beaverbrook  começou a construir uma rede de jornais que se mostraria extraordinariamente influente entre os britânicos.  Fortuna ele já tinha antes de investir em imprensa. Mas ele queria mais: reputação. Os jornais lhe dariam exatamente isso: prestígio. Títulos de Beaverbrooks como Evening Standard e Daily Express comandavam a agenda política e econômica inglesa. Em 1950, o Daily Express era o jornal mais vendido do mundo, com uma circulação de quase 4 milhões de exemplares.
Excepcional alpinista político, Beaverbrooks acabaria sendo uma das pessoas mais próximas do primeiro ministro Winston Churchill. Acompanhou Churchill aos Estados Unidos em algumas visitas ao presidente americano Franklin Roosevelt, de quem acabaria também se tornando amigo pessoal. Como quase todo barão da imprensa, Beaverbrook tinha sua lista negra – desafetos que não deveriam receber nenhuma cobertura de seus jornais. Um dos listados era o escritor e cineasta Noel Coward. Numa cena de um filme em que um um destróier inglês afundava, Coward colocou um exemplar do Daily Express flutuando nas águas do mar.
Beaverbrook, nos anos 1930, quase derrubou com seus jornais o líder do Partido Conservador Stephen Baldwin. Baldwin defendia o protecionismo econômico, e Beaverbrook queria para a Inglaterra um regime de livre comércio na plenitude.No fragor do conflito, Baldwin pronunciaria um discurso que se tornaria célebre. Segundo alguns, o texto era de autoria do escritor Rudyard Kipling, primo de Baldwin. “Alguns jornais não são jornais no sentido estrito da palavra, mas motores de divulgação de mutantes idéias, caprichos, gostos, simpatias e antipatias de seus proprietários”, disse Baldwin. “O que esses donos estão buscando não é o poder, mas o poder sem responsabilidade, algo que ao longo da história foi prerrogativa das prostitutas.” Com este discurso épico, Baldwin calou Beaverbrooks, e se manteve na liderança dos conservadores.
Beaverbrooks, que se fazia chamar de “Senhor”, era um chefe absolutamente controlador. Num único dia, ele enviou 147 ordens a seus editores. Seus assistentes recebiam ordens de passar instruções aos editores mesmo quando estes estavam no banheiro.
Numa ocasião, um assistente de Beaverbrooks bateu na porta do banheiro que um editor estava usando para avisar que tinha um recado do dono. Veio uma resposta que entraria na história do jornalismo inglês como um dos grandes momentos vividos nas redações: “Diga ao Senhor que estou cagando, e só consigo lidar com uma merda por vez.”
Clap, clap, clap. Aplausos. De pé.

No Diário do Centro do Mundo

domingo, 11 de dezembro de 2011

Onde estão as mulheres na TV


Onde estão as mulheres na TV
Por Norma Couri
Diz a regra número 1 de Jornalismo que jornalista não é notícia a não ser quando morre estraçalhado pela mina em que pisou, como o húngaro Robert Capa, em 1954, ou pela metralhadora da favela carioca de Antares, como Gelson Domingos, mês passado.
Diz a regra número 2 que Jornalismo é combate no dia a dia e o resultado é escrito, televisado, difundido em rádio, internet ou celular para o leitor julgar, ele próprio, o que viu, sentiu, registrou.
Diz a regra número 3 que Jornalismo não é e nunca deveria ser conversa de sala de estar entre amigos, muito menos entre marido e mulher – e, pior, na hora do jornal televisivo de maior audiência porque fica encalacrado entre duas novelas, ponto alto do ibope.
Jornal Nacional de segunda-feira (5/12) feriu as três regras: jornalista virou notícia de um quarto de hora, o que deveria ser o esperado de um profissional passou a ser apresentado como matéria especial, e a conversa entre Patrícia Poeta, Fátima Bernardes e o marido William Bonner não só virou extensão das telenovelas como comeu um precioso tempo para as notícias surpreendentes, aguardadas há muito.
Sonho declarado
Mulheres na TV brasileira sempre intrigam porque os cabelos são impecáveis, as roupas estalam de butique, o botox sempre no lugar, a voz às vezes escorregada ou sensual, mas o assunto – ah!, o assunto – não faz jus à opção feminista dos anos 1960, quando nos propusemos a virar a mesa e mostrar quantos neurônios estavam para ser descobertos.
De repente tudo vira novela na Globo, cada jornalista desfia sua história pessoal e a paixão pela profissão. Mas há muito tempo uma reportagem não estremece um coração ou uma investigação instiga os neurônios do lado de lá da telinha. O Globo Repórter virou caçada, natureza em flor, a beleza do nosso sertão. O zapping dominical nos conduz a pratos típicos e receitas culinárias detalhadas, bobagens de insustentável leveza. Tudo naturalmente voltado para o público feminino porque os homens estão plugados no futebol.
E o que deveria ser a grande reportagem com jornalistas de raça enfiadas de corpo e alma no lamaçal, apresentando histórias de peso mesmo descabeladas, desgrenhadas e com jeito de gente real, virou uma raridade, quase um oásis no tempo dos big brothers onde tudo soa tão natural e quase verdade.
O choque maior são as mulheres na TV, as mulheres da TV, as mulheres que fazem a TV. Por que sempre tão iguais e previsíveis, por que William Bonner tem de mostrar um filminho com as reportagens banais de uma Fátima Bernardes, sua mulher, entrevistando na praia, consolando uma vítima, respondendo a pergunta quase infantil “onde está você?”. Para Fátima soltar a bomba, o furo: depois de suados 24 anos de jornalismo – e 14 de apresentadora do JN – vai ter um programa próprio.
Ainda tivemos de ouvir da nova apresentadora Patrícia Poeta, também apontada como grande repórter, que todo o Brasil adoraria estar ali no lugar dela para dizer à Fátima como o povo anda louco para ver seu novo programa matinal que não sabemos se será tipo Xuxa ou o quê.
Ao mesmo tempo Bonner anda espalhando que tem um sonho. Não, não se trata de coberturas perigosas de repórteres especiais com tempo para apurar as milhares de histórias que carecem de divulgação neste país. O sonho de Bonner é apresentar um programa automobilístico. Sai Sérgio Chapelin entra Bonner. Como ele declarou, “gosto de carro, gosto de vinho, gosto de corrida”.
Dúvida atroz
A explicação de Bonner para a escolha de Patrícia faz as mulheres pensarem realmente que (neurônio, não) sem xampu não chegam lá. “Patrícia tem uma versatilidade enorme. Faz o Oscar, entrevista celebridades, além de ser conhecida no horário nobre.” Quase nos faz esquecer o resto: “Também fez desdobramentos dos ataques do 11 de setembro, eleições americanas, reportagens sobre presídios”. Em tempo, Patrícia morou nos Estados Unidos. E está saindo do previsível Fantástico.
Mas o que realmente contou na decisão foi a possibilidade de cumprir sua meta. Grandes reportagens? Não, Bonner explicou. “Informalidade, falar direto com as pessoas. Nós mudamos o JN no enquadramento da câmera, na linguagem. Que não chega a ser coloquial, mas a informalidade é uma obsessão minha.”
Vai chegar um dia em que veremos na TV uma repórter enrugada, quem sabe de cabelos brancos, apresentando reportagens tão impressionantes que vão dar orgulho da paixão por esta profissão, da virada de mesa nos anos 1960, de ver a mulher no lugar onde deveria estar no vídeo depois de meio século de opção feminista. Quem disse que serão feias? Algumas até surgem na Globonews, aqui e acolá em outra emissora, muitas no noticiário internacional, francês, inglês, americano, espanhol, escandinavo. No Jornal Nacional, terra dos Simpsons e da mulher maravilha, vamos ficar aguardando como a diretora-gerente do FMI Christine Lagarde na coletiva mostrada semana passada na TV, ao perguntar nos bastidores para o mediador William Waack: “Só uma mulher para perguntar? Onde estão as mulheres [deste país]?”
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[Norma Couri é jornalista]


No ObservatóriodaImprensa

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Guia de boas maneiras na política. E no jornalismo


Guia de boas maneiras na política. E no jornalismo

Maria Inês Nassif

A cultura de tentar ganhar no grito tem prevalecido sobre a boa educação e o senso de humanidade na política brasileira. E o alvo preferencial do “vale-tudo” é, em disparada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por algo mais do que uma mera coincidência, nunca antes na história desse país um senador havia ameaçado bater no presidente da República, na tribuna do Legislativo. Nunca se tratou tão desrespeitosamente um chefe de governo. Nunca questionou-se tanto o merecimento de um presidente – e Lula, além de eleito duas vezes pelo voto direto e secreto, foi o único a terminar o mandato com popularidade maior do que quando o iniciou. 

A obsessão da elite brasileira em tentar desqualificar Lula é quase patológica. E a compulsão por tentar aproveitar todos os momentos, inclusive dos mais dramáticos do ponto de vista pessoal, para fragilizá-lo, constrange quem tem um mínimo de bom senso. A campanha que se espalhou nas redes sociais pelos adversários políticos de Lula, para que ele se trate no Sistema Único de Saúde (SUS), é de um mau gosto atroz. A jornalista que o culpou, no ar, pelo câncer que o vitimou, atribuindo a doença a uma “vida desregrada”, perdeu uma grande chance de ficar calada.

Até na política as regras de boas maneiras devem prevalecer. Numa democracia, o opositor é chamado de adversário, não de inimigo (para quem não tem idade para se lembrar, na nossa ditadura militar os opositores eram “inimigos da pátria”). Essa forma de qualificar quem não pensa como você traz, implicitamente, a ideia de que a divergência e o embate político devem se limitar ao campo das ideias. Esta é a regra número um de etiqueta na política.

A segunda regra é o respeito. Uma autoridade, principalmente se se tornou autoridade pelo voto, não é simplesmente uma pessoa física. Ela é representante da maioria dos eleitores de um país, e se deve respeito à maioria. Simples assim. Lula, mesmo sem mandato, também o merece. Desrespeitar um líder tão popular é zombar do discernimento dos cidadãos que o apoiam e o seguem. Discordar pode, sempre.

A terceira regra de boas maneiras é tratar um homem público como homem público. Ele não é seu amigo nem o cara com quem se bate boca na mesa de um bar. Essa regra vale em dobro para os jornalistas: as fontes não são amigas, nem inimigas. São pessoas que estão cumprindo a sua parte num processo histórico e devem ser julgadas como tal. Não se pode fazer a cobertura política, ou uma análise política, como se fosse por uma questão pessoal. Jornalismo não deve ser uma questão pessoal. Jornalistas têm inclusive o compromisso com o relato da história para as gerações futuras. Quando se faz jornalismo com o fígado, o relato da história fica prejudicado.

A quarta regra é a civilidade. As pessoas educadas não costumam atacar sequer um inimigo numa situação tão delicada de saúde. Isso depõe contra quem ataca. E é uma péssima lição para a sociedade. Sentimentos de humanidade e solidariedade devem ser a argamassa da construção de uma sólida democracia. Os formadores de opinião tem a obrigação de disseminar esses valores. 

A quinta regra é não se deixar contaminar por sentimentos menores que estão entranhados na sociedade, como o preconceito. O julgamento sobre Lula, tanto de seus opositores políticos como da imprensa tradicional, sempre foi eivado de preconceito. É inconcebível para esses setores que um operário, sem curso universitário e criado na miséria, tenha ascendido a uma posição até então apenas ocupada pelas elites. A reação de alguns jornalistas brasileiros que cobriram, no dia 27 de setembro, a solenidade em que Lula recebeu o título “honoris causa” pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris, é uma prova tão evidente disso que se torna desnecessário outro exemplo.

No caso do jornalismo, existe uma sexta regra, que é a elegância. Faltou elegância para alguns dos meus colegas.

(*) Colunista política, editora da Carta Maior em São Paulo.

domingo, 25 de setembro de 2011

Datena: jornalista ou oportunista?

Datena: jornalista ou oportunista?



José Luiz Datena, apresentador do programa “mundo cão” Brasil Urgente, está em evidência. Em agosto passado, ele voltou à Band após curta e suspeita passagem pela Record. Agora, ele insinua que quer ser candidato em 2012. Nas estações do metrô paulista, ele aparece em outdoors com pinta de xerife. Datena é jornalista ou mais um oportunista que se aproveita da exposição midiática?
Para o crítico de mídia Nelson de Sá, colunista da Folha que destoa do “pensamento único” deste jornal, “Datena explora suicídio [do aluno de 10 anos que atirou na professora em São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo] para ter audiência ou ‘algo mais’”. Mauro Malin, do Observatório da Imprensa, também critica o sensacionalismo oportunista do apresentador.
Salvador da pátria ou palhaçada?
O “algo mais” insinuado por Nelson de Sá se refere às pretensões políticas de Datena. Em recente entrevista à coluna Zapping, do jornal Agora São Paulo, ele admitiu essa possibilidade e, arrogante, posou de salvador da pátria. “A gente vê tanta palhaçada por aí. Às vezes, tenho vontade de me candidatar para corrigir as coisas de dentro, já que como jornalista não tem adiantado”.
As tratativas para disputar a prefeitura paulistana em 2012 já estariam adiantadas. Para valorizar seu passe, Datena garantiu que foi sondado por vários partidos, mas que “o Kassab não me chamou”. Maroto, disse que ainda resiste à tentação. “Se me fizerem mudar de idéia é outra coisa”. Segundo Flávio Ricco, do UOL, “duas ou três reuniões” já ocorreram para tratar da candidatura.
Sensacionalismo e negócios milionários
Como afirma Mauro Malin, “o fenômeno dos apresentadores sensacionalistas que migram para a política partidária é antigo. O radialista Afanásio Jazadji, defensor da pena de morte (se fosse a plebiscito hoje, seria aprovada), elegeu-se deputado paulista pela primeira vez em 1987. E estava longe de ser um pioneiro”. A exploração da barbárie é o palanque destas estrelas midiáticas.
Datena, que iniciou sua carreira com posições mais independentes e progressistas, é hoje um típico explorador do mundo cão, da violência e da baixaria. Sensacionalista, ele nem esconde mais suas posições de direita. Ele também é muito chegado aos negócios milionários. Em meados deste ano, ele participou de uma estranha transação envolvendo duas emissoras de televisão.
Record aciona a Justiça
Ele deixou a TV Bandeirantes para apresentar o programa Cidade Aberta, da Record. Para isso, a emissora aceitou suspender uma multa de R$ 15 milhões, referente à outra rescisão contratual de 2003. O novo emprego, porém, durou somente dois meses e Datena retornou à Band. A Record afirma que o apresentador foi desonesto e já acionou a Justiça, exigindo agora R$ 45 milhões de multa.
Para quem aspira ser prefeito de São Paulo, o apresentador sensacionalista tem bom faro para os negócios!
Altamiro Borges
No Blog do Miro
Copiei do ComTextoLivre

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Somos Tod@s Joyce

Leio o Blog do Tsavkko - The Angry Brazilian todos os dias, um espetáculo

Somos Tod@s Joyce


Foto de Rodrigo Lobo
Antes de mais nada, peço que leiam com atenção a esta longa e bela matéria da jornalista Fabiana Moraes, do Jornal do Commercio, de Pernambuco, sobre a transexual - agora mulher - Joicy. Recomendo fortemente a leitura. Faz pensar, faz chorar e, sem duvida, nos chama à ação!

É impossível não se emocionar e não sentir vontade de ajudar, de fazer alguma coisa.

A matéria, aliás, comprova que ainda se faz jornalismo no Brasil. Nem tudo é no nível da Folha de São Paulo, nem tudo nos dá vergonha.

Conversando com a Fabiana, tive a idéia de tentar entrar em contato com ONG's da região e buscar uma forma de dar mais visibilidade à causa da comunidade LGBT do agreste de Pernambuco, uma região extremamente pobre e conservadora, seja através de apoio financeiro ou mesmo entrando em contato com ONGs maiores do Sul/Sudeste que possam travar parcerias e levar experiências.

Ingênuo, difícil? não sei, mas acho dificil simplesmente ficar parado. Algumas vezes só se importar faz a diferença.

Quem estiver interessado, entre em contato e vamos pensar em formas de chegar até pessoas como Joicy, que tanto precisam de solidariedade de pessoas como ela: Humanos.

Venho me perguntando muito há alguns dias, especialmentes desde o protesto dos Neonazistas, Fascistas e corja semelhante na Paulista, sobre a homofobia. Fico cada vez mais temeroso de, com tanta revolta que me causa, passar a sentir o mesmo ódio (ainda que inverso) que os fanáticos homofóbicos, pois não consigo compreender e aceitar que se mate outro ser humano por ele ou ela terem nascido gays. Ou por mudarem de sexo, por quererem apenas ser felizes consigo mesmo(a)s.

Como alguém pode sentir ódio de uma pessoa apenas por ela existir, por ser quem é, por querer ser feliz e aceita(o)?

Infelizmente temos muitos exemplos de gente assim. E, claro, temos os que partem para a ação, que transformam o ódio em violência. Mas, ódio? às vezes penso e chego a ter a certeza de que este ódio na verdade é medo. Não só do suposto desconhecido, mas medo de se verem na mesma situação, de se enxergarem no outro e temerem essa identificação.

Não se trata só, aliás, da questão da transexualidade. Mas também da pobreza extrema, do preconceito, da ausência do Estado, de sistema de saúde, de informação, de consideração e até de humanidade.

A Joicy é como eu ou você, um ser humano. Uma mulher, uma lutadora. Vítima do preconceito, vítima de sua condição social, vítima do Estado, do descaso.

A Fabiana passou a conta da Joicy - do Bolsa Família - para quem tiver interesse em ajudá-la. Sem dúvida é pouco, mas é um começo e penso que todos nós podemos fazer alguma coisa. Ela é apenas uma, imaginem quantas e quantos não estão em situação semelhante ou até pior.  



Leia mais: http://tsavkko.blogspot.com/2011/04/somos-tods-joicy.html#ixzz1JbBQsTX9